• No results found

Persistent Discrimination with Social Ability as a Productive Factor

EDUCATIONAL SUBSIDIES WHEN RELATIVE INCOME MATTERS

2. A Simple Model

A Epistemologia de Bachelard oferece elementos para uma discussão tanto nos aspectos epistemológicos da formação de pesquisadores (formação do espírito científico pela superação dos obstáculos epistemológicos), como também para a formação do conhecimento escolar (pela noção de obstáculos pedagógicos de alunos e professores). A construção sobre Epistemologia de Bachelard está atrelada à história de vida do autor, na qual, o Ensino de Ciências teve papel significativo. Bachelard nasceu em 1884 na França e faleceu em 1962, sua trajetória de vida segue de uma infância campesina até a morte em Paris, já industrializada. Segundo Lopes (1996), Bachelard trabalhou nos correios, teve seu interesse por engenharia frustrado pela Segunda Guerra Mundial e logo depois iniciou sua carreira como professor secundário; em 1930 ingressou na Faculdade de Letras de Dijon e, em 1940, na Sorbone (Lopes salienta que essa multiplicidade de projetos na vida refletiu em sua obra poética e filosófica). Bachelard era resistente à classificação de sua obra por rótulos – como realista, idealista e mesmo racionalista (designação ao qual sua obra é conceituada) - seu trabalho filosófico se caracterizava como uma epistemologia intrinsecamente histórica e crítica:

Seu racionalismo científico, assimilando os processos da experiência, situa-se nos antípodas de todo dogmatismo. Porque estudar o espírito científico como se ele fosse um espírito canalizado para e pelo dogmatismo de uma verdade indiscutível nada mais é que fazer a psicologia de uma caricatura anacrônica. O tecido da história das ciências é um tecido temporal e, enquanto tal, objeto de discussão. A dificuldade e a discussão fazem parte do dinamismo psicológico da pesquisa científica. (JAPIASSU, 1976, p. 73).

A Epistemologia de Bachelard caracteriza-se por um racionalismo dialético ou racionalismo integrante (BACHELARD, 2006), no qual a análise dos fenômenos,

objetos e, consequentemente, a construção do conhecimento científico ocorre a posteriori, depois do estudo de diferentes racionalismos, depois da análise de diferentes produções sobre determinados conhecimentos da Ciência. Essa análise não pode ser considerada simples, tão pouco ignorar as bases das diferentes origens das experiências. É na obra “Filosofia do Não” que Bachelard descreve uma nova filosofia do pensamento científico na qual o conceito de dialética se caracteriza como um pensamento epistemológico padrão que deve sempre desconfiar do conhecimento que não foi dialeticamente compreendido, ou seja, a compreensão de conceitos se dá por meio da Filosofia e da História da Ciência (CANGUILHEM, 1994).

Esta dialética baseia-se em entender a Ciência como um movimento, como uma Epistemologia histórica de uma Ciência dinâmica: “os progressos do pensamento científico contemporâneo determinam transformações nos próprios princípios do conhecimento” (BACHELARD, 2006, p 127). Essas transformações são discutidas pelo autor como os processos de especialização do trabalho científico, especializações próprias do momento de “progresso” da Ciência.

A Epistemologia da Biologia caracteriza-se por ações de interpretação do Homem em compreender a natureza por meio de uma análise histórica (dos aspectos evolutivos e ecológicos) dos organismos vivos. A compreensão do caráter racional dialético e constantemente inacabado da Epistemologia de Bachelard pode trazer contribuições para o desenvolvimento de atividades acadêmicas que priorizem, na formação de pesquisadores, como um pensamento científico em Biologia é construído. Neste sentido, a organização de atividades de estudos em epistemologia da Biologia deve priorizar os aspectos básicos desta ciência e as descontinuidades históricas, os caminhos divergentes do conhecimento desta ciência.

Assim como a preocupação de Lopes (1996) de que a Epistemologia Bachelardiana não seja retratada como um sistema fechado e acabado, “quando sua marca central é exatamente o eterno recomeçar, a nos exigir uma constante vigilância epistemológica” (LOPES, 1996, p. 248), preocupam-se os epistemólogos da Biologia em que o conhecimento sobre os fenômenos biológicos sejam compreendidos como em constante processo de construção.

Para que seja possível a construção do saber nas sociedades científicas, Bachelard (2006) aponta como um traço marcante e “feliz” dessas especializações o seu caráter coletivo.

[...] um indivíduo particular não pode, pela sua própria pesquisa, encontrar as vias de uma especialização. Se se entregasse sozinho a um trabalho especial, enraizar-se-ia nos seus primeiros hábitos, viveria no orgulho da sua primeira destreza, como esses trabalhadores sem liberdade técnica que passam a vida a gabar-se de possuir o melhor instrumento porque é o deles e porque – por um velho hábito – o manejam bem (BACHELARD, 2006, p. 154).

