3.4 Statistical Methods
3.4.2 Significance Testing and Goodness of Fit
O multiculturalismo é a corrente de pensamento dedicada ao estudo das relações étnico-raciais na sociedade. Ela pode ser compreendida pelo viés de diferentes perspectivas, as quais podem ser sistematizadas em quatro grandes tipos, a saber: o conservador, o humanista-liberal, o crítico de resistência e o liberal de esquerda(MCLAREN, 2000). Nesta perspectiva, tal proposta nada mais é do que: a“tentativa de esquema teórico que possa ajudar no discernimento das múltiplas maneiras pelas quais a diferença é tanto construída como engajada”(MCLAREN, 2000, p. 110). Em outras palavras, parte do pressuposto de que as diferenças entre as pessoas que pertencem aos vários grupos étnico-raciais na sociedade não são fatos naturais. Elas são, antes de qualquer coisa, construções sociais e simbólicas; produto das relações sociais de poder entre esses grupos na sociedade.
Dessa maneira, apesar de não ser foco da presente pesquisa, considerou-se fundamental apresentar, ainda que de forma breve, as características que definem e expressam cada uma das perspectivas apontadas, como maneira de evidenciar o sentido político-cultural atribuído à educação.
Assim, cabe, num primeiro momento, apresentar as diferentes perspectivas acerca do multiculturalismo, que nada mais são do que “rótulos tipicamente idealizados com o objetivo de servirem apenas como recurso heurístico. Na realidade, a características de cada posição
tendem a se misturar umas com as outras dentro do horizonte geral da vida social36” (MCLAREN, 2000, p. 110).
Os teóricos afiliados ao multiculturalismo conservador são herdeiros do pensamento teológico europeu cristão, do século XV e XVI, do iluminismo kantiano, do século XVIII, e da teoria do darwinismo social, do XIX. Essas tendências, ainda em pauta,cujo marco inicial remete aos discursos teológicos proferidos pelos freis Ginés de Sepúlveda e Bartolomé de las Casas37, podem ser encontradas nas visões coloniais que retratavam os povos indígenas e os africanos (não brancos)38como criaturas inferiores, selvagens e incivilizadas (MCLAREN, 2000).Os conservadores argumentam que o Estado deveria intervir nas relações étnico-raciais por meio de políticas orientadas à promoção e ao fortalecimento das características do homem branco39 na sociedade. Sob esta lógica, tal discurso pode ser considerado conservador por reconhecer a supremacia de um grupo sobre o outro.
No âmbito da educação, a aplicação de uma política dessa natureza defende, por exemplo, o uso da língua colonial como a oficial “e é, com frequência, virulentamente oposta aos programas de educação bilíngue”(MCLAREN, 2000, p. 115). Além disso, essa perspectiva almeja “assimilar os estudantes a uma ordem social injusta ao argumentar que todo o membro de um grupo étnico pode colher os benefícios (...) das ideologias neocolonialistas” (MCLAREN, 2000, p. 116). Ou seja, parece considerar que as diferenças culturais entre as pessoas devam ser ocultadas e até extintas em favor da cultura hegemônica.
A perspectiva conservadora, no seio da corrente de pensamento do multiculturalismo, por se estruturar a partir da ideia de raça e por defender as práticas sociais de discriminação étnico-racial explícita deve ser rejeitada (MCLAREN, 2000; TORRES, 2001).
Por sua vez, o multiculturalismo humanista-liberal inspira-se nos princípios da igualdade natural e cognitiva entre as pessoas que pertencem a distintos grupos socioculturais. Isto é, todas as pessoas - brancas, afrodescendentes, indígenas, ciganas etc - são dotadas das
36 E ainda, como qualquer tipologia, corre-se o risco de projetá-las monoliticamente em todas as esferas da produção cultural e sugerir uma totalidade excessivamente abstrata que, perigosamente, reduz a complexidade do assunto em questão (MCLAREN, 2000).
37 Os discursos de Ginés Sepúlveda e Bartolomé de las Casas serão considerados em momento posterior da presente pesquisa.
38 O multiculturalismo conservador pensa que as sociedades desenvolvidas tendem a ser universalmente monoculturais. Acredita que a existência de vários grupos étnicos no seio da sociedade nacional pode provocar a sua fratura e a sua desarmonia. Logo, a diversidade étnico-cultural é concebida como um problema que ameaça a integridade e a coesão social (MACLAREN, 2000).
