Nos anos subsequentes à morte do profeta Mohammad houve a disposição de expandir os domínios do Islã na direção da Síria, Egito e Pérsia (Irã). Em grande parte, o sucesso alcançado pelos muçulmanos se dava, de acordo com Halm (2004), devido a dois fatores, quais sejam: 1) os guerreiros tribais árabes que eram capturados logo eram incorporados pelo exército muçulmano em outras localidades do Império (em particular no Iraque e a Leste do Irã); e, 2) membros de povos subjugados (mesopotâmicos e iranianos, egípcios e berberes) gradualmente eram convertidos ao Islã. Ainda, segundo Halm (2004), essa situação que trouxe facilidades para o alastramento do Império Islâmico, no futuro geraria um problema de
difícil trato, qual seja, os povos convertidos passariam a ser vistos como “muçulmanos de segunda classe”.
Contudo, concomitantemente ao crescimento territorial do Islã, havia a necessidade de escolher quem seria o sucessor do profeta Mohammad e, de acordo com Momen (1985), o problema extrapolava a mera escolha, pois a questão principal dizia respeito à decisão da natureza da sucessão. Evidentemente que esse imbróglio não foi resolvido de maneira a conciliar os ânimos, a tensão entre as partes e as divergentes perspectivas acerca da legitimidade para o exercício do poder seria a questão central nos anos posteriores.
O processo que levou Abu Bakr (califado, 632-634) ao poder e, sucessivamente Umar ibn al-Khattab (califado, 634-644) e Uthman ibn Affan (califado, 644-656), segundo a vertente xiita da história, teria ocorrido não por vontade do profeta Mohammad, mas sim para atender aos interesses dos clãs de Meca e Medina. (TABATABA‟I, 2009)
O sepultamento do profeta Mohammad ocorreu no dia seguinte à sua morte, sem a honra que um líder de sua envergadura deveria ter, contudo, essa estratégia teria sido colocada em prática, segundo os xiitas, devido a dois fatores que concorriam simultaneamente naquele momento, quais sejam, a ausência de um filho homem do profeta para sucedê-lo e o receio, por parte do clã de Ali, de que Abu Bakr pudesse utilizar uma cerimônia destinada ao profeta para apresentar-se como seu sucessor.
Independentemente de Ali ter evitado o uso da cerimônia para fins políticos de seu rival, a vertente xiita da história salienta o fato de que enquanto ocorriam os preparativos para o sepultamento do profeta Mohammad – e seus familiares estavam recolhidos junto a ele –, em outra localidade da cidade houve o encontro de dois grupos que decidiriam quais seriam as regras que ditariam o processo sucessório.
A situação que se desenhava era completamente contrária a Ali no que tange a ser indicado a suceder o profeta. Assim, no intuito de evitar o conflito entre seus seguidores e os demais muçulmanos, retirou-se da disputa e apresentou sua indignação através de um sermão (3, Khutbah ash-Shaqshaqiyyah):
“I put a curtain against the caliphate and kept myself detached from it. Then I began to think whether I should assault or endure calmly the blinding darkness of tribulations wherein the grown-up are make feeble and the young grow old and the true believer acts under strain till he meets Allah (on his death). I found that endurance thereon was wiser. So I adopted patience although there was pricking in the eyes and suffocation (of mortification) in the throat. I watched the plundering of my inheritance…” (apud MUHARRAMI, 2008, p. 69)
Por um lado, para que Abu Bakr chegasse ao califado teria de construir uma base de apoio. Nesse processo, havia o grupo de Abu Bakr, Umar, Abu ibn Ubada e outros
proeminentes cidadãos de Meca (muhajirun, membros de Meca que vieram com o Profeta durante a Hégira) e do outro lado, o grupo mais importante de Medina, Ansar. Os Ansar reivindicavam o direito à sucessão por ter sido em Medina que o profeta encontrou refúgio, apoio e conseguiu impor a vitória do Islã. E, desde então, os cidadãos de Meca eram tratados somente como convidados em Medina.
