2.4 Adaptive beamforming
2.4.7 Multibeam covariance matrix approach
Enquanto a experiência do fora é o método que fundamenta o modo como epistemologicamente o direito grego procurou ser observado nesta pesquisa, logo, não como experiência histórica, mas, antes, como experiência do diferente, do exterior, convém também estabelecer as premissas gnoseológicas do modo como se tentou resgatar a experiência jurídica grega. Partindo-se de um argumento importante, que se deixará melhor esclarecer no corpo do trabalho, que é a percepção de uma experiência jurídica essenἵialmenteΝ“ἶialogal”,ΝoΝmelhorΝinstrumentoΝἶeΝinvestigação que aqui se entende é o métoἶoΝ fouἵaultianoΝ ἶaΝ reἵuperaçãoΝ ἶosΝ “arquivos”,Ν ἶaΝ reἵuperaçãoΝ genealὰgiἵaΝ ἶasΝ práticas discursivas e dos enunciados construídos na episteme clássica. Se os papiros, as inscrições, os discursos dos (oradores), as poesias faladas e os enunciados filosóficos constituem a fonte normativa das investigações sobre o direito grego, então, um dos métodos historiográficos mais seguros de se aproximar da efetiva compreensão da
episteme greco-clássica é aquele que seja capaz de recuperar o elemento discursos de suas fontes: o método arqueogenealógico. Convém, antes de ingressar propriamente no método arqueogenealὰgiἵo,ΝqueΝembasaΝoΝmoἶoΝἵomoΝaΝ“experiênἵiaΝjuríἶiἵaΝgrega”ΝfoiΝobservaἶaΝ nesta pesquisa, bem assim nas críticas que Foucault empreende em relação à história, estabelecer algumas premissas das quais o autor parte para discutir uma teoria historiográfica.
Uma primeira chave-geral pressupõe compreender os enunciados, ainda que diferentes, organizam-se em torno de um único objeto, de modo a formarem um conjunto, umaΝuniἶaἶeΝprovisὰria,ΝtalΝoΝtermoΝlouἵura,Νsexualiἶaἶe,Νe,Νaqui,Ν“experiênἵiaΝjuríἶiἵa”έΝρΝ partir desta base, os conceitos se orientam, porém não se sistematizam a partir dela, e, sim, de transformações, de rupturas, da corriqueira descontinuidade de outros tantos objetos. Os outros objetos permitem com que os conceitos se dispersem e se repartam. Isto significa ἶizerΝ queΝ oΝ prὰprioΝ termoΝ “experiênἵiaΝ juríἶiἵa”,Ν ouΝ quiseraΝ ἔouἵaultΝ aΝ “louἵura”,Ν oΝ “poἶer”,Ν ouΝ mesmoΝ aΝ esἵrituraΝ ἶeΝ suaΝ histὰriaΝ apresenta-se diversamente em contextos históricos distintos, de modo que a sua compreensão não se dá pela evolução, mas pela percepção da unidade que existe em seu núcleo em correlação com outros objetos. Esta unidade identificável e descrita historicamente, com todas as suas cisões e diferenciações de enunciados, não é produto da existência de uma unidade discursiva, e, sim, das regras que informam o modo como a unidade se apresenta e ao mesmo tempo se transforma. Se à historiografia tradicional cumpre investigar o objeto na história, a base foucaultiana busca, nas metamorfoses conceituais a compreensão de suas mudanças no tempo e no espaço, de suas negações, numa eterna descontinuidade e não linearidade.
De outro lado, é necessário estabelecer um grupo de relações entre diferentes enunciados, através do modo como se inter-relacionam para que a compreensão dos conceitos e seus encadeamentos apareça. Isto significa partir da idéia de que os conceitos não se relacionam apenas pelas percepções ou pela conjugação das mesmas regras, mas a partir de protocolos específicos de experimentação, estatísticas etc. Investigar um objeto histὰriἵo,ΝtalΝaΝ“experiênἵiaΝjuríἶiἵaΝgrega”,ΝpressupὴeΝtentarΝἵorrelaἵionamΝosΝἶiferentes enunciados que emanam das mais plurais fontes cognitivas que se tem acesso e das mais variadas formulações subjetivas.
