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1º de janeiro de 2003. O tempo nublado na capital federal não foi capaz de desanimar as 200 mil pessoas que ocuparam os gramados da Esplanada dos Ministérios para ver — e, principalmente, comemorar — a posse de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. O verde dos gramados, confundido com as cores das mais diferentes bandeiras, era palco de um momento histórico do país. Após participar de três eleições presidenciais, Lula, um político de origem popular e formado na luta sindical, assumia o poder da República. Sob todos os aspectos, uma figura de experiência bem diversa daqueles que até então haviam ocupado o mais alto cargo da hierarquia política, representando a Nação brasileira. Uma representação legitimada pela votação expressiva recebida nas urnas e que a festa na Praça confirmava. A diversidade dos participantes e o clima festivo que marcavam as comemorações indicavam que a população brasileira se reconhecia na figura daquele homem de barba, um pouco mais branca, e de tom de voz mais suave, do que quando o Brasil o conheceu nas greves metalúrgicas do Grande ABC, na década de 70.

Como disse Artur Xexéu,

“Lula é, sem dúvida, o presidente do Brasil mais parecido com a massa que elege presidentes no Brasil. Nunca a maioria se identificou tanto com o eleito. Lula não fala bem português, erra concordâncias — verbais e nominais — tem problemas de dicção, parece que está sempre pouco à vontade dentro do terno e gravata. Enfim, é um presidente do Brasil com cara de brasileiro. (...)A festa de domingo à noite foi a festa da identificação. Se Narciso acha feio o que não é espelho, o povo brasileiro, que está sempre enamorado de si mesmo, foi para as ruas celebrar a vitória do mais bonito dos brasileiros. O bloco dos sujos, desta vez, escolheu um de seus pares.”151

Eleito com mais de 52 milhões de votos, em uma disputa acirrada com os partidos de centro-direita, Lula tornou-se Presidente de um País que apresentava uma das dez maiores economias do mundo, sendo o terceiro em desigualdade social. Para muitos,

151

“depois da queda do Muro de Berlim, em 1989 (quando Lula também foi

candidato, tendo sido derrotado, no segundo turno das eleições, por Fernando Collor de Melo), era a primeira vez que a estrela, um dos símbolos da esquerda — presente na bandeira da China, de Cuba e do PT — fazia uma curva ascendente”152.

Ainda de acordo com Frei Betto, “a esquerda reviu seus erros, tentou rearticular-se em novos partidos”153, manifestou-se contra a globalização

econômica e a tendência ao pensamento único do neoliberalismo e, “no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, tentou vislumbrar um outro mundo possível”.154

Nesse período, agravou-se muito a questão social, aumentando ainda mais a distância entre os países ricos e aqueles emergentes, entre eles o Brasil, e acentuando-se de maneira ainda mais visível o gap entre pobres e ricos. Foi no bojo do agravamento da questão social, em que a adoção estrita das teses do chamado Consenso de Washington teria produzido, que, segundo alguns analistas, Lula ganhou a eleição. O desemprego, a fome, a má qualidade da saúde e da educação — problemas já seculares no país — teriam se agravado com a concepção de Estado e de relação entre sociedade e mercado que prevalecia no ideário e nas ações do governo do presidente anterior, presidente Fernando Henrique Cardoso.

Lula ganhou as eleições com a promessa de mudanças — “a esperança vencendo o medo”, como afirmava um dos slogans finais da campanha eleitoral, quando a tática de infundir receio às camadas médias, em decorrência de uma suposta radicalização política, manifestou-se na propaganda do candidato opositor na campanha presidencial, José Serra — e com uma enorme expectativa popular de que a partir dali tudo seria diferente. Mas, segundo o programa de governo apresentado por Lula e, especialmente, segundo a Carta aos Brasileiros divulgada em junho de 2002, a proposta seria a de modernizar o capitalismo, tornando-o menos “selvagem”, aumentar a capacidade produtiva de maneira a reduzir o desemprego e formular e efetivar uma política social capaz de combater a fome e diminuir a pobreza a e miséria no Brasil. Não faria o desejável, mas o

152 BETTO, Frei. O significado da vitória de Lula para a esquerda. www.midiaindependente.org.br

(03/01/2003)