39 A cor branca do homem “se manifiesta como símbolo de superioridad estética, como tipo de ideal explícito” (TORRES, 2001, p. 222). Acrescenta ainda que o tipo ideal de ser humano não é somente atribuído em função da cor branca, mas está relacionada a outras atribuições: ser homem, ser euro-americano, heterossexual e burguês. (TORRES, 2001, p. 223).
mesmas capacidades. Essa igualdade é o que possibilita a competição igual entre todos os sujeitos a bens e a serviços sociais, entre os quais se encontra a educação (MCLAREN, 2000). Desse modo, o humanista-liberal defende que a educação deve ser ofertada para todas as pessoas na sociedade, independentemente de sua condição étnico-racial. Porém, considera que somente os indivíduos que se esforçarem e obtiverem melhores resultados (em função de seus méritos) conseguirão acessar o sistema de ensino e, especialmente, o do ensino superior.
Esta proposição, assim, resulta de uma proposta educacional inspirada no princípio da universalidade (para todos) e no exercício da meritocracia (de acordo ao esforço pessoal de cada um). A saber: não leva em consideração que as pessoas, em função das condições econômicas, sociais, políticas e culturais, nem sempre se encontram em condições de igualdade material para competir pelas mesmas oportunidades. Isto porque parte do pressuposto que as diferenças que caracterizam os indivíduos são consideradas como diferenças naturais e não como socialmente construídas.
O multiculturalismo crítico de resistência, por seu turno, situa-se em um contexto mais amplo da teoria social pós-moderna40, “que afirma que signos e significações são essencialmente instáveis e em deslocamento, podendo apenas ser temporariamente fixados, dependendo como são articulados dentro de lutas discursivas e históricas particulares” (MCLAREN, 2000, p. 123). Essa vertente entende que as representações de “raça, classe, gênero como resultado das lutas sociais sobre signos e significações e enfatiza, não só apenas o jogo textual, mas a tarefa de transformar as relações sociais” (MCLAREN, 2000, p. 123). Logo, aposta na transformação e na superação das relações sociais de dominação pautadas na subjugação de seres humanos em função de sua origem étnico-cultural.
Essa perspectiva aponta a necessidade de a diferença ser valorizada e afirmada “dentro de uma política crítica, de compromisso e de justiça social” (MCLAREN, 2000, p. 123) por parte do Estado e da sociedade nacional. Sob este enfoque, propõe a elaboração e a implantação de políticas e modelos educacionais pluralistas que reconheçam e valorizem as diversas visões de mundo, as experiências históricas e as contribuições diferentes de povos para formar a nação.
40 Apresenta essa teoria não como forma alternativa à corrente que descreve como lúdica, mas como um meio de extensão de suas críticas. O pós-modernismo de resistência “traz à crítica lúdica uma forma de intervenção materialista, uma vez que não está embasada em uma teoria social da diferença, mas, em vez disso, em uma teoria que é social e histórica” (MCLAREN, 2000, p. 68).
Assim, os quatro tipos de multiculturalismo, apresentados e sistematizados por McLaren, têm como foco de análise as relações étnico-raciais nas diversas esferas da sociedade, entre as quais a da educação. Considerando um denominador comum, esses tipos estão associados às propostas teóricas sobre como enfrentar os conflitos de modo a garantir a coesão social. Para tanto, destacam o papel significativo que o multiculturalismo pode desempenhar na elaboração e na orientação de políticas educacionais na atualidade. Nesse sentido, abrem um campo de ação que passa desde a negação total até a valorização e a afirmação das diferenças culturais.
Ciente das várias perspectivas no seio da corrente do multiculturalismo, optou-se por priorizar a do liberalismo de esquerda, pelas razões a saber: a) por ser uma corrente teórica postulada pelos pensadores liberais na tentativa de tornar as sociedades multiculturais mais justas e democráticas (SILVA, 2007); b) por ser bandeira de luta política de movimentos sociais pela democratização do acesso ao ensino superior, especialmente para os afrodescendentes e indígenas (GOMES, 2001) e c) por assumir a educação multicultural como um movimento de reforma curricular, tendo como objetivo fomentar “a tolerância cultural”41 (TORRES, 2001, p. 220).