Comunicar é um ato caraterístico do Homem que envolve signos e códigos, transmitindo mensagens e gerando significações na mente do recetor da informação (Fiske, 1998). Mas essas mensagens são transmitidas por um canal de informação, que as encaminha até ao recetor. Esses
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meios de propagação de informação foram variando ao longo dos séculos, e hoje existe uma panóplia de meios que direcionam os factos até ao leitor. Acredita-se que a comunicação se formalizou numa tentativa de estabelecer contacto com outros seres vivos da mesma espécie, muito antes de a linguagem ser uma forma de originar pensamento (Harrub, Thompson & Miller, 2003). O avanço tecnológico acarretou novas formas de comunicar e alterou as linguagens pela qual a troca de signos e códigos acontece. Apareceram as rádios, mais tarde a televisão e, ainda mais recente, a Internet. Para cada meio existe uma linguagem, como a radiofónica e a televisiva. Ou seja, os média alcançaram novos desafios, como consequência das novas potencialidades dos meios de comunicação. Mas o online também criou uma nova linguagem. Se, inicialmente, os conteúdos na web eram transpostos diretamente para os sites de notícias, agora assiste-se a uma exploração das potencialidades que o meio permite, criando-se notícias específicas para a web. Caminha-se, assim, para narrativas com som, texto e imagem, encadeadas com lógica a partir de hiperligações, isto é, híbridas. São, assim, notícias distintas de meio para meio, consequentes da consciencialização e domínio das ferramentas online (Santaella, 2012).
Quando falamos de hibridez das linguagens, referimo-nos ao cruzamento das mesmas, ou seja, à mistura de várias linguagens, como a sonora, textual, visual, entre outras. Este cruzamento permite uma criação original de apresentação dos conteúdos ao leitor. Tal como Lorenz (2014) refere, a mudança permite aos meios a sua reconfiguração, realinhamento e revalidação, e a hibridez das linguagens encaminha o jornalismo para estas situações. As pessoas têm cada vez menos tempo para a leitura e a Internet é cada vez mais visual. As linguagens ganham, assim, um novo papel, e são exploradas novas potencialidades (Santaella, 2012).
Os média tiveram de se adaptar às novas ferramentas de acesso à informação. O telemóvel passou a ser a tecnologia mais utilizada para aceder a conteúdos jornalísticos, pela sua facilidade de acesso (ERC, 2015). As legendas, daquilo que os entrevistados dizem na narrativa em vídeo, auxiliam o leitor a consumir o conteúdo em qualquer lugar, a qualquer hora, mesmo quando, por exemplo, é impossível escutar a componente sonora. Essa é uma das possibilidades que a hibridez acarretou para o jornalismo, em consequência das novas potencialidades do meio online. As ferramentas disponíveis para criar narrativas vieram mudar o paradigma da comunicação, especialmente com o aparecimento do Facebook, Instagram, e demais redes sociais. Segundo o
Digital News Report,
em setembro de 2019, a Internet já tinha chegado a 78% da população portuguesa.72
A população portuguesa mostrou ser, nesse mesmo ano, a que mais confiança tem nas notícias, face aos demais países analisados pelo Digital News Report (2019). Se a informação é mediada pelo computador ou telemóvel, comprova-se o papel relevante do visual nas narrativas que marcam a atualidade (Bianco, 2004). Com estas ferramentas, o jornalismo enveredou pela convergência, termo que se aplica à nova era do jornalismo em diferentes sentidos: entre o emissor e o recetor da informação; das linguagens perante um só meio, o online; de notícias e informações vindas de várias plataformas (multiplataforma) (Doudaki & Spyridou, 2014; Santos, 2018). Ou seja, a convergência assume-se como um construtor multidimensional que envolve componentes tecnológicas, de negócios, de culturais e editoriais que afetam os conteúdos jornalísticos (Doudaki & Spyridou, 2014).Um estudo analisou a forma como os conteúdos passaram a ser apresentados pelos meios rádio, imprensa e televisão no online, à luz da hibridez. Nesse estudo, analisou-se a
TSF,
aTVI24
e oJornal de Notícias
