4.1 I hvilken grad preges dagens styringsdokumenter i helsetjenesten av at samhandling med
4.3.6 Intervju i kommunen/ sykehjemmet i forhold til områdene ”trygge og sikre” tjenester,
Os safávidas são originários da região de Ardebil (noroeste do Irã, próximo ao mar Cáspio) e receberam esse nome em homenagem ao seu líder, Sheik Safi (1252-1334), contudo, somente sob a liderança de seu sucessor, Sadr al-Din (1334-1391), que houve a reestruturação necessária – com a criação de alianças entre várias tribos, casamentos com intenções políticas, etc. – para que os safávidas se tornassem expressivos militarmente.
Inicialmente os safávidas eram adeptos do sunismo e sufismo, contudo, posteriormente se converteram ao xiismo. Os detalhes acerca do processo que levou a essa conversão não é muito claro, haja vista, muitos aspectos do Duodécimo já estarem incorporados à sua mistura de crenças, mesmo antes da assimilação total pelo império.
Um fato indiscutível é que a grande expansão dos safávidas se deu a partir da ascensão ao poder de Isma‟il, em 1501. Liderando os Qezelbash – guerreiros de origem turca; a palavra significa „chapéu vermelho‟, pois fazia parte de suas vestimentas –, Isma‟il, então com apenas 14 anos, conquistou a antiga capital Seljúcida, Tabriz (noroeste do Irã), e se declarou Xá
(Shah). Nessa ocasião Isma‟il declarou o Duodécimo como a religião oficial de seus territórios.
A versão do xiismo imposta por Isma‟il, suprimindo a importância dos três primeiros califas e reiterando o valor místico dos eventos ocorridos em Karbala, além de servir para unificar seu império, segundo alguns historiadores, teria sido um ato político, haja vista Isma‟il entender a necessidade de desvincular-se completamente do Império Otomano que surgia em suas fronteiras, a oeste. Ainda, essa interpretação conjumina com o entendimento de que o conceito de Ahlul Bait congregaria apenas os familiares do profeta.
Para o processo de fortalecimento do Duodécimo, Isma‟il ampliou seus domínios até o Iraque, haja vista grande parte dos Imãs terem suas sepulturas nas cidades ali localizadas. Também, importou teólogos de outras localidades (Jamal „Amil, Bahrein, Najaf, etc.) para Qom e Mashhad no intuito de transformar o Irã num polo de difusão do Duodécimo.
O processo de fortalecimento do Império Safávida, mesmo após a derrota para o Império Otomano, em 1514, tornou-se ainda mais incisivo com a chegada de Abbas ao poder (1587), mesmo depois de um logo período de guerra civil e perseguições às ordens sufistas. Parte desse sucesso se deu com a criação de um exército regular profissional – formado por membros de várias localidades do território, nos moldes do janízaros otomanos –, em Isfahan (a nova capital do Império), o qual potencializou o Império Safávida.
Abbas had been astute in his construction of a governmental system that produced state revenue, and his was more successful than most previous dynasties had been. But over the century that followed, more and more land was given over to religious endowments, sometimes merely as a kind of tax dodge, since property was exempt from tax. (AXWORTHY, 2008, p. 137-138)
Devido à institucionalização do xiismo ao poder, o período de Abbas também proporcionou o desenvolvimento de Isfahan como um centro difusor do pensamento do Duodécimo. Notáveis pensadores como Mir Damad, Mir Fendereski e Sheik Baha‟i deram início ao que ficou conhecido por Escola de Isfahan; também a filosofia religiosa encontrou um representante com Molla Sadra – sua obra que versava sobre Avicena e o neoplatonismo tornou-se conhecida por „Quatro Jornadas‟ (al-Afsar al-arba‟a), mas também teve uma grande produção voltada para o sufismo.
Com a morte de Abbas (1629) houve um período de estagnação dos Safávidas, ocorreu o estabelecimento das fronteiras definitivas com os otomanos através da assinatura do Tratado de Zohab (1639) e a perda definitiva do Iraque – também para os otomanos –, em 1638. O florescimento das artes, arquitetura, literatura, etc., foi indiscutível, entretanto, esporadicamente surgiam mullahs pregando a perseguição a grupos religiosos específicos, às
vezes aos judeus, outras vezes aos sufistas; mas essa não foi a característica preponderante do Império, nele, os „Povos do Livro‟ normalmente viviam tranquilamente.
