• No results found

Short- and medium-term prognosis

6.3 Operational estimations of impact ecosystem factors on fish stock

6.3.1 Short- and medium-term prognosis

Este tipo de organização apresenta diferenciações quantitativas quando representam as máquinas de guerra e o Estado. Na concepção de Deleuze:

É nos exércitos de Estado que se colocará o problema de um tratamento das grandes quantidades, em relação com outras matérias, mas a máquina de guerra opera com pequenas quantidades, que ela trata por meio de números numerantes50.

Assim sendo, a questão da organização numérica opera na máquina de guerra diferentemente da organização estatal. Na máquina de guerra a formação numérica cumpre uma função meramente subjetiva, ou seja, serve apenas para coordenar a ocupação do espaço liso sem com isso demarcá-lo, porque “O número é o ocupante móvel, o móvel no espaço liso, por oposição à geometria do imóvel no espaço estriado”51. O número neste caso é tão-somente uma cifra, conforme explica Deleuze, “[...] e é a este título que ele constitui o ‘espírito de corpo’, inventa o segredo e as conseqüências do segredo (estratégia, espionagem, astúcia, emboscada, diplomacia, etc.)”52.

O espírito de corpo nomádico é por excelência heterogêneo, uma vez que, por atuar no espaço liso, necessita de maior liberdade para atuação e articulação dos movimentos dos

50 G. Deleuze, Mil platôs, p. 65. 51 Ibid., p. 65.

homens, armas, animais – e, no caso dos índios, a articulação se fez mais com armas: arco,

flechas, tacape e barcos, como veículos, zarabatana, borduna, caiaques, bestilha etc. Quanto à organização estatal, ela privilegia o número como possibilidade

quantitativa e geométrica, posto que os exércitos necessitam demarcar geometricamente o seu espaço, estriando-o nas formas de muralhas, quartéis, fortificações etc, tendo em vista o controle por parte do Estado para o controle estatístico.

Para José Bonifácio o Estado deveria estar organizado de forma a ser reterritorializado segundo uma estrutura de segurança militar. Os índios eram amantes da guerra, por isso mesmo, poderiam ser cooptados em função da defesa do Estado, motivo pelos qual José Bonifácio previa a construção de instituições militares nos aldeamentos.

Com efeito, quando o Estado se apropria da máquina de guerra e a transforma em um corpo de Exército, não é incomum que por questões táticas o Estado incorpore elementos totalmente estranhos à base militar estatal (uma etnia, uma religião etc.) para operar como servidores de um corpo especial que irá contrapor aos demais componentes do aparelho estatal. Por esse motivo Deleuze notou que:

[...] o corpo especial, e particularmente o escravo-infiel-estrangeiro, é aquele que se torna soldado e crente, mesmo permanecendo desterritorializado em relação às linhagens e em relação ao Estado. Deve ter nascido infiel para tornar-se crente, deve ter nascido escravo para

tornar-se soldado53.

José Bonifácio queria utilizar dos índios brasileiros como elementos na composição de seus quadros militares, especialmente na guarda dos aldeamentos - como no caso dos Batalhões do Exército Brasileiro, localizados no pantanal mato-grossense e na floresta amazônica.

53 Ibid., p . 70.

Considerando-se que os povos nômades não possuem uma história e sim uma geografia, conforme a concepção de Deleuze, entendemos a história neste caso não como um recorte seletivo de traços culturais de um povo específico, mas um referencial instantâneo deste povo numa determinada coordenada no espaço liso em que ele se insere como um móvel. Dessa forma, só nos resta concebê-lo pela ótica geográfica desde que estejamos despidos dos pré-conceitos etnocêntricos.

É exatamente pelo etnocentrismo que as sociedades mediatizam as diferenças para, posteriormente, identificá-las e tentar o seu aniquilamento. E esta não é uma característica exclusiva da cultura ocidental posto que todas as culturas, sem exceção, julgam a sua própria cultura como sendo a melhor em detrimento de quaisquer outras.

Os povos sedentários, muito pelo contrário, têm sua gênese e progressão espaço- temporal parametrada na história de seus traços culturais, que tem como objetivo legitimar os atos e fatos que explicariam a sua existência como povo específico, que estriam um dado espaço geográfico num tempo, também específico. Como o sedentarismo leva à criação de uma instituição que objetiva a legitimação da soberania deste povo sobre o espaço que estriaram, tem-se assim o Estado. “É verdade que os nômades não têm história, só têm uma geografia. E a derrota dos nômades foi tal, tão completa, que a história identifica-se com o triunfo dos Estados”54.

O discurso de José de Bonifácio não foi questionado nem debatido por seus pares ou aqueles a quem caberiam a sua execução; menos ainda, por aqueles que seriam vitimados pelas ações advindas da aplicação dos “Apontamentos...” .