153 Ibidem. 154 Ibidem.

possível. Não inventaria a roda, mas imprimiria a ela velocidade suficiente para atenuar a dívida social.155

Assim, a posse de Lula, cuja cobertura pela imprensa constituiu um dos objetos de nossa análise, foi esperada e preparada como um acontecimento de alta significação política. Na cerimônia oficial, ele fez dois discursos. O primeiro, no Congresso Nacional, quando foi empossado no cargo. Esse discurso foi lido como uma mensagem à Nação brasileira156. O segundo discurso foi feito no

parlatório do Palácio do Planalto quando da transmissão do cargo, simbolicamente representada pela transmissão da faixa presidencial, do presidente Fernando Henrique Cardoso ao novo Presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva.

A amostra da cobertura da posse do novo Presidente do Brasil foi composta por 26 matérias publicadas nos jornais Folha de São Paulo e O Globo e nas revistas Veja e Carta Capital, no período compreendido entre 1º e 10 de janeiro de 2003. A cobertura jornalística ofereceu importante destaque ao significado e ao “ineditismo” da chegada do primeiro metalúrgico à Presidência da República do Brasil. Os significados políticos da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, a festa popular da posse, os discursos do novo presidente e de seus principais auxiliares foram os temas predominantes nos jornais e revistas analisados.

A questão da pobreza foi mencionada em aproximadamente metade do material analisado e esteve presente de forma diluída com outras questões, como política econômica e as reformas trabalhista, previdenciária, política e tributária. Nas matérias publicadas no dia da posse157 - 1º de janeiro de 2003 - o tema da

pobreza foi citado em referência ao Programa Fome Zero, apontado como uma das prioridades da nova gestão. A questão não ocupou o primeiro plano da cobertura e foi tratada de forma superficial e fragmentada, sob a perspectiva do combate à fome. A matéria “Câmara vai coordenar área social”158 tratou da

criação, na estrutura do Poder Executivo, de uma Câmara Setorial destinada a coordenar as ações na área social. A nova ministra da Assistência e Promoção

155 BETTO, Frei. O significado da vitória de Lula para a esquerda. www.midiaindependente.org.br

(03/01/2003).

156 Discurso disponível em: www.info.planalto.gov.br

157 Lula pede a Furtado para recriar Sudene. Folha de São Paulo, São Paulo, 1º jan. 2003. 158 Câmara vai coordenar área social. Folha de São Paulo, São Paulo. 1º jan. 2003.

Social, Benedita da Silva, destacou que o Programa Fome Zero seria a diretriz principal do governo. No texto, apareceu uma referência à educação, especialmente, ao Ensino Superior. Ao sair da reunião, o novo ministro da Educação, Cristovam Buarque, informou que havia recebido “a determinação do presidente para que não haja vagas ociosas nas universidades federais”. A matéria “Lula assume o Brasil”159 antecipou o tom do discurso de posse do novo

presidente e fez referência ao tema da pobreza:

“Ao longo do processo de elaboração do discurso, Lula e seus aliados se esforçaram para evitar que o tom tranqüilizador – de mudança sem atropelos ou precipitações – esvazie a promessa tipicamente petista de inclusão social, redistribuição de renda e combate à miséria.160

As matérias publicadas nos dois dias que se seguiram à posse do novo Presidente da República enfatizaram o caráter popular da “festa da posse”, registrando a presença expressiva de populares na Esplanada dos Ministérios.161

O noticiário destacou também a “promessa de mudança“ contida no discurso feito no Congresso Nacional por Luiz Inácio Lula da Silva.