O período final do governo dos Safávidas destacou-se pela presença de um dos mais importantes doutrinadores do Duodécimo, 'Allamah Muhammad Baqir Majlisi. Sua obra reorientou esse ramo do xiismo e o fez assumir os parâmetros atuais. A enciclopédia de hadith de Majlisi, chamada „Bihar al-Anwar‟, tornou-se paradigmática, contudo, o clérigo ainda desenvolveu uma vasta produção. (MOMEN, 1985, p.114)
Though it is for authoritative researches to delve deep down the oceans of lights to sift the pearls of divine knowledge from ordinary corals or shells, without the least doubt Bihar al-Anwar could be described as the most comprehensive encyclopedia of Islamic religious sciences for the compilation of which the world of Shi'ite learning will always remain indebted to 'Allamah Muhammad Baqir Majlisi. This great work which reached its culmination some three centuries ago in Iran, or more properly in Isfahan the Safavid capital, was published for the first time by the late Hajj Muhammad Hasan Amin al-Darb Isfahani Kompani in 25 volumes. Bihar al-Anwar and the exhaustive resources to which 'Allamah Majlisi had access have always aroused the interest of scholars and researchers, since several of the original works that were available to him have either been completely lost because
of the political turmoil that swept Iran after the Safavids, or are lying undetected in private and public libraries. (ANSARI, s.d.)
Pouco antes da dissolução dos Safávidas, uma questão doutrinária foi objeto de disputa entre duas importantes Escolas do Duodécimo – Usulita e Akhbarita. Novamente se impunha a discussão acerca da utilização do método racional para tirar conclusões e apresentar argumentos (kalam),ou seja, a utilização da ijtihad na criação de novas regras de fiqh, na avaliação dos ahadith e exclusão das tradições que acreditavam não serem confiáveis; também, em considerarem obrigatório obedecer a um mujtahid no que tange a determinar islamicamente um comportamento correto. A Escola Usulita (cuja base inicial era a cidade de Qom, e, a partir de 1769 passou a expandir-se para os dois centros religiosos do Iraque, Najaf e Karbala), considerada tradicionalista, posicionava-se contrária à Akhbarita.
Dentro desse conflito, gradualmente os pensadores usulitas passaram a entender que um scholar poderia deter o conhecimento acima dos demais, assim, seu julgamento poderia ser decisivo em questões controversas. Surgia, consequentemente, uma perspectiva de hierarquia no xiismo, tendo em vista que essa pessoa passaria a ser considerada a maior fonte de emulação. O primeiro a ser reconhecido como tal foi Mohammad Hassan Najafi (c. 1788- 1850). Contudo Mutazar Ansari, que residia em Najaf na ocasião da morte de Najafi, foi quem desenvolveu essa instituição e a propagou.
The triumph of the Usuli School and the emergence of the institution of the supreme source for emulation are as important in the history of modern Shi‟ism as the victory for papal power at Vatican I was for modern Roman Catholicism. Under the Qajar dynasty, the ulama recovered much of influence they had lost under Nader Shah. While Ansari himself tended to stay out of politics, the ideology and institutions of usuli Shi‟ism provided a framework for an activist body of ulama with a clearly defined leadership. (COLE apud KEDDIE, 1983, p. 40)
Nesse novo cenário propagado pela doutrina usulita, a importância do conceito de taqlid (imitação) acaba sendo primordial, haja vista contemplar a aceitação, por parte dos fiéis (imitadores), de que uma pessoa que seja considerada a maior autoridade religiosa xiita possa determinar os procedimentos religiosos em matéria de veneração, e mesmo no que tange à vida privada, sem a obrigatoriedade de comprovar tecnicamente seu posicionamento. Diante dessa perspectiva doutrinária, as altas autoridades religiosas são percebidas como “fonte de imitação”, contudo, suas determinações não são eternas e podem ser reavaliadas pelos sucessores.
Com o fim do debate doutrinário, ainda no século XVII, o usulismo tornou-se a “visão oficial” dos xiitas, congregando a grande maioria da comunidade. Entretanto, o akhbarismo não deixou de ter seus seguidores, predominando no Bahrein.