Se a geografia é o continente repositório da cultura dos nômades, em José Bonifácio ela é apenas o espaço que seria estriado pelo Estado, para demarcar a cultura produtiva, segundo a demanda metropolitana. Por isso, a máquina de guerra nômade

54 G. Deleuze, Mil platôs, p. 71.

precisava ser desarticulada pelos aparelhos do Estado e convertida em instrumento dócil do aparato estatal.

Segundo Deleuze:

[...] cada vez que um Estado se apropria da máquina de guerra, tende a aproximar a educação do cidadão, a formação do trabalhador, o aprendizado do soldado. Mas se é verdade que todo agenciamento é de desejo, a questão é saber se os agenciamentos de guerra e de trabalho, considerados em si mesmos, não mobilizariam primordialmente paixões de ordem diferente55.

O aparelho educativo do Estado encontra-se presente em várias passagens do discurso de José Bonifácio. No artigo 7º dos “Apontamentos...”, ele exigia dos missionários que se instruíssem na língua geral, para que assim pudessem compreender a cultura indígena e, conseqüentemente, miná-la com a introdução da Língua Portuguesa.

No texto “Civilização dos índios e coisas do Brasil”, ele deixou claro o papel que deveria exercer os línguas (conhecedores da língua geral) no ensinamento da Língua Portuguesa a todos os índios contatados.

Conforme o padre João Daniel, o projeto civilizatório lusitano prescindia da língua portuguesa para poder surtir os efeitos desejados, porque “se o que se pretende nos índios é civilizá-los, e fazê-los gente, este fim só, ou mais depressa, e com mais facilidade se consegue com a língua portuguesa, do que com a linguagem dos índios”56. Essa é a mesma proposta de José Bonifácio, para o qual deveria extinguir [...] nas aldeias com a língua da terra, e ensinar os rapazes o português [...]”57, posto que ele considerava a Língua Geral própria somente para as mulheres.

55 G. Deleuze, Mil platôs, p. 79.

56 Pe. J. Daniel, Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas, p. 335. Vol. 2. 57 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 128.

José Bonifácio pretendia subtrair o indivíduo de sua condição nomádica para inseri- lo num modelo de trabalho produtivo em função dos interesses do Estado. Isto implicaria, dentre outras coisas, desarmar os índios e fazê-los adotar as ferramentas fornecidas pelo Estado. “É que o modelo trabalho, que define a ferramenta, pertence ao aparelho de Estado”58. Entretanto, essa proposta implicaria ainda educar o índio segundo os preceitos do aparelho estatal. Daí José Bonifácio ter relacionado os trabalhos que ele considerava próprios para os índios, a saber: sacerdócio, tropeiros, condutores, manufaturas, pesca, navegação, soldados, pedestres, pescadores, caçadores, abridores de valas, derrubadores de matas, puxadores de enxadas, peões, guardas de gado etc.

Para que haja trabalho, é preciso uma captura da atividade pelo aparelho de Estado, uma semiotização da atividade pela escrita. Donde a afinidade de agenciamento signos-ferramentas, signos de escrita-organização de trabalho59.

Em sendo verdade fonética, que os nômades não necessitam de escrita, já que poderiam utilizar a de seus vizinhos, temos o máximo, de que nossos índios necessitavam da expressão de suas idéias através dos pictcogramas ou itacoatiaras, o que não quer dizer, que eles não tenham tido história, até porque está inscrita tanto em seus mitos, quanto em seus artesanatos, o que substitui a ourivesaria como arte bárbara, no dizer de Deleuze.

No encontro dos povos europeus com os índios verificamos aquilo que Deleuze denomina quilt, isto é, [...]“a reunião de duas espessuras de tecidos pespontados conjuntamente, entre os quais introduz-se freqüentemente um enchimento”60.

Deleuze fala do modelo de quilt que os europeus introduziram no Novo Mundo, e que ao longo de um processo de adaptação foi incorporando traços das culturas dos

58 Ibid., p. 80.

59 G. Deleuze, Mil platôs, p. 80. 60 G. Deleuze, Mil platôs, p. 182.

indígenas americanos. Metaforicamente temos então que na junção da cultura européia com a americana formou-se um quilt cujo enchimento foi o resultado dos processos de imposições e assimilações culturais, acrescidas ainda de certos traços exclusivos de uma ou outra cultura.

No espaço estriado marítimo, as linhas e os trajetos são subordinados aos pontos, indo de uma ponta A para outra B. Neste caso, as paradas são pré-fixadas, dando assim mais importância à dimensão ou à métrica, a ser ocupada.

No espaço liso, os pontos são subordinados ao trajeto e é este trajeto que provoca as paradas. O espaço liso comporta tão-somente uma direção em função dos objetivos do grupo nomádico e a ocupação dá-se por “hecceidades”, acontecimentos efetivos ou aleatórios que propriamente por atos pré-concebidos, porque nesse caso:

[...] o que ocupa o espaço liso são as intensidades, os ventos e ruídos, as forças e as qualidades tácteis e sonoras, como no deserto, na espete ou no gelo. [...] O que cobre o espaço estriado, ao contrário, é o céu como medida, e as qualidades mensuráveis que derivam dele61.

