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Single Linear Regression model (SLR)

A perspectiva do cuidado que norteará o olhar sobre o empírico será fundamentada pelo conceito usado por José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres, que

faz uma releitura do termo a partir da categoria ontológica heideggeriana, trazendo-o para o campo da saúde.

Heidegger, em sua obra Ser e Tempo, aponta o cuidado (Sorge) como o substrato pelo e sobre o qual se concebe e sustenta a existência humana: o modo de ser

do humano, a partir do ser-no-mundo (ser-aí ou Dasein). A dimensão do cuidado ocorre

no processo do ser humano compreender-se a si mesmo e ao mundo, por meio do contato com outros entes, o ser-com, balizando as formas de ação e interação de caráter existencial. Assim, os atos de cuidar e ser cuidado são, em primeira instância, a identificação de estarmos vivos (Ayres, 2007; Carrilho, 2010).

Partindo desta concepção e da alegoria de Higino utilizada por Heidegger, Ayres (2007), destaca características importantes acerca do cuidado: 1) o caráter movente, onde o cuidado se constrói na ação de se movimentar no e pelo mundo; 2) a interação, em que o cuidado e a identidade se estabelecem por meio do ser-com, na alteridade, ou seja, na presença com o outro; 3) a plasticidade, que faz alusão à capacidade de transformação e contínua (re)criação do cuidado; 4) a ideia de projeto, em que o cuidado se instala na competência de projetar-se no mundo e construir projetos; 5) a temporalidade; 6) a compreensão hermenêutica do cuidado, ao invés do reducionismo interpretativo de causa-efeito e, por fim; 7) a responsabilidade, em que o cuidado está vinculado à responsabilização para e por si. (Ayres, 2004).

No âmbito das práticas e tecnociências da saúde, vive-se esta questão de forma conflituosa, com a coexistência do progresso da medicina contemporânea, sob a ótica biomédica e apoiada no acelerado desenvolvimento científico e tecnológico, que trouxe importantes e já conhecidos avanços na saúde (aumento da precisão e rapidez do diagnóstico, intervenções terapêuticas mais eficazes, melhora da qualidade de vida e da sobrevida da população, entre outros progressos); com a eclosão de uma “crise de legitimidade” das práticas de saúde atuais, tanto individuais quanto coletivas; em que o modelo normativo vem mostrando descontentamento, limitações e distanciamento dos contextos e necessidades de pessoas e populações (Schraiber, 2008; Ayres, 2003, 2004). Em resposta a esta crise nas práticas de saúde e dos seus consequentes desafios, surgiram reflexões que levam em consideração transformações sociais, políticas, econômicas e culturais da sociedade (e, por conseguinte na família) e buscam alcançar com profundidade as dimensões envolvidas no processo saúde-doença e a aproximação

de profissionais e gestores com os indivíduos e grupos. Dentre elas encontra-se a perspectiva do cuidado em saúde explorado por Ayres, conceito usado como categoria

reconstrutiva, de caráter reflexivo crítico, para proposições e transformações das

práticas em saúde.

Esta perspectiva do cuidado em saúde apoia-se na mudança do enfoque de tratar, curar e controlar para o de cuidar. Propõe ampliar o horizonte normativo, visando ir além de enxergar os indivíduos e/ou grupos como objeto de ação, de “corrigir” distúrbios morfo-funcionais e de buscar a regularidade da doença. Ancorado no caráter relacional entre o cuidador e a pessoa cuidada, mediante os processos e contextos de intersubjetividade, objetiva uma maior compreensão da dimensão saúde-doença- intervenção que ocorre no encontro entre os sujeitos. A humanização por meio deste conceito de cuidado pode se legitimar – pela validade afetiva e sociocultural – com a aproximação, não só dos sujeitos envolvidos, mas também dos êxitos das tecnociências biomédicas com a sabedoria e o sucesso práticos, cuja ponte se fundaria no que faz sentido aos indivíduos e às coletividades, seus projetos de felicidade (Ayres, 2001, 2003, 2004, 2007).

Para compreender o que o autor chama de projeto de felicidade, o termo projeto remete à concepção ontológica de Heidegger de cuidado, descrita acima, que ao mesmo tempo abarca uma temporalidade, contexto em que está inserida esta existência, e uma característica atemporal, no potencial de constante reconstrução destes projetos. Já a felicidade, pelo autor, refere-se à associação de uma experiência vivida com valores positivos, de cunho tanto individual quanto sociocultural (Ayres, 2003, 2004, 2007).

No campo da saúde, então, Ayres define “(...) Cuidado como designação de uma

atenção à saúde imediatamente interessada no sentido existencial da experiência do adoecimento, físico ou mental, e, por conseguinte, também das práticas de promoção,

proteção ou recuperação da saúde” (Ayres, 2004: 22, grifos do autor). No tocante às

coletividades, a noção de cuidado pode ser por meio da aproximação dialógica entre os sujeitos profissionais/gestores e os diferentes sujeitos coletivos – aqui exemplificados pelos pais e mães da camada média urbana de alta escolaridade – superando “as barreiras linguísticas que o jargão técnico interpõe a uma autêntica interação entre profissionais e população.” (Ayres, 2001: 70).

Por fim, o conceito de cuidado e seus diversos aspectos nortearão a dimensão relacional e dialógica do encontro com o outro. Primeiro, metodologicamente, por meio da aproximação com casais de classe média urbana, dando voz às duas populações com pouco espaço de interlocução, os homens em geral sobre o cuidado em saúde do filho, e os casais que não vacinam os filhos (um grupo invisibilizado e ao mesmo tempo criticado e temido por muitos gestores e profissionais da saúde biomédicos). Segundo, no âmbito analítico, em que o conceito de cuidado orientará as relações interpessoais deste estudo, tanto no contexto da intimidade das interações familiares (na conjugalidade, parentalidade e nas relações de geração); quanto perante seu meio social próximo e as práticas em saúde, em especial, as de imunização.