A compreensão da noção de sujeito, com todos os seus paradoxos e contradições, só é possível, conforme Morin (1996b, p. 55), por meio “de um pensamento complexo, ou seja, um pensamento capaz de unir conceitos que se rechaçam entre si e que são suprimidos e catalogados em compartimentos fechados”. Para tentar dar conta do entendimento do sujeito, utilizase uma reconstrução conceitual em cadeia, apresentada pelo próprio Morin (1996b), no texto A noção de sujeito 59 . Esta reconstrução conceitual é composta por sete noções interpenetrantes, interdependentes, dialógicas e complementares, a partir das quais se torna possível “fundamentar científica, e não metafisicamente, a noção de sujeito e de propor uma definição [...] ‘biológica’, mas não nos sentidos das disciplinas biológicas atuais. [...] biológica, que corresponde à lógica própria do ser vivo” (ibidem, p. 46).
59 Este texto detalha idéias já apresentadas por Morin (1999) no Capítulo 9 (Computo ergo sum – A
A primeira noção referese à autonomia, que está intimamente ligada à noção de dependência, a qual, por sua vez, é inseparável da noção de autoorganização. O sistema vivo precisa extrair energia do exterior. Isto significa que, para ser autônomo, ele necessita depender do mundo externo. E esta dependência não é só energética, mas também informativa (porque se constata que o sistema vivo extrai informações do mundo exterior para poder organizar o seu comportamento) e organizativa (porque o ser vivo carrega na sua estrutura as mesmas marcas organizativas que ele percebe no exterior). Devido à grande dependência do processo autoorganizativo dos seres vivos, Morin (1996b, p. 47) enfatiza o uso do termo “autoecoorganização” e chama a atenção para a capacidade de autoregeneração ou organização recursiva, isto é, “uma organização na qual os efeitos e os produtos são necessários para a sua própria causa e sua própria produção, uma organização em forma de anel”.
Esta visão circular, ou circularidade autoprodutiva, permeia a condição humana e é a base para a segunda noção, que é a de indivíduo. De forma similar ao paradoxo da Física, a partir do qual uma mesma partícula pode ser observada como corpúsculo ou como onda, dependendo das condições da observação, ele concebe a relação indivíduoespécie como um processo recursivo:
O indivíduo é, evidentemente, um produto; é o produto, como ocorre com todos os seres sexuados, do encontro entre um espermatozóide e um óvulo, ou seja, de um processo de reprodução. Mas esse produto é, ele mesmo, produtor do processo que concerne a sua progenitura; somos produtos e produtores, num ciclo rotativo da vida. Desse modo, a sociedade é, sem dúvida, o produto de interações entre indivíduos. Essas interações, por sua vez, criam uma organização que tem qualidades próprias, em particular a linguagem e a cultura. E essas mesmas qualidades retroatuam sobre os indivíduos desde que vêm ao mundo, dandolhes linguagem, cultura, etc. Isso significa que os indivíduos produzem a sociedade, que produz os indivíduos. (MORIN, 1996b, p. 47)
Estas duas noções permitem pensar, na perspectiva do sujeito ou do sujeito indivíduo, a noção de computo ou computação, entendida como o processo cognitivo dos seres vivos. O ser vivo é computante porque é “um ser que se ocupa de signos, de índices, de dados: algo a que podemos chamar de ‘informação’” (ibidem, p. 48). Mais que isso, ao constituirse como computante, o ser vivo estabelece cognitivamente os parâmetros egocêntricos da sua existência, ou seja, colocase no centro do seu mundo: um mundo que conhece e que trata, considera, observa, apreende e no qual interage com a finalidade de sobreviver.
No entanto, para ser possível a computação, fazse necessário considerar uma quarta noção: a de identidade. Ela pode ser entendida como uma subjetividade autoorganizadora, ou seja, é o eu mesmo ou a objetivação do indivíduo sujeito que remete a si mesmo, à entidade corporal. É este princípio complexo de identidade que possibilita, ao ser vivo, ações objetivas orientadas com finalidade subjetiva e permite, também, a autoreferência. Todavia, do mesmo modo que a autoorganização é autoecoorganização, a autoreferência é, conforme Morin (ibidem, p. 49), “a auto exoreferência, ou seja, para referirse a si mesmo, é preciso referirse ao mundo externo”.
Na seqüência desta lógica, surge a quinta noção que se refere a dois princípios subjetivos associados: a exclusão e a inclusão. Na mesma medida em que o ser vivo tem a capacidade egocêntrica de concentrarse apenas em si mesmo, excluindo os demais, ele também é capaz do movimento contrário de inclusão que o faz integrar em sua subjetividade, outros diferentes dele. Estes dois estados pressupõem a existência de um terceiro princípio, a intercomunicação, que possibilita a comunicação entre os sujeitos.
Assim, fica cada vez mais evidente que o entendimento do sujeito é, de acordo com Morin (1996b, p. 52), “uma realidade que compreende um entrelaçamento de múltiplos componentes” e que apresenta também um caráter existencial, suscitando a reflexão sobre a consciência e a alma humanas, que integram a sexta noção que funda a subjetividade.
