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Respondentenes vurdering av maten og måltidene

4 KARTLEGGING AV SYKEHJEM

4.4 Respondentenes vurdering av maten og måltidene

Nunca havia se referido à sua identidade sexual até o momento em que falou dos colegas efeminados. O tom que usou pareceu-me revelar um desconforto como se os ‘efeminados’ deturpassem a imagem daqueles que tem inclinação homoerótica. Até então eu imaginava que fosse ainda uma criança com uma enorme cabeça de pensador. Expressava-se bem, parecia reflexivo e prestava muita atenção às minhas intervenções. Mostrava interesse em compreender as ligações que eu propunha. Parece que não as tomava como interpretações, ao menos não se pareciam com aquelas que ele imaginou no início. O que eu lhe oferecia eram possibilidades de compreensão ou, como ele mesmo referiu, “um encadeamento dos fatos”. Estávamos tão juntos no resgate de sua história que o ‘círculo hermenêutico’ se instalara. Não havia interpretações invasivas que tentassem explicar sua vida. Ao contrário, estávamos implicados um com o outro.

Seu processo de subjetivação reportava ao mistério, ao sagrado. ‘Uma santinha’ seqüestrada que ainda não se expressou. Um modo de ser no mundo, uma posição de eu que deverá se afirmar através do papel institucional do padre, o elemento feminino organizado, colocado a serviço de um valor, não desvirtuado para uma homossexualidade fetichista. No seu mundo original o feminino se perdeu, a oração calou naquele dia triste. Eu não deveria interpretar este dia como causa de seu modo de ser no mundo. Talvez ele tivesse razão, a causa está lá adiante, no exercício da espiritualidade que ficou represada. Estava aprendendo a ser grato através da oração de seu pai e a aprendizagem foi bruscamente interrompida. Era fonte para sua vida e estancou no caminho. A dignidade de seus pais perdeu-se naquela história de traição e agora era preciso resgatá-la a partir de si próprio. Afirma Mardones (1994, 23):

O respeito à consciência pessoal e à intimidade dos indivíduos avança frente aos perigos e violações das mesmas na modernidade. Um processo dessa magnitude não poderia deixar de influir no modo de aparecimento da religião em si mesma.

Mardones parece estar se referindo à religião pessoal, aquela que vamos construindo ao longo do tempo, das histórias, das narrativas bíblicas (bem ou mal interpretadas). É isto que o diálogo psicoterapêutico com as pessoas que buscam a vida religiosa deve fazer: tira-los do discurso institucional pronto e fazer emergir a

fala autêntica com o sagrado, o imaginativo ou o que quer se denomine como ‘outro’ ou transcendente. Quando Jesus encontra a samaritana, converte-se e a converte. Ninguém salva ninguém. Em seu tempo de vida Jesus também amadureceu na fé. ‘Sou a água viva’. A água viva é metáfora para a verdade que gera vida e fé. Hoje em dia o chamado de Deus e o chamado por Deus leva em conta a “superstição humanitária” e “a vivência e o redescobrimento do sagrado passa fortemente pelo indivíduo” (MARDONES, p.24).

Sem palavras para expressar desejos que se manifestaram muito antes de qualquer elaboração reflexiva, Balthazar precisa de interlocutores que suscitem a erupção da metáfora restauradora. A profundidade do poço como fonte de vida, a espiritualidade que brota do fundo iniciam o diálogo com posições do eu que alimentarão não só o papel do padre, algo já pronto e enraizado na sociedade, mas a maneira como este jovem vai habitar nesta escolha. Escolha que envolve normas de conduta, patrulhamento do corpo, conceituações morais e éticas para nortear sua ação no mundo.

