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Kapittel 5: RIF - en miljøorganisasjon?

5.2 Sertifiseringsordninger

Considerada uma espécie de segunda odisseia por inúmeros especialistas, a última viagem de Ulisses foi selada por Dante Alighieri em um dos mais emblemáticos capítulos de A Divina Comédia: o canto XXVI do Inferno. No oitavo círculo, batizado de ―Malebolge‖23 (literalmente, maus bornais), em

dez valas concêntricas separadas por diques de pedra e da cor do ferro, estão os condenados por fraudes. Na oitava fossa dessa estrutura em funil, o herói da Ilíada e da Odisseia, peremptoriamente punido pelo ardil do Cavalo de Troia, penalizado, portanto, por estratagemas associados a embuste e conselhos enganadores contra os troianos. Dentro de uma dupla e constante chama ardem as almas de Ulisses (Odisseu) e Diomedes, do mesmo modo incriminado pela armadilha, precedida do roubo do Paládio, a estátua sagrada de madeira representando Atena.

A título de elucidação, como sublinha Barbara Reynolds, o fim arbitrado ao herói épico, pelo florentino, difere do texto de Homero, pelo simples fato de Dante não ler grego e, desse modo, não ter tido acesso ao poema homérico: ―O que ele sabia sobre a Ilíada e a Odisseia advinha das fontes latinas, da Eneida, de Cícero, de Horácio.‖ (REYNOLDS, 2006, p. 275). A iter vastum (grande

23 ―O lugar que no inferno se nomeia/ Malegolge é de pedra de ferrenha/ cor, como a encosta que todo o rodeia‖. Inferno, Canto XVIII. Trad. Italo Eugenio Mauro, ed. 34, p. 127.

viagem) assume outro curso, então, já que o ―seu‖ Ulisses não é movido pelo célebre retorno a Ítaca, sendo punido, portanto, pelo engodo do Cavalo de Troia, por ele inventado. No entanto, na condição de combatente político e exilado de sua terra natal24, Dante não deixa de se reconhecer naquele que acaba por condenar, de acordo com a classificação geral das más ações, derivadas tanto do sistema ético de Aristóteles quanto da visão cristã fixada por São Tomás de Aquino: ―Ele próprio, como Ulisses, está cheio de ardor na busca pelo conhecimento‖ (REYNOLDS, 2006, p. 282). O poema medieval conta do espírito intrépido de Ulisses, que mirava transpor as temidas Colunas de Hércules, ou seja, o estreito do Gibraltar, visando a inaugurar, assim, o feito de alcançar as desconhecidas águas do oceano Atlântico. Cinco luas se passaram, cinco meses se cumpriram, mas, como fim, foram impiedosamente tragados pelo bravio do mar. Antes, porém, já náufragos, chegaram a avistar o altíssimo monte do Purgatório, cujo cume iluminado é o Paraíso Terrestre. Para o crítico Lucchesi, ―o naufrágio demonstra a força do herói e a soberania de Deus, impedindo-o do sagrado que a montanha representa.‖ (LUCCHESI , 2013, p. 41).

Na apropriação dantesca, passada toda a sorte de riscos, tormentas e aventuras, anos de lutas e provações, o tecer e retecer da espera por parte de Penélope, o homem que fez do mar a sua travessia iniciática não mais a si regressa. Como comenta Marco Lucchesi: ―Ulisses não é mais o mesmo. Viu

