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Sett i forhold til kildebruk kan metadata bidra til «kunnskaping»?

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5.1 Sett i forhold til kildebruk kan metadata bidra til «kunnskaping»?

Renata é uma profissional do sexo de 19 anos, natural do interior paulista. Ela se define como travesti e diz não ter problemas com sua genitália, pois gosta também de ser ativa. Atualmente, está em um relacionamento de cinco meses com um homem casado, que já foi seu cliente.

Em todo o discurso de Renata, percebemos a presença de diversos roteiros culturais em relação aos mais variados temas. Uma possibilidade para explicar tal fenômeno se dá pelo fato do pesquisador ser da área psi. Como ela expressa ao final da entrevista, é bom ter “quem quer conversar e entender” elas, posto que “são poucas pessoas que entende nossos casos”. A presença de uma figura tida como “mantenedora do conhecimento” pode ter evocado nela os elementos culturais de seus roteiros.

O primeiro tema evocador desses elementos é o do termo utilizado para autodeterminação. Ela se coloca como travesti, posto que não nasceu querendo operar, mas se “formou” aos 15 anos, com o incentivo de travestis mais velhas que a aconselharam a tomar hormônios e “batalhar como elas”. Benedetti (2005) também traz em seu trabalho esse conceito de que uma travesti não nasce, ela se forma ou se cria. Além disso, essa autodenominação se deve também ao fato de seu gosto por ser ativa em suas relações sexuais, fator esse não relacionado com a definição de transexual, como já dito anteriormente.

Ao definir o que é sexo para ela, Renata se baseia no cenário cultural do sexo biológico (macho e fêmea) e afirma que o ato sexual se dá entre um homem e uma mulher. Quando fala sobre a prostituição traz a questão do preconceito sobre o ofício e do fato desta ser a profissão “mais antiga do mundo”. Além disso, assegura que está nesse meio pela necessidade do dinheiro. Algumas frases de efeito também surgem como “o importante é ser feliz” ou quando relata a relação com o namorado, afirma que com ele faz “AMOR. É diferente de sexo”. É interessante notar que algumas dessas colocações surgem fora de contexto, tornando-se outro fator sustentador da possibilidade do pesquisador ter influenciado tal surgimento. Quando questionada se está satisfeita com sua vida sexual, Renata faz um discurso onde enfatiza a ideia de ser feliz, passando por questões religiosas e não entrando em detalhes na resposta pedida:

Olha... Satisfeita? Num ponto sim, né? Por que... Eu travesti... Um ponto eu tô certa, um ponto eu tô errada... Porque eu fui evangélica, né? Eu conheço a palavra de Deus. Só que eu acho que cada um deve ter a sua opinião, né? Eu... Eu sou evangélica, a Fernanda é do Candomblé, umas são espíritas, sabe? Então, eu acho que o importante mesmo é você ser feliz, sabe? É você ser feliz, fazer o bem pra você e para os outros... Porque o que eu penso é que dessa vida a gente não leva absolutamente NADA. Então, o importante é ser bem pra você mesmo, não fazer mal pra ninguém, ter sua vida e ser feliz, que é o mais importante, né? A felicidade.

Outro tema no qual os cenários culturais são muito evocados, porém fica claro que não são parte de seu roteiro, é a questão do uso do preservativo. Quando questionada sobre o que não pode faltar no sexo, Renata logo enfatiza a presença do preservativo, desenvolvendo um discurso sobre o aumento dos índices das doenças sexualmente transmissíveis na população e o papel fundamental do preservativo na preservação da saúde e da vida das pessoas. Contudo, quando questionada se tem o costume de utilizar o preservativo, ela dá a entender que não o utilizava com regularidade e só o agora faz por conta do namorado. Ainda assim, deixa escapar o fato de não utilizar tanto a camisinha quando o membro a ser encapado é o dela. Essa variação no uso do preservativo tem diversas nuances. A primeira delas tem relação com os roteiros interpessoais, que parecem ser construídos de maneira unilateral. Dessa forma, o pensamento presente em seu roteiro parece ser o de que ela pode pegar o vírus do outro, mas o outro não pegaria dela, por isso, “o cliente, quando quer fazer um sexo oral em mim, eu não uso camisinha”.

Outro fator que interfere é o fato do parceiro já ser conhecido, no caso, o namorado. O preservativo é abandonado porque “eu já conheço ele, ele me conhece...”, tornando-o diferente dos demais, os quais ela não sabe o que “ele faz com a outra pessoa”. Na situação específica de Renata, seu namorado é casado e, portanto, deve ter relações com pelo menos mais uma pessoa além dela, uma pessoa sobre a qual nada sabemos. Aparentemente, na construção de seu roteiro sexual, Renata ignora as demais relações interpessoais do parceiro, que podem também afeta-la de algum modo, pelo fato do sentimento estar em cena.

O último fator desregulador do uso do preservativo para ela parece ser a associação da contaminação pelo HIV com a mudança na aparência de saudável da pessoa, o que daria pistas para identificar se a pessoa tem o vírus ou não:

Mas tem homem que eu já saí que tem uma boca porca, nojenta... Então a gente vê, né? A pessoa com mal estar na boca, né, eu ponho em mim preservativo. Aí quando eu faço nele eu uso, por causa da minha boca, do meu dente, eu tenho aparelho no dente, então às vezes dá uma infecção, dá afta, sangra minha boca...

