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É inegável que as fontes regulares representam segurança e facilitam as rotinas de produção do jornalista. Mas os perigos da dependência nos canais de rotina são imensos. Fontes e jornalistas tendem a focar apenas os benefícios dessa relação de “troca”. Para os jornalistas, ela representa: 1) eficácia; 2) maior estabilidade no trabalho; 3) uma autoridade que valida a notícia. De outro lado, as fontes conseguem: 1) dar publicidade a seus atos; 2)

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relevância social; 3) reforço da sua legitimidade. Para a teoria etnoconstrucionista, “a rotinização do trabalho leva à dependência nos canais de rotina” (Traquina, 2001, p. 110).

Uma conseqüência da dependência desses canais habituais de informação é o acesso estratificado socialmente à mídia (Traquina, 1999, p. 173). Nem todas as fontes conseguem ter acesso aos meios de comunicação. Enquanto alguns agentes sociais constam rotineiramente nos noticiários, outros precisam “incomodar”, “perturbar” a ordem social para serem incluídos nas formas habituais de produção dos acontecimentos. Isso justifica o hábito dos jornalistas de cultivar contatos com pessoas de influência, “porque é mais provável que tomem parte em eventos notáveis e porque é mais provável que suas opiniões e ações interessem a outros indivíduos, ou seja, aos receptores” (Kunczik, 1997, p. 259).

Um jornalista muito “comprometido” com sua fonte tende a esquecer que a informação dirige-se ao público. As regras do jogo passam a ser ditadas pela fonte e o jornalista perde sua independência. Também aumentam as chances de a fonte conseguir lançar “balões de ensaio” ou “informações plantadas”. “Para garantir um fluxo contínuo de informações, há entre os jornalistas uma tendência fundamental no sentido de adotar os pontos de vista de suas fontes ao se emitir a informação que delas se obteve” (idem, p. 60).

Além do mais, os canais de rotina tendem a ser pessoas que se profissionalizaram na atividade de fornecer informações, ou seja, conhecem as convenções e os formatos jornalísticos e sabem que o timing da informação pode influenciar a cobertura e o conteúdo da matéria publicada. Incluem-se aí os relações-públicas e assessores de imprensa.

Por mais que se aproximem do interesse público, os jornalistas que ocupam as assessorias de imprensa são especialistas em técnicas e práticas comunicativas que preservam os interesses das fontes nos processos jornalísticos. Ao mesmo tempo, porém, trabalham com critérios jornalísticos da informação na origem, e lhe agregam atributos que facilitam o seu aproveitamento como notícia imediata, referência para os bancos de dados ou pauta para posteriores desdobramentos jornalísticos. Ferramentas preferidas e mais eficazes de trabalho: o press-release, o

off, a troca de informações, a sugestão de pauta, a entrevista coletiva, a criação de acontecimentos. E o rápido atendimento às solicitações das redações (Chaparro, 1993, p. 71)

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Manuel Chaparro (apud Pinto, 2000) chamou esse processo de “revolução das fontes”, em que o objetivo principal é figurar na agenda jornalística15 divulgando uma versão completa e contundente dos fatos, a fim de eliminar ao máximo as perguntas dos jornalistas. Fontes e profissionais da mídia saem ganhando: os primeiros conseguem emplacar seus pontos de vista (ou o ponto de vista daqueles que representam) enquanto os segundos garantem a conclusão da matéria dentro do deadline. Eis os fundamentos deste “casamento de conveniência”.

Os interesses de fontes e jornalistas complementam-se, ainda, na valorização de acontecimentos revestidos de uma aura de mistério. Mouillaud (2002) afirma que as fontes costumam reter as informações como “um buraco negro que atrai a luz para si”. É desta forma que elas criam um “efeito de segredo”. Os jornalistas, por sua vez, se interessam por informações cujos significados não estão completos e que precisam ser interpretadas, cujas peças precisam ser encaixadas.

(...) é possível perguntar se as duas estratégias não são complementares, se a informação não tem interesse à retração sistemática do sentido, posto que este permite à mídia supor um sentido escondido por trás do acontecimento. (Mouillaud, p. 81)

Luiz Martins Silva ressalta que, de acordo com a lógica "do que é essencialmente jornalismo", quanto mais oculto está um fato que se quer denunciar, maior é seu valor-notícia. (Silva, 2006, p. 50). Portanto, jornalistas e fontes têm uma lógica de funcionamento “baseada na adequada gestão da exposição e do encobrimento, da divulgação e do segredo, do palco e dos bastidores” (Pinto, 2000, p. 284).