Ao índio, no seu espaço, comportava muito mais a natureza que se manifestava em codificações áudio perceptivas, os sons e seus mínimos ruídos, as cores e suas matizes – e as codificações que só poderiam ser percebidas pelo tato, num processo de aperfeiçoamento ao longo de milhares de anos, enquanto aos colonizadores importava as limitações formais aritmético-geométricas, a quadratura do espaço a ser estriado em função de uma produção métrico-quantitativa.

O liso e o estriado se distinguem em primeiro lugar pela relação inversa do ponto e da linha (a linha entre dois pontos no caso do estriado, o ponto

entre duas linhas no caso do liso). Em segundo lugar, pela natureza da linha (liso-direcional, intervalos abertos; estriado-dimensional, intervalos fechados)62.

“[...] desde os tempos mais remotos, seja no neolítico e mesmo no paleolítico, é a

cidade que inventa a agricultura: é sob a ação da cidade que o agricultor, e seu espaço estriado, se superpõem ao cultivador em espaço ainda liso [...]”63. Ora, a polis necessita de

nutrir-se e, para tanto, cria a agricultura. José Bonifácio precisava das vias para controlar a agricultura – daí o seu projeto civilizatório – e para tanto precisava sedentarizar o nomadismo indígena, treinando-o para a agricultura.

62 G. Deleuze, Mil platôs, p.187. 63 Ibid., p. 188.

CAPÍTULO II

PODER, SISTEMAS E

VIOLÊNCIA SIMBÓLICOS

Neste segundo capítulo, abordaremos o discurso de José Bonifácio pelo prisma dos conceitos elaborados por Pierre Bourdieu: poder simbólico, ação pedagógica, autoridade pedagógica, habitus, sistemas simbólicos e estigma dos dominados.

1. O poder simbólico

Segundo Pierre Bourdieu o poder simbólico não se apresenta tão concretamente quanto à sua forma de manifestação, e que somente pode ser desnudado quando da observação atenta de seus atos. Esse poder simbólico, por ser um elemento construtor da realidade que nos rodeiam, Bourdieu propõe que, para desvendá-lo, seria:

[...] necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado, portanto, reconhecido: o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a

cumplicidade daqueles que não querem saber que lhes estão sujeitos ou mesmo que o exercem”1.

É necessário que o poder simbólico seja reconhecido o quanto antes, porque o seu poder de mobilização para a construção ou desconstrução dos fatos, a despeito do mundo, está assentado na sua força arbitrária. Entretanto, ele é legitimado tanto por aqueles que o exercem quanto por aqueles que sofrem os seus efeitos.

Na concepção de Bourdieu, o poder simbólico é eficaz porque reside nas relações da crença que envolve os dominantes e os dominados, de forma eufemisticamente tal que é difícil ser destruído. E, para aniquilar o poder simbólico, não é suficiente a destruição dos seus símbolos de – o cetro, o traje, a farda, a divisa, o brazão, o escudo, a logomarca, a toga etc. – pois estes representam tão-somente o capital simbólico. O que é necessário aniquilar mesmo é a crença, mas isto somente se fará pela conscientização de que:

A classe dominante é o lugar de uma luta pela hierarquia dos princípios de hierarquização: as fracções dominantes, cujo poder assenta no capital económico, têm em vista impor a legitimidade de sua dominação quer por meio da própria produção simbólica, quer por intermédio dos ideólogos conservadores os quais só verdadeiramente servem os interesses dos dominantes [...]2.

Estes ideólogos, como manipuladores de uma heterodoxia ou ortodoxia do conhecimento a serviço da dominação, acabam promovendo o afastamento dos dominados, reforçando assim a crença especulativa no campo da doxa. Disso resulta na afirmação de Bourdieu, de que é “[...] função propriamente ideológica do discurso dominante [...] impor

1 P. Bourdieu, O poder simbólico, pp. 7-8. 2 Ibid., p. 12.

a apreensão da ordem estabelecida como natural (ortodoxia) por meio da imposição mascarada [...]”3.

Haverá sempre violência simbólica quando o poder estiver representado um momento em que determinado ato venha exigir a legitimação da arbitrariedade desse poder meiante seus sistemas simbólicos – “[...] instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre a outra [...]”4.

Para Bourdieu, a violência simbólica não se manifesta de forma clara, a ser percebida de imediato, para não manifestar o arbítrio e sua corte de brutalidades. Assim, o que vemos exposto na verdade são as formas etnocêntricas de comportamentos arbitrários que, já internalizadas como traços culturais de uma dada sociedade, agem como se fossem formas polidas e naturais de ações pedagógicas (AP) no tratamento do sujeito. Nem por isso deixa de ser um “instrumento de repressão sutil que constitui a retração da afeição, técnica pedagógica que não é menos arbitrária [...] que os castigos corporais ou a reprimenda infamante”5.