Nesta perspectiva, cognição e emoção são indissociáveis, isto é:
O sistema neurocerebral forma tanto o conhecimento quanto o comportamento, entrelaçando a ambos. [...] Ou seja, temos um sujeito cerebral que é um sujeito no ato mesmo da percepção, da representação, da decisão, do comportamento. E [...] a afetividade se desenvolve ao mesmo tempo que o sistema cerebral. [...] O desenvolvimento da afetividade está ligado ao desenvolvimento superior do sujeito [...] e não contraria nem inibe o desenvolvimento da inteligência. Ambos estão estreitamente unidos um ao outro. (ibidem, p. 53)
Importante destacar que a concepção de Morin é corroborada pelas mais recentes pesquisas das Ciências Cognitivas. Conforme Damásio (1996), a essência de um sentimento, isto é, o processo de viver uma emoção, não se constitui numa qualidade mental ilusória associada a um objeto. É, antes de tudo, a percepção direta de uma paisagem específica, qual seja, a paisagem do corpo. Em sua perspectiva, emoções e sentimentos funcionam como sensores para a aproximação entre a natureza e as circunstâncias. Além de serem guias internos, eles auxiliam o ser humano no sentido de comunicar, a outros seres humanos, sinais que também possam guiálos. E ele é ainda mais ousado ao afirmar que as emoções e os sentimentos formam a base daquilo que a humanidade tem conceituado, desde os tempos mais remotos, como “alma ou espírito humano”.
Para este pesquisador:
A trama de nossa mente e de nosso comportamento é tecida ao redor de ciclos sucessivos de emoções seguidas por sentimentos que se tornam
conhecidos e geram novas emoções, numa polifonia contínua que sublinha e pontua pensamentos específicos em nossa mente e ações em nosso comportamento. [...] é possível que os sentimentos se situem exatamente no limiar que separa o ser do conhecer e, portanto, é possível que tenham ligação privilegiada com a consciência. (DAMÁSIO, 2000, p. 64)
As pesquisas de Damásio apontam para o fato de que a emoção e o mecanismo biológico que lhe dá sustentação são inseparáveis do comportamento (consciente ou inconsciente) do homem. Sendo assim, algum nível de emoção perpassa obrigatoriamente os pensamentos que alguém elabora sobre si mesmo ou sobre aquilo que está ao seu redor 60 .
Desse modo, a partir do sistema cerebral, imerso no mundo da cultura e da linguagem, emerge outra condição da subjetividade humana: a tomada de consciência de si. Por meio da linguagem, enquanto instrumento de objetivação, surgem a consciência de ser consciente e a consciência de si, inseparáveis da auto referência e da reflexividade, ou, pelas palavras de Morin (1996b, p. 53), “é na consciência que nos objetivamos nós mesmos para ressubjetivarmos num anel recursivo incessante”.
Finalmente, associada a todas as anteriores, manifestase a sétima noção fundadora do sujeito, que se relaciona ao princípio de incerteza. Explicando melhor:
quando falo, ao mesmo tempo que eu, falamos ‘nós’; nós, a comunidade cálida da qual somos parte. Mas não há somente o ‘nós’; no ‘eu falo’ também está o ‘se fala’. Falase, algo anônimo, que é a coletividade fria. Em cada ‘eu’ humano há algo do ‘nós’ e do ‘se’. Pois o eu não é puro e não está só, nem é único. Se não existisse o se, o eu não poderia falar.
E logo, certamente, está o ele que fala. Das es. Que é esse ele? É uma máquina biológica, algo organizacional, do jeito de uma máquina, ainda mais anônimo que o ‘se’. Cada vez que ‘eu’ falo, ‘se’ fala e ‘ele’ fala [...]. O pensamento unidimensional só vê o ‘se’ e anula o ‘eu’. Pelo contrário, os
60 Para mais informações, consultar RECH, Jane. Ciberespaço: um ambiente de significações da
consciência. São Leopoldo: Programa de PósGraduação em Ciências da Comunicação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Dissertação de Mestrado), março de 2002.
que não vêem mais que o ‘eu’ anulam o ‘se’ e o ‘ele’, enquanto que a concepção complexa do sujeito nos permite enlaçar indissoluvelmente o ‘eu’ a nós, ao ‘se’ e a ‘isto’. (ibidem, p. 54)
Essa condição instaura o princípio da incerteza, uma vez que se torna difícil afirmar, com certeza, quem é que fala quando o “eu” fala.
Na presente pesquisa, estas sete noções, amalgamadas pelo pensamento complexo, no sentido original de “tecido conjuntamente”, constituemse numa das bases teóricas que fornecerão subsídios para compreender como o Sujeito articula Conhecimento, Cultura e Comunicação.
Mais que isso, estas noções são intimamente implicadas pelo segundo princípio da Complexidade, o hologramático que postula, também no âmbito dos sistemas vivos, que cada ponto contém a quase totalidade da informação do todo ao qual pertence. De acordo com Dychtwald (1995, p.107),
Se olhássemos bem de perto um ser humano, notaríamos imediatamente que ele é um holograma único em si mesmo, contido em si mesmo, gerador de si mesmo e conhecedor de si mesmo. Todavia, se tivéssemos de remover este ser de seu contexto planetário, rapidamente compreenderíamos que a forma humana não é diferente de uma mandala ou de um poema simbólico, porque no âmbito de sua forma e de seu fluxo residem informações abrangentes sobre vários contextos físicos, sociais, psicológicos e evolutivos dentro dos quais ele foi criado.
Neste sentido, parece ser promissora a tentativa de se pensar na noção de sujeito hologramático, aqui entendida como a possibilidade de se ter acesso ao conhecimento do todo (organização), a partir da compreensão dos sujeitos.
Por outro lado, na perspectiva deste estudo, a organização e os sujeitos estão indissociavelmente unidos na/pela cultura, que passamos a discutir a seguir.