Cheguei na rodoviária de Floresta no dia 15 de fevereiro, segunda-feira, às 15 horas. Com Amélia, havia combinado a minha chegada somente para a quarta-feira, dia 17. A minha antecipação, no entanto, a atrapalhou. Ela ainda não tinha se preparado para me receber adequadamente, dizia. Então, no momento da minha chegada, eu não tinha onde me hospedar. E, naquela mesma semana, ela não teria nenhuma possibilidade de me levar à Ema, região onde pretendia realizar uma pesquisa de campo intensiva de três meses e meio14. Aliás, quanto a isso, ela logo me alertou que ficar na Ema, e mais
especificamente no Jericó (por sua vez, o nome dado à casa de sua família paterna), era uma situação um tanto quanto complexa, e que Adriano, seu primo legítimo e o único que hoje ali vive, estava aperreado com a situação.
No Sertão, até onde percebi, o termo aperreado significa muitas coisas. Neste caso preciso, significava que Adriano estava preocupado em não poder me hospedar
adequadamente, embora tivesse assumido meses atrás o compromisso, quando, ainda em São Carlos, eu buscava estabelecer com ele uma base de pesquisa, logo no começo do mestrado, por meio de ligações telefônicas. Além do mais, embora fosse o único da família ainda disposto a viver no Jericó, ele também passava parte da semana na cidade de Serra Talhada, próxima a Floresta e distante 87 km desta, onde vive com a sua esposa e filhos.
Além de não morar fixamente em Floresta, a casa do Jericó estava danificada, sem estrutura – segundo me diziam – para receber alguém por tantos dias. Para mim, ficou claro nesse momento que Amélia e Adriano não previram as consequentes dificuldades de minha fixação. Durante o futuro processo de arranjar outros lugares na área rural onde eu pudesse me estabelecer, percebi que aos poucos me foram dadas certas posições etnográficas. No conjunto das relações voltadas à minha fixação, os meus interlocutores
14 Ema é o nome dado à região tal como assim ela ficou conhecida. Contudo, Ema, assim como outros
espaços rurais em Floresta e seus respectivos topônimos, não atendem diretamente a uma circunscrição territorial única, englobante. Mas sim pequenos ou grandes fragmentos de terrenos, bem como casas e famílias, que são o resultado, por sua vez, do território inicial ocupado pela Fazenda Ema. Podendo, assim, se referir hoje em dia tanto a uma região mais extensa, historicamente consolidada, quanto a porções de terra menores que, consequentemente, dela fazem parte, envolvendo, principalmente no que concerne ao pertencimento das pessoas ao local, a relação entre território, família, parentesco e casa. A esse respeito, no sertão de Pernambuco, cf. Marques (2014).
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pareciam ter sempre a discrição de, em primeiro lugar, conhecer-me melhor, e, em segundo, saber das condições precisas das regiões, das fazendas e das pessoas que nelas vivem, para chegar à decisão se seria viável ou não que eu ficasse no mato15 sob certas
condições. Percebendo que havia para eles certa cautela em fazê-lo, passei a administrar as relações de modo a não perder de vista o meu propósito inicial: avaliar as possibilidades de conviver com os vaqueiros na área rural e participar do seu dia-a-dia de trabalho no
campo.
Amélia, desde os primeiros minutos em que nos conhecemos, esclareceu os problemas de minha estadia na Ema. Ela disse que não era recomendável, por exemplo, ficar sozinho na fazenda quando Adriano estivesse fora. Além do perigo de ficar no mato sendo um desconhecido, ninguém, no final das contas, sabia dizer exatamente de que forma Adriano vivia ali. Quem cozinhava, onde comia, quantas camas havia na casa, quem limpava, se faltava água. Levantados tantos obstáculos que preocupavam a própria Amélia, caso me deixasse num local tão distante e sem saber as condições, ela sugeriu que eu ficasse na cidade, até que pudesse me levar à região com mais calma, pensar bem no assunto e conseguir definir a exata situação do lugar. De toda forma, Amélia queria conversar com Adriano o mais rápido possível, conferir com ele as condições existentes e informá-lo sobretudo de minha chegada.
Um dos fatores de sua cautela é resultado de sua percepção em relação à minha posição como alguém de fora. Mais especificamente, em relação à minha posição de alguém que, no conjunto das relações iniciais que fomos traçando, poderia ser considerado na cidade como boyzinho. Esta posição etnográfica me foi garantida de imediato, já que para muitos dos meus interlocutores ser qualificado e chamado de
boyzinho tornava evidente, pelo menos naquele momento, que não seria confortável para uma pessoa de fora ficar numa casa sob circunstâncias indeterminadas, ainda mais sendo um boyzinho de São Paulo. Por mais que insistisse não ser um problema, para Amélia, no entanto, havia problemas suficientes. Dificuldades ligadas a uma espécie de etiqueta, de cuidado com relação aos perigos locais. E, acima de tudo, ligadas ao modo como se recebe as pessoas no Sertão.
