A Primeira Guerra Mundial é tomada por muitos estudiosos como a verdadeira marca inicial do Século XX, pois o passar continuado dos anos criava nas pessoas o sentimento de que ainda se vivia na belle époque do século XIX. O terror do conflito mundial iniciado em 1914 instalou a ruptura temporal e indicou ao mundo que uma nova era se iniciava. De certa maneira, parece ser o que também aconteceu em 11 de setembro de 2001. Os ataques contra as torres do World Trade Center, em Nova York, e contra o Pentágono, em Washington, nos Estados Unidos, mostraram ao mundo que o século XXI se iniciara e que também ali, naquele momento, se marcava um novo tempo. Um tempo em que a vulnerabilidade a esse tipo de violência, contra a maior potência bélica do planeta, questionava a eficácia dos métodos tradicionais de defesa e indicava que a reação de parte do mundo à arrogância americana, à enorme desigualdade entre os países, à trágica miséria de muitos povos poderia provocar terríveis conflitos. Tornou-se, então, prioridade para diversas organizações governamentais e não- governamentais a formulação de planos e projetos para que, combatendo a pobreza e a fome no mundo, fosse possível ter chances de se construir a paz.
No Brasil, setembro havia chegado ainda marcado pelo impacto do racionamento de energia que, desde maio, fora anunciado pelo ministro Pedro
Parente, coordenador da Câmara de Gestão da Crise da Energia Elétrica, no governo Fernando Henrique Cardoso. No anúncio das medidas, os consumidores residenciais das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste (exceto o Maranhão) teriam de reduzir 20% do consumo médio dos meses de maio, junho e julho. No caso de não atingirem a meta, poderiam ter cortado o fornecimento de energia. Uma situação que chocou a população brasileira e comprometeu a imagem do governo federal. Um “apagão” às vésperas de um ano eleitoral, com o candidato da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva, já aparecendo nas pesquisas de sondagem eleitoral com mais de 30%, média histórica do Partido dos Trabalhadores (PT), parecia deveras preocupante.
No mesmo período, o Parlamento brasileiro vivia uma crise interna, com a renúncia, em 10 de outubro, do presidente do Senado, Jáder Barbalho, acuado por denúncias de corrupção. Uma crise que já vinha se aquecendo desde o episódio da violação do painel do Senado, quando o senador José Roberto Arruda (PSDB/DF) havia renunciado ao mandato para escapar do processo de cassação. No mesmo episódio viu-se também envolvido o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL/BA) que também renunciou ao mandato, na tentativa de evitar o processo de cassação que poderia ser instalado pela Comissão de Ética do Senado. Assim, dois eminentes políticos da base governista se viram envolvidos na crise interna do Parlamento, enfraquecendo o Executivo Federal que já estava enfrentando, além do “apagão”, um surto de febre aftosa no rebanho bovino brasileiro, que comprometia a pauta de exportações.
Foi nesse contexto que a organização não-governamental Instituto Cidadania – vinculado ao Partido dos Trabalhadores (PT) – lançou, em 16 de outubro de 2001, Dia Mundial da Alimentação, o Projeto Fome Zero. Construído ao longo do ano 2000, a partir de seminários e debates com a participação de centenas de especialistas brasileiros, o Projeto foi apresentado ao país pelo seu coordenador- geral e presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, em solenidade realizada no Senado Federal, como “uma proposta de política de segurança alimentar para o Brasil.”139
Segundo o texto apresentado – que teve entre seus formuladores o professor do Instituto de Economia da Unicamp, José Graziano - “a alimentação de qualidade é um direito inalienável de todo cidadão, sendo dever do Estado criar as condições para que a população brasileira possa efetivamente usufruir dele140”. O
documento partia da concepção de que o combate à fome e à pobreza deveria ser inserido numa agenda de promoção dos direitos humanos e relacionado à conquista dos direitos sociais e ao exercício da cidadania. A proposta do Instituto Cidadania previa uma série de iniciativas articuladas em três dimensões: políticas estruturais, como reforma agrária, geração de emprego e fomento à agricultura familiar; políticas emergenciais, como a distribuição de cartões-alimentação; políticas locais, como a criação de bancos de alimentos e implantação de restaurantes populares.
A amostra da análise da cobertura jornalística referente ao lançamento do Projeto Fome Zero foi composta de oito matérias publicadas nos jornais Folha de São Paulo e O Globo e na revista Veja, no período compreendido entre 14 e 24 de outubro de 2001. Todas expressaram, em alguma medida, noções referentes à questão da pobreza. Três delas também tangenciaram noções de cidadania e apenas uma matéria articulou concepções referentes à pobreza e à cidadania. O noticiário foi marcado pela fatualidade. O lançamento do Projeto de combate à fome não chegou a estimular a elaboração de reportagens sobre o problema da fome e da pobreza no Brasil. As notícias publicadas referiram-se estritamente ao evento de lançamento da iniciativa do Instituto Cidadania. A superficialidade no tratamento da questão da pobreza – tendo como elemento central o lançamento do Projeto Fome Zero, no Congresso Nacional em Brasília – também foi marcada pela ausência de pluralidade de fontes de informação. As vozes presentes na cobertura jornalística eram ou de autores da proposta e seus apoiadores ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT), ou de críticos do Projeto, representados por opositores do PT.