Mais especificamente, o usulita acredita que as coleções ahadith contém tradições com graus de confiabilidade distintos e, dessa maneira, não seria possível tratar todos com a mesma importância. Daí a necessidade de utilizar o método racional para estabelecer uma análise crítica acerca de sua originalidade e empregabilidade, ou seja, determinar sua autenticidade para ser aplicada e assimilada pelos xiitas.
Essa postura usulita fere diretamente a perspectiva akhbarita, uma vez que essa última acredita que as únicas fontes de direito são o Corão e o Hadith – mais particularmente a coleção conhecida como Os Quatro Livros34. O akhbarista justifica que toda a fonte de conhecimento encontra-se neles, e, por isso, deveria ser aceito de maneira inquestionável. Assim, reitera-se o fato de que não haveria outra autoridade legal com atribuição para estabelecer sua aplicabilidade junto à comunidade xiita.
Além de avaliar a confiabilidade do hadith, usulitas acreditam que a tarefa do jurista é estabelecer a origem e os princípios que as leis islâmicas estariam baseadas (usul al-fiqh) e, a partir daí, particularizar sua aplicação. Objetivamente, o conhecimento jurídico deveria ser utilizado como ferramenta para resolver qualquer situação que não fosse, especificamente, abordada pelo Corão ou hadith.
Hourani (2001) nos lembra de que esse processo de embate doutrinário também tinha uma característica específica que levava em consideração a procedência dos fiéis, mas que posteriormente agregou a grande maioria dos xiitas.
Também no mundo xiita prosseguiu a tradição de alta cultura, mas os estudiosos estavam claramente divididos. Durante a maior parte do século [XVIII], a escola de pensamento akhbarita predominou entre os sábios das cidades santas, mas lá pelo fim houve uma revivescência da escola usulita, sob a influência de dois sábios importantesm Muhammad Baqir al-Bihbihani (m. 1791) e Ja‟far Kashfi al-Ghita (c. 1741-1812); apoiada pelos governantes locais no Iraque e Irã, aos quais a
flexibilidade dos usulitas oferecia algumas vantagens, esta ia tornar-se mais uma
vez a escola principal. Mas a akhbarita continuou forte em algumas regiões do golfo Pérsico. Lá pelo fim do século, tanto os usulitas quanto os akhbaritas foram contestados por um novo movimento, a Shaykhiyya, que surgiu da tradição mística, a da interpretação espiritual dos livros sagrados, endêmica no xiismo: foi condenada pelas duas outras escolas, e vista como fora do xiismo imanita. (HOURANI, 2001, p. 261) (grifo nosso)
Se, por um lado, havia um embate doutrinário no interior do xiismo, por outro, a manutenção do Império Safávida encontrava-se constantemente sendo posta à prova. Dessa maneira, em 1722 os safávidas, já bastante desestruturados, não conseguiram resistir à invasão dos afegãos. Eles destruíram Isfahan e permaneceram no controle do que era a parte leste do
34 “Kitab al-Kafi” (coletânea de Muhammad ibn Ya'qub al-Kulayni al-Razi); “Man la yahduruhu al-Faqih”
(coletânea de Muhammad ibn Babuya), além de “Tahdhib al-Ahkam” e “Al-Istibsar” (coletâneas de Shaykh Muhammad Tusi).
antigo império. Na mesma ocasião os otomanos aproveitaram para ocupar a região oeste – incluindo Tabriz, Kermanshah e Hamadan – e os russos, sob a liderança de Pedro, „O Grande‟, dominaram a região costeira ao Mar Cáspio. (AXWORTHY, 2008)
A permanência dos afegãos na Pérsia foi relativamente curta, em 1736 sofreram as primeiras derrotas para Nadir Shah – membro da tribo Afshar – e, na sequência formam expulsos. Nadir Shah exercia uma política centralizadora e absolutista, assim, logo fez com que os ulemás xiitas também se voltassem contra ele. Tal era a insatisfação da população que mesmo a aristocracia militar que emergiu com Nadir Shah passou a fazer-lhe oposição. Dessa maneira, não houve a possibilidade de construir um novo império sobre as ruínas dos Safávidas.
Com a morte de Nadir Shah (1747), mais um período de guerra civil se instalou com a disputa pela sucessão entre duas dinastias, quais sejam, Afshar e Qajar. Essa disputa levou quase cinquenta anos e fez ascender ao poder os Qajar, uma tribo turca proveniente do mar Cáspio.
