Appendix A Råvarer
SIGMA-ALDRICH
O Ministério da Educação e da Cultura, em um texto sobre “Solidariedade” (ASSMANN e SUNG, 2000), define que “ser solidário é, efetivamente, além do respeito, partilhar de um sentimento de interdependência, reconhecer a pertinência a uma comunidade de interesses e afetos – tomar para si questões comuns, responsabilizar-se pessoal e coletivamente por elas” (p.70). Esta afirmação coincide com a consciência de pertencer, trabalhada por Martin-Baró (1989), que gera identificação e compromisso.
Podemos reconhecer que uma das origens deste pensamento está em Weber (1917, apud SAWAIA, 1996). Segundo Sawaia (1996), o sociólogo teceu reflexões sobre as relações sociais solidárias, que foram por ele divididas em dois grupos: o da Comunalização e o da Sociação. O primeiro envolve as relações afetivas, radicadas no sentimento subjetivo de pertencer, que fundamentam as relações familiares, de vizinhança e de fraternidade religiosa. A Sociação remete-se a um “compromisso de interesse motivado racionalmente (em valor ou finalidade) e resultante de vontade ou opção racionais, mais que na identificação afetiva.” (Ibidem, p.41).
O pedagogo Lawrence Kohlberg (Apud ASSMANN e SUNG, 2000), afirmou em sua tese sobre desenvolvimento moral que poucas pessoas atingem a “maturidade ética exigida por uma consciência solidária universal” (p.37). Com isso, propunha um tipo ideal de “consciência de si” que a humanidade deveria atingir, e uma educação que pudesse trabalhar para a superação de suas limitações éticas. Mas, para Assmann e Sung (2000), seria mais apropriado considerar que existem limitações comprovadamente difíceis de se superar, portanto a educação deveria trabalhar com enfoques menos exigentes quanto ao agir humano comum e cotidiano. Na opinião dos autores, a teoria da linguagem e da ação comunicativa de Habermas permite visualizar saídas, ao sugerir que os seres humanos são negociadores de linguagens em busca de coincidências comunicativas. Em sua obra, o tema da solidariedade é relacionado a essas negociações lingüísticas, que representam o cerne da Ética do Discurso de Habermas.
De toda maneira, os autores concordam com a definição adotada pelo MEC ao concluírem que “(...) a solidariedade como atitude, ou a solidariedade como uma questão ética, nasce do reconhecimento de que a solidariedade/interdependência é um fato, uma necessidade para a vida e na sociedade” (Ibidem, p.75), e chamam atenção para o fato de que esta noção de interdependência não faz parte do cotidiano de muitas pessoas. A explicação
dos autores para a falta desta noção, reside na cultura do individualismo, ou seja, numa “(...) visão fragmentada da realidade, com um individualismo exacerbado, incentivo unilateral à concorrência, diminuição da importância da identidade nacional e do compromisso com a construção de um futuro melhor, entre outras características (...)” (Ibidem, p.79) – que seria responsável por dificultar a consciência da importância da interdependência e da coesão social. Este reconhecimento seria “o primeiro passo para uma atitude de solidariedade ativa.”(Op.Cit., p.81).
Sennett (Apud OLIVEIRA, 2000, p.22) afirma da mesma forma que os laços sociais se consolidam essencialmente através da noção de mútua dependência, e que é sobre esta base que a confiança e o compromisso mútuos, fundamentais para todo projeto coletivo, se constroem.
Edgar Morin (Apud ASSMANN e SUNG, 2000, p. 84), na perspectiva da teoria da complexidade, afirma de maneira semelhante que a ausência desta percepção enfraquece o sentimento de responsabilidade coletiva e o de solidariedade, definida por ele como sentimento de estar vinculado a outros que compartilham a mesma sociedade.
Em suma, os autores concordam que a percepção e consciência de interdependência estão relacionadas a uma atitude de solidariedade. Como estamos lidando neste instante com a teoria da complexidade, vale esclarecer que embora os autores possuam uma visão de solidariedade relacionada à ética global, e proponham ações com esta perspectiva, não desconsideram a solidariedade praticada dentro de um grupo específico:
“Restringir o campo da interdependência ao pequeno grupo é um caminho mais fácil para perceber e se viver a prática de solidariedade. Mas, na medida em que este grupo se fecha ao sistema mais amplo dentro do qual vive e age, considerando-se como uma parte autônoma e independente, perverte as noções de interdependência e de solidariedade, o reconhecimento de que vivemos todos em relações de interdependência e que o presente e o futuro de cada um/a está ligado ao presente e ao futuro da coletividade.”(Ibidem, p. 85).