Praticamente todas as matérias reduziram a proposta do Instituto Cidadania à figura de Luiz Inácio Lula da Silva, identificado como “provável candidato do PT
às eleições presidenciais”.141 Dessa forma, o Projeto deixou de ser visto como
uma proposta construída coletivamente e passou a ser identificado como uma “peça de campanha” do candidato Lula.
“O pré-candidato a presidente da República pelo PT Luiz Inácio Lula da
Silva lança hoje, em Brasília, a terceira versão do ´Projeto Fome Zero´, a principal peça de campanha petista para as eleições do ano que vem.142”
A cobertura midiática do lançamento do Projeto Fome Zero apenas tangenciou, de forma superficial, as categorias referentes à pobreza e à cidadania. Tal como em 1993, no Natal sem Fome, predominou na cobertura uma noção de pobreza relacionada, exclusivamente, a uma questão de acesso aos alimentos em razão do baixo patamar de renda dos brasileiros. Essa concepção esteve baseada no enfoque dado pela cobertura à proposta de distribuição de cupons de alimentação para a população pobre. A cobertura reduziu o Projeto à proposta da distribuição de cupons de alimentação – uma das 60 ações do Fome Zero -, e a questão da pobreza foi reduzida à dificuldade de acesso a alimentos sem levar em conta, por exemplo, os processos de acumulação de riqueza, de distribuição de renda e até mesmo da cultura política no Brasil. Assim, as matérias não chegaram a problematizar a questão e não realizaram uma reflexão sobre as causas da pobreza e as formas de sua superação — ainda que o texto do Projeto produzido pelo Instituto Cidadania apresentasse tais causas e caminhos para superação e tenha sido amplamente distribuído. A única polêmica presente no noticiário sobre a questão da pobreza manifestou-se por meio de discordâncias em relação ao número de pobres no Brasil e que deveriam ser alvo da política pública. As matérias deram ênfase às críticas de especialistas e de representantes do governo à metodologia utilizada pelo Instituto Cidadania para calcular o número de brasileiros pobres.
“Mas o programa ainda nem foi lançado e a polêmica já começou. O
presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Martins, discorda dos números de pobreza apresentados no projeto. Para o Fome Zero, entre 1995 e 2000, houve um aumento da pobreza, especialmente nas regiões metropolitanas. ´Não são 44 milhões abaixo da
141Lula modera discurso e lança a 3ª versão do ´Fome Zero. Folha de São Paulo, São Paulo, 17
out. 2001.
linha da pobreza e nós usamos critérios mais rígidos do que o Banco Mundial´ – disse Martins”.143
No noticiário - que tratou o problema da pobreza brasileira como pano de fundo -, o primeiro plano foi marcado por aspectos referentes à disputa política em que, de um lado, figuravam o governo e seus defensores e, do outro, apresentava-se a oposição, liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Na verdade, a polêmica e a disputa de sentidos sobre o conceito de pobreza que deveriam nortear uma política pública destinada a resolver o problema no Brasil foram substituídas – nas páginas dos jornais – pela disputa política, tendo como diretriz as eleições presidenciais e as respectivas pretensões eleitorais de dois grupos políticos. Assim, o clima eleitoral predominou na cobertura jornalística, em detrimento do debate e da troca de argumentos referentes à pobreza e à fome no Brasil.
“Em mais uma tentativa de moderar o discurso e ser aceito pelo ´establishment´, o Partido dos Trabalhadores lançou ontem em Brasília seu projeto de combate a fome no País, cujo modelo é um sistema utilizado pelo governo dos Estados Unidos”.144
Além das controvérsias a respeito do número de pobres no Brasil, o noticiário registrou divergências em relação ao modo de funcionamento do Projeto. A proposta do Instituto Cidadania de distribuição de cupons que deveriam ser trocados apenas por gêneros alimentícios em estabelecimentos comerciais previamente cadastrados pelo governo despertou críticas145 de um dos membros
do próprio PT, o senador Eduardo Suplicy (PT/SP)146.
“O projeto foi criticado dentro do próprio PT. Defensor incansável do programa de renda mínima, o senador Eduardo Suplicy (SP) disse que seu projeto é melhor porque dá a oportunidade de escolha para o beneficiário. ´A renda mínima é melhor porque dá mais dignidade às pessoas e permite que eles façam uma escolha de acordo com suas necessidades. Além do
143 Lula lança projeto para combater a fome. O Globo, Rio de Janeiro, 16 out. 2001.
144 Lula modera discurso e lança a 3ª versão do Fome Zero. Folha de São Paulo, São Paulo, 17
out. 2001.