“No discurso de posse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva trocou a ênfase na estabilidade da economia pela volta à retórica da mudança, mas deixando claro que elas não virão de um ´arroubo voluntarista´, mas com ´paciência e perseverança´, com ´coragem e cuidado´. (...) A ênfase na mudança, tema de sua campanha e suposta ou real razão de sua vitória, não impediu a cautela de ressalvar que é necessário ´manter sob controle as nossas muitas e legítimas ansiedades sociais, para que elas possam ser atendidas no ritmo adequado e no momento justo´”.162

Nessas matérias que repercutiam o discurso do Presidente eleito, o tema da pobreza esteve presente. Com o discurso oficial do novo mandatário do País, a questão da fome, a necessidade emergente de sua superação e a convocação para que a população participasse desse movimento foram inseridos na esfera pública e ganharam visibilidade na esfera midiática. Entretanto, a abordagem foi superficial, fragmentada e diluída com outros assuntos. O destaque dado ao tema da fome e da pobreza no discurso de posse de Luiz Inácio Lula da Silva – o termo fome foi citado 13 vezes – não foi suficiente para que o assunto ocupasse o primeiro plano da cobertura. Na maioria das matérias, o tema só foi mencionado,

159 Lula assume o Brasil. O Globo, Rio de Janeiro, 1º jan. 2003. 160 Lula assume o Brasil. O Globo, Rio de Janeiro, 1º jan. 2003.

161 A festa popular da mudança. O Globo, Rio de Janeiro, 02 jan. 2003.

a partir da reprodução de trechos do discurso feito por Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso Nacional.

“No discurso no Congresso, Lula (...) convocou todos os brasileiros para um grande mutirão para acabar com a fome. Disse que essa é uma tarefa ética que deve ser de todas as forças políticas do país. (...) ´Eu, desejo antes de qualquer coisa, convocar o meu povo para um grande mutirão cívico. Para o mutirão nacional contra a fome. Hoje eu conclamo: vamos acabar com a fome em nosso país! Transformemos o fim da fome numa grande causa nacional como foram, no passado, a criação da Petrobras e a memorável luta pela redemocratização do país. Esta é uma causa que pode e deve ser de todos, sem distinção de classe, partido, ideologia´”.163

A matéria de Veja164 ressaltou que, apesar da promessa de mudança, o

discurso feito pelo novo Presidente indicava que o governo iria “continuar, aprimorar e aprofundar as reformas econômicas e sociais iniciadas por Fernando Henrique”. Foi único texto da edição da revista semanal que citou a questão da pobreza. A referência foi feita no lead: “Nos 45 minutos do seu discurso de posse, no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva empregou catorze vezes a palavra mudança e treze vezes o termo fome”. Apesar de o texto ter indicado o destaque dado ao tema da fome no discurso do novo Presidente, a edição de Veja não abordou o assunto.

No discurso, foi feita uma relação entre pobreza – tratada prioritariamente sob a perspectiva da fome – e a necessidade de “uma conciliação nacional” para superá-la. Segundo a matéria de O Globo165, “a promessa de mudança e o apelo

à conciliação nacional para superar problemas sociais e fazer o país voltar a crescer deram o tom do discurso de posse no Congresso”. Essa articulação, ainda que tenha sido pouco explorada no texto, ainda não havia sido registrada na cobertura da mídia, especialmente no gênero informativo, sobre a questão da pobreza. De maneira implícita, a relação entre a pobreza e a necessidade de uma “conciliação nacional” inseriu a questão como um problema político, que não diz respeito somente a fatores econômicos.

O jornal O Globo de 2 de janeiro de 2003 publicou o que chamou de “principais trechos” do discurso feito de improviso pelo Presidente no parlatório do

163 A festa popular da mudança. O Globo, Rio de Janeiro, 02 jan. 2003. 164 Ele falou em mudar 14 vezes. Veja, São Paulo, 08 jan. 2003. 165 A festa popular da mudança. O Globo, Rio de Janeiro, 02 jan. 2003.

Palácio do Planalto. Entre os trechos destacados pelo jornal estão aqueles em que Luiz Inácio Lula da Silva abordou a questão da fome como prioridade ética e moral e obrigação legal, determinada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos:

“Tenho fé em Deus que a gente vai garantir que todo brasileiro e brasileira possa todo santo dia tomar café, almoçar e jantar, porque isso não está escrito no meu programa, está escrito na Constituição brasileira, está escrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos. ”166

Assim, pela primeira vez na cobertura analisada sobre o tema, desde 1993, foi feita uma relação entre a pobreza – entendida como fome – e os direitos humanos. Essa articulação foi registrada pelo jornal, no entanto, tão somente a partir da reprodução do discurso do Presidente eleito, mantendo-se de forma pontual e superficial.