Esta afirmação sugere uma prática solidária que transcende a esfera do local imediato, vinculando-a ao âmbito do global, da sociedade de uma forma mais ampla.
Voltando ao texto do MEC, os autores fazem uma referência a essa definição: “É necessário considerar, também, as diversas formas de ser solidário. (...) Uma delas (...), diretamente relacionada com o exercício da cidadania, é a da participação no espaço público, na vida política. (...) É importante que um aluno perceba que pode ser solidário tanto ao
ajudar um amigo doente, que necessita momentaneamente de auxílio, como ao lutar por um ideal coletivo da sociedade”. (Op.cit., p.70).
A tese de Fortunato (1998) A categoria solidariedade humana no pensamento de Kropotkin, analisou obras do anarquista russo Kropotkin, descobrindo a solidariedade como cerne de toda sua obra e da proposta do movimento anárquico:
“Solidariedade, afirma, pressupõe relação igualitária, justa e livre entre todos os membros de uma mesma sociedade e sua prática foi aprendida e desenvolvida no decorrer dos tempos, quando se criava as organizações sociais passadas.” (p.124).
Kropotkin (Apud FORTUNATO, 1998), biólogo e filósofo social, viveu entre os anos de 1840 e 1920, e dentre diversas atividades no movimento anarquista, trabalhou com Ferrier na definição da educação libertária. Revela a dimensão da interdependência ao definir que a liberdade do homem depende da liberdade dos demais, e que, da mesma forma, o desenvolvimento do indivíduo acontece mediante o compromisso com o desenvolvimento dos outros indivíduos (Ibidem, p.17). Esta relação de mútua dependência torna-se essencial para um processo de transformação social. A autora diz que por trás desta relação está a solidariedade humana, a qual, embora não seja suficiente para tal projeto anárquico, se mostra como o caminho e a finalidade principal deste. Segundo a autora, Kropotkin se apóia na categoria de solidariedade humana para construir sua proposta de ação revolucionária. Propõe uma interpretação particular do evolucionismo de Darwin, substituindo competição por solidariedade.
O trabalho de Abdalla (2002), apóia-se também numa explicação evolucionista do princípio da cooperação, advogando que a continuidade da existência da espécie humana depende de substituir a racionalidade competitiva do mercado por uma racionalidade cooperativa, fundada em novas relações entre os homens, e destes com a natureza. Essa transformação se daria por uma práxis (reflexão-ação), no sentido da ação histórica, e, tal como Oliveira (2001), o autor acredita que este é um movimento que já foi iniciado através das experiências dos grupos autogestionários de trabalho, que fogem às regras da exploração e da produção capitalista.
A solidariedade aparece também relacionada com a autogestão em Kropotkin (Apud FORTUNATO, 1998), no sentido de rejeição à autoridade aliada a uma defesa de valores morais e a uma crítica ao liberalismo. A preocupação do autor era compreender por que os homens se unem, e ele mostra, com base em estudos da evolução dos animais e do progresso
humano, que a solidariedade foi mais importante que a luta mútua, no processo de evolução. Isso se contrapõe ao “darwinismo social”, teoria criada pela burguesia, que se baseia na lei do mais forte. Com isso, ele buscou demonstrar que nas sociedades sempre existiram potencialidades, tendências de comportamentos sociais que dispensam o sistema competitivo e autoritário e geram a possibilidade de se criar uma sociedade ácrata.
Na sua perspectiva evolucionista, o filósofo anarquista observou que entre diferentes espécies, e na própria história da humanidade,
“a prática do apoio mútuo oferece melhor proteção contra inimigos; maior facilidade a obtenção de alimentos; prolonga anos de vida; facilita o desenvolvimento das faculdades intelectuais – que auxiliam ainda mais a humanidade a sobreviver na luta dura contra os fenômenos naturais e sociais, a autoperfeiçoar-se, apesar de todas as vicissitudes da história. Além do mais, as espécies que, voluntária ou involuntariamente renunciaram à prática da solidariedade, estão condenadas à extinção.” (FORTUNATO, 1998, p.123).