Ainda pensando nos cenários culturais que povoam a narrativa de Renata, podemos ver em diversos momentos ela buscando legitimar sua feminilidade, apesar dela não obter muito sucesso por trazer informações contraditórias. Ao falar sobre seu namorado relata o fato de ele ser casado e afirma que ele “é HOMEM mesmo”, porém logo em seguida defini a orientação sexual do companheiro como bissexual pelo fato dela ser apenas uma “quase mulher”. Quando discursa a respeito de sua profissão, aponta o fato de muitos casais aparecerem à procura de programa e ela os realizar, ainda prestando atenção para ver se a mulher é bonita, mas sempre afirmando que só o faz por causa da presença do homem, pois “gosto de homem mesmo”. Sua falha de legitimação fica mais clara com o fato dela ser uma das poucas colaboradoras que assinou o termo de consentimento com o nome masculino completo, colocando o nome feminino apenas entre parênteses. O único momento no qual se torna bem sucedida em sua tentativa de legitimação é quando fala sobre seus primeiros parceiros sexuais que até hoje são “homens”.

A respeito de seu relacionamento, Renata aponta que seu namorado é muito bom para ela e enfatiza a importância do parceiro assumi-la perante a sociedade como um elemento essencial para o bem estar da relação e imprescindível no roteiro de quem se relaciona com ela. A contradição aparece novamente em sua fala, posto que o namorado, sendo casado, nunca poderá assumi-la publicamente como sua companheira. Além disso, ela relata que seu namorado a aconselha muito, “ensina as coisas da vida, como viver” e indica o quanto isso é valorizado por ela, classificando-o como seu homem ideal. Esse mesmo fator nos coloca a pensar novamente no caráter unilateral de relação, onde somente o namorado, por ser maduro e advogado, traz o ensinamento de como viver, enquanto ela nada parece acrescentar à relação. Além disso, podemos também pensar a respeito do discurso de gênero que coloca a mulher em uma posição inferior a do homem, o mesmo movimento que Renata parece fazer ao enfatizar esse papel de “comandante” da relação que seu namorado adquire.

Ao longo de suas respostas, Renata deixa claro que o sexo em seu roteiro é um trabalho apenas, fazendo com que ela classifique quem o faz de graça como sem-vergonha. O sexo também é tido por ela como algo fácil de aprender e de ser assimilado pouco a pouco para a criação dos roteiros. O sexo, assim como para as outras colaboradoras, também é separado do amor. Contudo, para ela é a sociedade quem se encarrega de fazer essa separação no campo Trans. Apesar disso, ela mesma realiza essa divisão em sua vida ao dizer que com o namorado ela faz amor e não sexo.

Porque normalmente, o que acontece, ele quer amar o travesti, ele quer um... Um relacionamento estável... [-]10

é o preconceito da sociedade. Ele tem muito medo. Em seu relacionamento com os clientes, ela parece estabelecer um roteiro interpessoal bilateral onde ela pensa no prazer do cliente junto ao seu, buscando tornar o encontro “diferente”, “gostoso” e “liberal”. Entretanto, ela dá indícios de um novo elemento existente nesses roteiros: a sedução. Para cativar o cliente e incentivar seu retorno para um novo programa, ela o seduz, aproveitando o fato de que “o cliente que sai com a gente ele é muito carente. Então, ele precisa, ele quer carinho, quer atenção”. Essa sedução aparece mais claramente nas conversas telefônicas tidas por ela durante a entrevista com diversos clientes e que foram descritas no diário de campo do pesquisador:

Durante a entrevista seu celular tocou e ela pediu para atender, pois era um cliente. Desliguei o gravador e ela atendeu ao telefone dizendo “oi paixão, já tá chegando no motel?”, ela se mostrava muito amável e sedutora com o cliente. Em certo momento disse “o que você quiser. Uma surubinha gostosa com uma amiga minha? Claro. Têm várias aqui tenho que ver quem pode”. Eu entendi que eles haviam marcado um encontro para aquela tarde e ele estava ligando para dizer que não poderia comparecer. Ela disse “não? Amanhã? Mas você vem né paixão? Então tô te esperando”.

Em relação às práticas sexuais ela traz uma ênfase nas práticas de penetração. Apesar de durante toda a entrevista ela citar a prática do sexo oral, beijos e carícias, a penetração é a única prática citada quando ela está discursando a respeito de seus encontros sexuais com clientes ou com o namorado, ou seja, descrevendo suas cenas sexuais. Além disso, ela enfatiza a importância do parceiro ser liberal, ou seja, gostar tanto de penetrar quanto ser penetrado, como um fator para que a relação seja “gostosa” e “diferente”. Contudo, se a característica liberal deixar o campo da penetração e migrar para outros campos, como por exemplo, o fato citado por ela de alguns clientes pedirem para engolir o seu esperma durante a relação, essa liberdade passa a ser vista com estranheza e como sinal de desleixo e, portanto, não pode ser confiável.

Ao relatar sua primeira experiência sexual, Renata narra um acontecimento inusitado. Além de tal experiência ter ocorrido em uma idade muito baixa (11 anos), ela foi marcada por um acontecimento fora do roteiro dela: o menino com quem ela se relacionava acabou por urinar dentro de sua boca enquanto ela lhe praticava sexo oral. Seu relato de tal experiência também deixou claro as mudanças sofridas por seus roteiros de lá para cá, tendo nesse período

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inicial o prazer estado ausente, assim como o foi para Silvia, e o medo presente, fato que atualmente foi invertido.

No roteiro de Renata podemos vislumbrar a presença maciça dos cenários culturais, buscando um encaixe perfeito com as normais sociais e do gênero. Entretanto, no caso dela, a premissa de Gagnon (2006) de que o discurso e a conduta são questões diferentes é real e podemos observar a presença desse roteiro somente no discurso. Em sua conduta vemos um roteiro possuidor do sexo com dois significados diferentes: o primeiro sendo o trabalho com o elemento da sedução muito presente e o segundo sendo o sexo que se tenta ligar ao amor dentro de relacionamentos.