24 Como expõe Hilário Franco Jr.: ―Sem dúvida, ao lado do conhecimento de Beatriz, o grande acontecimento da vida de Dante foi seu exílio de Florença. Esses dois fatos marcaram de maneira profunda a mente do Poeta, e estariam sendo presentes em sua obra. A doçura de um evento e amargura do outro, sempre poetizados por ele de maneira extremada, apaixonada, é que deram à Comédia seu tom profundamente humano e ao mesmo tempo sublime, levando Boccacio a chama-la, tanto pela forma quanto pela temática, de ―divina‖. A política ultrapassou em Dante, após o exílio, a condição de mera prática para se tornar objeto de profundas reflexões sobre o homem, a sociedade, o destino. Logo após o decreto de sua expulsão, Dante e outros guelfos brancos tentaram se organizar para retomar a cidade, buscando para tanto o apoio de gibelinos da Toscana. Contudo, em 1304 um assalto a Florença fracassou e os desentendimentos entre os exilados aumentaram, levando Dante a se afastar deles. A partir de então o Poeta passou a vagar de corte em corte, buscando mecenas que o apoiassem e sempre esperançoso de voltar à sua Florença. [...] A postura política de Dante cada vez mais se dirigia para o gibelinismo, criticando os interesses materiais da Igreja e apoiando um efetivo poder universal por parte do imperador. O Poeta devotava um indisfarçável ódio ao papa Bonifácio VIII, a quem via como responsável por sua desgraça pessoal e pela decadência da Igreja. Ele era o ―grão padre, à maldição votado‖ (Inf XXVII, 70). (FRANCO Jr., 2000, pp. 36-37).

reinos, povos, cidades, provou-se herói e estrategista, desafiou os deuses. Ítaca, distante no tempo, diz-lhe muito pouco e não vê com bons olhos o termo de suas aventuras. Ele quer mais, sua morada é a nostalgia do mais‖. (LUCCHESI, 2013, p. 39). O autor da Divina Comédia, ao compor sua narrativa de viagem pelo além-túmulo, com a enciclopédica pretensão de inventariar a humanidade e os mundos terreno e extraterreno, também é movido por uma busca do mais, embora dentro da semântica do universo cristão, em um movimento de ascese por meio da palavra como expressão e do amor enquanto veículo, o primum mobile conducente ao horizonte maior, à eternidade de luz e beatitude. Segundo Lucchesi,

A Divina Comédia deve ser entendida como uma viagem para Deus, constituída por uma poética da conversão e uma poética da profecia. Dante se converte e nos mostra todos os males da humanidade em queda, o seu resgate e o caminho iluminado pelo Sol, com análise de todo o seu tempo, com o passado e o futuro, como se diante de Deus invocasse a justiça que injustamente exilado não encontrava na Terra. (LUCCHESI, 2013, p. 12).

Conforme adiantamos na Introdução, na relação que a literatura guarda com o mundo e também consigo própria, tanto a Commedia quanto Avalovara configuram narrativas de viagem – seja no evidente deslocamento espacial, seja na fusão de tempos distintos e na presentificação do discurso narrativo, o que quebra a linearidade histórica nas duas obras. Ao almejarem o júbilo e a completude – estados apenas apreensíveis no Paraíso –, os peregrinos Dante e Abel aproximam-se do conceito empreendido por Jacques Le Goff – o de homo viator, ou seja, o homem medieval que persegue, por meio do ir-e-vir de um lugar a outro, também uma viagem interior, transformadora, assumindo, assim, o arquétipo do homem em busca de si mesmo. Trata-se ―do homem em marcha, em viagem permanente nesta terra e na sua vida, que são o espaço/tempo efêmeros do seu destino e onde ele caminha, segundo as suas opções, para a vida ou para a morte – para a eternidade‖ (LE GOFF, 1989, p. 13). Ulisses é

outro personagem emblemático a ser compreendido nessa chave, pois, a exemplo de Dante apartado de Florença, também está exilado, longe de sua Ítaca, movido pelas ousadas venturas da errância, em turbulentos mares, instáveis portos, ilusórias ilhas.

Elizabeth Hazin também fixa Avalovara como uma narrativa de viagem, ao sublinhar tanto a aliança tácita entre o escritor e o leitor, nos níveis de leitura que a obra encerra e o seu subsequente e progressivo desvelamento, como a relação nuclear entre viagem e escrita, itinerário e descrição – deslocamento não apenas geográfico, espacial, mas mobilizador de conteúdos, irradiando, assim, outras visões de mundo e de representação. Ao caracterizar a natureza do ato de viajar, o qual historicamente vem-se modificando, Hazin comenta criticamente a tese de Mª Cruz Alonso Sutil a respeito da obra literária de Le Clezio, ao associar as suas proposições ao percurso criativo de Osman Lins.