A ideia de posição etnográfica apresentada brevemente acima é bastante inspirada em Abu-Lughod (1991) em sua definição de “posicionalidade”. Noção que, segundo a autora, parte da ideia de que “cada visão é uma visão de algum lugar e cada ato de fala é
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um discurso a partir de algum lugar específico” (1991: 468). Embora ela se utilize da definição como recurso ao abandono da noção de cultura, numa árdua crítica à antropologia pós-moderna – suscitada particularmente pelos(as) chamados(as) antropólogos(as) “halfies” ou indígenas (idem, 466) –, o que proponho para este caso é avançar, mais à frente (na seção 1.2.1), algumas de suas inquirições acerca da “posicionalidade”, pensando-a no meu trabalho não a partir da “fragmentação” do antropólogo em “sujeito” e “objeto”, “nós” e “outros”, como quer a autora, mas pela extensão temporária do nativo em antropólogo e pela posição reversa do antropólogo em nativo. “Extensões analógicas” entre um e outro que, baseadas em Wagner (2010 [1975]: 59), possibilitem a esta etnografia uma crítica à ideia de “fragmentação” em prol das noções de multiplicidade ou variabilidade de posições etnográficas. Assim, optei por chamar de posições etnográficas o objeto da experimentação analítica das questões metodológicas levantadas neste capítulo, bem como a forma mais justa de refletir a respeito das perspectivas e dos lugares que se multiplicaram e se intensificaram ao longo do meu trabalho de campo.
Com o intuito de pensar a produção do conhecimento etnográfico “quando o antropólogo está tentando saber do mesmo modo que o nativo” (Strathern, 2014 [1999]: 354), analisar as posições etnográficas e medir seus rendimentos analíticos, assim como os problemas metodológicos que lhes são concernentes, é o que pretenderei discorrer de maneira geral nas linhas que se seguem, propondo novas maneiras de problematizar a posição do antropólogo em circunstâncias nas quais a sua tentativa de participar do cotidiano de um lugar se torna objeto de reflexão nativa. De certa forma, o clássico problema metodológico originário da célebre proposta de “observação-participante” (Malinowski, 1978 [1922]).
Dadas algumas prévias justificativas teórico-metodológicas, sigamos o itinerário, os caminhos e as mudanças que precisei traçar em campo.
Como já mencionado, Amélia não sabia onde me hospedar. De saída, ela afirmou que eu não poderia ficar em sua casa, visto que era habitada por mulheres solteiras e, por isso, não pegaria bem para elas hospedarem um rapaz desconhecido.
“Sabe que aqui é Sertão, né? As pessoas falam, mesmo. Não pega bem para mim!” – Disse-me Amélia, ressaltando um problema que à primeira vista não parecia dizer respeito diretamente à sua posição e à de suas irmãs como mulheres solteiras, mas por estar ligado à socialidade, à moralidade e, consequentemente, ao problema de suas imagens em relação aos outros. E, não menos, ao problema de abrigar ocasionalmente um
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sujeito de fora. Isto é, o que as pessoas poderiam dizer da presença de um desconhecido e sobretudo boyzinho de São Paulo em sua casa?
O plano de Amélia, então, foi o de irmos atrás de outros lugares até que ela conversasse definitivamente com Adriano e decidíssemos de uma vez por todas se eu poderia ou não ficar na Ema nos dias seguintes. Inclusive, até que ela resolvesse o caso de sua irmã que estava adoentada com chicungunya16.
Em fevereiro, a cidade apresentava o início de um grave problema de saúde pública. As pessoas cada dia mais reclamavam de dores no corpo, febre alta, mal-estar, falta de apetite. Consequentemente, a situação calamitosa do hospital e os sintomas mais comuns se tornaram objetos permanentes de debates, intensificados a cada instante. A partir de março, declarou-se oficialmente que Floresta e outros munícipios vizinhos abrigavam uma grave epidemia. Durante os meus três meses e meio de pesquisa de campo, os moradores se articularam para ajudar os que estavam infectados e em recuperação, reforçando assim os laços de solidariedade e de reciprocidade, na espera de que, em troca, familiares e amigos agissem futuramente da mesma forma, caso necessário. Os florestanos deram a todo o conjunto das doenças transmitidas pelo mosquito
aedes aegypti um único nome: virose. Quando não, davam às suas próprias variações apenas o nome de chicungunya. Vários de meus amigos e minhas amigas sertanejas ficaram intrigados quanto à possibilidade de um mosquito causar tanto infortúnio. Alguns chegavam a dizer que a muriçoca (nome dado aos pernilongos), e não apenas o mosquito
da dengue, estava a transmitir os vírus. Além disso, alguns estavam preocupados com o modo como a atual gestão política vinha assegurando ao povo as condições viáveis para sanar a epidemia. E, sem deixar de ser, para atender adequadamente os adoentados que compunham as filas enormes do hospital durante grande parte do mês de março.
