2.2 Statistical description of the wind field
2.2.2 Single-point statistics of wind turbulence
A percepção da cidade, como antes relatado, dava-se pelo olhar. O objeto visual dos trabalhadores, dos pedestres, dos passantes, dos viajantes, dos narradores, dos poetas e das vivências individuais dos historiadores configurava-se num problema. Os olhares, os odores, as linguagens eram códigos que os indivíduos tentavam a todo o momento dominar, entender e traduzir. A cidade do Oitocentos a todo instante ganhava novas configurações que a distanciava cada vez mais das concepções de cidade do século XVII e XVIII marcadas pelos elementos delimitadores do espaço como as muralhas e os marcos que escreviam um limite e inscreviam a população a determinados lugares.
A maneira como os indivíduos se relacionava com a cidade era eminentemente através do imaginário social, das impressões coletivas sobre as novidades que se colocavam sobre os novos espaços urbanos. Foi sobre esse imaginário que falava do passado e abordava o presente que literatos e historiadores se detiveram para responder seus problemas.
Partindo desta premissa, ao mesmo tempo em que o imaginário social tentava moldar, “domesticar” os eventos que aconteciam na cidade, esta ganhava contornos no sentido de segregar, de separar, de definir as identidades inerentes a determinados lugares. Essas identidades eram materializadas pelo delineamento de bairros – como o de trabalhadores e operários - até a organização do comércio, dos bulevares, dos parques, praças e demais infra-estruturas públicas voltados a determinadas pessoas de certas classes sociais e de assentados lugares.
Esse imaginário social influenciou os escritores, de antes e depois das reformas de Haussmann. Esses escritores destacaram o papel nocivo da sociedade urbana e do espaço da cidade, e com as reformas de meados do Oitocentos, naturalizaram as novidades surgidas no seio urbano mesmo que elas representassem retrocessos médicos e complicações sociais como miséria, fome e insegurança.
Os escritores modernos do século XIX, como Zola, Baudelaire, Victor Hugo e Balzac, se preocuparam em relatar como a Modernidade influiu sobre as famílias, os sujeitos, seu cotidiano, sua vida pública, seus espaços privados, suas instituições jurídicas e a própria formação das sociedades no interior do espaço urbano. Da mesma maneira, Coulanges usara a História e o estudo do passado no entendimento da Modernidade.
Se Coulanges pensava a formação do território francês, possível ou já evidente na história, os discursos literários tentavam recobrar os textos daqueles que sentiam a Modernidade, daqueles que percebiam, pelo seu modo de vida, as conseqüências de um reagrupamento urbano, daqueles que sentiam as confusões políticas e as instabilidades sociais, daqueles que se impressionavam pela modernização dos instrumentos do cotidiano, mas que se assustavam pelas nefastas divisões sociais que promoviam através da acumulação do capital, na época moderna.
Esses discursos traduzem a emergência da metrópole. Os enredos do cotidiano tentam responder de que maneira a antiga cidade fechada torna-se uma cidade aberta, uma cidade berço do desenvolvimento científico, político, social e intelectual do mundo.
Para entender o imaginário espacial nos baseamos no estudo realizado por Sandra Jatahy Pesavento (2002), que inventariou os olhares dos literatos sobre a cidade parisiense do século XIX. Adequamos o tema a perspectiva de nosso trabalho, que busca entender como determinadas estruturas usadas mais costumeiramente pela literatura e pelos historiadores românticos são determinantes para a construção da obra de Fustel. Afinal de contas, podemos afirmar que tanto a História quanto a Literatura abordam a cidade, apesar da divergência dos seus métodos e objetivos.
Estes dois campos da narrativa buscam maneiras diferentes de “dizer a cidade”. São discursos que, mesmo diretos ou metafóricos, desejam ser reconhecidos por construírem ou abordarem a realidade através de diferentes caminhos metodológicos. A cidade é construída discursivamente na tentativa de se solucionar os seus problemas e responder aos inúmeros questionamentos dela oriundos, seja abordando os efeitos do presente, da Modernidade, seja os do passado, naquilo que os povos fizeram outrora e que são retomados no presente como foco de explicação possível dos eventos do “agora”.
De maneira geral, o historiador seria aquele dedicado a entender os movimentos históricos da cidade, de entender a modernidade pelo discurso urbano, pelas modificações no espaço, pela nova tônica que os governos empregavam ao urbano. Já a Literatura almeja reconstruir a “materialidade de Pedra” (PESAVENTO, 2002, p. 10), isto é, a cidade, sob forma de texto. O enredo se fundamenta ora sobre o cotidiano das famílias nobres da cidade, ora sobre a calamidade e desorganização das vilas dos operários, dos trabalhadores, dos moradores comuns.
A literatura, então, preconiza cruzar as imagens do cotidiano, as imagens gestadas, construídas e desenvolvidas na cidade com os próprios discursos da qual esses lugares são alvos e são construídos cotidianamente. Visa tornar a fala dos operários, trabalhadores, aristocratas e demais sujeitos uma maneira de construir os lugares e definir os espaços componentes de uma cidade.
Diante desse novo indivíduo coletivo (a cidade), no século XIX os autores que se debruçaram sobre este indicaram a necessidade de pluralizar as análises sobre o espaço urbano e direcionar as diversas perspectivas possíveis acerca deste novo objeto de estudo. Para eles, era necessário estimular o poder de interpretação visual da cidade ou, ao menos, recuperar os discursos que realizam esta tarefa, tais como o discurso de Baudelaire, Balzac, Victor Hugo e Émile Zola, por exemplo, escritores que almejaram a partir do cotidiano, dos relatos das ruas, entender o imaginário e o simbolismo que envolvia a perspectiva do novo, do moderno, de suas qualidades e de seus horrendos defeitos.
Esses autores visam evidenciar a experiência individual pelas estruturas coletivas ou entender a coletividade pelas percepções dos indivíduos, dos passantes, do cotidiano. Esses escritores procuram evidenciar a postura de celebração e combate diante do novo que tanto atemoriza quanto fascina.
É sobre esse “fascinante” e esse “atemorizante” que vamos tratar na próxima seção, sobre os contrastes na visão destes autores do que seria a cidade e as relações sociais no século XIX para entender que representações estavam em jogo no Oitocentos para entendimento desta temporalidade.