Na perspectiva de ampliar os saberes sobre os modos de atuar na docência em artes visuais, faço aqui um pequeno desvio para anunciar uma prática realizada em Currais Novos, lembrando que na IV Paragem retomo este assunto com mais vagar. Isto porque reinventar a pedagogia e criar espaços de trocas parece ser uma postura adotada pelos professores do Seridó. Por exemplo, o Prof. Paulo Gomes, da Escola Prof.ª Trindade Campelo, cria espaços para trabalhar o conteúdo de arte à medida que fi ca atento à fala dos educandos e às potências que se apresentam no contexto de aprendizagem. Ele realizou o projeto “Entre o azul e a ausência”, trabalhando com fotografi a nas turmas do 7º, 8º e 9º ano. As imagens (Imagens 32, 33 e 34) foram exposto na câmara de vereadores do município.
A produção surgiu a partir de aulas passeio, feitas num açude público que fi ca por trás da escola e como era período de estiagem, o açude encontrava-se praticamente seco. O educador fez três passeios com cada turma pelo açude, em horários diferentes. No primeiro momento os educandos estranharam um pouco a proposta, porque não viam potência na paisagem, costumeira. Porém, o Prof. Paulo falou entusiasmado sobre o projeto e relatou que incentivou e disponibilizou câmeras para a captura das imagens:
[...] no primeiro dia que a gente foi ao açude os alunos fi caram muito a vontade. No início tínhamos só três câmeras: uma que peguei emprestado com a minha esposa, a minha e a da escola. Aí dividimos a turma em grupos para cada grupo fi car com uma. A ideia era fotografar o que cada um achasse que era bonito, mesmo sendo numa paisagem que muitos consideram não bonita, porque aqui tem a questão da seca. [...] Só tinha uma regra, não podia ter fotografi a de pessoas, tinha que ser o ambiente natural, sem paisagem urbana, sem pessoas, era só isso (Prof. Paulo - entrevista concedida ao autor em 07/04/2015).
O projeto foi executado em um período de três meses e antes das aulas passeios foram discutidas as noções básicas de fotografi a e de operação da máquina. Em campo, os adolescentes fi caram à vontade para caminhar pela paisagem e escolher o que agradasse ao olhar. O educador
Imagem 32, 33 e 34: produção dos participantes do projeto Entre o azul e a ausência.
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acredita que as pessoas são sensíveis por natureza, então é a sensibilidade delas que deve ser explorada, por isso ele não interferia nas escolhas, nem como deveriam ser capturadas as imagens. Ao retornar à sala de aula o educador
descarregava todas essas fotos no computador, projetava e aí eles (os educandos) iam começar a debater sobre aquilo tudo, olhar como fi cou a foto... eles mesmos, eu só dava o tiro inicial e eles é que saiam pra corrida. Aí, falavam: - Isso fi cou legal. - Essa foto não é boa porque tá assim... e eles debatiam (Prof. Paulo - entrevista concedida ao autor em 07/04/2015).
Depois de produzirem e discutirem sobre essa produção, mais de trezentas imagens, foi preciso ainda fazer uma seleção, uma curadoria, e cinquenta e oito fotos foram escolhidas pelos estudantes. É importante salientar que o momento fi nal anunciado pelo educador foi o da avaliação. Veja qual foi sua estratégia:
como é que você avalia um trabalho desses? Porque a escola precisa de uma nota e você acha que eu tive trabalho de dá nota pra esses meninos? Não dei não, eles é que se autoavaliaram. Fichinha de avaliação, de autoavaliação e eles consideravam, porque eles fi zeram as fotos, selecionaram... eles fi zeram tudo. Eu não fi z nada, só dei a fundamentação inicial e incentivei: vamos... (Prof. Paulo - entrevista concedida ao autor em 07/04/2015).
