Certas Ceias Nicolinas são, na realidade, compostas pelos membros de uma tertúlia. Outras, mais informais, só se reúnem uma vez por ano, o que não as impede de serem bastante conhecidas, sempre associadas a um restaurante favorito. A ceia com o maior número de comensais é o Jantar do Pinheiro, ocasionalmente designado como Ceia da Memória, da Tradição e da Amizade, reunindo cerca de duzentos membros da AAELG ― um número que tem obrigado a recorrer a locais espaçosos. Em 2012, o facto de a Ceia ter sido organizada no refeitório da Escola Francisco de Holanda não foi do agrado do diretor da Escola Secundária Martins Sarmento, o antigo Liceu, numa clara indicação de que, mesmo após trinta anos decorridos, a legitimidade da participação de todas as escolas ainda não gozava de unanimidade. No fim da refeição, o Chefe de Bombos e o Subchefe de Bombos acompanham os Velhos Nicolinos, tocando até ao início do cortejo do Pinheiro, que ocorre entre as onze e a meia-noite. A dianteira do cortejo é liderada pela AAELG com o Chefe de Bombos. Segue-se o carro de Minerva, uma figura da sabedoria, corporizada há vários anos pelo omnipresente Quim, que não é conhecido por ter sido um
87 estudante notável, e imediatamente atrás os carros adornados com «piadas» e quadras satíricas aludindo a acontecimentos locais ou nacionais recentes ou reiterando velhas reivindicações: uma sede para a Comissão, bilhetes para as Danças… O pinheiro segue à frente de um grupo compacto de capas negras, empenhado em evidenciar força e determinação: a ACFN acompanhada pelo Subchefe de Bombos. Grupos de estudantes e de outros participantes vão-se formando e recompondo num fluxo muito desordenado. Todos os carros são puxados por juntas de bois, que no passado chegaram a ascender a várias dezenas mas cujo número tem decaído no sentido inverso da crescente participação humana ― com mulheres e homens participando atualmente em proporção igual naquele que foi durante muito tempo um número programático exclusivamente masculino. No entanto, esta evolução ainda se reveste de alguma controvérsia no âmbito do universo nicolino. Segundo Luís Guise,
isso mudou nos inícios dos anos oitenta. Até essa altura, até o pinheiro ser erguido, a festa era dos velhos. Após o pinheiro ser erguido, a festa começa para os novos. Era o início das Festas e a passagem para os novos. O cortejo do Pinheiro era qualquer coisa de espetacular e para nós, enquanto novos, estar de fora daquela festa era um bocado revoltante, porque a gente queria era estar lá. E eu e mais alguns fomos dos primeiros a dar início a essa infiltração, éramos os infiltrados e isso era problemático. Porque quem fosse infiltrado nas festas – não era só no pinheiro – teria alguns castigos. Quem fizesse parte do desfile do Pinheiro e não tivesse esse direito, e não eram só os estudantes novos mas os futricas também e os caixeiros, se fosse apanhado ia ao chafariz. No meu tempo, já não era o chafariz, mas andavam de navalha na mão e, se estivéssemos a tocar sem ser dos Velhos, aí rasgavam- nos as peles. Claro que a evolução do tempo não permitiu mais isso e, se se fizesse isso agora, era um bocado arriscado. Mas é por essa altura que os estudantes novos se começam a infiltrar no Pinheiro e que depois deixou de ser uma coisa controlável e é aí que se vê o grande boom das festas, porque temos os estudantes de todos os anos, mais os Velhos e são muitos, cada vez é maior... e também há mais estudantes desde essa altura no ensino secundário, por isso vai sempre crescendo o número de estudantes velhos e novos, e é também dessa altura que começam a surgir as mulheres nas Festas, que são as infiltradas. E há muito mais contestação pela entrada das mulheres no cortejo do que pelos estudantes novos.
Sobre a participação feminina no Pinheiro, as declarações de André Coelho Lima poderão ilustrar uma opinião amplamente partilhada:
A própria festa sem elas, nomeadamente o Pinheiro, hoje teria menos fulgor, mas a verdade é que desvirtuou um pouco o significado, aquilo que representam as festas dedicadas a elas.