Os diálogos clínicos se sucedem e após cerca de quatro semanas surge o sonho a seguir:

Devo enterrar uma mulher. Parece que está viva. Mas vou escavando. É estranho, parece que ela está viva. Continuo escavando. Estou à beira de um rio. De repente olho para o outro lado do rio e vejo meu pai e minhas irmãs. Eu também estou lá. Meu pai espera eu escavar. X estava lá (a amiga separada do marido)... É uma mulher que admiro, tem inteligência e decisão. Tinha também duas meninas de roupa azul que viam tudo o que se passava e riam.

Consigo enterrar a mulher que então revela que está viva. Ela dá risada bem alto. Gostei! Ela está viva. Olho para o outro lado, eles estão me esperando.

Comento com ele: “Você está escavando e também está do outro lado. Quem escava e quem olha?”. Ele diz: “Que estranho!”. Pergunto-lhe: ”Você é estranho?”. Responde-me de modo irônico: “Sou adequado! Bem que Padre X ercebeu...”. Retomo a ideia: “Você se estranha: Tudo é você: o menino observando de um lado do rio, o que enterra a mulher na outra margem. Tudo é você e mesmo as duas meninas de azul que riem68, teu feminino dividido. Nenhum dos personagens consegue enterrar a mulher. E seu pai aguarda que o enterro se conclua. Parece

68 Cf Masterson, sd. Passim. O autor, adepto da psicanálise das relações objetais, refere-se ao adolescente fronteiriço (expresso aqui na divisão) que, hoje em dia, pode ser visto e acompanhado como uma etapa transitória do amadurecimento, a ser superado pela elaboração clínica.

que seu pai é quem deseja que ela seja enterrada”. Com raiva e assertivamente diz: “Nunca culpei minha mãe. Não tenho nada a ver com o que aconteceu entre os dois”. Concluo: “Teu pai te obrigou a ficar sem mãe. Obrigou você a fazer o papel dela. Você não teve escolha. Ao invés de brincar precisava preparar o almoço, arrumar a casa. Ficou sem mãe, perdeu parte da infância nos serviços da casa. E nunca reclamou. Ficou de luto, não podia chorar e tinha que fazer o papel de quem morreu (a mãe, que no sonho permanecia viva)”. Balthazar diz (como que repassando as memórias da infância): “Agora me lembro de coisas que eu fazia... nada adequadas”. Conta então que muitas vezes (consciente de que pode ser mau): “peguei o gato pelo rabo e coloquei urtiga ‘lá’ (sic). Ele saiu berrando e eu só olhando... nem ri, nem tive dó... nada”. Fecho o assunto: “Difícil para você ter dó de alguém.... ninguém teve dó de você”.

Comentários clínicos: Pensei na pastoral que ele exercia. Como ter compaixão de quem sofre? Contava sempre que fazia a pastoral por dever e que não conseguia sentir dó de ninguém. Era um burocrata. Ficava contente quando aparecia uma senhora bem intencionada, que gostava de ajudar as pessoas. Dava uma orientação geral, ensinava algo e saía de cena. Recentemente havia me contado de um senhor (vocação leiga) e de como ele se alegrou quando Balthazar lhe delegou atividades pastorais: visitas para levar a hóstia, escutar as histórias etc. Já Balthazar sentiu-se muito culpado ao delegar o que deveria fazer com abnegação e zelo. Onde desovar seus bons sentimentos de compaixão? Sentimentos que ficaram sequestrados desde seus nove anos de idade. Lembrei-me então de um sonho que ele havia contado anteriormente. Fiquei em dúvida se deveria relembrá-lo neste momento. Decidi funcionar como sua memória. Abaixo o sonho:

Estou na piscina com X. Da cintura para cima conversamos normalmente. Da cintura para baixo, estamos nos envolvendo sexualmente. X é casado, bonito, tem três filhos, é inteligente. É um dos poucos leigos que freqüenta a faculdade, gosto muito dele. Sacrificado, quer estudar Teologia e tem família para sustentar.

