4. Results and discussion
4.4 Siloxanes and DEHP
No primeiro capítulo, ponderamos exaustivamente que o conservadorismo, em todas as suas possíveis correntes, preza as instituições tradicionais e peleja para mantê-las tão vigorosas quanto possível. Assim, pelo menos desde que Edmund Burke censurou as rupturas provocadas pela revolução francesa, os conservadores julgam que as instituições testadas pela experiência e pelo legado de sabedoria acumulada por sucessivas gerações bem salvaguardam os princípios basilares de uma sociedade, legitimando-se.
Como consequência, é lógico que aquele que deseje manter determinadas instituições positive sua existência, demonstrando, se possível, satisfação ou confiança em face de seu funcionamento no tempo presente. Surveys aplicados pelo ESEB (2006 e 2010)72 sugerem um quadro pelo menos próximo desta descrição. Convidados responder a como avaliariam certas instituições, os entrevistados produziram os seguintes dados:
Figura 1: Avaliação das instituições (em %) segundo o ISEB (2006 e 2010) – adaptado pelo autor Fonte: ISEB. In: Opinião Pública. Campinas, v. 17, n. 2, 2011, Encarte. pp. 516-540.
72O ESEB 2006 é uma pesquisa ligada ao Projeto Comparative Study of Electoral Systems (University of
Michigan), contando com a participação da Unicamp e do IPSOS-Opinion/Brasil. Já o ESEB 2002 foi
operacionalizado pela CESOP/DataUFF.
Igreja Católica Rede Globo Outras Emissoras de TV Igreja Evangélica Governo Federal Grandes
Empresas Militares Polícia Justiça
Congresso Nacional Partidos Políticos 2006 81,8 80,6 80,4 0 52 64 55 51,3 40,9 26,2 25,8 2010 68,5 64,8 62,4 50,8 49,9 47,5 42,1 32,8 28,3 22,9 19,4 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90
77 O gráfico compila informações de duas baterias de surveys que ocorreram nos anos de 2006 e 2010. Para além da curiosa queda na confiança que atingiu todas as instituições no intervalo de quatro anos, a Igreja Católica assume o topo da lista. A queda observada em 2010 (13,3%) mostrou-se insuficiente para subtrair a liderança católica do "ranking" de ambos os períodos compreendidos pela medição. Logo, os números sugerem que a tradicional Igreja Católica conta com a aprovação de expressiva maioria do povo brasileiro.
Também interessa assinalar que outras instituições cristãs (que o ESEB agrupa um tanto simplisticamente sob o guarda-chuva de "igreja evangélica"73) recebem uma aderência significativa: 58,6% de aprovação74. Esse percentual está bem acima do número de adeptos das chamadas igrejas evangélicas no Brasil, os quais, em 2010, ano da pesquisa, representavam 22,2% dos brasileiros. Como ocorre com o catolicismo, mesmo sendo pejorativamente taxadas de excessivamente "conservadoras"75 por parte de inúmeros grupos organizados e mais ou menos influentes, as igrejas são bem vistas pela maioria da população brasileira de acordo com o ESEB.
Para o mais, observa-se que o parlamento e os partidos políticos amargam as duas últimas posições. Os índices de credibilidade atingidos por essas instituições rondam a modesta casa dos vinte pontos percentuais76.
Por seu turno, survey empreendido pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE, 2012 e 2013) trouxe-nos os seguintes dados:
73Embora seja popular no Brasil, o termo é conceitualmente impreciso. Uma vez que o tema específico do
neopentecostalismo será examinado mais detidamente nos próximos capítulos, por hora usaremos o termo indistintamente.
74O percentual se refere ao ano de 2010, uma vez que esse item não fazia parte do rol de alternativas em 2006. 75Como veremos adiante, em virtude de fenômenos como o da "direita envergonhada” (SOUSA, 1988), a
palavra "conservador” não raro é assumida como um verdadeiro insulto político no Brasil contemporâneo.