Abu Bakr, diplomaticamente, teria contestado o porta-voz dos Ansar e exposto que antes de os cidadãos de Medina terem dado guarida ao profeta Mohammad, os muhajirun abraçaram a fé islâmica e, somente um membro de Meca, dos coraixitas, seria aceito pelos muçulmanos como líder. Ainda, Abu Bakr propôs que os membros dos coraixitas fossem escolhidos os governantes e os Ansar seus vice-governantes. Com receio de que futuramente, com a liderança de um membro de Meca a guerra entre Meca e Medina voltasse a ocorrer, o porta-voz dos Ansar propôs que houvesse uma alternância no poder, no entanto, Abu Bakr conseguiu fazer com que esse receio fosse suprimido e propôs aos Ansar que escolhessem entre Umar e Abu Bakr para firmarem um compromisso de fidelidade. Os membros de Ansar aceitaram e assim estabeleceu-se que após a morte de Abu Bakr, o escolhido seria Umar. (MOMEN, 1985, p. 18) Simbolicamente, esse evento que englobou o processo de negociação que levou Abu Bakr ao califado passou a ser conhecido por Saqifah, o qual foi completamente rejeitado pelos partidários de Ali.
Por outro lado, para evitar que houvesse qualquer tipo de manifestação negativa por parte da família de Ali, membros de Ansar foram enviados a sua casa e o processo de transição ocorreu sem maiores questionamentos.
Apesar da inerente repulsa dos xiitas por parte do ato de Abu Bakr, na narrativa de Tabarsi23 acerca do processo, ainda há momentos de relutância com relação à tomada do poder que, pela perspectiva de Ali e seus seguidores, deveria ficar com a família do profeta. No sermão da sexta-feira, o episódio é assim apresentado:
Aban ibn Taghlib asks Imam as-Sadiq („a): “May I be your ransom! When Abubakr
sat in the place of the Messenger of Allah (ṣ), was there anyone who protested?” The
Imam („a) said: “Yes; there were twelve persons from among the Muhajirun and the
Ansar such as Khalid ibn Sai‟id; Salman al-Farsi; Abu Dharr; Miqdad; „Ammar;
Buraydah Aslami; Abu‟I-Haytham ibn Tayyahan; Sahl ibn Hanif; „Uthman ibn Hanif; Khuzaymah ibn Thabit Dhu‟sh-Shahadatayn; Ubayy ibn Ka‟b; and Abu Ayyub al-Ansari. They gathered in a certain place and discussed together the event in Saqifah and were thinking of a solution. Some said: “We shall go to the mosque and let Abubakr come down from pulpit. Some others did not agree with this idea, considering it unadvisable. They then came to „Ali („a) and said: “We will go and pull Abubark down from the pulpit.” The Imam („a) said: “They are many. Once
23 Fadhlibn Hassan al-Tabarsi foi um importante scholar persa do século XII – período em que foi produzido o
you go ahead with this and act violently, they will come and say: “You pay allegiance otherwise we shall kill you.” Instead, you have to go to him and tell him what heard from de Messenger of Allah (ṣ) and this is all of the proof. They came to
the mosque and the first person among who spoke was Khalid ibn Sa‟id al-Umawi, saying: “O Abubakr! You are aware that after the Battle of Banu Nadir, the Holy Prophet (ṣ) said: „You have to know and keep my will. After me, „Ali shall be caliph
and successor among you. My Lord has thus ordered me‟.” After him, Salman stood up and made his famous statement in Persian language: “Kardid, nakardid24” After
their argumentation, Abubakr descended from the pulpit, went to his house and did not go out for three days until such time that Khalid ibn Walid, Salim Mawla Abu Hudhayfah and Mu‟adh ibn Jabal along with many others went to Abubakr‟s house and gave him will power. „Umar went along with this group to mosque entrance and said: “O Shi‟ah and supports of Ali! Be aware that if you would utter these words again, I will behead you.” (apud MUHARRAMI, 2008, p. 73)
