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A III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano realizou-se em Puebla, no México, em 1979, com o tema: Evangelização no presente e no futuro da América Latina. Os documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, Medellín e, principalmente a Evangelii
Nuntiandi foram os principais documentos que iluminaram essa III Conferência.
Na dimensão evangelizadora da Igreja, comunidade missionária, Puebla representa o esforço de renovação das paróquias na missionariedade. Envolve e anima as comunidades e grupos, incentiva a renovação litúrgica inculturada, a catequese como educadora da fé, a partir das condições culturais concretas dos catequizandos, enfim, um esforço de superação de antigas formas para um compromisso de evangelização corresponsável. Nesse conjunto de evangelização renovada, estão presentes as manifestações de religiosidade popular católicas, especialmente as peregrinações e devoções marianas que, junto com outras expressões religiosas populares, constituem um rico patrimônio de evangelização das massas e a opção pelos pobres, com seu potencial evangelizador.
Puebla representou, primeiramente, o esforço de revisão e aperfeiçoamento das estruturas humanas da ação evangelizadora da Igreja e a busca de novas formas de comunhão eclesial.
Visando a participação e a efetiva vivência de comunhão, multiplicam-se os órgãos colegiados (conselhos, sínodos, assembléias) e as formas comunitárias ou orgânicas de planejamento, execução e revisão da ação pastoral. Aqui se ressaltam as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). As CEBs representam um novo modo de ser Igreja com participação ativa dos seus membros, realização de seu caráter comunitário e real empenho na transformação do mundo. Outra tendência da Pastoral na América Latina é a que se poderia chamar profética. Ela implica uma adesão corajosa e intransigente à Palavra de Deus, ao Evangelho. Ela se manifesta
tanto na proclamação da Palavra de Deus e de seu ideal de paz, justiça e fraternidade, com dimensão escatológica e transcendente, quanto na denúncia das situações humanas que contrastam violentamente com a vontade de Deus. Aspectos dessa tendência pastoral são a defesa dos direitos dos pobres (índios, posseiros, marginalizados) e, em geral, dos direitos humanos fundamentais; a luta pela justiça e pela promoção de todo o homem.99
Puebla está dividido em cinco partes, sendo que a primeira parte apresenta uma visão pastoral da realidade latino-americana; a segunda parte fala do desígnio de Deus sobre a realidade da América Latina; a terceira parte se refere à evangelização da Igreja na América Latina: comunhão e participação; a quarta parte analisa a Igreja missionária a serviço da evangelização na América Latina; e a quinta parte mostra a ação e o dinamismo do Espírito: opções pastorais. O tema do laicato aparece na terceira parte.
No subtítulo do Documento de Puebla há uma referência ao tema dos leigos e que norteia a compreensão de todo o documento: “participação do leigo na vida da Igreja e na missão desta no mundo”100. No texto de Puebla, os bispos reconhecem a crescente presença
do leigo na missão evangelizadora da Igreja, que através do testemunho e dedicação, demonstra a fisionomia de uma Igreja que está engajada na promoção da justiça entre os povos latino-americanos.
O documento enaltece os grupos de leigos que crescem na conquista progressiva da maturidade, que promovem a Igreja nos diferentes setores da sociedade, que buscam o diálogo com o sistema, que participam ativamente da ação pastoral e tem consciência de sua missão na Igreja101. Percebe-se, também, uma divisão entre engajamento intraeclesial e engajamento
extraeclesial, especialmente pela não articulação de ambos. Por isso o documento afirma:
Enquanto essas tensões afetam principalmente aqueles que participam em movimentos leigos, grandes setores do laicato latino-americano não tomaram consciência plena de sua pertença à Igreja e são afetados pela incoerência entre a fé que dizem professar e praticar e o compromisso real que assumem na sociedade. Divórcio entre fé e vida exacerbado pelo secularismo e por um sistema que antepõe o ter mais ao ser mais102.
Não é fácil a missão do leigo no meio de um mundo materializado e muitas vezes organizado contra a Igreja e a fé. Por isso, é preciso que também o apostolado do leigo seja organizado e bem orientado pelos pastores que conduzem o rebanho segundo Deus. O Concílio diz que não basta o apostolado do bom exemplo. Além do testemunho de vida cristã
99 LORSCHEIDER, Aloísio. Síntese do Documento de Puebla. São Paulo: Paulinas, 1979. p. 78. 100 DP 777.
101 Cf. DP 781. 102 DP 783.
é necessário que também se anuncie o Reino de Deus com palavras. A tarefa é difícil porque o Evangelho não se resume na prática da religião como atos de piedade, mas é uma força transformadora que deve fazer frente às injustiças e levar à construção de um mundo mais humano e cristão.