Jorge Castelar refere o seguinte, a propósito da presença dos novos:
Eu sou filho de velhos nicolinos, portanto estive proibido pelo meu pai de fazer fosse o que fosse até ao 12.º ano, nunca fui a um Pinheiro antes disso sequer. Ia ver, mas nunca toquei ou participei. […] Agora, eu já vivia de perto as Festas e no coração por causa das memórias do meu pai e do meu tio, sobretudo. […] Os motivos da proibição foram, julgo eu, a ideia da tradição, de que, tal como no tempo deles – e no meu tempo ainda estava em vigor, mas agora mais difícil de controlar –, os mais novos podiam participar nas festas mas não integrar os números, nomeadamente o Pinheiro. Ai de mim se... até porque o meu pai sempre me disse: «o Pinheiro é a noite dos Velhos, é para os velhos estudantes. Aquilo não é uma noite para os novos, é a nossa noite e os novos não têm
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nada de ir e esquecem-se dos números deles e só querem uma desculpa para sair à noite.» Portanto, a proibição prendia-se apenas com isso, pela tradição. Aliás, eu vinha assistir com ele quase todos os anos, eu tinha um grupo de amigos e tal e ficávamos. A partir de certa idade, ele também nunca foi muito participativo, vinha assistir e tal e eu vinha com ele... e até com a minha mãe que não é de cá mas cedo se habituou a gostar das Festas. Portanto, a noite do Pinheiro era isso, meramente assistir... […] Como a maior parte deles [os Velhos] entrou no espírito do «se não os podes vencer, junta-te a eles.» Ele continua a achar – e eu também e acho que a maior parte do pessoas – que às tantas fazia mais sentido que aquela noite fosse mais… pelo menos dos finalistas para cima. Acho que é uma noite um bocado pesada e violenta, não no sentido da violência física... Antigamente, pelo que eles contam, era uma noite de às vezes uns ajustes de contas... ainda apanhei algumas situações complicadas no meu tempo e, volta e meia, ainda há uma escaramuça, o que é normal porque estamos a falar de milhares de pessoas com os copos, ainda por cima com armas na mão – porque, no fundo, uma baqueta é como um taco de basebol – e muito bem corre a coisa por não haver grandes disparates, mas claro que acontece uma coisa ou outra. Mas eu acho que isso se prende um bocado com essa ideia de que é uma noite um bocado agressiva para deixar miúdos tão novos andar aí sem controlo. Eu penso que é um bocado isso, mas convive bem com isso e até o facto de hoje as meninas tocarem, também já lhe passou... Pronto, eles lamentam e tal, às vezes em conversa, aquela coisa típica do «no meu tempo é que era giro e isto agora está tudo um bocado abandalhado», que é aquela sensação que de geração para geração fica sempre. A gente tende a guardar as melhores memórias e a esquecer as piores, e às tantas também havia muita coisa errada no meu tempo, mas eu também só me lembro de como foi giro e que fui dos melhores chefes de bombos de todos os tempos, como é óbvio...
São, de facto, milhares de pessoas que tentam acompanhar o Pinheiro, muitas delas vestidas com o traje de trabalho e tentando tocar o toque oficial da noite, aproximando-se por vezes do toque das Moinas, que se ouve por instantes sobreposto ao ritmo oficial da noite. A multiplicidade de grupos de tocadores é tal que, com a exceção da proximidade da AAELG e da ACFN, qualquer esperança de sincronia é ilusória, tanto mais que no seio da multidão não faltam chefes de bombos improvisados que trouxeram a sua própria «boneca» para dirigir o seu grupo, reforçando assim a confusão, que torna a progressão dos carros muito lenta, apesar dos esforços constantes dos membros da Comissão, que tentam abrir caminho aos Velhos Nicolinos da AAELG. A tarefa é tão hercúlea que, paradoxalmente, devem ser os únicos nicolinos que não tocam nessa noite.