Diferentemente da visão conflituosa defendida pela vertente xiita, a perspectiva sunita acerca do processo de transição de poder apresenta um cenário mais conciliador. Aos quatro primeiros califas, inclusive Ali ibn Abi Talib (califado, 656-661), atribuíram um sentimento consensual e os chamaram de Rashidun, ou „corretamente guiados‟. De acordo com essa tradição, Abu Bakr fora eleito pelo conselho formado pelos notáveis do Islã (Nidwa) – no qual, inclusive, Ali participara. Abu Bakr deveria liderar a comunidade muçulmana e impedir que ela se desfizesse após a morte do profeta. Muitas tribos entendiam que o vínculo de fidelidade havia sido firmado com o profeta e não com Medina, entretanto, Abu Bakr estava ciente de que teria de impingir a força para evitar a dissolução do proto-império Islâmico. (LEWIS, 1996; ESPOSITO, 2005)
Quanto à transição de seu califado, antes de Abu Bakr morrer, em sinal de gratidão pela fidelidade a ele dedicada, ratificou a indicação de Umar ibn al-Khattab como seu sucessor. Umar fora sogro do profeta Mohammad e sua conversão teria ocorrido após ter ouvido o Corão ser recitado na casa de sua irmã. Porém, mais do que um homem da religião, o segundo Califa tornou-se conhecido por sua grande capacidade militar e as conquistas que impôs aos persas – no Iraque e ao leste do Irã. Com isso, conseguiu expurgar a dinastia Sassânida do poder.
Ainda, Umar também conseguiu derrotar os Bizantinos na Síria, Palestina e Egito. Entretanto seu califado acabou sendo interrompido pelo atentado que sofreu por um não- muçulmano (dhimmi) que o esfaqueou com um punhal envenenado. Mesmo diante desse crime, defendem os sunitas, Umar teria reiterado, diante da morte, a necessidade de preservar os direitos dos não-muçulmanos e que seu sucessor fosse escolhido por um conselho.
Após a morte de Umar o conselho escolheu Uthman ibn Affan para assumir o califado, novamente desconsiderando a linhagem de Ali na sucessão do profeta. Uthman era
24 “You did; you didn‟t.” Ou seja, “You determined the caliphate but you did not do the right thing.” Tradução
proveniente do clã dos Omíadas de Meca, porém, não gozava do mesmo prestígio que seus antecessores. Muitos membros de clãs de Medina questionavam sua liderança. Acusado de ser fraco e nepotista – nomeou vários governadores das províncias conquistadas dentre os membros de seu próprio clã –, enfraqueceu o califado e, ao ser assassinado levou a comunidade muçulmana a vivenciar várias rebeliões e fratricídios tribais. Eventos tais que, segundo Esposito, “[...] would plague the Islamic community‟s political development”. (2005, p. 37)
Em linhas gerais, a perspectiva xiita acerca do período em que viveram sob o domínio dos califas pode ser entendido como de muita pressão, excetuando os primeiros dias após a Saqifah. Na sequência do processo de assimilação do poder pelos califas, os seguidores de Ali foram excluídos de todas as instâncias decisivas.
Também, é de fundamental importância salientar que após a Saqifah tornaram-se mais claras as perspectivas que os dois grupos de muçulmanos iriam seguir, ou seja, enquanto os sunitas buscavam nos califas os referenciais científicos, jurisprudenciais, ideológicos, dentre outros, os xiitas se referiam a Ali – e depois nos Imãs. Como consequência dessa diferença de referenciais, a jurisprudência (fiqh), hadith, tafsir (exegese do Corão), kalam (teologia escolástica), dentre outros instrumentos doutrinários, passariam a ter fontes distintas.