e contabilizou-se, durante trinta dias, a primeira notícia publicada nos sites de cada meio, entre o dia 10 de maio e o dia 10 de abril de 2018 (Freitas & Rodrigues, 2018). Depois de se reunir 90 notícias, todas foram sujeitas a uma grelha de análise, a fim de se proceder à análise estatística dos resultados. Procedeu-se ao cruzamento dos dados com um inquérito à população, a partir de uma amostra de 126 respostas. A maioria da amostra afirmou consultar notícias através do online (59%). Mas, da análise às notícias publicadas nos média analisados, foi possível perceber-se que todos os meios de comunicação apresentavam as notícias de forma diferente do que é veiculado na linguagem mãe, isto é, na rádio (TSF
) imprensa (JN
) e televisão(TVI
). O jornal estudado apresentava no online notícias construídas através de texto e imagem estática (67%). A componente visual servia de âncora ao texto, ou seja, espelhava a realidade retratada pelas palavras. A imagem assumia-se capaz de retirar o lado subjetivo das palavras. Mas estas duas linguagens não atuavam em separado, elas completavam-se e supriam as suas debilidades. A amostra do estudo referiu a sua preferência pela consulta de jornais online, em relação às rádios ou televisões para a consulta de informação. Os inquiridos justificam a preferência pelo acesso facilitado, em qualquer momento do dia, e em qualquer lugar, por essa associação de ambos os elementos (Freitas & Rodrigues, 2018). Este comportamento observava- se nas notícias doV Digital
. A rádio aparece como o meio que mais carece de integrar a componente sonora nos seus conteúdos online. Talvez pela sua ligação à linguagem mãe – o som. No caso doV Digital
, verificou-se o cruzamento de linguagens num só conteúdo – ou seja, num vídeo, observa-se a linguagem sonora, escrita e visual. A rádio, assim como aTV
e os jornais online, utilizam cada vez mais a hibridez. No entanto, as linguagens não se cruzam na produção73
em bloco, mas interligam-se. Torna-se interessante verificar que a linguagem sonora está incutida nas narrativas em forma de discursos das fontes de informação. Ao invés de passarem para palavras aquilo que têm em som, colocam-nos em bruto, para atestar credibilidade à peça (Freitas & Rodrigues, 2018).
Já a televisão online foi a que mais conseguiu desprender-se da sua forma de apresentação, face àquilo que assistimos através do televisor da nossa casa (Freitas & Rodrigues, 2018). Deixam de parte, na maioria dos conteúdos analisados no estudo, o vídeo e produzem conteúdos adequados à web. O texto descrevia os fenómenos e a imagem servia de âncora ao que as palavras escritas dizem. Mas quando apresentavam vídeo, em nenhum deles foi observada a colocação de legendas –uma prática do
V Digital
– para colmatar a debilidade da componente sonora, podendo afastar o leitor de aceder à informação por não poder escutá-la. O mesmo acontece noJN Online
, quando produz os seus vídeos. Além dos oráculos que sintetizam ideias chave, toda a demais informação veiculada pela linguagem sonora requer que se ouça. E o leitor mostra cada vez menos predisposição para escutar (Freitas & Rodrigues, 2018).Numa entrevista realizada por Madalena Oliveira, docente da Universidade do Minho, no Dia Mundial da Rádio, a Fernández Sande 13, professor e investigador da Universidade Complutense de Madrid, foi dada ênfase a este fenómeno decorrente da era digital. Refere que é difícil definir se há menos predisposição para escutar, mas afirma que há mais ruído na comunicação digital. Embora Manuel Fernández Sande se tenha mostrado concordante com o facto de haver uma forte cultura da imagem no online, não descura o papel do sonoro. As pessoas gravam mais sons, sabem mais facilmente editá-los. “Penso que não se escute mais do que antes. Ouve-se mais, mas escuta-se menos”, frisou. Há, assim, a adição de camadas de significado através da inserção de várias linguagens num só conteúdo, que auxiliam na captação da informação de forma eficaz (Deuze, 2017). Essas camadas de significação são cada vez mais amplas e o visual ganha um poder crescente, no sentido de clarificar aquilo que as palavras e o som transmitem. Embora as imagens possam também ser realidades construídas, o certo é que estabelecem a ponte do subjetivo das palavras, com o objetivo daquilo que os olhos observam. É por isso que, deste estudo, sobressai também o predomínio de fotogalerias e de infografias. Estas últimas aparecem essencialmente nos assuntos com maior quantidade de dados que, por palavras, poderão ser de difícil compreensão (Quatter & Gouveia, 2009). Além disso, é através da linguagem visual que a