Contudo, essa busca pela unidade conceitual não se constrói apenas pela identificação de similitudes e diferenças, mas pela valorização da incompatibilidade conceitual que possa existir entre a unidade investigada e outras esferas objetivas. Logo, a
unidade discursiva só pode aparecer pela análise das aparições sucessivas do conceito, de sua natural dispersão. Não haverá unidade se não se recorrer a um jogo incessante de aparições e destruições conceituais. Por isso, os enunciados não permitem uma reorganização sistemática e previsível, linear, senão o acaso do momento, quando as dispersões voltem a se reunir. Assim, a análise conceitual de um objeto histórico depende de uma estratégia, ou, de estratégias, que imprima a necessidade de investigações de diferentes níveis de formulações, dos diferentes níveis de coerência e de persistência temática.
O método historiográfico foucaultiano parte deste privilégio que se deve dar aos enunciados fragmentados e dispersos, de modo que uma eventual unidade só se estabelece pelaΝreἵobertaΝἶeΝumΝ“arquivo”έΝζãoΝfoiΝàΝtoaΝqueΝἕillesΝDeleuze112 chegou a chamá-lo de umΝ “novoΝ arquivista”έΝ UmΝ arquivistaΝ ἶeΝ enunciados, que se sobressaem às frases ou às proposições, e que estão em diferentes níveis de visibilidade e inscritos em diferentes práticas sociais e científicas. Isto é um dado importante para a análise do direito grego, vez que a valorização exclusiva da filosofia, ou da literatura, ou das fontes epigráficas, dos “experts”Ν etἵέΝ nãoΝ permitiriaΝ ἵonstruirΝ umaΝ possívelΝ uniἶaἶeΝ juríἶiἵaΝ ἵonἵeitualΝ sobreΝ oΝ fenômeno normativo grego.
ἔouἵaultΝparteΝἶaΝpremissaΝqueΝosΝenunἵiaἶosΝsãoΝ“multipliἵiἶaἶes”,Νmarἵaἶos por um espaço de raridade, referindo-se ao que é realmente dito. Enquanto as frases (natural dos métodos historiográficos clássicos) permitem contradições e abstrações, os enunciados jamais se ampliam, porque não possuem um conteúdo latente, que multiplica seu sentido e queΝseΝofereἵeΝàΝinterpretação,ΝformanἶoΝumΝ„ἶisἵursoΝoἵulto‟έΝηsΝἵonἵeitosΝpossuemΝumaΝ regularidade, mas também apresentam curvas que precisam ser trabalhadas, e não uma relação mediana entre elas.113 Se o enunciado é rarefeito e não se multiplica, embora
112 DELEUZE, Gilles. Foucault. Paris: Les Éditions de Minuit, 1986, p. 11-12. “UnΝnouvelΝarἵhivisteΝestΝ