No período da queda dos Safávidas (1722) até os Qajar assumirem o poder (1796), o clero xiita iraniano passou por transformações que o levou a assumir a forma que tem hoje. Uma primeira razão para essa mudança foi o desaparecimento da única dinastia com o carisma de descender do profeta e do sétimo Imã. Quaisquer das lideranças que viessem não gozariam do mesmo prestígio, tampouco poderiam clamar por tal direito. A segunda razão dizia respeito à possibilidade de os clérigos buscarem asilo nas cidades sagradas do Iraque quando estivessem sendo perseguidos pelos governantes. Os otomanos, que dominavam o Iraque e eram adversários dos safávidas, recebiam os clérigos como um ato de afronta. Ainda, durante o governo de Nadir Shah houve uma grande migração de clérigos para o Iraque que manteve certa continuidade nos séculos seguintes, inclusive, Najaf que acolheria o aiatolá Khomeini ao deixar o Irã, durante o período de exílio.
A terceira, e mais importante razão, diz respeito à vitória da Escola Usulita sobre a Akhbarita. Com isso houve o silenciamento daqueles que eram contra os princípios de taqlid e ijtihad. “The victorious Usulis condemned the Akhbaris‟ principle of regarding only the work of the Qur‟an and the saying of the Imams as the guiding principle for believers, as a heretical innovation for which they held Mullah Muhammad Amin Astarabadi (d. 1033/1624) responsible.” (HALM, 2004, p. 95)
Também, no que tange ao processo de fortalecimento dos dogmas xiitas, o início do século XIX serviu como uma grande prova. Isso porque, em 1844 (1260 do calendário muçulmano) completariam mil anos da ocultação do Mahdi (Décimo Segundo Imã). A espera
pelo seu retorno criou um clima místico dentre os xiitas e, consequentemente, abriu a possibilidade para que surgisse um segmento divergente da linha reinante de pensamento religioso. Os desdobramentos desse fato levaram ao surgimento dos Baha‟i, inicialmente ligados aos xiitas, mas cuja visão liberal (no que tange a igualdade entre sexos, contra punições físicas e castigos, além de leitura diferenciada do Corão, dentre outras especificidades) os afastou deles e passou a ser um problema para o xá.
Como os clérigos xiitas percebiam os Baha‟i como apóstatas, passaram a persegui-los e cobrar do império a mesma atitude, caso contrário poderiam deixar de apoiar o governo do xá. Dessa maneira, os seguidores Baha‟i foram assassinados e continuam sendo perseguidos no Irã até os dias de hoje. (AXWORTHY, 2008, p. 187-189)
Finalmente, durante a dinastia dos Qajar o Irã passou a sofrer fortes pressões da Inglaterra e da Rússia. A primeira se via atraída pelo Irã, pois ele encontrava-se posicionado geograficamente no meio das rotas comerciais terrestres para a Índia – a mais importante colônia britânica –, e os russos viam na fraqueza dos Qajar a oportunidade de estender seu território para preservar suas regiões fronteiriças. Segundo Kinzer:
Os reis Qajar não pareciam incomodados de ver seu país afundar na subserviência, ou, se estavam, optaram por tirar o máximo proveito deste destino supostamente inevitável. No que acabou se revelando um enorme erro de cálculo, eles acreditaram que o povo iraniano aceitaria qualquer coisa que lhe fosse ditada por seus governantes. Mas sua corrupção e, principalmente, sua propensão a permitir que o Irã caísse sob o domínio das potências estrangeiras puseram-nos em descompasso com seu povo, isto é, fizeram-nos perder sua farr, seu direito de governar. Armados com o princípio xiita, que dá ao cidadão comum o direito inalienável de derrubar o despotismo, e também com os ideais do novo mundo emergente, os iranianos se rebelaram de uma forma nunca experimentada pelos seus antepassados. (2004, p. 45-46)
O século XX ainda geraria profundas transformações no pensamento xiita, grande parte dele atribuído à ação do Ocidente sobre o Oriente Médio. No próximo capítulo será exposta e analisada a história recente do Irã, assim como o caminho que os ulemás trilharam até constituírem a República Islâmica.