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população portuguesa mais acede à informação. Segundo um estudo da ERC, levado a cabo em 2015, o vídeo foi a modalidade pela qual os leitores portugueses mais acederam à informação (55%), assim como a imagem (28%). Mas é na questão mais estética que se defende a existência do papel preponderante da linguagem visual, perante elementos sonoros ou textuais. No meio televisão, o visual é, claramente, a linguagem mais poderosa, isto porque o telespetador prende- se às imagens que são guiadas pela componente textual e narração jornalística. Com isto, é possível superar as limitações de uma certa linguagem. Esta mistura aproxima-se da definição de
Storytelling
, isto é, da narrativa literária (Kress, 2010). A mistura das linguagens visa combater as debilidades das outras linguagens, completando-se. A componente visual colmate o vazio das palavras escritas que aparecem nos jornais, a ausência da visualização de cenários e personagens de uma reportagem radiofónica, entre outros (Kress, 2010).“Ler, assistir, ouvir pesquisar, monitorizar, clicar, linkar, partilhar, gostar, recomendar, comentar” são algumas das palavras que descrevem o novo comportamento do consumidor face à nova forma de comunicar na web (Deuze, 2017, p.20). Se há esta possibilidade de interação do leitor com os conteúdos, os jornalistas têm que possuir ferramentas que ofereçam essa interatividade. E isso vê-se também pelo fenómeno da hibridez, não das linguagens, mas antes da pluralidade de plataformas onde as notícias estão. Ao mesmo tempo, a mesma produção noticiosa pode assumir caraterísticas que permitem a interação diferente de consumidor para consumidor, tornando-se, assim, multimédia (Deuze, 2017). Todas estas caraterísticas, ou fenómenos de hibridez consequentes da hibridez, têm gerado mudanças no paradigma da comunicação, onde as notícias permitem a hipertextualidade, interatividade, multimedialidade, ubiquidade, memória, e personalidade (Deuze, 2017). Cada leitor passou a conseguir escolher o seu próprio caminho, tal como comprovado com a caraterística do webjornalismo, a interatividade. Mas esse atributo implica maior responsabilidade para os órgãos de comunicação. Estes passaram a assumir uma postura diferente perante o online. Ao mesmo tempo, o novo público do jornalismo procura por conteúdos que evoquem as emoções e, para tal, a hibridez das linguagens tem encaminhado o jornalismo para o despertar de múltiplas sensações – auditivas e visuais – cada vez mais intenso (Deuze, 2017; Santos, 2018). Embora a hibridez se tenha evidenciado com a digitalização da comunicação, o certo é que não criou processos inéditos, mas antes aprimorou-se face a outros suportes. Na web, um conteúdo integra múltiplos formatos e linguagens, que antes só existiam em separado (Barretos, 2016).
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Com isto, pode-se inferir que a digitalização melhorou os processos de captação e tratamento de som e imagem, assim como da informação, que passou a ser trabalhada através de novos olhares. As tecnologias online foram os motores desta transformação, fazendo emergir novos autores, empresas e até ideias que têm encaminhado o jornalismo para a evolução e maior criatividade (Canavilhas, 2015). A integração de vários conteúdos num só produto informativo fomentou o aparecimento de novos formatos, que pautam as diferenças entre os meios tradicionais e os digitais. “Pela sua visibilidade, a convergência de conteúdos é, por assim dizer, o resultado final de todas as restantes formas de convergência, sendo igualmente a mais visível para os consumidores” (Canavilhas, 2015, p.33).