Chama a atenção o modo como o educador da Escola Trindade Campelo se articula para realizar a atividade criativa, posicionando-se muitas vezes mais como um propositor da situação, incentivando, mediando, estimulando novos modos de ver a realidade, dando o tiro inicial. Indagar e provocar os educandos nos momentos da refl exão não é estar à frente da ação, ditando as maneiras como cada um deveria proceder, mas estar presente nela, participando com os educandos, interagindo com eles. Como as regras eram mínimas, mas bem defi nidas, sobrava mais tempo para a liberdade poética do educando em meio ao ambiente natural. O tempo para apreciar e refl etir sobre o material produzido é um ponto importante que saliento aqui, pois a partir dessa refl exão feita na coletividade é possível adensar o próprio entendimento do educando quanto aos processos vivenciados, atentando para a autoavaliação, para um tempo dedicado à observação de si mesmo, para que cada um pudesse atribuir uma nota sobre sua própria participação, produção e desempenho na proposta. Considerando o exposto aqui, reconvoco Maurice Tardif, pois o estudioso assegura que
os saberes que servem de base para o ensino, tais como são vistos pelos professores, não se limitam a conteúdos bem circunscritos que dependem de um conhecimento especializado. Eles abrangem uma grande diversidade de objetos, de questões, de problemas que estão relacionados com seu trabalho. Além disso, não correspondem, ou pelo menos muito pouco, aos conhecimentos teóricos obtidos na universidade e produzidos pela pesquisa na área de Educação: para os professores de profi ssão, a experiência de trabalho parece ser a fonte privilegiada de seu saber-ensinar
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(TARDIF, 2014, p. 61).
O projeto “Entre o azul e a ausência” tentou ainda desconstruir nos educandos a prática do olhar viciado, um olhar que de tanto conviver com uma determinada coisa/objeto/cenário, não consegue mais enxergá-la. Ao mesmo tempo abriu para o desassossego de encontrar beleza onde aparentemente só existia ausência, pois estava atento ao contexto sociocultural e ambiental. O professor acredita que a beleza pode, às vezes, estar onde “não existe” beleza. Ela se ausenta, porque se você for ver a paisagem, castigada pela seca, você poderia pensar: não, não é uma paisagem bonita. Mas a beleza está lá, do seu jeito, as vezes imperceptível para um olhar comum, superfi cial, raso. Alguém pode olhar para o sertão, ver a caatinga e dizer que a caatinga é uma vegetação seca, mas, para o Prof. Paulo, não é. - Pra mim não. Ela é uma vegetação super expressiva e hiperresistente. Se der um sereno, ela revela seu “vestidinho” e de repente, puff, tudo é verde. Então a caatinga pode se manifestar de outras formas. Por isso, entre o azul e a ausência existe esse olhar que enxerga o entre, entre o que não existe e o que existe.
Os desvios transgressivos no território da docência fazem o educador assumir o risco da incerteza e do desaprender para transformar suas aulas em momentos de aprendizagem signifi cativa, de compartilhamentos e deslumbramentos artísticos e estéticos que nos fazem sentir em profundidade, abrindo os olhos para “revelar a cegueira da consciência” (NOVAIS, 1993, p. 13). Assim, vou aprendendo e ensinando no ambiente escolar, (des)formando-me à medida que reinvento percursos e ressignifi co a docência em arte.
Esta prática realizada na Escola Prof.ª Trindade Campelo me remeteu ao documentário Ensuciarse La lengua: Idea para una película (BONDIA, 2004). Nesta película o estudioso espanhol Jorge Larrosa Bondia apresenta um modo de fazer educação que envolve a expedição exploratória com os educandos. “Caminhar, olhar e escrever e não se deixar levar pela correnteza”. Resistir com os próprios pés aos modelos prontos que chegam as salas de aula, expandir os limites da escola e ampliar as possibilidades de ensino. Deste modo o educador transgride com as ideias cristalizadas que podem paralisar, ao invés de estimular. O vídeo mostra uma prática pedagógica em que o educador viaja com um grupo de estudantes, de Barcelona - Espanha para Tirana - Albânia. A ideia do educador-viajante era confi ar para poder explorar outra realidade a partir de um itinerário inventado e percorrido a pé pelas ruas de uma cidade ‘desconhecida’. Lê o território, perceber tudo o que ele apresentava de potente aos olhos, escrever sobre a experiência, compartilhá-la. Por experiência Bondia (2002, p. 21) entende que seja tudo “o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca”. O que atravessa e faz a diferença para mim se aproxima aqui, no meu entender, da noção de experiência compreendida pelo estudioso espanhol, pois nos deslocamentos pelo Seridó pude conhecer modos de praticar o ensino e a formação em arte que pode ser enriquecedor para aqueles que se