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4 KARTLEGGING AV SYKEHJEM

4.5 Serveringstilbudet

Este diálogo funcionou como divisor de águas. A partir daí Balthazar passou a ocupar o sofá de dois lugares da sala de atendimento, cabeça em um dos encostos, pés para fora no outro encosto. Passou a contar-me de seus amores platônicos: Fulano era ‘macho’ demais. Sicrano era efeminado. Havia também um místico, bem culto, lindo! Finalmente tornei-me sua confidente. Até então se dividia entre o que sentia de fato por mim e o que sentia diante da instituição formativa. Fiquei também feliz quando percebi a mudança. Minha posição de eu escutadora encontrava-se agora com sua posição de eu ‘mulher sonhadora’. Em seus gestos não havia afetação alguma e ele mostrava seu encanto por certos atributos masculinos e outros femininos, tendo elogiado em várias ocasiões meus sapatos, roupas ou mudanças no corte de cabelo. Aprendeu a extasiar-se com a beleza. Beleza da qual anteriormente apenas se perguntara da função: “bonita demais, pra que tanta beleza?” Seu self estético, machucado naquele dia em que Nossa Senhora do Bom Parto ficou sem o agradecimento devotado de seu pai, re-emergia como nova posição de eu no aqui/agora de nossos encontros dialógicos. Certo dia chega bem ‘ressabiado’ (expressão comum em suas narrativas) e mostra-me algo que leu na Internet70. Tratava-se de um artigo sobre homossexualidade com visão preconceituosa de alguém que se achava guardião dos valores cristãos. Isto tudo o perturbou. Dizia não saber como se comportar. Nesse dia mostrava uma rigidez

70 Posteriormente enviou-me o texto completo, produzido por uma ala bastante conservadora da Igreja que criticava quem quer que acolhesse os homossexuais.

corporal que mantinha seus ombros duros e pesados. Por várias vezes inclinou a cabeça para um e outro lado. Para relaxar e também para conseguir mantê-la alinhada. Era como se o corpo perguntasse de que lado deveria ficar. Sua identidade sexual em muito o incomodava. Queria ter nas mãos sua condição por não compreendê-la. Desconfiava de quem confiava nele. Momentaneamente voltara a desconfiar de mim. A posição de eu confiante se alternava com a posição de eu descrente a cada elemento novo com o qual tomava contato. Nesse momento era preciso paciência, de forma alguma questioná-lo ou cobrar sua confiança, que deveria re-instalar-se gradativamente para fazer contraponto àquela que foi abruptamente perdida. Eu também não poderia desanimar agora71.

Mais para o final do acompanhamento, precisamente na consulta terapêutica que antecedeu a cerimônia de sua ordenação diaconal, algo se passou que poderia ser chamado de um estado alterado de consciência. Chega ao consultório e fica mais tempo que o normal diante da moringa de água que há na sala de espera. Deixo-o à vontade. Talvez estivesse relaxando ou solucionando algum problema de seu TCC. Assim que iniciamos a conversa me diz em tom de interrogação:

Aquele quadro lá embaixo. Jesus e a samaritana conversando no poço. Está tudo esquisito. Jesus e a mulher estão virados para quem vê o quadro. Tudo isto aqui, os enfeites de tua casa... Parecem estranhos e são como meus e passaram a fazer parte de mim. Mesmo você, uma vez você disse que gostava de mim. Achava que era só teu trabalho. Estranho mas tudo isso aqui tem a ver comigo. A chave da porta, os chaveiros, tudo tem história e tudo tem um sentido. Eu acredito que você gosta de mim. Tudo aqui sou eu e fala alguma coisa de mim. O que é isso?