Sutil nos fala que todo viajante carrega consigo o seu próprio mundo, ou seja, a sua cultura (o que inclui suas leituras), sua maneira de enxergar o mundo, suas inquietações e medos, suas habilidades e conhecimentos, o que a meu ver o aproxima do escritor. Nos papéis em que esboçou ideias para o seu romance, Osman Lins escreveu palavras – em tom de lembrete – que aludem a essa aproximação, também possível graças a outro ponto em comum entre os dois, que é o desejo de aventura: ―O caráter do romance como representação da aventura de escrever um romance, de produzir um romance, não deve ser esquecido‖ (HAZIN, 2010, p. 13).

Quanto a essas injunções entre literatura e viagem, Elizabeth Hazin evoca ainda as ilações do próprio escritor Osman Lins, em seu livro Guerra sem testemunhas, no início do capítulo intitulado ―O ato de escrever‖:

Sirvo, desde já, ao meu objetivo, estudar problemas do escritor, dentre os quais não são dos menos desesperadores a lenta progressão de um texto e os períodos mortos, quando, para evocar nesta primeira página (ao iniciar, como aqueles antigos navegantes que iam à aventura em busca de caminho para as Índias, uma travessia que ignoro se terá bom termo), arcaica e

eficaz imagem náutica, em vão abrimos as velas, pois não sopram os ventos, ou sopram os ventos ponteiros, não os de servir (LINS, 1969, p. 13).

Tomando-se de empréstimo a ―imagem náutica‖, formulada por Lins como metáfora da travessia criadora, está a literalidade da situação narrativa que sustém a Odisseia com toda a simbologia que o poema épico aporta. Para além dos seus logros e artimanhas, os quais acabaram por conduzi-lo, sentenciado por Dante, à terrificante região do Baixo Inferno, está o navegador Ulisses, a figura notável que se inscreveu no imaginário ocidental como o fundador da racionalidade, o homem afoito por (auto)conhecimento, aquele que desafiou a natureza e os deuses – em plena desmedida (hýbris) – e se lançou ao desconhecido, convencendo os seus tripulantes a ultrapassarem as Colunas de Hércules, afinal não há repouso possível enquanto existirem limites a desafiarem a astúcia e a força humana. Era a (im)possível amplidão que o herói buscava. A partir do pretexto poético de Camões nos emblemáticos versos de Os Lusíadas – ―Se mais mundo houvera, lá chegara‖ –, exortação do poeta ao esforço náutico dos portugueses na difusão da fé cristã, Lucchesi assim define o herói épico: ―se mais mundos houvera, Ulisses lá chegara‖ (LUCCHESI, 2013, p. 40). Mas, conforme está consagrado na odisseia dantesca, ―um deus tramava- lhes o fim. Por que ousavam em seus mares?‖ (Ibidem, p. 40).

Adorno e Horkheimer, na Dialética do Iluminismo, asseveram que ―nenhuma obra dá testemunho mais eloquente das imbricações entre razão e mito que a de Homero, o texto fundamental da civilização europeia‖ (ADORNO e HORKHEIMER, 2006, p. 70). Embora ressalve que Ulisses não é um ser plenamente racional, pois um misto de ardil e razão, já que recorre a estratagemas e logros para alcançar os seus fins, Olgária Matos desdobra essa afirmação, explicando que a sua viagem configura ―a viagem metafórica que a humanidade precisou realizar para efetuar a passagem da natureza à cultura, do instinto à sociedade, da autorrepressão ao autodesenvolvimento‖ (MATOS

2002, p. 144), aproveitando para reiterar que ao se dominar a natureza exterior, controla-se, assim, a interior:

Em Ulisses convergem Iluminismo e Mito. Que pretendia o mito? Capturar o fato, a imediatez nos símbolos do acontecimento arcaico, de modo que pudesse subjugar o novo das redes do velho, o destino e a repetição aplacando o medo, porque também eliminavam a esperança. O sobrenatural, espíritos e demônios, são imagens espelhadas dos homens que se permitem estar assustados pelos fenômenos naturais. O mito pretende liberar os homens dos perigos da existência natural (...). Que faz o Iluminismo moderno? Desencanta o mundo para aprisioná-lo em um gigantesco juízo analítico (MATOS, 2002, p. 147).

