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4 A Study of Genre: Representations of Masculinity in the Soap Opera and

4.1 Skam 3 – Teenage Masculinity in the Soap Opera

4.1.4 Setting

Na linha argumentativa dos críticos da Internet vindos das fileiras activas nos grandes especialistas nas novas tecnologias está Jaron Lanier, cujo “You Are Not a Gadget” (2011) levou o debate para campos ainda inexplorados. Programador e músico, o autor foi um pioneiro dos media digitais e esteve entre os primeiros a predizerem as profundas mudanças que a Internet iria trazer ao comércio e à cultura. Como poucos, Lanier deu-se conta de que, por trás da euforia expansiva desta poderosa tecnologia, havia aspectos relacionados com o próprio ser humano e as suas facetas comportamentais que deveriam ser analisados e propostos como tema de reflexão científica, técnica e sociológica. Isso explica o êxito de “You Are Not a Gadget”.

“You Are Not a Gadget” – escreve o autor – argumenta no sentido de demonstrar que certo tipo, específico e popular, de Internet tal como hoje a conhecemos – e não a Internet como um todo – tende a conduzir a nossa vida para padrões que gradualmente degradam os caminhos que escolhemos para existir como indivíduos. Este desafortunado desígnio está orientado para tratar as pessoas como um aspecto residual e acrítico de um cérebro global.

Indo ao ponto de analisar as doenças que a excessiva dependência desta ferramenta tecnológica pode provocar, Jaron Lanier chama a atenção do leitor para o facto de a questão central não ser somente “espiritual”, mas de ter também “profundas implicações políticas e económicas”.

Nesse sentido, a sua análise é das mais críticas e radicais de que temos notícia, ajudando a explicar de que modo o utilizador da Internet, além de ser condicionado e

transformado por ela, tende a nunca duvidar do título de propriedade que legitimamente imagina ter sobre todos os conteúdos, designadamente os protegidos, por considerar que a sua condição de internauta o investe de um poder que ultrapassa esse tipo de deveres e obrigações.

Por exemplo – escreve Lanier – a ideia de que a informação deve ser “livre” soa inicialmente como uma coisa acertada. Mas o resultado é que se verifica que a influência e o dinheiro gerados começam a acumular-se nas mãos de certas pessoas ligadas a círculos muito restritos do mundo dos computadores, muitas das quais espiam essencialmente concebidas para adquirir informação e vender publicidade ou para movimentar dinheiro do mercado como se tudo passasse por um acto de magia negra. Os motivos das pessoas que jogam forte no online não são necessariamente maus – tenho muitos amigos entre eles –, mas a estrutura da economia online como tem vindo a ser desenvolvida está a afectar seriamente a classe média e a viabilidade do capitalismo ao serviço da comunidade, a longo prazo (p. 49).

Noutra passagem do texto introdutório do livro, o autor escreve:

À medida que a tecnologia se torna cada vez melhor e a civilização se torna crescentemente digital, uma das grandes questões que devem ser colocadas é a seguinte: conseguirá um número suficiente de pessoas pertencentes à classe média sobreviver apenas com o que lhes vai no coração e na cabeça? Ou deixarão para trás, distraídos pelo vazio das vidas que foram criando, o que é verdadeiramente essencial? (p. 51) E Jaron Lanier faz questão de explicar que “o problema não é somente de músicos e jornalistas, já bastante empobrecidos”, acrescentando:

Imaginem que guiam um táxi ou um camião. Já repararam que os carros computorizados são auto-suficientes, conduzindo-se a si mesmos? De que irão viver os vossos filhos se os computadores continuarem a evoluir desta maneira, tendo cada vez mais capacidade? Aqueles que, como nós, têm uma relação privilegiada com a Internet vão ter grandes vantagens especialmente na área da medicina e do progresso no reino digital. Talvez consigamos viver muito mais que os filhos dos condutores dos tais camiões. (p. 57)

A noção de que computadores mais baratos, smartphones, etc., irão compensar-nos pelas disfunções do sistema económico não corresponde à verdade. A pobreza continuará a aumentar e muita gente irá sofrer por causa disso. Só podemos contar com uma forte classe média para assegurarmos a sobrevivência das coisas que nos são caras: autodeterminação e liberdade, um mercado comercial dinâmico e com boas surpresas, e uma democracia que não possa ser comprada ou destruída apenas porque as pessoas deixaram de acreditar nela. Uma boa parte das noções e ideias que povoam o online, por muito apelativas que possam parecer à partida, estão a afastar-nos perigosamente das coisas maravilhosas deste mundo. (p. 58).

