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september 2010 av samferdselsminister Magnhild Meltveit Kleppa

Na sequência da vontade de juntar a destruição das armas à fé e na impossibilidade de fundir as armas, munições e outro material letal, já que em Moçambique não havia fornos adequados, o Conselho Cristão de Moçambique contactou, em 1997, artistas plásticos através do Núcleo de Arte (NA). O CCM propôs um workshop, no qual participaram dez artistas: Gonçalo Mabunda, Fiel dos Santos, Mikas Nungo, Kester, Hilário Nhatugueja, Alexandria, Titos Mabota, Adelino Mate, Makolowa e Sitoi.

A sugestão do CCM constituiu um desafio em todos os sentidos. Primeiro, em termos de materiais. Os artistas nunca pensaram em bocados de armas para uma “conversa artística”, isto é, como material básico para a construção de obras de arte.

Segundo, as formas que esses bocados sugeriam eram completamente novas, o que exigia novas técnicas, mormente a soldagem, o que, por seu turno, implicava o uso de outros acessórios: máquinas de soldar estanho, máscaras e óculos próprios, ao que até então nunca se tinham exposto. Terceiro, esse novo material punha em questão os conteúdos e temas a tratar, já que a sua natureza letal contrapunha o lema proposto pelo CCM: transformar armas, portanto símbolos de guerra, em símbolos de paz.

Quarto, a estranheza que os materiais causavam, já que, entre os artistas, havia quem tivesse a experiência de óbitos de parentes ou amigos ocorrida nessa guerra cujas armas agora tinham que manusear como inspiração para obras de arte. Aliás, entre os artistas, havia inclusive um ex- militar, tal era o caso de Sitoi.

Não foi por acaso que o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, afirmou que aquela “é uma boa forma de ver o fim de uma arma”, ao ser informado do projecto por Dom Sengulane. Tratava-se, pois, de “enterrar o machado de guerra” e olhar para a frente com olhos artísticos.

Gonçalo Mabunda diz que intitulou a sua primeira obra de O Viajante. Já não se lembra de quem a comprou e de qual o seu paradeiro. Todavia, diz ter utilizado munições da arma AKM, culatras, carregadores e o personagem viajava de moto. Segundo o artista,

“O imaginário era um inocente que empreendera uma viagem sem retorno do Sul ao Norte do país (do Maputo ao Rovuma) e dizia: A guerra acabou! E essa viagem só acabará quando rebentar outra guerra que, sinceramente espero, não aconteça, pois o viajante é mesmo inocente. Este trabalho foi uma experiência estranha, inclui bocados de tudo numa só peça de arte! Espero que o Viajante não interrompa a sua viagem, pois é inocente!”

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Figura 4. Mabunda, em casa, entrevista realizada em 2013.

O projecto TAE criou um estilo único e inovador, de tal sorte, que granjeou reconhecimento a nível internacional. As exposições de obras de arte feitas de armas não pararam: Africa Remix (itinerante); Aomori Museum of Art (Japão); High Wade Gallery (Londres); Düsseldorf (Alemanha); Georges Pompidou (França); Les Magiciens de La Terre (exposição itinerante), Suécia eJoanesburgo.Na verdade, tratava-se de uma moda recorrente, a reciclagem de materiais, onde objectos, até então de natureza letal, passam a obra de arte.

Contudo, as obras, que começaram por ser espontâneas, obedecendo ao livre-arbítrio criativo do artista, começaram a ser questionadas pelos compradores tipicamente ideais, isto é, expatriados europeus ou dos Estados Unidos da América:

"Começámos a ver que eles(os compradores) preferiam batuques, violas, figuras humanas, objectos mais utilitários, pois já não nos compravam aquilo que fazíamos. Assim optámos por fazer esses mesmos “batuquezinhos”. Foi difícil resistir a isso, pois,de contrário, não vendíamos. Assim, respondendo à sua pergunta, sim, começaram a determinar o conteúdo das nossas obras, começámos a fazer coisas para turistas, eu, pessoalmente, comecei a fazer coisas para enfrentar novos mercados. De facto, entendi que tinha que fazer dois tipos de arte: uma, de aeroporto, eoutra para, por exemplo, seguir a rota do Africa Remix, para cuja exposição as nossas obras foram escolhidas, pois entendi que, afinal, somos contemporâneos. Parece-me que, até então, não oéramos(risos)." (Gonçalo Mabunda, Artista Plástico).

Por outro lado, o pintor Sitoi diz que o projecto TAE não é novo de todo. Segundo ele, a utilização de bocados de armas foi iniciada logo após a independência nacional na obra colectiva patente na

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Praça dos Heróis Moçambicanos, onde existem instalações feitas a partir de bocados de aviões abatidos ao exército colonial português.

Para Sitoi, o projecto TAE foi uma maneira de a Igreja Anglicana procurar marcar a sua presença no processo de pacificação de Moçambique, já que a Igreja Apostólica Romana “monopolizou” o processo a partir de onde foi levado a cabo o diálogo entre os ex-beligerantes e a própria assinatura do AGP, na Comunidade de Santo Egídio, em Roma.

Segundo o artista, a reunião com os artistas para levar a cabo o processo de construção de obras de arte foi inclusivamente precedida da assinatura de contratos de pagamento, o que, no seu entender, configura uma outra variável. No contrato entre os artistas e o conselho Cristão de Moçambique, os primeiros eram obrigados a pagar 10% de cada obra vendida. Portanto, “a obrigação contratual patenteia um segundo eixo na relação, o que exprime uma certa dose comercial que pode ser vista como parceria que, aliás, foi até ao nível de utilização de

designersexpatriados para o efeito, como, por exemplo, na obra a Árvore da Paz.

Figura 5. Pintor Sitoi respondendo às nossas questões.

Para Sitoi,o TAE foi uma boa experiência, gratificante. No entanto, no seu entender,

"A utilização da soldadura como recurso técnico passou a ser onerosa e pouco amiga doambiente. No início, o Núcleo de Arte comprava o eléctrodo, as máscaras etc. Depois passámos nós a fazer isso. Uma obra de arte não pode ser onerosa, tem que ser a custo zero, a nossa contribuição é a nossa criatividade. No caso, a morte não pode ser tão cara"!

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