Depois que Amélia expôs os problemas que me levaram, logo de início, a buscar outros meios de fixação em campo, percorremos a cidade a caminho de novas estratégias. Brevemente, paramos numa padaria para nos concentrarmos no assunto e, por conseguinte, ligarmos para Adriano pela primeira vez. Sem obter nenhum resultado, o que conseguimos na verdade foi apenas conversar com sua esposa, Maria da Penha. Esta confirmou o que Amélia já previa. Seria difícil falar com ele numa segunda-feira, pois
16 Pretendo manter este termo em itálico, uma vez que, em Floresta, nesse momento, as pessoas se referiam
às outras duas doenças transmitidas pelo mosquito aedes aegypti (dengue e zika) também como
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estava no mato, sem sinal de celular. Segundo ela, ele voltaria para a cidade apenas na quarta ou quinta-feira.
Em seguida, paramos para uma rápida visita na casa de sua irmã, Lurdinha. A ela fui apresentado rapidamente, pois se encontrava abatida, reclamando da virose, da dificuldade de andar, de se alimentar e das dores nos pés e nas mãos. Como agente de saúde, Lurdinha nos alertou para a gravidade da situação. Para ela, a quantidade cada vez maior de pessoas infectadas e os processos de prevenção pelos quais a saúde pública do município buscava recorrer estavam em total desequilíbrio. Portanto, em sua casa, devido ao seu estado de saúde, era impossível que eu me hospedasse.
Ao saímos da casa de sua irmã, Amélia queria tentar conversar com o bispo de Floresta. Depois de recusado o pedido para que ele me hospedasse na diocese, sugeri a ela algo que estava prestes a dizer há vários minutos. Sugeri que ficasse em algum hotel. Ela, no entanto, discordou. Por mais que eu insistisse, refutava. Dizia que só em última instância eu gastaria dinheiro com hospedagem. Até que, por fim, foi sugerido de sua parte a casa de Nilda Ferraz.
Não só muito sua amiga e conselheira, Nilda também era a proprietária da casa onde pesquisadores amigos meus frequentemente se hospedam. Embora Nilda não fizesse ideia dessa possibilidade (mesmo sabendo de minha chegada), e entendendo os problemas que Amélia estava enfrentando, ela não recusou a proposta. Portanto, ali me estabeleci, temporariamente, e sem perder Amélia de vista, uma vez que, por ser praticamente incerta a estadia na Ema, ela se declarou disposta, para os dias seguintes, em me ajudar no que fosse preciso. No geral, ajudar-me a encontrar os vaqueiros e a obter uma localidade rural. Seu primo Adriano foi o meu primeiro contato. Mas os planos iniciais logo se transformaram. Desde as nossas primeiras conversas por telefone, ele ressaltava com bastante ênfase que pela segunda vez consecutiva iria organizar uma pega de boi no mato na Ema. Como a minha ideia primeira era, já no meu projeto de pesquisa, fazer um estudo dos vaqueiros nessas práticas, uma certa base de campo vinha se solidificando desde o princípio do mestrado. Quando programado meses antes que ficaria definitivamente nos arredores da Fazenda Ema, tive a certeza na época de que o caminho a percorrer estava dado: chegar em Floresta, partir para o distrito de Nazaré do Pico e, em seguida, pegar uma condução até o Jericó, vivendo em uma região onde, segundo dizia Adriano, “vaqueiro não falta”. Assim, eu poderia acompanhar não só as pegas de boi no mato, como também o cotidiano dos vaqueiros com quem ele supostamente convivia ou apenas conhecia.
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Por mais que já estivesse afeiçoado há meses com a ideia de que chegaria no Sertão e partiria em direção à área rural ao encontro dos vaqueiros, e por mais que tudo já estivesse combinado para que isso acontecesse, todavia, os rumos realmente foram outros. Consequentemente, o destino da pesquisa se transformara, ocasionando reflexões de que talvez fosse hora de mudar a temática do trabalho (quanto a isso, a epidemia foi uma forte contribuinte, pois se tornara difícil contatar as pessoas) e, quem sabe, propor uma etnografia de algo completamente diferente. Uma ruptura que, na verdade, interrompeu os meus primeiros caminhos ao conhecimento dos que teoricamente seriam os principais interlocutores, os vaqueiros.