A construção do conhecimento científico deve deixar de ser orientada pelos primeiros hábitos, pelo conhecimento já conhecido e não questionado, aprende-se quando erra, quando se duvida do que já sabe. O erro apresenta na Epistemologia de Bachelard um caminho para o desenvolvimento do espírito científico. Desta forma, optou-se, no GPEB, pelo desenvolvimento de atividades de pesquisa e estudo em grupo, pois, no trabalho coletivo a emergência de questionamentos e também novos conhecimentos dá-se por um movimento de interação entre os diferentes participantes, na coletividade pode-se superar obstáculos pelo reconhecimento do erro.

Para Bachelard, o erro na ciência deixa de ter um significado negativo e torna-se parte integrante, e fundamental, para a construção do conhecimento científico. O desenvolvimento da ciência ocorre pela retificação constante de erros.

[...] Com Bachelard, o erro passa a assumir uma função positiva na gênese do saber e a própria questão da verdade se modifica. Não podemos mais nos referir à verdade, instância que se alcança em definitivo, mas apenas às verdades, múltiplas, históricas, pertencentes à esfera da veridicidade, da capacidade de gerar credibilidade e confiança. As verdades só adquirem sentido ao fim de uma polêmica, após a retificação dos erros primeiros (LOPES, 1996, p. 253).

Desta forma, as verdades da Ciência tornam-se provisórias, passíveis de mudanças, de correções ao longo da história. Tornar-se um pesquisador caracteriza-se, então, como uma constante análise e compreensão das verdades construídas e das modificações dessas verdades em um movimento de rupturas entre “verdades antigas” para “novas verdades”, da superação entre o conhecimento do senso comum (real dado) para o conhecimento científico (real científico) (BACHELARD, 1978).

Lopes (1996) analisando a distinção entre o real científico e o real dado, conclui: [...] Na ciência, não trabalhamos com o que se encontra visível na homogeneidade panorâmica. Ao contrário, precisamos ultrapassar as aparências, pois o aparente é sempre fonte de enganos, de erros, e o conhecimento científico se estrutura através da superação desses erros,

em um constante processo de ruptura com o que se pensava conhecido. (LOPES, 1996, p. 259).

Desta consideração volta-se à distinção entre o conhecimento do senso comum e o conhecimento científico. Há, na formação de um espírito científico a necessidade de superação das construções pautadas pelas experiências primeiras - baseadas em conhecimento não elaborado – em detrimento da busca por respostas. O objeto de estudo da Ciência advêm de uma construção da lógica, da crítica, não é dado, não está na Natureza. A verdade é uma organização do pensamento é o movimento de ruptura entre o conhecimento comum e o conhecimento científico. Para o autor

[...] no real científico, é necessário o diálogo da razão com a experiência para estabelecer o processo de construção racional, mediado pela técnica. Na medida em que o real científico se diferencia do real dado, o conhecimento comum, fundamentado no real dado, no empirismo das primeiras impressões, é contraditório com o conhecimento científico. O conhecimento comum lida com um mundo dado, constituído por fenômenos; o conhecimento científico trabalha em um mundo recomeçado, estruturado por uma fenomenotécnica5. É nesse sentido que o conhecimento comum acaba por se constituir em um obstáculo epistemológico ao conhecimento científico, exigindo que efetuemos o que Bachelard denomina de psicanálise 6 do conhecimento objetivo. (LOPES, 1996, p. 261).

Desta forma, na concepção de Bachelard, o real científico – o conhecimento do objeto - ocorre quando este está em razão dialética com a Razão científica (BACHELARD, 1978), quando o conhecimento do objeto ocorreu pela superação dos obstáculos epistemológicos.

5

Para Bachelard a análise científica dos fenômenos ocorre mediada por uma técnica, um processo instrumental e teórico.

6 “O termo psicanálise em Bachelard se distancia completamente do significado consagrado por Freud. Psicanalisar o conhecimento objetivo é retirar dele todo o caráter subjetivo, (...) descortinar a influência

dos valores inconscientes na própria base do conhecimento empírico e científico (BACHELARD, 1989b,

p. 16). A primeira utilização do termo é feita por Bachelard em La formation de lésprit scientifique, publicado em 1938, época em que a psicanálise não possuía prestígio no meio universitário francês. Constitui-se, portanto, uma certa dose de “provocação” sua apropriação por Bachelard (FICHANT, 1995, p 128). Por sua vez, em suas obras no campo da poética e da imaginação, publicadas paralelamente às obras epistemológicas, Bachelard condena a concepção psicanalítica que não admite o lado autônomo do simbolismo e da imagem e encara os sonhos apenas como reflexos de desejos inconscientes. Na psicanálise, as imagens são símbolos que mascaram a realidade – daí ser necessária a metodologia da busca de seus antecedentes. Não há espaço para a imagem por ela mesma, imaginante, capaz de ir além da realidade.” (LOPES, 1996, p.261)