A prioridade ao combate à pobreza, definida na fala presidencial, também obteve eco – ainda que fraco – na cobertura das posses dos principais ministros do novo governo. Das quatro matérias publicadas sobre as posses de ministros (Cultura, Fazenda, Desenvolvimento Agrário e Controladoria-Geral da União), duas mencionaram o tema da pobreza, a partir dos discursos feitos pelas autoridades na ocasião. A matéria “´Rodrigues: Fome Zero vai impulsionar agronegócio´”167 fez menção à questão da pobreza, na perspectiva da fome, ao

reproduzir trechos da fala do novo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Em entrevista publicada na revista Carta Capital, o novo ministro da Controladoria-Geral da União, Waldir Pires, também citou o combate à pobreza:

“Uma das esperanças é que, caso a sociedade se disponha a enfrentar a corrupção, haja uma redução maciça de desvios e, por conseqüência, acúmulo de poupança bem significativa para enfrentar o problema da fome, do desemprego.” 168

Diferentemente dos outros períodos analisados da cobertura jornalística, em que houve uma presença significativa da questão da pobreza nos espaços destinados ao gênero opinativo do jornalismo, o tema ficou à margem desses

166 A festa popular da mudança. O Globo, Rio de Janeiro, 02 jan. 2003.

167 Rodrigues: Fome Zero vai impulsionar agronegócio. O Globo, Rio de Janeiro, 03 jan. 2003. 168 De volta à estrada perdida. Carta Capital, São Paulo,08 jan. 2003.

espaços no noticiário sobre a posse de Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo sendo alçada pelo novo Presidente do Brasil à prioridade máxima do país — como expressou no discurso feito —, num momento de relevante carga simbólica e política que é a posse de um presidente da República, o tema da pobreza não entrou na pauta dos colunistas políticos. As três colunas políticas publicadas no período169 detiveram-se nas análises dos significados políticos e históricos da

chegada do líder sindical à Presidência da República. Mesmo quando os colunistas se dedicaram a analisar algumas das principais prioridades da nova gestão, o tema da pobreza permaneceu ausente das reflexões. O único artigo publicado170, em que o tema apareceu, foi assinado por um representante da

Igreja Católica, Dom Mauro Morelli, bispo da Diocese de Duque de Caxias. No texto em que ele se propôs a fazer a homilia do primeiro dia de Lula como Presidente do Brasil, a pobreza foi qualificada como “um problema político, pois somos uma das maiores economias do planeta e grande produtor e exportador de alimento”. Foi registrada também uma noção mais abrangente acerca da pobreza, tratando-a não apenas sob a perspectiva da fome, mas também como falta de acesso à educação e precárias condições de moradia. A superação do problema foi tratada sob a gramática do direito, associando-a à noção de cidadania: “Quando a política iluminada pela ética comandar a economia, o Brasil será livre e forte. A cidadania do povo deve ser a razão e o alicerce do progresso para que entre nós reine a paz.”171

Assim, a presença do tema da pobreza no noticiário referente à posse de Luiz Inácio Lula da Silva decorreu, na totalidade das matérias, da referência a trechos de discursos políticos proferidos pelas autoridades públicas. Tal característica revelou, de um lado, o tratamento superficial dedicado ao tema. Mas, de outro lado, indicou um novo elemento que até então não tinha sido percebido nas demais coberturas analisadas. O tema da pobreza foi abordado — com uma única exceção — exclusivamente por fontes de informação ligadas ao governo, marcando a emergência do Estado como fonte de informação relevante

169 ALVES, Marcio Moreira. Festa popular. O Globo, Rio de Janeiro, 02 jan. 2003; CRUVINEL,

Tereza. Depois da catarse. O Globo, Rio de Janeiro, 02 jan. 2003; CRUVINEL, Tereza. As muitas faces do novo governo. O Globo, Rio de Janeiro, 03 jan. 2003.

170 MORELLI, Mauro. Presidente Lula, boa viagem. O Globo, Rio de Janeiro, 01 jan. 2003. 171 MORELLI, Mauro. Presidente Lula, boa viagem. O Globo, Rio de Janeiro, 01 jan. 2003

sobre o assunto, que antes era abordado apenas a partir das perspectivas da sociedade civil.