Part IV: Of Life and History
12. Shadows from the Past
O sol estava quente e a maioria do percurso, é claro, foi feita em estradas sem asfalto. A moto trepidava muito e as vezes a quantidade de areia era tanta que a moto afundava e eu precisava descer e caminhar alguns trechos de pé. Foram três dias de pesquisas no meio rural. Nesses três dias visitei várias pessoas, conversei com algumas das que encontrei pelo caminho, fui até as cacimbas, os barreiros, vi as cisternas – todas que encontrei foram construídas por iniciativa própria - e realizei 14 entrevistas.
Se minha chegada a cidade de Crateús havia me deixado preocupada por não encontrar um lugar seguro para me hospedar, a visita ao meio rural foi mais desoladora ainda. No primeiro dia viajei mais ou menos 45 Km em direção à zona rural. O que me intrigava é que a paisagem era sempre a mesma: médios arbustos –, muito raramente se via pequenas áreas do tamanho de um quarteirão onde se plantava milho. Nos trechos percorridos onde a estrada é asfaltada, com freqüência se avistava pequenos e médios açudes, alguns, próximos de belas casas.
A minha primeira visita foi na casa do sr. Ismael, era por volta do meio dia. O local parecia abandonado, não havia nem grama em volta da casa, apenas o chão duro e esbranquiçado e no quintal não se via uma árvore sequer. Descemos da moto e apareceu na porta o sr. Ismael: pele muita queimada pelo sol, olhos meio amarelados, magro, a carne que lhe cobria o corpo parecia muito enrijecida. Fomos convidados a entrar e tive a sensação de que a casa estava vazia: uma mesa de madeira e duas cadeiras na sala e só! O silêncio parecia tomar conta de todos os espaços. Não cheguei a conhecer toda a casa mais pelo que dava pra ver, muito pouco se tinha ali entre aquelas já esburacadas paredes de bambu e barro. Seu Ismael sempre foi morador280 e seus filhos, alguns já casados, seguiam o mesmo destino do pai.
280
Morador: não possui terras, mora e trabalha na propriedade do patrão, em troca tem a posse de um pequeno pedaço de terra onde cultiva milho e feijão para sua subsistência. Quando se tem uma colheita boa parte do que se colhe é dado ao patrão, o dono das terras.
Sua mulher veio para a sala e ficou conosco respondendo algumas perguntas. Apresentava-se bem mais velha que seu Ismael que tinha seus 53 anos. Um dos filhos, aparentando uns 17 anos chegou a aparecer na sala, mas rapidamente se foi. Eu comecei a fazer algumas perguntas que de vez em quando eram finalizadas com um “não gosto nem de lembrar”. Por alguns momentos tive sentimentos de tristeza misturados com vazio, impotência. Sentia-me insensível pois apesar de tantos momentos difíceis de suas vidas que compartilhavam comigo eu não podia me deixar abater e precisava , mesmo depois de algumas pausas, continuar com minhas questões. Não tinha nada a lhes oferecer, nem mesmo a esperança que as vezes queriam depositar em mim, e sabia que estava trazendo à tona um passado que tanto queriam esquecer. Se bem que no Nordeste difícil é não se lembrar de seca já que a própria, periodicamente, se encarrega de se apresentar. Além disso, como veremos nas entrevistas, o sofrimento com a falta d’água e alimentos é algo que faz parte do cotidiano de muitas famílias, estando ou não em períodos de estiagem.
Essa foi a primeira das 13 entrevistas realizadas no meio rural. Relatei esses momentos apenas para dar a dimensão de como ainda se vive nos Sertões do Ceará, nesse caso no Sertão dos Inhamuns. Houve algumas mudanças nas outras residências visitadas, mas no geral foram pouco significativas. Cabe sim, considerar que, quem tem um pedaço de terra ao redor de um grande açude - mesmo que seja uma área pequena -, vive em condições muito melhores.
Cabe destacar que não foi possível realizar entrevistas com grandes proprietários. Em primeiro lugar fiquei um pouco insegura devido a minha condição de mulher – num local onde a prostituição é a regra – e, principalmente, devido ao fato de estar sozinha num local muito distante de São Carlos (3.400 Km). Além disso, minha pesquisa suscita questões que trazem à tona, ou que denuncia, o arraigado sistema de
concentração da terra existente na região. Mesmo com essas preocupações eu ainda tentei realizar uma entrevista com um dos grandes proprietários de terra no município de Independência, próximo ao açude Jaburu II. A fazenda estava muito bem cercada, com portões e cachorros. Depois de bater palmas e até mesmo chamar por alguém, apareceu uma empregada e também moradora da fazenda. Disse que “o dono ficava mais era em Fortaleza”. Perguntei se podia responder algumas perguntas e ela, sempre receosa, se negou. Nem ao menos quis que fossem tiradas fotos do local. Disse apenas que o marido trabalhava em uma área irrigada e dividia a produção com o patrão. Também não realizei entrevistas com o prefeito pelos mesmos motivos: não me sentia segura.
As informações que obtive sobre o prefeito de Crateús me deixou um pouco
alarmada. Durante os dias que estive na casa do sr. Luiz e dona Alzira, que foram
extremamente acolhedores, obtive muitas informações nas conversas que tínhamos diariamente. O fato de ficarmos à noite na calçada conversando me deixou por dentro de vários assuntos, pois, sempre que passava alguém surgia uma história. Algumas dessas informações chegaram até a mim devido a repetição de cenas que ocorriam na vizinhança. Por exemplo, ao passar um moço alto e forte dona Alzira me contou que ele usava drogas e que sempre batia nos pais, que já eram idosos, pra conseguir o cartão da aposentadoria. Segundo ela, a disputa pelos cartões é freqüente na cidade e que, inclusive, o pai do referido rapaz havia morrido a poucos dias: uma semana após levar uma surra do filho. Na noite seguinte passava o carro da polícia com o rapaz. Dona Alzira diz que a policia não prende, “eles dão uma pisa (surra) aí por esses caminhos e no mesmo dia eles voltam”.
Na casa da frente um senhor de mais de 80 anos que mal enxergava, morava com sua esposa também já bastante idosa. Dona Alzira já teria visto várias vezes os dois
serem espancados pela empregada, contratada pela filha do casal que morava em Fortaleza. Na casa ao lado moravam duas moças, “duas sem vergonhas” de acordo com dona Alzira pois namoravam dois rapazes de outro município e, quando não estavam na cidade, se prostituíam. Eram donas de um motel na cidade e possuíam um automóvel Fiat Uno – coisa bastante rara no caso de mulheres. Comentei com Maria Luiza sobre a existência de muitas jovens grávidas na cidade e ela me disse que algumas se engravidam na prostituição, outras já pensando em conseguir o Bolsa Escola Federal.