76Pesquisa elaborada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB, 2008) sugere um quadro bastante
próximo dessa descrição. Instados a responderem se confiam ou não em determinadas instituições, 79% dos brasileiros entrevistados (o maior percentual encontrado) garantiram confiar nas "Forças Armadas", enquanto 72% (o segundo maior percentual) disseram confiar na "Igreja Católica". Como no caso do ESEB, mal avaliadas foram nstituições como a Câmara dos Deputados (24% de confiança) e os partidos políticos (que obtiveram o pior índice: 22%). Cumpre destacar ao menos uma questão de divergência entre as pesquisas apresentadas até aqui. As Forças Armadas, que haviam obtido a melhor posição na medição da AMB, não constam como alternativa na metodologia utilizada pelo ESEB. No entanto, este instituto apresentou a alternativa "militares”, que alcançou 55% de aprovação em 2006 e 42,1% quatro anos depois. Se considerarmos que "militares” equivalem a "Forças Armadas”, a diferença dos números colhidos por uma e outra pesquisa é expressiva, visto que há uma distância entre os 79% de confiança atingidos na AMB e a média de 48,5% das duas baterias do ESEB.
78
Figura 2: Avaliação das instituições segundo o IBOPE (2012 e 2013) Fonte: IBOPE. In: O Estado de São Paulo, 01 ago. 2013.
Em junho de 2013 o Brasil vislumbrou episódio de grande repercussão política e social. Naquele momento, manifestações de massa tão imensas quanto pouco frequentes tomaram as ruas e impactaram na agenda de instituições e atores políticos. Empunhando bandeiras imprecisas como o combate à corrupção e a melhoria dos serviços públicos, o movimento desencadeia fortes debates na mídia e nas relações cotidianas das pessoas. Ainda que todas as instituições analisadas pelo IBOPE tenham perdido credibilidade entre um e outro período (2012 e 2013), fenômeno idêntico fora constatado pela pesquisa do ESEB sem que tenha havido qualquer agitação sócio-política anormal entre 2006 e 2010, datas em que foram aplicadas as avaliações.
Como corolário, a julgar pelas informações do IBOPE, as organizações religiosas demonstram irrefragavelmente contar com o sustentáculo da maioria da sociedade (a alternativa "igrejas" aparece com 71% de confiança em 2012 e 66% no ano seguinte) e as Forças Armadas mantém a posição de destaque. Não fossem os bombeiros, religiosos e militares ocupariam os dois primeiros lugares da lista. Da mesma forma, as piores avaliações recaem igualmente sobre o parlamento e os partidos políticos.
79 A fim de robustecer ainda mais a conclusão, pode-se apresentar mais uma fonte, a Fundação Getúlio Vargas (FGV), que igualmente avaliou a confiança dos brasileiros nas instituições do país em dois anos distintos (2011 e 2013):
Figura 3: Confiança dos brasileiros nas instituições segundo a FGV, em % (2011 e 2013) Fonte: Fundação Getúlio Vargas (http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/6618)
Logo, podemos apontar para uma tendência de primazia na avaliação positiva de instituições vulgarmente associadas à ordem e à manutenção de valores secularmente assentados no Brasil. Este é claramente o caso da Igreja Católica e das Forças Armadas, as duas instituições mais antigas e geralmente mais bem avaliadas no rol apresentado pelos pesquisadores aos respondentes77.
Como acréscimo, quando as igrejas cristãs não católicas são explicitamente mencionadas é possível notar bons índices de confiança mesmo entre pessoas que não incorporam o credo religioso por elas disseminado, como é manifesto na desproporção entre o contingente daqueles que confiam na "igreja evangélica" e os percentuais da população que efetivamente pertencem ao seu rebanho. Assim, os dados indicam que a religiosidade e
77Cabe destacar que as Forças Armadas e a Igreja Católica são instituições tradicionalíssimas no Brasil. Se a
primeira esteve formalmente presente na realidade social brasileira ao menos desde o Segundo Reinado, a operação da segunda no país remete ao "achamento” de Álvares Cabral. Ademais, ambas estiveram historicamente envolvidas com o poder político, com a defesa de valores tradicionais da nacionalidade oficialmente arquitetada e, principalmente no caso do Exército, com a manutenção da ordem. Não obstante, Exército e Igreja são instituições amplamente questionadas pela imprensa brasileira e por grupos de pressão na contemporaneidade justamente pelo seu suposto conservadorismo. Se os militares são combatidos pelas ações promovidas durante o regime autoritário que comandaram entre 1964 e 1985, a hierarquia eclesiástica enfrenta acusações de um conjeturado obscurantismo no campo moral (sobretudo no que diz respeito à proibição do uso de preservativo, do sexo antes do casamento e da conduta homossexual).