nomméΝ ἶansΝ laΝ villeέΝ δeΝ nouvelΝ arἵhivisteΝ annonἵeΝ qu‟ilΝ neΝ tienἶraΝ plusΝ ἵompteΝ queΝ ἶesΝ énonἵésέΝ IlΝ neΝ s‟oἵἵuperaΝpasΝἶeΝἵeΝquiΝfaisait,ΝἶeΝmille manières, le soin des archivistes précédents: les propositions et les phrasesέΝIlΝnégligeraΝlaΝhiérarἵhieΝvertiἵaleΝἶesΝpropositionsΝquiΝs‟étagentΝlesΝunesΝsurΝlesΝautres,ΝmaisΝaussiΝlaΝ latéralité des phrases où chacune semble répondre à une autre. Mobile,Ν ilΝ s‟installeraΝ ἶansΝ uneΝ sorteΝ ἶeΝ ἶiagonale,Ν quiΝ renἶraΝ lisibleΝ ἵeΝ qu‟onΝ neΝ pouvaitΝ pasΝ appréhenἶerΝ ἶ‟ailleurs,Ν préἵisémentΝ lesΝ énonἵésέΝ έέέΝ l‟arἵhivisteΝfaitΝexprèsΝἶeΝneΝpasΝἶonnerΝἶ‟exemplesέ”Ν[trad. br. FoucaultέΝΥtraἶέΝσlauἶiaΝSant‟ρnnaΝεartins)Ν São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 13-1δέΝ“UmΝnovoΝarquivistaΝsurgiuΝnaΝἵiἶaἶeέΝηΝnovoΝarquivistaΝanunἵiaΝqueΝ só vai se ocupar dos enunciados. Ele não vai tratar daquilo que era, de mil maneiras, a preocupação dos arquivistas anteriores: as proposições e as frases. Ele vai negligenciar a hierarquia vertical das proposições, que se dispõem umas sobre as outras, e também a lateralidade das frase, onde cada uma parece responder a outra. Móvel, ele se instalará numa espécie de diagonal, que tornará legível o que não podia ser apreendido ἶeΝnenhumΝoutroΝlugar,ΝpreἵisamenteΝosΝenunἵiaἶosΝέέέΝoΝarquivista,ΝἶeΝpropὰsito,ΝnãoΝἶáΝexemplosέ”].
113DELEUZE, Gilles. FoucaultέΝθarisκΝδesΝÉἶitionsΝἶeΝεinuit,Ν1ιθζ,ΝpέΝ1δέΝ“δ‟énonἵéΝenΝeffetΝneΝseΝἵonfonἶΝ
múltiplo, naturalmente tudo nele é real. Tudo o que se formula está ali, no momento em que foi constituído e não no momento de sua retomada. Por isso, para a produção de enunciados a originalidade não é o essencial, já que a singularidade lhe é inerente. Essa vaguidade dos enunciados permitem movimentos, transportes e recortes inusitados, de moἶoΝ queΝ nãoΝ umΝ lugarΝ paraΝ umΝ sujeitoΝ histὰriἵo,Ν senãoΝ “lugaresΝ ἶoΝ sujeitoΝ paraΝ ἵaἶaΝ enunἵiaἶoέ”114
O campo da verdade não é o lugar do enunciado para o do exercício de sua invoἵaçãoέΝθorΝisso,ΝoΝenunἵiaἶoΝeleΝnasἵeΝeΝpermaneἵeΝemΝseuΝ“espaço”,ΝenquantoΝesteΝ durar ou for reconstruído. Deleuze chega a mencionar a existência de ao menos três espaçosΝ funἶamentaisΝ emΝ tornoΝ ἶoΝ “enunἵiaἶo”Ν queΝ fazemΝ parteΝ ἶeΝ qualquer objeto histórico: a) um espaço colateral (ἔ‟espaceΝcoἔἔaἠéraἔ), formado por outros enunciados, que fazem parte do mesmo grupo, associado ou adjacente, razão pela qual se passa sempre de sistema em sistemas de enunciados e nunca se estabiliza uma estrutura única enunciativa; b) um espaço correlativo (ἔ‟espaceΝcorreἔaἠἑf), ambientado pela relação do enunciado com seus sujeitos, objetos e conceitos e não com outros enunciados, razão pela um enunciado se apresenta sempre múltiplo, porque há várias posições para assumir, seja autor, narrador, autor, narrado etc.; c) um espaço complementar (ἔ‟espaceΝcoἕpἔéἕeἠaἑre), gravado por uma fatia externa, de formulações não discursivas.115
