A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige uma permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem (FREIRE, 1987, p. 35).
Adentrando o sertão, sigo catando as potências da docência que é praticada no Seridó potiguar e desenhando na sua imensidão azul o modelado do Ensino de Arte que é oferecido nas suas escolas. Como já foi apontado anteriormente, reitero que não existem cursos de formação em Artes Visuais nessa região. As pessoas que almejam ingressar em um curso de Licenciatura/ Bacharelado em Artes Visuais, Artes Cênicas, Dança, Música, Cinema, Design etc., necessariamente devem se deslocar até uma cidade, em outra região, que ofereça a formação, para poder conseguir uma dessas titulações. Esse pode ser um indício da pouca procura pela profi ssão na localidade. Já que o Estado não forma em cursos de Artes na região seridoense, podemos pensar que seus conteúdos não são trabalhados com profundidade em algumas escolas e consequentemente, não despertam os educandos para adensar os estudos formais nesse campo do saber. Além do mais, sei, de modo empírico, que a graduação em Artes Visuais é um curso relativamente caro para cursar, pois exige gastos com a aquisição de materiais expressivos, deslocamentos, despesas pessoais e outras. Esse pode ser um ponto relevante na hora de considerar a escolha desse curso por aqueles que têm a oportunidade de sair da região para estudar.
Pela trilha docente do Seridó me deparei também com uma questão delicada, que é pensar as vagas que são disponibilizadas para arte/educadores nos editais dos concursos públicos dos municípios da região. Em Parelhas, por exemplo, no ano de 2015 aconteceu um concurso, porém, o edital não disponibilizava nenhuma vaga para Arte, fato que acontece nos outros editais lançados pelas prefeituras da região. O que isso signifi ca na prática? Que todas as escolas contam com professores com formação específi ca em Arte? Não. Ao bem da verdade, o que ocorre é que as vagas destinadas aos professores de Arte estão sendo desviadas e ocupadas por um grande número de educadores de outros campos do saber, que estão a frente desse componente curricular, complementando suas cargas horárias ou atendendo a demanda das escolas. Mas,
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é para isso que serve o espaço conquistado por Lei, que destina um tempo dos estudos dos educandos para o contato com a arte e a formação estética nas escolas? Será que este não é o momento de realmente entregar ao arte/educador o espaço da arte na escola?
Os próprios Parâmetros Curriculares Nacionais/PCNs estimula o educador a depreender sobre a importância de destinar educadores com formação específi ca para suas respectivas áreas do conhecimento. Neste caso, apenas o licenciado no curso de Artes Visuais é habilitado a assumir este componente curricular nas escolas, em todo o território da federação brasileira. No entanto, uma resolução do Conselho Nacional de Educação (Resolução CNE/CP Nº 1, de 15 de maio de 2006) institui atribuições legais para o Curso de Graduação em Pedagogia – modalidade licenciatura, fi cando claro em seu Art. 5º, parágrafo VI, que “[o] egresso do curso de Pedagogia deverá estar apto a ensinar Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História, Geografi a, Artes, Educação Física, de forma interdisciplinar e adequada às diferentes fases do desenvolvimento humano” (BRASIL, 2006, p.11). Como vemos, o pedagogo é amparado por Lei a ministrar de forma interdisciplinar o componente curricular Arte.
No contexto de ensino não formal, observamos algumas iniciativas bem sucedidas no Seridó, como a já citada Banda de Música Mirim, de Parelhas, que conta com a colaboração dos músicos, com formação autodidata, para atuar como educadores musicais ou outras experiências de Ensino de Arte que ocorrem em ateliês49. Assim, é possível que não apenas as ONGs, como ressalta Ana Mae Barbosa50, sejam mais efi cientes no trabalho com arte do que algumas escolas, mas também outras instâncias do ensino, como o que acontece em grupos outros que não contam com uma rigorosa sistematização.
Em meu levantamento bibliográfi co realizado nos bancos de teses e dissertações da UFRN e da UERN durante o primeiro semestre de 2014, não encontrei nenhum trabalho específi co que tratasse sobre essa temática na região do Seridó potiguar. No entanto, uma dissertação me chamou a atenção: A escola rural e o desafi o da docência em salas multisseriadas: o caso do Seridó norteriograndense (MEDEIROS, 2010). Essa trata de uma pesquisa feita nas escolas públicas de três municípios da região: Caicó, Jardim do Seridó e Ouro Branco, em que a pesquisadora Prof.ª Maria Diva de Medeiros, em certa medida, faz uma cartografi a do ensino multisseriado do Seridó, com foco nos educadores. Percebi que as minhas inquietações muito se aproximam das questões levantadas pela Prof.ª Maria Diva, que investiga a área da Educação.