O interesse privado que move as fontes leva-as a agir em duas frentes: a conquista do acesso a mídia, e não apenas da cobertura da mídia, e também a gestão cuidadosa das tentativas dos jornalistas de acessar os bastidores das instituições a que estão ligadas (quando é o caso). O jornalista, por sua vez, precisa “conciliar a colaboração produtiva da fonte e o distanciamento crítico que o trabalho jornalístico supõe” (idem).

Pinto reuniu alguns objetivos de fontes e jornalistas a partir de pesquisas empíricas,

15 Essa terminologia refere-se à teoria do agenda-setting: ela defende que a pauta de discussões da mídia (agenda

midiática) influi diretamente na lista de assuntos públicos considerados relevantes (agenda pública). Ver Wolf, Mauro. Teoria das comunicações de massa. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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numa abordagem que ele classificou como utilitária ou funcional. As fontes procurariam todos ou pelo menos alguns dos seguintes objetivos:

1. a visibilidade e atenção da mídia;

2. a marcação da agenda pública e a imposição de certos temas como foco da atenção coletiva;

3. a angariação de apoio ou adesão a idéias ou a produtos e serviços; 4. a prevenção ou reparação de prejuízos e malefícios;

5. a neutralização de interesses de concorrentes ou adversários; 6. a criação de uma imagem pública positiva.

Os jornalistas buscariam: 1. a obtenção de informação inédita;

2. a confirmação ou desmentido para informações obtidas noutras fontes;

3. a dissipação de dúvidas e desenvolvimento de matérias; 4. o lançamento de idéias e debates;

5. o fornecimento de avaliações e recomendações de peritos;

6. a atribuição de credibilidade e de legitimidade a informações diretamente recolhidas pelo repórter.

O pesquisador Aldo Antonio Schmitz (2010) evidenciou as contradições da relação fonte-jornalista em pesquisa de opinião realizada em setembro de 2010, reunindo fontes de notícias, assessores de imprensa e jornalistas16 da área de Economia. As fontes de notícias

16 Não concordamos com a separação feita por Schmitz entre fontes de notícia e assessores de imprensa. Ao

longo desta pesquisa, os assessores são apontados como importantes fontes ativas, como pontua Chaparro (op.cit.). No entanto, consideramos as conclusões do pesquisador pertinentes para uma reflexão sobre a relação fonte-jornalista.

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(empresários da indústria, comércio, serviços, terceiro setor e serviço público) afirmaram que mantêm relações com a mídia principalmente para dialogar com seus públicos e a sociedade (92%); gerir a imagem e a reputação sua ou da organização (92%); agendar, pautar, em vez de ser pautado (80%), promover a sua organização, produtos e serviços (69%).

Schmitz fez outra constatação interessante: 99% das fontes medem o que falam para o jornalista, com medo de que suas declarações sejam distorcidas. Elas também afirmam que, muitas vezes, o jornalista faz perguntas impertinentes (85%), tira frases do contexto (79%) e assume o papel de “promotor, juiz e carrasco” (65%).

Os jornalistas consultados, por sua vez, consideram que os assessores são seus parceiros e colaboram com seu trabalho às vezes (72%) ou sempre (26%). A pesquisa mostra ainda que os jornalistas se irritam com a quantidade “de material inútil” enviado pelas assessorias, remetido sem muito critério, e com as ligações no final do expediente, perto do

deadline. Outro motivo de irritação para os jornalistas é quando o assessor faz chantagem emocional para conseguir publicar determinado release, com o argumento de que é “muito importante” ou que ele corre o risco de “perder o emprego” se a notícia não sair.

Com relação ao grau de confiabilidade da fonte, Schmitz constatou que os jornalistas brasileiros (da área de Economia, vale lembrar) preferem consultar os especialistas, seguidos pelas fontes de referência, testemunhal, empresarial, oficial e individual, em ordem decrescente. Schmitz conclui que o trabalho do assessor é bastante valorizado pelo jornalista, ainda que persistam alguns equívocos, e que a relação com a fonte oscila entre “amistosa” e “acirrada”.