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A imagem do casarão reporta-se à Fazenda que originou o bairro de Ibitiruna, antigo bairro Serra Negra, e abaixo o registro de uma população antiga. Em Ibitiruna muitos moradores residiam na fazenda, e com isso havia uma vida social em torno do trabalho na terra e festas tradicionais. Nas imagens temos o registro de um senhor antigo, que todos conheciam; depois, a imagem de outro morador, que com seus cachorros gostava de caçar, e adiante a imagem da Jardineira. A jardineira apareceu em diversos depoimentos, pois foi o meio de transporte utilizado pelos moradores dos bairros rurais no passado. Em particular, em Anhumas, esse meio de transporte foi utilizado até 1990. Um morador nos contou que as jardineiras transportavam de tudo, até galinhas e mantimentos os moradores carregavam. Imagens cedidas por uma moradora de Ibitiruna. Anhumas/Piracicaba –SP, 31/05/2012. Por Alice Miguel de Paula Peres.

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No próximo capítulo, damos ênfase aos aspectos que explicam as transformações na configuração do bairro, e na forma como os moradores sentiram e vêm sentindo as mudanças em curso. Demos atenção aos aspectos estruturais que foram sendo revelados nas narrativas, e seguimos na compreensão do fenômeno reportando-nos também à relação entre sujeito e subjetividade.

3. O Bairro de Anhumas:

a grande transformação

3.1 A modernização da agricultura e seus aspectos destrutivos

Lembremos inicialmente que as transformações sociais podem ser compreendidas de diferentes perspectivas. Mas por aqui vamos considerar o movimento geral de expansão do capital e suas desventuras. À luz dessas preocupações, Luxemburgo (1985) deu ênfase à força das relações capitalistas sobre os espaços sociais, indicando que, ao avançar pelos territórios, o capital inicia uma jornada de desarticulação de uma base social formada como comunidade. Vamos às considerações da autora:

[O] capitalismo combate e suprime, onde pode, a economia natural, a produção de subsistência e a forma combinada da agricultura com o artesanato, implanta em seu lugar a economia mercantil. O capitalismo necessita da economia mercantil para vender sua própria mais valia. A produção mercantil é a forma geral, que permite ao capitalismo desenvolver-se. Uma vez expandida a produção mercantil sobre as ruínas da economia natural, inicia-se a luta do capital contra essa última. O capitalismo passa a concorrer com a economia mercantil; após dar-lhe vida, disputa- lhe seus meios de produção, sua força de trabalho e seu mercado. Seu objetivo inicial era isolar os produtores, desliga-los da proteção da comunidade, separar, depois, a agricultura do artesanato, e separar, por fim, os pequenos produtores mercantis de seus meios de produção. (LUXEMBURGO, 1985:275)

Sobre esse movimento expansivo, Taussig (2010) então explicou como as relações de uma organização camponesa podem representar uma resistência, mas por esse mesmo motivo deveriam ser combatidas e eliminadas. Vamos às suas explicações:

Porque a economia capitalista não foi desenvolvida com base em fazendas comerciais de camponeses? Porque ela se desenvolveu por meio de grandes propriedades e do trabalho assalariado? A organização social dos camponeses colocava um obstáculo às instituições capitalistas. O trabalho na terra era coberto com um labirinto de relações intensamente pessoais baseadas em diversas obrigações e direitos entrelaçados a um sistema de parentesco de uniões matrimoniais múltiplas. De certa forma, os camponeses produziram para o mercado nacional, mas consumiam poucas das mercadorias disponíveis nesse mercado. Eles não eram capazes nem zelosos quando se tratava de expandir excedentes. Sem linhas claramente delineadas pela propriedade privada no sentido burguês moderno, os camponeses eram refratários às instituições e aos estímulos financeiros que satisfaziam e atraíam as classes dominantes. Os laços camponeses de parentesco e de povo significavam que a acumulação capitalista era uma impossibilidade virtual. Riqueza, e não capital, pode ser acumulada, mas apenas para ser dividida com as próximas gerações. É obvio que o capital comercial podia coexistir com essa forma de organização social, mas desde que a acumulação de capital nacional começou a demandar um mercado doméstico cada vez maior, os camponeses que continuaram a

praticar a autosubsistência eram um obstáculo ao progresso. Qualquer que tenha sido o intricado cálculo do sistema emergente, seu primeiro impulso foi destruir uma forma de organização social baseada em um modo não mercantil de uso e divisão da terra. (Taussig, 2010:112-113)