49 Na perspectiva do Ensino de Arte que acontece em âmbito não formal, escrevi, sob orientação da Prof.ª Lívia Marques Carvalho, o artigo A Casa de Pedra de Caicó-RN: o ensino de artes visuais em contexto não formal, no prelo.
50 Com as palavras da autora, podemos nos inteirar de que “No Brasil, todas as ONGs, que têm obtido suc- esso na ação com os excluídos, esquecidos ou desprivilegiados da sociedade, estão trabalhado com arte e até vêm ensinando às escolas formais a lição da Arte como caminho para recuperar o que há de humano no ser humano” (BARBOSA, 2005, p. 291).
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Encontrei uma dissertação no banco de dissertações da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN, que trata de formação de professor na região Oeste do Estado, em Mossoró- RN. A pesquisa da Prof.ª Núzia Roberta Lima (LIMA, 2013) tem cunho autobiográfi co e interessa porque evidencia a formação e a prática de uma educadora, com formação em Pedagogia, mas que leciona Arte, assemelhando-se a vários educadores do Seridó, que tem a mesma formação inicial. A Prof.ª Núzia Lima trabalha com formação em arte no curso de Pedagogia nessa instituição. Ela investiga em sua dissertação de mestrado a contribuição das práticas pedagógicas no processo de autoformação, visando identifi car as disposições e o habitus que fi zeram parte da sua trajetória e preparação para atuar no Ensino de Arte. A pesquisadora destaca como categorias de análise, a formação continuada, as práticas pedagógicas e a profi ssionalização.
Sobre o Ensino de Arte em cidades do interior do Brasil, enfatizamos que o Programa Associado de Pós-Graduação em Artes Visuais UFPB/UFPE tem contribuído signifi cativamente com pesquisas na área de Arte, benefi ciando tanto a linha de teoria e crítica, quanto a de ensino e formação de professores de Arte. Esse Programa tem se confi gurado como um espaço de formação continuada para artistas, teórico/críticos de arte e arte/educadores refl etirem sobre seus campos de atuação. A partir desse Programa, percebo mudanças no rumo das pesquisas sobre o Ensino de Arte no Brasil, com um movimento que se volta agora no sentido do interior do continente, como é o caso desta pesquisa, mas também das buscas empreendidas por vários colegas de curso que realizam ou já realizaram seus trabalhos51 no mesmo.
Tive acesso ainda a uma monografi a que foi defendida na UFRN/CERES-Caicó, que trata de uma experiência com o Ensino de Arte, a partir de uma perspectiva inclusiva. Trata-se do trabalho Fazer, fruir e contextualizar artes visuais: expressões em pintura e desenho por alunos cegos (MEDEIROS, 2012), pesquisa realizada pela artista plástica Camila Amaral Nóbrega de Medeiros52, na ocasião em que concluiu o curso de Pedagogia. Camila Medeiros tinha por objetivo compreender como o fazer, o fruir e o contextualizar artes visuais se desenvolvia no educando cego, especialmente quanto às expressões da construção de conhecimento estéticos, sociais e culturais relacionados à
51 Desse Programa, tive oportunidade de conhecer vários trabalhos de pesquisa, como: Imagens da arte: a cidade de Sumé/PB e o ensino das artes visuais (FERREIRA, 2013); Práticas Avaliativas em Arte (Moreno/PE), (SILVA, 2014); Contextualizações no ensino de arte em Olinda, uma cidade educadora, (SANTOS, 2014); entre outros. Dos contemporâneos no curso acompanhei o processo de pesquisa de Charles Farias Siqueira, que direciona suas investigações para a região do Crato-CE, e de Rafael Augusto da Silva Alves, que envereda pela região pernambucana onde fi ca situado o município de Caruaru-PE. Esses são alguns exemplos de pesquisa- dores que demonstram atenção em olhar para além das capitais dos estados da federação, problematizando e refl etindo com seus pares os interesses e as difi culdades de cada localidade, podendo promover mobilizações e melhorias no ensino de arte, a partir do conhecimento produzido sobre a temática nas mesorregiões do Nordeste, do Brasil.
52 Camila Amaral Nóbrega (Acari-RN, 09/08/1990) é reconhecida no Seridó pelo trabalho que realiza em pintura e desenho, fazendo parte inclusive do respeitado grupo de artistas que representam a região no sitio organizado pela CERES-Caicó, e disponível na rede mundial de computadores. Disponível em: <http://www. cerescaico.ufrn.br/seridovisual/index.php/acari/camila-amaral>. Acesso em: 21/01/2015.