Pela amplitude dos espaços a qual se subordinam os enunciados, permite-se sua repetição ao longo da história, embora com conteúdos muitas vezes completamente ἶistintosέΝDeleuze,ΝexemplifiἵanἶoΝisto,ΝafirmaΝqueΝquanἶoΝἶizΝqueΝ„asΝespéἵiesΝevoluem‟,Ν não há como perceber que tal enunciado não possa ser repetido, embora com conteúdo diverso – éΝfatoΝἶistintoΝparaΝDarwinΝeΝparaΝSimpson,ΝἶoΝmesmoΝmoἶoΝ„oΝlugarΝἶosΝlouἵosΝ éΝnoΝhospíἵio‟,ΝfatoΝἶistintoΝparaΝoΝséἵέΝXVIIIΝeΝparaΝoΝséἵέΝXIX116. De outro lado, as frases,
etΝplusΝgénéralementΝaveἵΝlesΝrèglesΝἶuΝἵhampΝoὶΝellesΝseΝἶistribuentΝetΝseΝreproἶuisentέ”Ν[trad. br. Foucault. ΥtraἶέΝ σlauἶiaΝ Sant‟ρnnaΝ εartins)Ν SãoΝ θauloκΝ ςrasiliense, 1988, p. 16] “ηΝ enunἵiaἶo,Ν ἵomΝ efeito,Ν nãoΝ seΝ confunde com a emissão de singularidades que ele supõe, mas com o comportamento da curva que passa na vizinhançaΝἶelas,ΝeΝmaisΝgeralmenteΝἵomΝasΝregrasΝἶoΝἵampoΝemΝqueΝelasΝseΝἶistribuemΝeΝseΝreproἶuzemέ”Ν
114DELEUZE, Gilles. Foucault. θarisκΝδesΝÉἶitionsΝἶeΝεinuit,Ν1ιθζ,ΝpέΝ1δέΝ“IlΝyΝaΝbienΝἶesΝ„plaἵes‟ΝἶeΝsujetΝ
pourΝ ἵhaqueΝ énonἵé,Ν ἶ‟ailleursΝ trèsΝ variablesέ”Ν [trad. br. FoucaultέΝ ΥtraἶέΝ σlauἶiaΝ Sant‟ρnnaΝ εartins)Ν SãoΝ Paulo: Brasiliense, 1988, p. 16]
115DELEUZE, Gilles. Foucault ..., p. 52 e segs.
116DELEUZE, Gilles. FoucaultέΝθarisκΝδesΝÉἶitionsΝἶeΝεinuit,Ν1ιθζ,ΝpέΝβίέΝ“EtΝmêmeΝἶeΝDarwinΝàΝSimpsonΝ
ilΝn‟estΝpasΝsίrΝqueΝl‟énonἵéΝresteΝleΝmême,ΝsuivantΝqueΝlaΝἶesἵriptionΝpourraΝmettreΝenΝvaleurΝἶesΝunitésΝἶeΝ mesure, des distances et des distribuitions, et aussi des institutions tout à fait différentes. Une même phrase- slogan,Ν „lesΝ fousΝ àΝ l‟asile!‟,Ν peutΝ appartenirΝ àΝ ἶesΝ formationsΝ ἶisἵursivesΝ entièrementΝ ἶistinἵtes,Ν suivantΝ qu‟elleΝ proteste,Ν ἵommeΝ auΝ XVIIIe, contre la confusion des prisonniers avec les fous; ou réclame, au
contraire, comme au XIXe,ΝἶesΝasilesΝquiΝsépareraientΝlesΝfousΝἶesΝprisionniersλΝouΝenἵoreΝs‟élèveΝaujourἶ‟huiΝ
ao contrário, não podem ser repetidas, mas recomeçadas, reevocadas, tal como as proposições, que só podem ser reatualizadas. Indo um pouco além, não apenas a unidade é fruto de espaços distintos enunciativos, mas a própria configuração de um enunciado depende sempre de uma relação específica com uma outra coisa de mesmo nível que ele, que pode ser um enunciado, mas que no limite é necessariamente outra coisa que não um enunἵiaἶoκΝéΝumΝ„laἶoΝἶeΝfora‟έΝρqui,ΝoΝexteriorΝqueΝseΝanunἵiaΝemΝἔouἵaultΝnãoΝpoἶeΝserΝ ἶeΝ moἶoΝ algumΝ vinἵulaἶoΝ àΝ exterioriἶaἶeΝ ἶoΝ “fora”,Ν ἵomoΝ experiênἵiaΝ epistemolὰgica, porque teria outro sentido.