145 Ver De sandália, Suplicy faz crítica a projeto. Folha de São Paulo, São Paulo, 17 out. 2001; Lula
modera discurso e lança a 3ª versão do Fome Zero. Folha de São Paulo, São Paulo, 17 out. 2001; Lula: ´Enquanto faltar comida na mesa dos brasileiros, não dá para exportar´, O Globo, Rio de Janeiro, 17 out. 2001.
146 Em 2001, o senador Eduardo Suplicy lançou-se pré-candidato do Partido dos Trabalhadores à
Presidência da República, colocando-se como concorrente de Luiz Inácio Lula da Silva, nas prévias partidárias.
mais, não está descartada a possibilidade de se criar um mercado paralelo de venda de cupons de alimentação ´, criticou Suplicy.”147
Estas divergências pareciam implicar duas concepções distintas acerca da cidadania – ainda que a cobertura não tenha tratado a questão sob esta ótica. De um lado, as matérias apresentaram um entendimento de cidadania que não se levava em conta a autonomia do sujeito, em que o Estado era visto como regulador e definidor das relações sociais e determinava o que era melhor para o cidadão. Esta noção de cidadania esteve vinculada à concepção do Projeto Fome Zero e foi defendida por seus apoiadores, especialmente o senador Aloísio Mercadante (PT/SP).
“O programa de cupons de alimentação dá certo nos EUA, onde existe há 72 anos. Além disso, hoje em dia está muito fácil informatizar. Em vez de cupons, podem ser dados cartões magnéticos. Os beneficiados trocariam o crédito em estabelecimentos que só aceitariam o pagamento para alimentos”.148
Já as críticas ao Projeto Fome Zero, manifestadas pelo senador Suplicy (PT/SP), pareciam trazer implícita uma noção de cidadania ativa, em que o cidadão deixava de ser objeto de ações do Estado e passava a assumir um papel de sujeito e de protagonista. Entretanto, essa troca de argumentos não foi inscrita na gramática dos direitos, nem inserida no campo da cidadania. Assim, ainda que tenha sido possível perceber elementos de um debate acerca das noções de cidadania e de sua relação com a superação da pobreza, o sentido que predominou no noticiário foi o da disputa político-eleitoral - seja no âmbito interno do PT, em que dois pré-candidatos disputavam a indicação pelo partido para as eleições presidenciais, seja no âmbito externo, em que duas forças políticas (PSDB e PT) disputavam projetos de governo tendo em vista as eleições presidenciais para o ano seguinte.
A seleção de fontes de informação, a falta de dados contextualizados, a ausência de personagens e a forte personificação indicaram um processo de ressignificação ao longo da cobertura do lançamento do Projeto Fome Zero. O
147 Lula: ´Enquanto faltar comida na mesa dos brasileiros, não dá para exportar´. O Globo, Rio de
Janeiro, 17 out. 2001.
148 Senador Aloísio Mercadante (PT/SP). De sandália, Suplicy faz crítica a projeto. Folha de São
sentido predominante adquirido pela cobertura do fato foi o da disputa política em torno de projetos de governo para a eleição presidencial – que se realizaria no ano seguinte – no lugar da discussão aprofundada sobre o problema da pobreza e da fome no Brasil, a necessidade de sua superação e os mecanismos mais eficazes para tal.
Ainda que a noção de cidadania e sua relação com a pobreza não tenham sido registradas na cobertura, foi possível observar algumas tentativas isoladas de reflexão nessa direção. O tema da cidadania foi alvo de consideração e relacionado com o problema da pobreza na coluna Panorama Econômico, do jornal O Globo149. O texto da colunista Miriam Leitão combateu as propostas
apresentadas no Projeto Fome Zero, a partir de reflexões acerca da pobreza e da cidadania. Este foi o único momento da cobertura em que ocorreu uma articulação entre essas noções, aprofundando a análise sobre o problema no Brasil, sua necessidade de superação e as propostas para alcançá-la. As críticas da jornalista basearam-se em dois pontos principais: maior precisão acerca do público-alvo do programa e melhor mecanismo de combate à fome. Ela criticou o formato de cupons de alimentação, tendo como base noções de cidadania e democracia. Segundo ela,
“Distribuição de selos para a compra de comida é uma forma de tornar indireto, burocrático e autoritário o que pode ser direto, simples e democrático. (...) O programa do selo para a compra de comida parte do pressuposto de que o Estado sabe melhor o que deve ser feito com o dinheiro do pobre. (...) O melhor selo chama-se dinheiro. E a forma mais respeitosa de distribuí-lo é com cartão magnético na Caixa Econômica Federal”.150
Com tais argumentos, o lançamento do Projeto Fome Zero despertou, no espaço dedicado à coluna econômica, uma abordagem diferente daquela registrada nas notícias. A jornalista — dentro dos limites impostos pelas regras e pela gramática do jornalismo — buscou inserir a polêmica sobre o formato do programa num debate sobre direitos, a partir da necessária articulação entre cidadania e pobreza.
149 LEITÃO, Miriam. Imaginação Zero.O Globo, Rio de Janeiro, 18 out. 2001. 150