De certo modo, ao enfrentar o chamamento exalado de seu malebolge, a escura e funda cisterna de pedra em Olinda, Abel, embora não seja afeito à clássica definição de herói, acaba alinhando-se a esse eu homérico, no sentido da assunção dos desafios que o movem em sua viagem pessoal, em sua angustiada busca – na linha T 13, expresso na mulher, indício de perfeição em sua androginia e acentuada humanidade, da qual se enamora: ―Ela, Cecília, pode quando muito ser uma parte do percurso que me conduzirá ao termo da procura. [...] Também pode ser que o termo da minha busca seja tão-só o início de uma busca mais precisa e ampla‖ (LINS, 1973, p. 232). E, assim como Ulisses, em suas audazes aventuras, movida pela nostalgia do mais – a sua nostalgia é o ―sentimento de quem não tem morada, em nenhuma parte de si encontra repouso‖ (MATOS, 2002, p. 154), para o protagonista osmaniano também ―escapa, entre as malhas da busca‖ o que procura e cuja natureza ainda desconhece. Ao lançar sua rede renova, portanto, a sua tarefa assumida como missão, ―o castigo de buscar‖. Abel também reconhece: ―a decisão de saltar, mergulhar na água sombria e desprender a rede, empurra-me. Ordem enérgica ante a qual não ouso refletir. Mais uma vez puxo a rede, que não cede, e enrijeço o corpo para o salto‖ (LINS, 1973, p.77). Ao ser interpelado por Dante, no Canto XXVI, o próprio Ulisses explica, do interior da chama que o encerra, o

seu esforço de convencimento junto a seus companheiros de navegação: ―não recuseis a esplêndida experiência/ do mundo ermo e ignorado à nossa frente.// Relembrai vossa origem, vossa essência:/ criados não fostes como os animais, / Mas donos de vontade e consciência‖25.

Diante do mar que golpeia as pedras, avança e corrói as fundações na praia dos Milagres, em Olinda, Abel – como síntese e emblema da condição humana após a Queda, justamente a não recusa a essa ―esplêndida experiência‖ – vê-se espelhado em Cecília e seus ―passos rápidos, de quem necessita andar muito e vive com uma certa urgência.‖ (LINS, 1973, p. 114). E ela, em sua carne múltipla e vária, nele acentua a incessante incerteza de que ―procurar na vida o rumo é igual a buscar, num palheiro, a agulha que pode ter caído em outra parte‖ (Ibidem, p. 115). Sua porção homérica está em sua porção irrequieta, insubmissa, mutatis mutandis, afinal faz-se adúltero, enfrenta os irmãos de Cecília, defende-a de abusadores e ladrões diante de suas pulsões e desejos diante da mulher –, o que comporta ainda a compreensão sartreana de que o homem se deve fazer homem-em-ato a partir das suas atitudes interrogativas, bem como conduzir seus passos por meio de possibilidades vertidas em escolhas, criando, desse modo, conteúdo ao chamado ser-da-consciência, fazendo de si, desse modo, o seu próprio projeto. Tanto Ulisses quanto Abel assim se movem – e em um horizonte sem Deus, pois suas vontades de saber estão afastadas do sagrado – daí serem orientados por essa infindável (e inalcançável) nostalgia do mais, a raiz da própria aventura. Como analisa Lucchesi quanto ao relato dantesco da Odisseia:

Essa nova odisseia finca suas raízes no seio da falta, na poesia do não, na ausência absoluta que atravessa o reino das trevas. Se Dante busca a transcendência, Ulisses esbarra em seus contrafortes. Há uma notável dialética entre a viagem cheia do poeta florentino e o vazio da viagem de Ulisses, noções claras do

25 ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Traduzida, anotada e comentada por Cristiano Martins.

Paraíso, onde cessa a nostalgia e se configura a plenitude. (LUCCHESI, 2013, p. 43).

1.3 No registro do Inferno, Cecília e Guernica: uma aproximação