Depois de recordar a forma como grandes escritores e filósofos, de Karl Marx a H.G. Wells e E.M. Forster escreveram sobre os aspectos desumanizantes e empobrecedores da industrialização no século XIX, Jaron Lanier escreve: “Aqui estamos nós, muitas gerações depois, vivendo a experiência do início de um há muito anunciado fim de ciclo. Talvez este livro possa ajudar a abanar mundo da cultura da Internet fazendo-o acordar do seu estado de letargia” (p. 63).

Jaron Lanier é apenas uma das vozes que, conhecendo por dentro, com detalhe e profundidade, o mundo da Internet, decidem escrever não contra ela como ferramenta capaz de melhorar a vida colectiva, mas sim contra a sua perversa capacidade de tornar mais desumanas e vazias as nossas vidas criando a perigosa ilusão de que estão a melhorá-las.

A sua abordagem tem várias vertentes, de que aqui se destacou a económica e social. Mas existem outras, incluindo a de natureza ecológica que se detém nos custos da utilização destas tecnologias que muitos imaginam ser tão gratuitas como o acesso, por falta de uma justa regulação, aos conteúdos autorais e informativos protegidos.

Na realidade, a Internet veio mudar profundamente o mundo, talvez mesmo mais que o aparecimento da luz eléctrica ou do telefone, porque altera comportamentos, modelos de relacionamento social, visões do mundo e até o conceito de propriedade. Nada disso aconteceu com os inventos anteriormente citados, que transformaram a vida dos seres humanos em comunidade mas não os aspectos cognitivos e inter-relacionais dessa vida.

Como Jaron Lanier bem assinala, a Internet pode mesmo estar a contribuir para a destruição da classe média, com todas as consequências políticas que daí poderão advir e, acrescentamos nós, para criar a ilusão, meramente virtual, de que estar activo no mundo digital é quando basta para derrubar governos, fazer revoluções e fazer triunfar novas ideologias.

A questão da gratuitidade no consumo dos bens culturais, tema central desta tese, está profundamente ligada a alguns dos pontos de vista enunciados pelo autor. Com efeito, criando a ilusão de que tudo passou a estar ao acesso de todos, de que já não é preciso sair de casa para se garantir o que é essencial, de que estamos a ficar com mais posses materiais quando na realidade empobrecemos e de que o facto de dominarmos esta tecnologia nos torna automaticamente proprietários de tudo o que circula neste imenso domínio público em que, só na aparência, tudo é de todos está, de facto, a comprometer o futuro da cultura, dos seus criadores e dos grandes avanços espirituais e civilizacionais que ela por princípio garante.

Lendo-se este e outros autores, somos confrontados com uma visão contraditória e por vezes desnorteante: após o colapso dos regimes de tipo soviético, nunca foi tão importante na lei e na mentalidade dos cidadãos o princípio da propriedade privada, já que a ideia proudhoniana de que a propriedade é um roubo deixou de fazer sentido no plano teórico e também no domínio da filosofia política.

De qualquer modo e por mais paradoxal que pareça, é precisamente neste novo ciclo que quase se extingue a ideia de “propriedade privada” no tocante aos bens culturais, como se um tsunami ideológico os tivesse “sovietizado” e posto, como numa grande praça de Pequim ou Havana, ao serviço das massas populares, já que, supostamente, eles foram criados para servir o povo, sem outra obrigação ou encargo que não seja a construção do “homem novo”, ideia tão cara à ideologia marxista.