Forças Armadas Igreja Católica Ministério Público Imprensa Escrita Grandes Empresas Governo Federal Congresso Nacional Partidos Políticos 2011 70 56 53 44 44 36 20 7 2013 71 56 52 45 43 41 20 7 0 10 20 30 40 50 60 70 80
80 suas organizações oficiais são bastante positivadas, a despeito das críticas que lhes são dirigidas por parte de setores seculares e/ou "progressistas" da sociedade, que contestam as ideias tradicionais ordinariamente exploradas pelas igrejas e o pensamento político conservador (ou "de direita") que costuma vigorar nos escalões majoritários das organizações cristãs e militares78. Nesse sentido, os rótulos de "obscurantistas" (no caso das igrejas) e de "fascistas" (no caso dos militares) parecem funcionar apenas como maná de sobrevivência para o discurso de grupos minoritários da sociedade.
No que se refere às instituições políticas, é bastante provável que a desconfiança se alimente em grande medida do fato de que os agentes da política no Brasil não vêm logrando êxito na tarefa de responder satisfatoriamente às demandas da coletividade. Os constantes escândalos de rapinagem do erário público por parte de políticos e funcionários da burocracia estatal e os péssimos serviços disponibilizados pelo Estado são alguns dos elementos que determinariam o evidente descrédito popular em face de instituições como o Congresso Nacional e os partidos políticos.
Sobre este particular, testaremos no próximo capítulo a hipótese de que a descrença pode estar fundada também no fato de que boa parte dos atuais partidos não consegue sequer representar os valores ideológicos básicos abraçados por fatias significativas da sociedade. Por hora, basta aventar genericamente que a ausência de credibilidade emerge como uma demonstração inequívoca de que existem agudos problemas no aparato representativo brasileiro e nas instituições centrais que o operacionalizam. Conforme a Ciência Política tem observado, os estudos do tipo
[...] confirmam a existência de um gap entre as dimensões normativa e prática de apoio ao regime democrático, como argumentaram Rose e Shin (2001), mas mostram que contextos marcados pela sobrevivência de traços autoritários da cultura política e, ao mesmo tempo, por distorções do funcionamento das instituições democráticas, com repercussões sobre a qualidade do regime democrático, afetam de diferentes modos a experiência dos indivíduos e influem sobre suas orientações políticas (MOISÉS, 2008, p. 35-36).
Potencialmente insatisfeitas com o funcionamento da democracia e de suas instituições basilares, parcelas importantes da sociedade brasileira manteriam vivos "traços
78Não dispomos de pesquisas específicas que permitam visualizar com exatidão a visão político-ideológica dos
religiosos e militares brasileiros. Porém, as posições atuais dos primeiros são, em geral, claramente conservadoras (sobretudo no campo moral, embora por vezes também no terreno político). Já se considerarmos o longo histórico das Forças Armadas no cenário político, os pronunciamentos públicos da oficialidade e o posicionamento de entidades representativas dos militares (como o Clube do Exército e seus similares) ter-se-á parâmetros suficientes para concluir-se que a linha política dominante, ontem e hoje, vincula-se ao conservadorismo e ao universo de ideias tidas como "de direita".
81 autoritários da cultura política". Como consequência, o problema pode estar também no próprio pilar do conceito de democracia e de partidos políticos: a legitimidade da pluralidade de ideias, algo incompatível com traços autoritários.
Mas qual seria a natureza de tais traços? O próximo tópico almeja penetrar nessa questão.