Fiquei em silêncio para que ambos pudéssemos usufruir deste momento que ele completou com a frase: “gosto disso tudo, amanhã é dia de minha ordenação e, incrivelmente estou feliz!”. Pareceu-me que este estado de ser assinala a existência de um amadurecimento marcante no self de Balthazar. Há nele uma receptividade e naturalidade maiores. O quadro sempre esteve naquele mesmo lugar, o mesmo quadro que ele via agora era um outro quadro, não o mesmo. A proximidade do ritual de ordenação gerou bem estar em oposição à ansiedade anterior. Jesus conversou com a samaritana, ensinou e aprendeu na mesma experiência. Ela (sua mãe/ a samaritana) teve muitos maridos e não tem nenhum. O poço ressurge no

71 Cf Massih, 2000, p. 160-165. Esta posição de eu que não desanima nunca foi por mim abordada nesse livro. Um psicoterapeuta deve ter paciência e persistência pois confia que as mudanças se darão.

tempo de Jesus, que não era sacerdote; era também o poço de seu sonho, metáfora para a vida que recomeça. A fonte não secou e Balthazar a reencontra na estranheza de minha casa/consultório. Suas múltiplas identidades: negritude, condição homo-erótica, padre, filho de ‘pai’ calado, de “mãe bonita demais, para que tanta beleza?” se congregam nas vésperas do ritual de ordenação e ele afirma estar contente. Talvez por se sentir livre para receber minha casa com seus objetos, para viver o vínculo que estabeleceu comigo.

Hermans eKonopka (2010, p. 164-165) falam deste estado de receptividade do self que remonta à poesia e também a certos estados místicos. ‘Sou tudo o que está em volta de mim e nada sou’, seria esta a frase não dita. Os símbolos facilitam essa condição de receptividade e o quadro que falava da passagem bíblica funcionou como input para o que vinha se organizando dentro dele. Jesus e a samaritana dialogaram e na imagem estavam de frente para o observador, o que parece impróprio. Não é de dois modos: 1- pelo fato de Jesus, a samaritana e a posição de eu que percebe o triângulo são, todos eles, Balthazar crescido e autenticado por seus sentimentos de pertença a mim e a minha casa (outra posição de eu aberta por nossos diálogos clínicos); 2- não é impróprio na medida em que serviu para instalar esta não-posição de eu: estou fora de tudo e sou tudo isso. O poço é seu retrato multidimensional, minha casa é sua casa mesmo no intervalo entre as conversas terapêuticas. A casa está dentro e fora dele com todos os seus símbolos e objetos de valor afetivo.

Às vésperas de sua ordenação diaconal consegue estar feliz. Acho que o trabalho surtiu efeito. Não sei exatamente como isso tudo se deu. Ele foi dos poucos clientes que diziam meu nome o tempo todo: “Eliana, (com voz grave), você acha que isso vai dar certo?”

Após a ordenação diaconal vieram as férias. Ele ainda não havia terminado a faculdade de Teologia de forma que continuou o processo psicoterapêutico. Pude entrar em contato com suas posições de eu fraterna, confiante em mim e em nosso trabalho. Disse-me que nunca julgou a mãe verbalmente e o fato é que nunca aprovou sua leviandade, “ou seria burrice?”. Esta visão crítica também aparece em Gaspar, o caso apresentado a seguir. Perdeu a família por uma aventura, era seu raciocínio. Ainda não sabia que uma paixão pode cegar. Não sabia perdoar porque não tinha consciência de seus afetos. Movido pela posição de eu órfão de mãe viva, e

estando em contato apenas com seu pai, suas emoções e sentimentos ‘encroaram’ tal como fruta colhida antes do tempo.

Foi para mim muito compensador dialogar com Balthazar depois que se entregou ao processo de desvendar seus mistérios, suas dores e seus amores. Ao término desta narrativa percebo que uma nova era se abriu. Balthazar agora é outro. Novas estórias construirão uma nova história para esta sua vida que começa.

Serei sempre sua psicoterapeuta, embora não o acompanhe presencialmente em seus novos desdobramentos. Um sentimento de gratidão mútua se instaurou entre nós.