As informações a seguir são resultantes dos levantamentos realizados em campo, no período de janeiro a dezembro de 2001, e refletem a experiência, a sabedoria e o conhecimento dos pescadores adquiridos ao longo dos anos de trabalho na atividade pesqueira.
Sobre as 124 espécies de peixes identificadas nas pescarias artesanais realizadas na costa do Estado do Ceará, no ano de 2001, foram obtidas as seguintes informações: distribuição das espécies de acordo com os “pesqueiros” e a coluna d’água, tipo de fundo em que habitam, se formadoras de cardume, hábitos migratórios, períodos de melhores capturas (dia ou noite) e aparelhos de pesca mais
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Camocim Paracuru Fortaleza Caponga Fortim
N ú m e ro d e e s p é c ie s Chuvoso Seco
produtivos. Essas informações encontram-se resumidas nas Tabelas 6, 7 , 8, 9, 10, 11 12 e Anexo 6.
No que diz respeito à distribuição das espécies de acordo com os “pesqueiros”, verificou-se uma predominância daquelas que habitam o “alto” (34,68%), seguidas das espécies que vivem na “costa” (29,03%); na “costa, na risca e no alto” (16,13%), na “risca e no alto” (9,68%), na “costa e na risca” (8,87%) e na “risca” (1,61%). Os valores apontam para um equilíbrio entre o total de espécies que habita um só pesqueiro e aquelas que vivem em mais de um – ver Tabela 6.
Um total de 109 espécies (87,90%) habita o fundo ou vive próximo ao mesmo, nove (7,26%) vivem na superfície e apenas seis (4,84%) na superfície e meia-água (Tabela 7).
Entre as espécies que habitam no fundo ou na proximidade do mesmo, 22,94% são encontradas em fundo de areia; 12,84% em fundo de areia e lama; 8,25% vivem em fundo de areia, lama, cascalho e pedra; 6,42% em fundo de cascalho e 4,59% em fundo de cascalho e pedra. De acordo com informações obtidas junto aos pescadores, apenas o camurim (C. undecimalis) habita exclusivamente fundos de lama. A maioria das espécies de peixes capturadas na costa do Estado do Ceará (44,03%), no entanto, vive em fundos de pedra (Tabela 8).
Um total de 75 espécies não forma cardume (Tabela 9). Entre as 49 espécies de peixes que apresentam esta característica, seis habitam a superfície, seis a superfície e meia-água e seis a superfície, meia-água e fundo. As 31 espécies restantes vivem exclusivamente no fundo, sem preferência de substrato.
A sardinha bandeira (O. oglinum) e o xaréu (C. hippos) são as espécies que formam os maiores cardumes. Segundo pescadores, alguns peixes apresentam aspectos peculiares quanto à formação de cardumes. Por exemplo, o camurupim (Megalops atlanticus), a guaraximbora (C. latus), a guaiúba (O.
crysurus) e o beijupirá (R. canadum), no período em que formam grandes cardumes
se deslocam do fundo, habitat preferencial, para a superfície. Outras espécies como o xaréu (C. hippos) e a guaraximbora (C. latus), quando jovens se agrupam a outras espécies do mesmo gênero formando cardumes, separando-se quando adultos; de acordo com Paiva; Bezerra; Fonteles-Filho (1971), a serra (Sc. brasiliensis) forma cardume em diferentes profundidades.
Vale também ressaltar que, conforme afirmam os pescadores, o cangulo (B. vetula), antes de ser quase extinto do litoral cearense, era uma espécie formadora de cardume.
As migrações na costa cearense são realizadas com fins reprodutivos e de alimentação. Dentre as 124 espécies estudadas 89 não são migradoras. As 35 restantes deslocam-se principalmente no período das chuvas em direção à costa para se alimentarem. No inverno, conforme afirmam os pescadores, o vento abranda e os peixes acompanham a “água limpa” onde encontram alimento. No verão, devido os ventos fortes, a água é “suja” e a disponibilidade de alimentos é reduzida. O conjunto desses fatores afasta o peixe da costa em direção ao alto, na busca de “água limpa”.
Algumas espécies migram em conjunto, como é o caso da sardinha bandeira (O. oglinum) e o olhão (S. crumenophthalmus). A cavala (S. cavalla) acompanha a sardinha bandeira (Sc. brasiliensis) (espécie forrageira do 2º nível trófico). Os restos de sardinha bandeira (Sc. brasiliensis) deixados pela cavala (S.
cavalla) atraem o bonito (E. alletteratus). A serra (Sc. brasiliensis) acompanha a
cavala (S. cavalla) e também se alimenta de sardinha (Sc. brasiliensis). Outros peixes como a cioba (L. analis), o dentão (L. jocu) e o serigado (M. bonaci) também costumam andar em conjunto.
Espécies como a cavala (S. cavalla), a serra (Sc. brasiliensis) e o camurupim (M. atlanticus) realizam migrações para a costa com fins reprodutivos. Nos meses de outubro/novembro, por exemplo, grandes cardumes de camurupim chegam à costa do Estado do Ceará, segundo os pescadores, provenientes das águas costeiras do Pará e Maranhão, e sobem os rios onde se reproduzem, retornando às águas de origem no inicio de fevereiro (MENEZES; PAIVA, 1966).
De acordo ainda com os pescadores, além dos deslocamentos mar- terra e terra-mar, migrações superfície-fundo e fundo-superfície também são realizadas com fins de alimentação, por determinadas espécies (bonito – E.
alletteratus, camurupim – M. atlanticus, serra – Sc. brasiliensis, entre outras). Neste
caso, as pescarias dessas espécies são realizadas durante o dia com linha e à noite com rede de espera.
Na Tabela 10 estão relacionadas as espécies de peixe que realizam migrações na costa cearense.
A disponibilidade das espécies à captura está diretamente relacionada aos hábitos alimentares das mesmas. Alguns peixes alimentam-se durante o dia, portanto as pescarias são mais produtivas nesse período, e outros sobem à superfície à noite para se alimentarem, quando são capturados. Das espécies de peixes estudadas na presente tese, 64 são capturadas com maior freqüência no período diurno, 12 no período noturno e 48 independem do período do dia (Tabela 11). O cangulo (B. vetula), o pirá (M. plumieri) e a piraúna (C. fulva), por exemplo, são pescados exclusivamente no período diurno; acreditam os pescadores que esses peixes não enxergam à noite.
Segundo informações dos pescadores, as pescarias noturnas são mais produtivas em noites sem lua, pois os peixes são atraídos pela luz do lampião da embarcação, facilitando sua captura. Em noites de lua cheia as pescarias com rede de espera apresentam maior rendimento quando comparadas com as pescarias com anzol, tendo em vista que os peixes permanecem no fundo, não subindo à superfície para se alimentarem.
Dada a característica rochosa da plataforma continental do Estado do Ceará, a maior parte das espécies (62,90%) que habita essa costa é capturada com linha. Somente 11 espécies, que vivem sobre fundos de areia e/ou lama, são pescadas exclusivamente com redes, conforme pode ser observado na Tabela 12. As demais espécies são capturadas tanto com redes de espera quanto com linha.