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pintura e ao desenho. Para a estudiosa o Ensino de Arte não se restringe “a execução de técnicas, do estudo da vida e obra de grandes artistas, ela também leva ao diálogo, abre caminho para a crítica, valoriza a opinião dos alunos e os ensinam a escutar, ou seja, a Arte é entendida como conhecimento” (MEDEIROS, 2012, p. 19). Reportando-se aos fazeres docentes em Arte no Seridó a estudiosa Camila Medeiros salienta que antigos padrões metodológicos teimam em persistir no universo escolar sertanejo, onde as “novas” formas de praticar o ensino “ainda são frágeis dentro da realidade das instituições escolares, quando não ditas como impossíveis (de se praticar) por falta de formação e, às vezes, de interesse por parte dos profi ssionais” (MEDEIROS, 2012, p. 13). Atenta para a formação docente, evidenciando questões pertinentes ao campo da inclusão de educandos cegos ou de baixa visão, Camila Medeiros deixa claro que a região necessita de uma melhor formação destinada aos educadores, para assegurar a efetivação das práticas inclusivas nas escolas, de modo a favorecer o aprendizado do educando com necessidades especiais.
Os exemplos mostram que é necessária uma melhor formação em arte, para que a educação artística e estética que chega ao ensino formal no interior do Nordeste/Brasil ganhe um direcionamento no sentido de considerar as discussões atuais sobre as práticas docentes no campo do Ensino de Arte. O processo formativo, que engloba a formação inicial e continuada, é potencializado pelo educador na sua práxis cotidiana, em confronto direto com a realidade e a produção de subjetividade que acontece no contexto escolar. Nele, o educador pode se reinventar, enquanto sujeito de suas ações, seja realizando suas práticas ou acessando novos saberes na interlocução com seus pares.
Nas minhas buscas pelas bibliotecas (Imagem 36) dos municípios, feitas no decurso de 2014, encontrei um livreto de 38 páginas, publicado pela editora da UFRN em 1997. Trata-se do trabalho “O Boneco de Mamulengo na escola de 1º grau”, da professora/artista Lídia Brasileira de Brito (Caicó-RN, 1936 - ). A autora discorre sobre uma atividade criativa realizada com os pedagogos da região, no campus da UFRN de Caicó, ensinando-os a confeccionar mamulengos53, para que eles usassem como recurso didático, transformando as aulas em práticas mais interativas e lúdicas. Lídia Brasileira, hoje aposentada, conseguiu destaque na mídia nacional com seu trabalho de produção de materiais didáticos realizado com os educadores seridoenses, tendo sido inclusive, matéria da revista Nova Escola (1996). A revista estampou na sua capa uma foto da educadora, com uma de suas criações, com destaque para a manchete “Show de didática no sertão do Seridó: no interior do Rio Grande do Norte surgem técnicas de ensino na medida certa para as carências da
53 Mamulengo (mãos molengas) são bonecos da cultura popular, normalmente feitos artesanalmente, rep- resentando pessoas, animais ou objetos animados. Eles são manipulados por alguém que se esconde atrás de um painel de tecido, que forma um pequeno palco, contando estórias, com conteúdo, frequente, de cunho crítico ou cômico. A apresentação de mamulengo se caracteriza como um pequeno espetáculo, em que um ou mais bonecos representam cenas cotidianas, que interagem entre si, favorecendo também a interação do boneco com seu operador e com o público.
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Imagem 36: Biblioteca Pública de Caicó Olegário Vale.
Fonte: acervo pessoal
região”. A reportagem de capa estampou como “O sertão do Seridó cria sua didática”, valorizando o trabalho realizado na Ofi cina de Recursos Didáticos da UFRN. Atualmente, a educadora se dedica à produção artística, criando sozinha ou em parceria com Ronaldo Batista Sales – Magão (Caicó-RN, 1958 - ) obras e instalações que podem ocupar tanto as dependências da Casa de Cultura Popular de Caicó, quanto as praças e outros espaços públicos da cidade.
Nesse capítulo eu caminhei com educadores, artistas e pesquisadores pelos territórios do Ensino de Arte, buscando estabelecer uma interlocução com as teorias da Arte e da Educação. O esforço foi no sentido de elucidar a realidade da Arte/educação no Rio Grande do Norte, com foco no Seridó. As buscas seguem nas próximas paragens na tentativa de fazer alguns alinhavos que visem melhores respostas do que se apresenta hoje o quadro de formação docente e de Ensino de Arte no contexto estudado.