A grande questão que Foucault coloca, portanto, é que este vasto campo enunciativo gravado pela multiplicidade dos enunciados, e a retomada de sua singularidade pressupõe entender que um enunciado não é apenas um produto do saber, mas de um saber combinado com as estruturas de poder. O autor entende que as singularidades dos enunciados constituem focos de poder; um conjunto de relações de força. Por isso, os enunciados, em sendo anteriores às frases ou proposições, que as supõem implicitamente, são formadores de palavras e objetos. O enunciado tem essa capacidade criadora de objetos e de palavras, de modo que qualquer regresso histórico deverá atentar a essas correlações entre saber e poder. Por isso, Deleuze afirma que para Foucault as formações discursivas sãoΝ verἶaἶeirasΝ prátiἵas,Ν ἶeΝ moἶoΝ queΝ “háΝ multipliἵiἶaἶesΝ rarasΝ nosΝ enunἵiaἶos,Ν ἵomΝ pontos singulares, lugares vagos para aqueles que vêm, por um instante, ocupar a função ἶeΝ sujeitos”117. O papel do sujeito nos enunciados é de grande valia (o que permitiu Foucault fugir ao estruturalismo) e apenas a sua compreensão, a noção de suas dimensões é que leva ao entendimento do fenômeno histórico. Porém, a compreensão do papel do sujeito é um segundo passo, que pressupõe a compreensão do próprio enunciado.
A inscrição do enunciado (a maneira de dizer) não é imediatamente visível; não se dá de forma tão manifesta quanto uma estrutura gramatical ou lógica. A análise de uma língua se efetua a partir de um corpus de falas e textos. Esse corpus é formado por palavras, frases e proposições escolhidas em torno dos focos difusos de poder (e de
Paulo: Brasiliense, 1988, p. 22] “EΝmesmoΝἶeΝDarwinΝaΝSimpsonΝnãoΝéΝἵertoΝqueΝoΝenunἵiaἶoΝpermaneçaΝoΝ mesmo, pois a descrição poderá enfatizar unidades de medida, de distância e distribuição, e até instituições, completamente diferentes. Um mesmo slogan,Ν „oΝ lugarΝ ἶosΝ louἵosΝ éΝ noΝ hospíἵio!‟,Ν poἶeΝ pertenἵerΝ aΝ formações discursivas completamente distintas, conforme proteste, como no século XVIII, contra a confusão dos presos; ou reclame, ao contrário, como no século XIX, asilos que separem os loucos dos prisioneiros; ou, ainἶa,ΝseΝforΝlevantaἶa,Νhoje,ΝἵontraΝumaΝevoluçãoΝἶoΝmeioΝhospitalarέ”
117 DELEUZE, Gilles. FoucaultέΝ θarisκΝ δesΝ ÉἶitionsΝ ἶeΝ εinuit,Ν 1ιθζ,Ν pέΝ βγέΝ “IlΝ yΝ aΝ seulementΝ ἶesΝ
multiplicités rares, avec des points singuliers, des places vides pour ceux qui viennent un moment y fonἵtionnerΝ ἵommeΝ sujets,Ν ἶesΝ régularitésΝ ἵumulables,Ν répétablesΝ etΝ quiΝ seΝ ἵonserventΝ enΝ soiέ”Ν [trad. br.
resistênἵia)ΝaἵionaἶosΝporΝalgumΝproblemaέΝζesseΝsentiἶo,ΝaΝἵompreensãoΝἶaΝ“experiênἵiaΝ juríἶiἵaΝ grega”Ν ἶeveΝ serΝ ἵarregaΝ ἶaΝ multipliἵiἶaἶeΝ enunἵiativa, e que, por trás, inevitavelmente, está um jogo disperso de poder. Por isso, o uso da filosofia não é de fato o melhor arcabouço teórico para a retomada do direito grego, já que o modo como a história tradicional a recuperou bem demonstra um exercício seletivo de poder. O uso da filosofia, nesta pesquisa, servirá como forma de enunciação e não de compreensão propriamente dita dos institutos jurídicos, ou seja, de investigação sobre o modo de agir normativo, porém sempre confrontado com os textos legislativos, quando possível.