Ele se recorda de ter me contado o sonho. Pergunto se percebeu que tinha compaixão pelo colega e, ao mesmo tempo, atração sexual. Responde: “Dizem que preciso sair do armário, sou muito adequado... Para que sair do armário? Se vou ser padre, para que? Oficialmente, sou casto”. Respondo: “Uma coisa são os votos, outra coisa é o que você sente”.

A lei externa servia de ancoradouro para sua repressão. Duas dimensões diferentes, instinto e leis, usadas do mesmo modo. Duas dimensões no sonho: a linha divisória entre água e ar lembrava um espelho e o mito de Narciso se atualizava pelo avesso já que a imagem o assustava e incomodava69. Imagem esta que o dividiu em duas posições de eu: a do homem casado, talvez representando seu pai, e a do homossexual reprimido e trazido à tona pela atração que sentia pelo colega. Parece que a impotência dos nove anos de idade firmou uma posição de seu eu: sem impulsos ou emoções muito específicas. Num período da vida adequado para a aprendizagem, período em que as feiras de ciências ocorrem nas escolas, período em que divertir-se é descobrir o mundo, ele estava as voltas com os serviços domésticos, sem orientação, sem o carinho de uma mãe. Colocar urtiga no rabo do gato é experimentação misturada com sentimentos destrutivos, maldades não expressas no momento e na direção certas. Na situação presente um limitador concreto se oferecia: se oficialmente deveria ser casto, então seria casto. Se deveria ter sentimentos de compaixão, então teria. Havia um mundo fora que o delimitava por dentro, essa era a sua ilusão. A questão é que não sabia como exercer de modo positivo a castidade e a compaixão e assim o fazia pelo negativo: não praticar sua sexualidade homoerótica, não maltratar as pessoas. E ainda, para quê expressar-se? Não seria escutado de forma alguma. Evitava assim a frustração. O diálogo de dominação corrente na instituição cabia como uma luva no represamento de sua dor. Ainda nas associações trouxe uma memória recente:

Nessas férias enquanto eu estava na casa “de pai” faleceu seu Beltrano. Sentei na calçada com os vizinhos à noite e Dona Zizinha dizia a toda hora: “coitado dele”. Disse-lhe: Como assim, Dona Zizinha? Morrer é o fim de todos nós!E ela respondeu: “Eu sei. Coitado é porque ele era coitado mesmo a vida toda. Agora até que ele tá (sic) bem”. Essa velhinha é uma sábia. Só na morte há o descanso. Seus dois filhos ainda moram com ela. Mesmo os outros casaram tarde. Com cerca de 40 anos. Viver é sofrer, é isso, Dona Zizinha é que ‘tá certa’.

Disse a ele: “Você queria ter completado teu crescimento em casa junto à tua mãe”. Balthazar responde: “Teria sido tudo diferente”. Continuo: “Você perdeu o lar ainda verde. Coitado você”. Dei-me por satisfeita ao ter entrado em contato com muitas de suas dores e conflitos. Desejava ser casado como o colega de faculdade pelo qual sentia compaixão na vida desperta e desejo sexual na vida onírica. Tudo

69 Cf Roudinesco e Plon (2007, p.530-533 ). Para compreender mais a questão do narcisismo na vertente psicanalítica consultar este verbete. E ainda: Hegenberg, (2009, p. 59-62 ).

sempre separado como as duas meninas de azul do sonho. Sair da casa da mãe somente para casar foi o sonho de um menino casto que visualizava o casamento de seus pais como modelo. Ainda não havia definido sua identidade sexual quando tudo aconteceu. E então seu caminho foi interrompido gerando todo o desconforto que hoje sente em relação a seu corpo, seu gênero, suas necessidades afetivas. Balthazar: (com voz grave, retraindo-se diante do vínculo que vinha estabelecendo comigo) “Isto vai funcionar, Eliana?”. Asseguro: “Já funciona!”. Balthazar: (imitando minha fala, agora incorporada como posição de eu): “La Gioconda é você, olha o sorriso enigmático de Mona Lisa”.