Daí a necessidade da união dos cristãos. Um trabalho organizado e em conjunto. Qualquer voz isolada não conseguiria atingir o bom resultado. Nisto muito ajudam os recentes movimentos leigos e os novos ministérios dados aos leigos. Esses ministérios são serviços organizados e oficializados pela Igreja, estimulando os leigos a pregar, a organizar a liturgia, a dirigir comunidades, etc.... Esses ministérios chamam-se ministérios não-ordenados para se distinguirem do ministério hierárquico, que é dos bispos, padres e diáconos. Não se trata, pois, de tirar o leigo do meio do mundo para fazer dele um “quase padre”, mas de instruí-lo, formá-lo e orientá-lo segundo o Evangelho, para que ele leve a presença e a verdade de Deus ao lugar onde ele trabalha. Ninguém pode receber um ministério em benefício de si mesmo, mas em benefício da comunidade. Não é para engrandecer a pessoa, mas para santificar o Povo de Deus. Por isso é preciso escolher bem as pessoas antes de se lhes confiar um cargo na Igreja.
Para que o cristão leigo consiga ser sal da terra e luz do mundo, não pode fugir às realidades temporais para buscar a Deus, e sim persevere, presente e ativo, no meio delas e ali encontre o Senhor; infunda nesta presença e atividade uma inspiração de fé e um sentido de caridade cristã e que à luz da fé, descubra nesta realidade a presença do Senhor; em meio à sua missão, não raro geradora de conflitos e cheia de tensões para sua fé, busque renovar sua identidade cristã no contato com a Palavra de Deus, na intimidade com o Senhor pela eucaristia, nos sacramentos e na oração103.
No cumprimento de sua missão, conforme a Apostolicam Actuositatem, ao lado dos ministérios hierárquicos, a Igreja reconhece os ministérios não-ordenados. Eles são conferidos aos leigos como um chamamento a colaborar com os pastores no serviço à Igreja de Cristo. Alguns são chamados a atuar no ministério da Palavra, outros na liturgia, outros na coordenação da comunidade, entre tantos outros que surgem de tempos em tempos104. A
Igreja lhes confia um ministério, visando uma pastoral que construa uma comunidade melhor, que possibilite a realização e a participação de todos os membros da comunidade. Vemos
103 Cf. DP 797-798.
então que se requer a participação do laicato na execução da Pastoral, na planificação e nos organismos de decisão105.
O Episcopado latino-americano traça o perfil essencial destes ministérios: os ministérios que se podem conferir a leigos são serviços realmente importantes na vida eclesial, exercidos por leigos com estabilidade e que forem reconhecidos publicamente e a eles confiados por quem tem a responsabilidade na Igreja. Salienta, assim, o documento, que os traços essenciais dos ministérios leigos são três: serviço relevante, estabilidade e reconhecimento público. Ao tratar a questão dos ministérios, mais em termos pastorais, o documento enumera as características dos ministérios que podem ser recebidos pelos leigos: 1) não clericalizam aqueles que os recebem; 2) requerem uma vocação ou aptidão ratificada pelos pastores; 3) orientam-se para a vida e crescimento da comunidade, sem perder de vista o serviço que esta deve prestar no mundo; 4) são variados e diversos, de acordo com os carismas dos chamados e as necessidades da comunidade. Esta diversidade, porém, deve coordenar-se de acordo com sua relação com o ministério hierárquico106.
No exercício desses ministérios leigos, convém que se tomem cuidados para se evitar alguns perigos: 1) a tendência à clericalização dos leigos, ou reduzir a missão daquele que recebe o ministério, deixando de lado sua missão fundamental que é a inserção nas realidades temporais; 2) não se deve promover tais ministérios como estímulo puramente individual, fora dum contexto comunitário; 3) o exercício dos ministérios por parte de alguns leigos não pode diminuir a participação ativa dos demais107.
Estes ministérios diversificados são suscitados à Igreja pelo Espírito Santo; são capazes de rejuvenescer e reforçar o dinamismo evangelizador da Igreja108. Se, de um lado,
são um chamamento gratuito de Deus, que deve ser discernido, escutando o Espírito Santo, por outro lado, é também fruto e expressão da vitalidade e madureza de toda a comunidade eclesial109.
A mulher também foi lembrada pelo episcopado reunido em Puebla. Depois de analisar sua situação e exaltar sua dignidade, mostrando a sua participação na história da salvação, reclama uma participação maior da mulher na vida da Igreja, inclusive através dos
105 Cf. DP 808. 106 Cf. DP 811-814. 107 Cf. DP 815-817. 108 Cf. DP 958. 109 Cf. DP 860.
ministérios leigos. A possibilidade de confiar às mulheres ministérios leigos lhes abriria novos caminhos de participação na vida e missão da Igreja110.