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DEL III: MODULENE

3.5 NTNU-SINTEF

O interesse em pesquisar com adolescentes inseridos no tráfico de drogas levantava a questão de onde poderia encontra-los. Em Salvador, fiz um mapeamento das instituições que atendem aos adolescentes autores de ato infracional. Optei pela Central de Medidas Socioeducativa, uma vez que fui informada das dificuldades de inserção na

Fundação Case, instituição responsável pelo atendimento de tais adolescentes em situação de privação de liberdade.

Enviei o projeto a Fundação Cidade Mãe3 para avaliação em meados de dezembro de 2013. No inicio de janeiro fui convocada a uma reunião com a vice- presidente da instituição, para resolver questões vinculadas à proposta.

Na reunião, apresentei a proposta e a finalidade da pesquisa. Fui informada acerca dos tramites burocráticos necessários à aprovação. O projeto havia sido aprovado e a vice-presidente apresentou-me algumas possibilidades de campo, encaminhando-me a Central de Medidas Socioeducativas4, que era o objetivo inicial e me oferecendo a possibilidade de atuar em um abrigo no qual o perfil dos adolescentes vinculava-se a um histórico com o tráfico de drogas. Aceitei a proposta e iniciei os contatos para inserção no campo. Atuei no abrigo durante um período de quase três meses e pude perceber que as demandas presentes no ambiente eram muito mais urgentes e necessárias do que a minha proposta de realizar um piloto da pesquisa.

Finalizei minhas atividades no abrigo e decidi que esta experiência não entraria na dissertação. No entanto, gostaria de dizer que muitos das reflexões presentes neste trabalho, principalmente aquelas vinculadas à atuação profissional, estão imbuídos das experiências adquiridas junto aos adolescentes que moram na citada instituição. Estou certa de que foi uma experiência repleta de aprendizagens e as questões provocadas por este espaço foram facilitadoras de muitas mudanças na minha práxis. Neste abrigo conheci um adolescente que havia sido transferido de São Paulo e, acabei acompanhando de perto sua inserção em Salvador, bem como a transferência para uma outra unidade. Este adolescente não é sujeito da pesquisa, mas como ele participou do ensaio fotográfico, sua história auxiliará na construção das análises dos dados coletados.

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Fundação cidade Mãe responsável por Promover a educação de crianças e adolescentes em situação de risco social e pessoal, para o exercício da cidadania na perspectiva dos direitos humanos. Mais informações em: <http://www.salvador.ba.gov.br/index.php/8-cabecalho/9-fundacao-cidade-mae-fcm>. 4 A Central de Medidas é responsável, de acordo com o princípio da municipalização do atendimento à população infanto-juvenil, pela execução das medidas socioeducativas em meio aberto – reparação do dano, liberdade assistida e prestação de serviços à comunidade – na comarca de Salvador. Como integrante da política municipal de atendimento ao adolescente envolvido na prática de ato infracional, a CMSE integra o Sistema de Garantia de Direitos no município de Salvador. Disponível em: <

http://www.promenino.org.br/noticias/arquivo/central-de-medidas-socioeducativas-em-meio- aberto-de-salvador---fundacao-cidade-mae---salvador-ba>.

A pesquisa foi realizada em parceria com a psicóloga Sandra Andrade5. Sua participação enriqueceu o campo e as análises, tendo Sandra participado ativamente do processo. As reuniões sistemáticas ao final de cada encontro na Central de Medidas Sócioeducativas viabilizaram um espaço de diálogo potencializador ao campo e a escuta dos adolescentes. Além disso, juntas, nos demos suporte e escuta, cuidamos uma da outra neste processo. Produzimos e abrimos as feridas desta experiência e as cicatrizamos. Teria sido outra dissertação sem a presença tão forte e viva de Sandra. A presença dela também explicita uma crença antiga de que fora do âmbito da solidão a reflexão e a prática se tornam muito mais potentes.

A escolha pela Central de Medidas se deu por ser o local que atendia adolescentes envolvidos em atos infracionais e possuía espaço para a implementação das atividades propostas nesta dissertação. Vale a pena ressaltar que, apesar de me encontrar inserida em tal instituição, não tinha o objetivo de investigá-la. Neste caso, a instituição serviu incialmente como ponte entre a pesquisadora e os adolescentes. Assim, organizada as documentações e vencidos os tramites burocráticos, fiz o primeiro contato com a instituição e marquei uma reunião para falar sobre a proposta.

