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Passamos agora a descrever o método utilizado no Curso.2 Separamos os estudantes em seis grupos, sendo que cada grupo era composto de aproximadamente vinte pessoas. Cada grupo tinha o nome de um país africano e eram coordenados por dois monitores.

2 Falamos do Curso a partir do lugar de observadora participante. Sendo, na ocasião, docente da IES, e interessada pela temática, passamos a colaborar com o CECUNE na qualidade de monitora dos Cursos.

Conforme os (as) estudantes iam chegando, faziam o cadastro e ingressavam, um (a) a um (a), em cada um dos seis grupos. A ideia dessa distribuição é que fosse colocada nos grupos, a maior variedade possível de pessoas desconhecidas, para facilitação da oficina a ser realizada no Curso. Inicialmente nos encontramos no salão de entrada, oportunizando que os (as) amigos (as) e conhecidos (as) pudessem ver-se, partilhando de uma breve confraternização no chamado “coffe break”. Depois desse momento, todas as pessoas foram chamadas às salas-países para a realização do Curso propriamente dito. Em cada sala-país foram realizadas, dinâmicas de aproximação e de reconhecimento, para que fôssemos gradativamente nos aproximando da temática objeto do encontro. Na segunda metade da manhã nos dirigimos à sala de audiovisuais, onde foram feitas algumas falas institucionais e, em seguida, passamos a assistir o filme intitulado: “Quanto vale ou é por quilo”3. Depois de algum tempo da execução do filme iniciou-se um “burburinho” na sala e compreendemos que alguns estudantes estavam declaradamente desconfortáveis com o filme apresentado, e protestando.

Trata-se de um filme certamente bem pesado que compara o período colonial do Brasil ao período contemporâneo, sugerindo que ainda vivemos as mesmas experiências, no que concerne à raça que as experiências que as pessoas viviam naquela época. Quando o filme terminou, alguns estudantes reclamaram alegando que o mesmo estava fora de propósito. Alguns chegaram a ventilar a ideia de que estariam perdendo seu tempo assistindo aquele filme e outros ainda alegaram tratar-se de “lavagem cerebral”. Mas a essa altura já era quase meio dia e precisávamos nos encaminhar para o almoço. A ideia inicial era a de fazermos a discussão do filme na atividade da tarde. Então, como éramos um grupo razoavelmente grande, com cerca de 100 pessoas, o que nos fez dividir

as atividades daquele momento, sendo que uns grupos foram almoçar, enquanto outros faziam sessão de foto-filmagem. No restaurante situado no outro lado da rua, percebemos a agitação que havia por lá, e, automaticamente também nos dirigimos para lá. Para nossa surpresa, estava havendo um atrito porque, segundo o dono do restaurante, alguns dos clientes antigos da praça de alimentação, estavam reclamando em função de toda aquela “gente diferente” que estava por lá. Diante disso e notadamente também contrariado, o proprietário sugeriu que cada um de nós “pegasse seu prato e fosse comer noutro lugar”. Claro que não aceitamos tal proposta, assim como o proprietário também não quis desfazer o negócio, que implicaria numa perda financeira razoável (eram aproximadamente 100 almoços). Não querendo desfazer o negócio, demonstrou contrariedade diante do grupo imenso de negros e de negras que, repentinamente “invadiram” seu estabelecimento. Na hora do contrato, que foi feito por uma pessoa negra, não foi declarado que os usuários seriam todos negros. Obviamente num país supostamente não racista, esse tipo de conversação não acontece. Esse comentário é apenas no sentido de explicar o porquê da surpresa do dono do restaurante que não sabia de antemão, nem supunha, quem seriam seus clientes. Creio que esse deve ter sido o almoço mais tenso de nossas vidas e, ainda que não tenha sido explicitado, muitos dos estudantes ali presentes entenderam o que estava se passando. Muitos foram os que reclamaram não terem sido tratados com presteza pelas pessoas do restaurante, inclusive com reclamações diante da qualidade do alimento servido. Após o almoço, ficamos ali pelo pátio do shopping, tomando um sol, em uma belíssima tarde de inverno.

Porém, como o grupo de negros (as) que ali se encontrava era grande, invariavelmente éramos alvos de olhares questionadores pelos transeuntes que ali passavam e que não tinham por hábito ver tantos negros (as) juntos (as). Fatos como esse são típicos de desfile de carnaval, mas não num sábado de agosto em pleno Shopping

Center. A sensação de ser alvo da atenção e de, além disso, ter passado por um ato discriminatório, deixou-nos a todos (as), com um sentimento desagradável. Ao retornarmos para as atividades da tarde, a coordenação do CECUNE orientou-nos a não fazer comentários acerca do ocorrido, a não ser que esses viessem dos próprios estudantes. Como a primeira atividade proposta era a análise do filme visto no final da manhã, pode-se dizer que o filme acabou sendo digerido de um jeito diferente, e os estudantes fizeram um entendimento do quanto às amarras do preconceito e da discriminação se apresentam nas relações cotidianas entre brancos e negros, sem que, em grande parte das vezes, isso seja assim nomeado e que, nesse sentido, tornam-se despercebidos e invisibilizados. Não foi nosso caso; pela quantidade de pessoas envolvidas, não havia como tornarmo-nos invisíveis, ainda que ninguém tenha nomeado, abertamente, nenhum fato ocorrido.

À tarde, após a análise que cada grupo sala-país fez dentro de suas possibilidades, transcorreu tranquila, mas pode-se dizer que o efeito do ocorrido foi tão impactante que os (as) estudantes se “convenceram” da importância do que vínhamos trabalhando no Curso, e aderiram a ele de uma maneira diferente. É a força da experiência fazendo um registro na existência, de um jeito que possivelmente as teorias acadêmicas, por melhor que sejam não alcançam com tamanha intensidade. Aqui, o ganho acadêmico, protagonizado pelo CECUNE, foi o de poder assegurar, com base na experiência vivida, (e não em experiência de laboratório, como se propõem que sejam as oficinas), a teoria que embasa suas ações.