Esse embate entre economia natural e camponesa e o capital foi aprofundado também por Harvey (2011), que chamou a atenção para alguns aspectos dessas tensões. Segundo o autor, a desarticulação de uma economia natural, mercantil ou camponesa, ocorre de diferentes formas, e nesse processo o resultado pode ser tanto a destruição de disposições pré- capitalistas, como a cooptação dessas disposições pelas novas relações de produção. Vamos ao autor:

[...] O processo de proletarização, por exemplo, envolve um conjunto de coerções e apropriações das capacidades, relações sociais, conhecimentos, hábitos de pensamento e crenças pré-capitalistas da parte dos que são proletarizados. Estruturas de parentesco, organizações familiares e domésticas, relações de gênero e autoridade (incluindo as exercidas por meio da religião e de suas instituições) – tudo tem seu papel a desempenhar. Em alguns casos, as estruturas preexistentes têm de ser violentamente reprimidas como incompatíveis como o trabalho sob o capitalismo, porém múltiplos relatos sugerem hoje que há a mesma probabilidade de serem cooptadas, numa tentativa de forjar alguma base consensual, em vez de coercitiva, de formação da classe trabalhadora. Em suma, a acumulação primitiva envolve a apropriação e a cooptação de realizações culturais e sociais preexistentes, bem como o confronto e a supressão. As condições de luta e formação da classe trabalhadora variam amplamente [...] (HARVEY, 2011: 122)

Como todos esses autores levantaram, esse processo não é linear; ele se desenvolve de forma desencontrada no tempo e espaço, e, como um desenvolvimento desigual, aprofunda a heterogeneidade e as contradições sociais quando estamos imbuídos de um olhar panorâmico do território e da história. Como um exemplo, podemos aqui nos recordar das contribuições de Polanyi (1980), quando considerou que a economia de mercado desarticulou as organizações sociais pretéritas, sobretudo com a emergência do progresso técnico e do surgimento das máquinas. O autor deu ênfase aos efeitos das mudanças nas motivações humanas e relações sociais, e sublinhou o impacto da busca pelo lucro na destruição da economia de subsistência, em que as trocas entre mercadorias e renda monetária tornam-se hegemônicas e determinantes. Utilizando-se da expressão moinho satânico, lembrou a forma como o progresso técnico desarticulou as bases sociais antigas, fazendo desaparecer vilas, que paulatinamente foram sendo substituídas por pastos com a expansão da criação de ovelhas. Lembremos as pontuações do autor: “O tecido social estava sendo destruído; aldeias abandonadas e ruínas de moradias humanas testemunhavam a ferocidade da revolução [...]

depredando suas cidades, dizimando sua população, transformando seu solo sobrecarregado em poeira [...]”. Como uma metamorfose, o resultado transformou “homens e mulheres decentes numa malta de mendigos e ladrões. Embora isto ocorresse apenas em determinadas áreas, os pontos negros ameaçavam fundir-se numa catástrofe uniforme” (POLANYI, 1980: 53).

Mas vale-nos voltar nossos olhares para o Brasil e recordar que o tema reportado já foi tratado de diferentes maneiras e com profundidade por diversos pesquisadores, portanto, o que faremos é buscar as contribuições que mais nos ajudam a entender nosso objeto: a grande transformação que sucedeu no bairro de Anhumas e no modo de vida rural. E, novamente, para isso, teremos que recuar no tempo e lembrar o que Queiroz (1973a) destacou: as mudanças nos bairros rurais estavam vinculadas a mudanças amplas que ocorriam na sociedade brasileira, e cujo resultado foi a desintegração de uma sociedade tradicional. No caso das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, a autora chamou a atenção para a relação entre crescimento demográfico e necessidade de abastecimento de matéria-prima para indústria e alimentos para a cidade (cereais, legumes e frutas). Lembrou que, se no mundo antigo quem abasteceu o mercado local citadino com alimentos foram os sitiantes tradicionais, essa configuração social modificou-se, e agora outros segmentos entravam na produção de alimentos e insumos para a cidade. Segundo a autora, os loteamentos das fazendas de café do Oeste Paulista, iniciados em fins do século XIX, se intensificaram com a crise de 1929, o que permitiu aos ex-colonos com economia, poupança e noção de agricultura comercial, localizarem-se próximos às estradas de ferro e adentrarem-se na prática de uma agricultura diferente dos sitiantes tradicionais, “mais moderna e melhor integrada dentro da organização capitalista” (QUEIROZ, 1978: 54). Com isso, produziu-se uma situação com características duais mas partícipes da mesma realidade. Nas áreas mais afastadas da metrópole, os antigos colonos dedicavam-se a uma agricultura diversificada e “moderna”, e em zonas mais próximas persistia, segundo Queiroz (1978), uma periferia decadente formada por sitiantes tradicionais em processo de desintegração. Vamos às considerações da autora:

Rio de Janeiro e São Paulo são hoje grandes centros de produção por excelência; como se irradiará deles a reorganização da produção no meio rural? Cidades como estas exigem tanto uma canalização para elas de importante matéria-prima a ser tratada industrialmente, quanto uma quantidade de víveres que não podem mais ser fornecidos por sitiantes de agricultura rudimentar; tendendo para a sociedade de massa, requerem abastecimento maciço, em produtos diversos – cereais, legumes, frutas, etc. Ora, no Brasil tradicional, o aprovisionamento citadino se fazia por intermédio de sitiantes tradicionais, como se efetua a transformação da antiga agricultura tradicional em uma agricultura moderna que utiliza máquinas, adubos,

etc.? Quais os caracteres da nova agricultura? Algumas pesquisas em curso tentam atualmente descobrir os aspectos modernos da agricultura brasileira, enquanto outras buscam compreender a ligação de uma periferia de sitiantes tradicionais com a evolução das cidades.

Este último aspecto, que engloba o anterior, é dos mais interessantes e foi pesquisado por Lia F. Garcia Fukui [...] (Queiroz, 1978:53)

Em fins do século passado, partiam dali cargueiros para o mercado do centro da cidade, levando a produção dos sitiantes, todos eles tradicionais; pouco a pouco, o desenvolvimento da cidade os impeliu sucessivamente para os mercados de Pinheiros, Santo Amaro, Itapecerica da Serra; finalmente, a impossibilidade de encontrarem escoamento para a produção levou-os a tornarem-se carvoeiros e, mais tarde, a venderem pouco a pouco suas terras para os “sítios de fim de semanas”, de citadinos atraídos pela abertura da BR-2 e pelo baixo preço dos terrenos. À medida que o crescimento da cidade de São Paulo exigia outro tipo de abastecimento, estes sitiantes, que pouco a pouco eram eliminados do mercado local, foram se isolando, já que as ligações que outrora mantinham com a cidade não tinham mais razão de ser. Quando Lia F. Garcia Fukui iniciou sua pesquisa, seu isolamento era total, contrastando com frequência de relações que haviam mantido com a cidade anteriormente. Em seguida, o meio rural também entrou em transformação bastante rápida; sitiantes venderam suas terras e se tornaram assalariados dos citadinos, permanecendo assim no local, mas o bairro decaiu; outros bairros rurais transformaram-se pouco a pouco em subúrbio da capital, pois as atividades dos habitantes passaram da agricultura para serviços. (QUEIROZ, 1978:57-58)

[...] a alguns quilômetros do grande centro urbano encontramos exemplares da antiga vida tradicional cabocla com sua organização, seu ritmo, sua dinâmica dependendo estreitamente da solidariedade vicinal e da festa religiosa. Mas, intensificando-se a urbanização da metrópole, entram eles em decadência acelerada. (QUEIROZ, 1978: 54-55)

Para Queiroz (1978), as mudanças tornaram as relações campo-cidade no Brasil cada vez mais complexas, pois antigos processos de ocupação por desbravamento e colonização aliaram-se aos processos de ocupação por meio da especulação imobiliária, tanto por parte de fazendeiros, como por parte dos sitiantes e também da cidade. Há, segundo a autora, diante dessas mudanças, um movimento de desmantelamento de um rural arcaico e uma inversão das posições entre campo e cidade. No passado, como parte de uma sociedade agrária, a cidade subordinava-se ao campo, mas a relação se inverte, e o campo assume uma posição de subalternidade e de inferioridade, com a industrialização e a urbanização, e, podemos acrescentar, o com o processo de mercantilização e financeirização das terras (QUEIROZ, 1978). Essas considerações podem ser complementadas quando lembramos que Martins (1973), em relação ao colono que adquiriu terras, já havia destacado que esse sujeito social enfrentaria uma grande batalha para preservar seu modo de vida. Afinal, no Brasil, em uma posição de capitalismo dependente, todos estavam em desvantagem, e, no caso do camponês, as condições de reprodução social seriam pouco a pouco sufocadas, e a batalha contra o empobrecimento seria violenta. Nas palavras do autor:

O grosso da imigração para o Brasil, especialmente a italiana, foi de meio rural para meio rural. Os fundamentos da emigração na Itália [...] radicavam no desaparecimento das condições de sobrevivência do campesinato. Aqui, tanto nas fazendas de café como nos núcleos coloniais, embora de formas significativamente diferentes, as relações com a terra aparentemente preservavam (ou criavam) um modo de vida camponês. Para o imigrante, subjetivamente, a transição de uma sociedade a outra não tinha, pois, a dimensão de um processo inovador. Entretanto, por força da estruturação do próprio capitalismo dependente, a migração reinseria o camponês numa condição contraditória e crítica, que o situava objetivamente como proletário potencial, isto é, como personagem destinado a viver diretamente a pauperização fundada na crise do Brasil agrário. (Martins, 1973:26)

Candido (2001) também se reportou às transformações mais gerais, e considerou então o “ajustamento” dos caipiras, que resultaria na migração para a cidade e na proletarização. Segundo esse autor, permanecer na lavoura significaria o empobrecimento material e imaterial do caipira. O problema apareceu da seguinte forma: o caipira desprezaria os velhos utensílios e os instrumentos típicos, e a indústria doméstica passaria por um processo de atrofiamento, inviabilizando o autoconsumo e a autonomia, ao passo que nesse novo cenário suas necessidades não seriam compensadas pela acessibilidade aos novos produtos ou mercadorias. Foi então que, como hipótese, o autor considerou o desaparecimento desse sujeito social. Vale dizer que Candido (2001), a despeito de realizar algumas críticas em relação à condição subalterna do caipira, deixou sugerida certa visão otimista quanto ao progresso técnico e as mudanças nas condições materiais de vida, como um tipo de compensação, não atentando às suas contradições:

[...] a industrialização, a diferenciação agrícola, a extensão do crédito, a abertura do mercado interno, ocasionaram uma nova e mais profunda revolução na estrutura social de São Paulo. Graças aos recursos modernos de comunicação, ao aumento da densidade demográfica e à generalização das necessidades complementares, acham- se agora frente a frente homens do campo e da cidade, sitiantes e fazendeiros, assalariados agrícolas e operários – bruscamente reaproximados no espaço geográfico e social, participando de um universo que desvenda dolorosamente as discrepâncias econômicas e culturais. Nesse diálogo, em que se empenham todas as vozes, a mais fraca e menos ouvida é certamente a do caipira que permanece no seu torrão. (CANDIDO, 2001: 279-280)

De forma geral, vimos que o impacto das mudanças sociais vivenciadas pelo país com as transformações em sua base industrial e material, foi, pouco a pouco, produzindo seus abalos de diferentes maneiras, envolvendo o homem do campo. E desses processos, podemos destacar a modernização da agricultura, que por uns foi chamada de conservadora, e por outros de trágica, pois atingiu diretamente os trabalhadores do campo e antigos colonos que se

modernizavam. Segundo Silva (1999), como já apontamos no primeiro capítulo, a modernização da agricultura expulsou milhões de famílias e trabalhadores rurais das terras. A partir de exemplos ocorridos no Vale do Jequitinhonha, MG, a autora enfatizou o processo de espoliação dos camponeses e trabalhadores rurais que tiveram seu direito costumeiro violado. Uma terra utilizada ancestralmente como valor de uso passou a assumir importância econômica, um valor desconhecido pelos moradores dos campos. Nesse sentido, a autora desvelou a violência simbólica e concreta pela qual as famílias rurais passaram, quando a expulsão das terras produziu o trabalhador individualizado e agora subjugado pelo capital. Levando em conta as diferenças de classe, raça, gênero, desvelou como as formas antigas foram sendo apropriadas pelas relações capitalistas e amparadas pelo discurso ideológico e pela armadura judicial:

A violência simbólica destrói as bases de um mundo ainda regulado pelo valor de uso [...] exerce violência explícita e aberta contra os homens e a natureza a lhes impor novos códigos, e a violência simbólica, também contra os homens e a natureza ao negar os valores de seu conteúdo imaginário. (SILVA, 1999:45)

A não repressão não pode confessar-se como tal. Ela precisa de legitimação. Para isso, utilizam-se mecanismos a favor do bem estar social e do progresso de todos [...] Haverá sempre uma armadura jurídica e ideológica para encobrir a relação de força. (SILVA, 1999:53:54)

Por meio do que foi exposto, compreendemos como algumas mudanças ocorreram no meio rural no Estado de São Paulo. O rural entendido como tradicional integra-se ao mercado com sua produção para subsistência, e o processo de industrialização e urbanização produz efeitos diversos no modo de vida, impactando a relação sujeito e sociedade, ampliando as tensões e contradições, que por sua vez também atingem a subjetividade do ser social. Tal processo ainda foi alavancado pela modernização trágica na agricultura, que aprofundou os processos de expropriação e proletarização, e as transformações desencadearam vendas de sítios e a entrada de membros da família rural no mercado de trabalho individualizado, rural ou urbano, enquanto as relações sociais no interior das famílias e na própria sociabilidade do bairro rural se transformaram. Voltando nossa atenção para o Município de Piracicaba, SP à luz do que apresentamos no primeiro capítulo, podemos identificar a coexistência de alguns processos que se articularam com a base de uma sociedade antiga e de relações de propriedade e trabalho. Se por um lado antigos colonos no Município de Piracicaba puderam adquirir terras, também foram pouco a pouco aderindo à atividade canavieira local, primeiro nos Engenhos depois nas Usinas, somando-se aos antigos fornecedores – esse cenário assistiu a sua derrocada aproximadamente na década de 1980. E aqui podemos lembrar a ênfase de

Martins (1973) nos problemas agravados em um capitalismo dependente. A história da ocupação do solo e expansão da cana em Piracicaba tornou evidente – e os dados apresentados no primeiro capítulo da tese corroboram essa afirmação – que os proprietários de terras ou sitiantes viram-se estimulados a integrar-se à agroindústria canavieira como única alternativa para a sobrevivência econômica, passando paulatinamente para a especialização da produção. Conforme já salientamos, como categoria institucional, esses sujeitos sociais foram reconhecidos como fornecedores de cana, assumindo nessa posição o sentido do prestígio social a ela associado, justamente por estar integrado à atividade hegemônica, que trazia para o município a vanguarda do “progresso”. Além do prestígio social, ser fornecedor de cana representava a possibilidade da manutenção da propriedade, dado que, no limite, tinham a opção pelo arrendamento da terra para as Usinas.

É notório como no Município de Piracicaba a categoria de fornecedor de cana aparece vinculada à importância simbólica no meio rural. Os pequenos fornecedores de cana eram famílias de pequenos proprietários de terras cuja vida e sociabilidade se dava no meio rural, também com as imbricações de outro modo de vida, articulando base material e simbólica. Atualmente, no entanto, quando voltamos a Santana e Santa Olímpia, bairros de fornecedores de cana, percebemos que esses sitiantes haviam cedido as terras aos arrendamentos, mas, ao mesmo tempo, nas conversas que tivemos, os moradores desqualificavam qualquer possibilidade de reprodução da vida por meio da atividade econômica vinculada à terra. E isso se deve aos testemunhos do que viveram. Os antigos fornecedores ressaltaram como os bancos praticavam os financiamentos oferecendo o crédito, e como a Cooperativa e a Associação os representava como produtores agrícolas. Mas destacaram que posteriormente essas condições foram mudando, e muitos foram se endividando e optando pelo arrendamento. Há um consenso em Santana e Santa Olímpia de que não é possível acompanhar o progresso técnico e que, portanto, a produção agrícola em um pequeno pedaço de terra não garante mais a reprodução da vida material.

No bairro Monte Branco, ao lado do bairro de Anhumas, também com a presença dos fornecedores de cana, as conversas entre os moradores deixaram transparecer outros aspectos curiosos. Os antigos fornecedores conversavam entre si e comentavam sobre as facilidades do

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