2.4.1. O local da pesquisa

A Central de Medidas Socioeducativas é uma instituição responsável pelo atendimento dos casos de adolescentes que estão respondendo a justiça no âmbito da Liberdade Assistida (LA) e Prestação de Serviço a Comunidade (PSC). As salas de atendimento não possuem portas e a cozinha tem acesso restrito aos funcionários. No final da pesquisa, a unidade mudou sua localização, funcionando atualmente na sede da Fundação Cidade Mãe.

Descobri que a instituição funcionava anteriormente como um abrigo através de um dos adolescentes que aos sete anos foi institucionalizado pela primeira vez lá. Este é um aspecto que abre muitas questões das quais não me aprofundei, mas que não posso deixar de registrar. Um dos adolescentes participantes dessa pesquisa iniciou sua trajetória de institucionalização no mesmo espaço geográfico no qual finalizou o seu histórico institucional no âmbito da infância/adolescência.

Recordo com clareza de como relatou com propriedade o fato de já ter morado naquele lugar. Fez questão de falar como era a distribuição do espaço da casa e pontuava que continuava igual. Enquanto o adolescente descrevia com precisão suas memórias da primeira instituição que frequentou, eu pensava na ironia que se explicitava. Dos sete aos dezessete anos ele constrói uma trajetória que caminha junto às medidas de proteção do Estado, mas se, aos sete esteve presente em situação de abrigamento, aos dezessete se apresenta por cometimento de ato infracional. Tudo isto no mesmo local geográfico. Uma história que nos faz pensar e repensar as políticas sociais para a infância e adolescência ou, pelo menos, o funcionamento das mesmas. 2.4.2 Dos primeiros contatos...

Chego na instituição por volta das 10:00 horas da manhã, para a reunião com a gerente da instituição. A intenção era apresentar o projeto e negociar as possibilidades de implementação, bem como dias e horários oportunos.

A gerente aceitou a proposta do cine clube e do ensaio fotográfico, mas para a minha surpresa, mostrou preocupação com a viabilidade da pesquisa frente aos problemas da formação de um grupo e do tempo de duração do encontro. Minha surpresa se deu, pois imaginava que encontraria problemas no que se refere à aplicação metodológica, na utilização da fotografia. No entanto, a formação de um grupo dentro da Central de Medidas Socioeducativas, parecia ser a principal questão para a gerente. Falei em três horas de encontro: duas horas para o filme e uma hora para o debate. A gerente pontuou que seria difícil dos meninos ficarem tanto tempo em uma sala; eu pedi para tentar. Ela permitiu dizendo: “toda vez vai ser um experimento”. Esta foi a coisa mais certa que escutei.

Também emergiu uma preocupação com o tempo longo de três meses, pontuando que os meninos não costumam aderir, o que poderia prejudicar a pesquisa. Informou da necessidade do auxílio-transporte e do índice alto de mortes durante o processo.

Interessou-se pelo ensaio fotográfico e no final achou que poderia ser uma ação interessante! Falei da presença de Sandra como colaboradora da pesquisa e não houve objeções. Só entramos em confronto na hora de decidir o número de integrantes. Eu

disse: Dez! A gerente arregalou o olho sinalizando a impossibilidade. Fechamos com um número máximo de cinco integrantes. Depois da reunião com a gerente, estive ainda em uma reunião com os técnicos da instituição. Apresentei a proposta e eles ficaram de me enviar os casos que se encaixassem no perfil. Pontuaram que acharam a proposta “interessante” e “diferente”.

Apresentado o projeto, marcamos a data de início com o grupo. É interessante pontuar que somente uma assistente social me encaminhou adolescentes, a mesma teve o fim do seu contrato no meio do meu campo. Quando a outra assistente social que estava de licença maternidade retornou, assumiu os casos que estavam sob a responsabilidade da primeira assistente social e me encaminhou mais dois adolescentes. No final, houve um grupo formado por quatro adolescentes.