Uma linguagem se relaciona a um corpus com o objetivo de ser uma forma de dispersão de enunciados, que permite o saber transformar-se em conhecimento. Por essa razão, Deleuz entende que os enunciados propiciam o distanciamento do conhecimento, haja vista que o seu objeto é o conjunto de multiplicidades desde logo definidas, isto é, “oΝ saber não é ciência, nem mesmo conhecimento: ele tem por objeto as multiplicidades anteriormente definidas, ou melhor, a multiplicidade exata que ele mesmo descreve, com seusΝ pontosΝ singulares,Ν seusΝ lugaresΝ eΝ suasΝ funçὴesέ”118 São justamente essas multiplicidades, de natureza discursiva ou não, com evidente teor histórico, que constitui a base do método arqueogenealógico. Eis porque Foucault parte dos enunciados, para reconstruir discursos, e por fim, para escrever história.
O enunciado, então, está na base dos discursos e se distancia nitidamente da noção de frase gramatical ou proposição lógica – vistas como unidade gramatical de elementos ligados por regras lingüísticas – vez que estas permitem apenas uma única interpretação, já que a lógica não admite senão o verdadeiro ou o falso, o correto ou incorreto, enquanto o enunciado, por ser um amálgama de signos, exteriorizados por frase ou proposição, não depende de juízos de interpretação, pois existem por si mesmo. Por isso, em δ‟ρrcἐéoἔogἑeΝ du Savoir, Foucault afirma que “oΝ enunἵiaἶoΝ nãoΝ é,Ν pois,Ν umaΝ estruturaΝ ΥistoΝ é,Ν umΝ conjunto de relações entre elementos variáveis, autorizando assim um número talvez infinito de modelos concretos); é uma função de existência que pertence, exclusivamente, aos signos, e a partir da qual se pode decidir, em seguida, pela análise ou pela intuição, se elesΝ„fazemΝsentiἶo‟ΝouΝnão,ΝsegunἶoΝqueΝregraΝseΝsuἵeἶemΝouΝseΝjustapὴem, de que são signos,ΝeΝqueΝespéἵieΝἶeΝatoΝseΝenἵontraΝrealizaἶoΝporΝsuaΝformulaçãoΝΥoralΝouΝesἵrita),”119.
118DELEUZE, Gilles. FoucaultέΝθarisκΝδesΝÉἶitionsΝἶeΝεinuit,Ν1ιθζ,ΝpέΝβθέΝ“δeΝsavoirΝn‟estΝpasΝsἵienἵeΝniΝ
même connaissance, il a pour objet les multiplicités précédemment définies, ou plutôt la multiplicité précise qu‟ilΝ ἶéἵritΝ lui-même, avec ses points singuliers, ses places et ses fonἵtionsέ”Ν [trad. br. Foucault. (trad. σlauἶiaΝSant‟ρnnaΝεartins)ΝSãoΝθauloκΝςrasiliense,Ν1ιθθ,ΝpέΝγίέ]
Inclusive, a partir desta percepção, Foucault chega a distinguir os lógicos dos gramáticos e dos filósofos que se dedicam a um pensamento analítico, porque o enunciado não é uma proprosição lógica, uma frase ou mesmo um ato interlocutório, e, o sujeito que o enuncia não pode ser identificado como alguém que intencionalmente o pronuncia por diferentes elementos de significação.