( 2 )
DA PÉRSIA AO IRÃ
O DUODÉCIMO E SUA INTERAÇÃO COM O ESTADO,
MONARQUIA, SECULARISMO E OCIDENTE
Durante o período de formação do xiismo, como vimos, houve um processo de conflitos doutrinários, contudo, ao final do século XIX esse não mais se configurava num dilema para os ulemás. Entretanto, devido às características da dinastia Qajar, os ulemás iranianos passaram a reavaliar o modelo de submissão a um governo que, em certos sentidos, se afastava do xiismo. Também, considerando o fato de que Qom já tinham grande influência sobre a população, haja vista existir o reconhecimento da importância de os fiéis pautarem suas vidas pelos ditames dos teólogos, gradualmente essa importância foi introjetada nos ulemás e esse poder religioso começou a expressar-se na política.
Demant ressalta que, independentemente dessa situação que estaria ocorrendo na Pérsia, no início do século XX o Ocidente impôs aos muçulmanos sua supremacia tecnológico-militar e, como efeito imediato, o Império Otomano logo deixaria de existir e o Império Persa passaria a sofrer mais intervenções estrangeiras.
O domínio tecnológico-militar do Ocidente desmascarou a decadência interna dos impérios muçulmanos e logo estimulou reflexões a respeito. Pensadores emergiram para criticar a supremacia ocidental, e mais ainda a impotência dos próprios muçulmanos para fazer frente à penetração européia. Os vários “diagnósticos” e “terapias” propostas desde o final do século XIX iriam traçar as linhas matrizes do mundo muçulmano no século XX. (DEMANT, 2004, p. 82)
Se, por um lado, o poder ocidental e sua superioridade frente aos muçulmanos aceleraram a desestruturação do Império Otomano – que há ocorria desde o século XIX, devido a problemas internos –, desencadeando, inclusive, na criação de vários Estados; por outro, no Império Persa o efeito não foi tão degenerativo. Evidentemente que Potências como Grã-Bretanha e União Soviética passaram disputar a Pérsia (Irã) como área estratégica – parte do Grande Jogo –, no entanto, a própria atuação das forças estrangeiras exerceu influência
indireta nos desenvolvimentos internos iranianos, os quais fizeram com que os ulemás galgassem mais poder político.
Assim, diante do “breve século XX” (HOBSBAWM, 2008), em que o conflito principal se desenvolvia entre EUA e URSS (segundo o historiador, um conflito ideológico), na periferia do sistema internacional os xiitas buscavam alterar a ordem imposta. Nesse sentido, é de grande relevância reavaliar os principais eventos desencadeadores de transformações que ocorreram no Irã.
É certo que, conforme Said aponta,
A invocação do passado constitui uma das estratégias mais comuns nas interpretações do presente. O que inspira tais apelos não é apenas a divergência quanto ao que ocorreu no passado e o que teria sido esse passado, mas também a incerteza se o passado é de fato passado, morto, e enterrado, ou se persiste, mesmo que talvez sob outras formas. Esse problema alimenta discussões de toda espécie – acerca de influências, responsabilidades e julgamentos, sobre realidades presentes e prioridades futuras. (SAID, 2005, p. 33)
Partindo da perspectiva de Said, de fato, esse capítulo busca analisar os eventos que desencadearam a mudança de status dos religiosos iranianos e os fez alcançar o poder. Mas não se restringe a isso, pois o que está em jogo não é descobrir “culpados e inocentes”, mas sim o processo que levou os ulemás xiitas a se tornassem antagonista nas arenas interna (luta dos xiitas com seu governo) e externa (luta dos xiitas com o Ocidente).
Muito mais do que pautar essa análise por um “choque de civilizações” (HUNTINGTON, 1997), busca-se decodificar os elementos que levaram os xiitas a romperem com o modelo de governo ocidental para trilhar o caminho no sentido de constituírem um governo islâmico. E, nesse sentido, a presença dos ulemás foi imprescindível, pois houve o fortalecimento doutrinário do xiismo e sua instrumentalização (principalmente através do wilayat al-faqih).
Assim, esse capítulo destina-se a analisar a participação das lideranças religiosas xiitas nos principais eventos políticos que constituíram mudanças no Irã. E, devido à importância do aiatolá Khomeini para a Revolução Islâmica, sua trajetória será exposta para posterior discussão e análise do wilayat al-faqih nos dois próximos capítulos.