Foucault, então, compreende que, num determinado romance, é necessário sempre distinguir narrador e autor, segundo as posições enunciativas, ao contrário de um tratado de matemática ou física, em que a posição do sujeito da frase do prefácio não pode ser ocupada senão pelo próprio autor, que se dirige ao leitor a tão-somente explicitar as circunstâncias teóricas, pedagógicas, de nota de roda pé etc. do livro, vez que as proposição admitem indistintamente qualquer sujeito. De outro modo, os enunciados, por sua fluidez e maleabilidade, estãoΝ abertosΝ aΝ reἵepἵionaremΝ inήmerosΝ “sujeitosΝ ἶeΝ enunἵiação”,ΝaΝpontoΝἶeΝserΝimpossívelΝἶefinirΝa priori o sujeito de um enunciado, não ao menos de modo imutável, assim como ocorre com proposições lógico-matemáticas. Essa maleabilidade é fundamental para se reconstruir ou enunciar institutos e modos de agir normativo no mundo greco-classico. Descurar desta brandura dos enunciados significa acreditar que verdades poderiam ser amplamente formuladas sobre os gregos, desconsiderando, naturalmente, os sujeitos envolvidos na enunciação.
Quando Arnaldo Biscardi,120 a partir de Demóstenes (como em breve se verá), por exemplo, procurou afirmar que nas linhas sucessórias de parentesco tudo indicava que os ascendentes talvez fizessem parte, certamente é indispensável pensar nos sujeitos de enunciação, à medida que a base seria uma suposta lei solônica, e, o seu autor, gozava de imenso prestígio à época. Porém, carregar de verdade o que Biscardi disse, e mesmo também no que Paoli lhe teria precedido, seria sobrevalorizar o lugar do sujeito da enunciação, quando, talvez nada realmente afirme que isso acontecia. O lugar do sujeito é determinado, porém vazio, aceitando, naturalmente, a ocupação subjetiva por diferentes indivíduos, o que não ocorreria com o sujeito das proposições. O que a historiografia tradicional se esquece é desta rigidez que as proposições têm, e, afirma categoricamente que os textos gregos guardavam verdades, e, sobrevalorização das proposições lógicas em detrimento dos enunciados. Eis porque, Foucault, neste mesmo ensaio do final dos anos sessenta, assume que os enunciados não possuem memória, e, sim, funções, isto é, o
120 BISCARDI, Arnaldo. La successione legittima degli ascendenti nel diritto ereditario panellenico: uno
spunto epigrafico del VI o V secolo a.C. In.: Scritti di diritto greco. (a cura di Eva Cantarella e Alberto
“enunἵiaἶor”ΝnãoΝpoἶeΝserΝἶesἵritoΝἵomoΝoΝinἶivíἶuoΝqueΝteriaΝefetuaἶoΝἵonἵretamenteΝasΝ operações, sem rupturas e descontinuismos, mas sob suas diferentes manifestações, de acordo com o lugar que exerce.
Isto significa que a função enunciativa se exerce sempre dentro de um domínio associado, marcado por intrínsecas relações de poder, da época ou do presente, ao contrário das proposições, que podem ser vistas isoladamente, na ausência de um contexto que lhes embase. Os enunciados são, por excelência, associativos, o que empurra, inevitavelmente, o pesquisador do mundo greco-clássico a valorizar e contemporizar interpretações filosóficas, juntamente com textos epigráficos e papiros, sem descuidar dos discursos logográficos e das obras literárias. Uma mesma frase não é sempre o mesmo enunciado se pronunciada num discursos no tribunal, numa obra tragicômica, ou na α (praça). Não existem enunciados neutros e independentes. Por isso repensar os institutos gregos é um exercício de intersecção constante entre fontes, de modo que não há fonte efetivamente precisa ou verdadeira. Tudo dependerá do modo como se recobrirá o mundo clássico. Isso ἶeixa,ΝἵomoΝvisto,ΝtambémΝumΝlugarΝparaΝverΝosΝgregosΝἵomoΝumaΝ“experiênἵiaΝἶoΝfora”,Ν ἶoΝ“novo”,ΝἵomoΝseΝἶestaἵaἶoΝἶaΝexperiênἵiaΝhistὰriἵaΝqueΝexistiuέ
Contudo, não se pode confundir, na esteira da base foucaultiana, „enunἵiação‟Ν e