O rufar ensurdecedor e a pulsação constante dos bombos retumbam com uma eficácia imparável, envolvendo por completo os presentes, cujos corpos vibram, literalmente, em uníssono. Naquilo que os teóricos da musicologia designam por «performance participativa», a atenção principal dos participantes encontra-se focada na atividade em si, nos movimentos e nos outros participantes, mais do que no próprio resultado da execução (Turino 2008: 28). Isto contradiz a importância que os nicolinos atribuem à perfeição da execução do toque, que na noite do Pinheiro se revela inteiramente inatingível. Em contrapartida, o sentimento de total envolvimento coletivo é inevitável, mesmo por parte de quem não está a tocar. Como diz Thomas Turino (2008: 29), esta concentração particular sobre o coletivo explica o facto de a música participativa veicular a força sugestiva de um sentimento de ligação social. Poderá residir aqui a
89 explicação da atração crescente que o Pinheiro exerce sobre gentes de outras terras, que pouco ou nada sabem da história e do significado do evento, mas que teimam em comparecer em números crescentes para partilhar um momento de comunhão com desconhecidos. Ininterrupto rufar, sincronia, relativa simplicidade de toques repetidos até à exaustão. Mas também, para muitos vimaranenses, emoção de reencontro com velhos amigos e, talvez sobretudo, sentimento de comum inscrição numa continuidade histórica de séculos: é frequente ouvir-se dizer que «quem não vive o Pinheiro não pode perceber», numa versão restrita de uma afirmação que é comum ouvir aplicada ao conjunto das festividades. Para Miguel Bastos,
Claro que há anos melhores, outros piores, depende da chuva, etc. Mas o Pinheiro tornou-se realmente uma coisa brutal.
No entanto, não faltam as apreciações negativas sobre a forma atual do número do Pinheiro, sobretudo por parte de Velhos Nicolinos: «caos organizado» (Zé Maia), «catástrofe desorganizada» (José Maria Magalhães), «o pior sítio onde aprender a tocar» (João Neves), «desvirtuação», «bagunça». Segundo Luís Guise, deplorando o desrespeito de hierarquias outrora inquestionáveis na organização de um cortejo em que teria sido impensável haver estudantes novos à frente, «Se calhar, agora há outra coisa, um menor respeito pelos Velhos…». E para o seu filho, Francisco Guise,
por isso é que o Pinheiro também está muito ligado aos excessos e, sendo agora muito grande, é difícil controlar isso; também vêm os estudantes universitários e a festa devia ser só dos estudantes do secundário, mas é normal acontecer isso.
Mas nem todos os Velhos Nicolinos se conformam com esta nova normalidade. Não são poucos os que declaram preferir agora abster-se de participar, embora com grande desgosto e nostálgicos de tempos em que a noite era «só dos nicolinos». As possíveis evoluções futuras deste número são, de facto, uma das interrogações suscitadas por muitos. Neste momento, tudo indica que continuará a ser uma noite que «ajuda a definir Guimarães» (Silva 2010), uma manifestação entusiasta de identidade coletiva que procura transcender momentaneamente as diferenças sociais e que veio substituir a exibição exclusiva de um grupo reduzido de estudantes altivos.
Em razão da duração do exercício e do empenho com que é realizado, é durante a noite do Pinheiro que é possível observar com maior frequência aquilo que parece estar em vias de se tornar uma das imagens de marca das Festas: peles de tambores manchadas de sangue. Como nas Moinas, e pelas mesmas razões, os bombos que acompanham o pinheiro até ao seu «enterro» são tocados quase todos em posição horizontal. Ora, nesta posição é mais difícil evitar o contacto da mão com a membrana, causando ferimentos. Mas esta causa técnica é interpretada por muitos jovens nicolinos em função de uma linha simbólica que convoca representações de uma masculinidade exacerbada, resultando na perda de virgindade no caso das mulheres. Como observa o historiador vimaranense António Amaro das Neves, tais verbalizações são muito recentes e remetem para a controvérsia relativa à participação das raparigas, considerada desprovida de sentido no âmbito daquilo que seria um ritual de afirmação da masculinidade. No entanto,
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hoje as raparigas participam em força no número do Pinheiro e também tocam, o que deveria invalidar esta interpretação de conotação sexual. Na realidade, em vez de esta leitura esmorecer, parece estar a ser apropriada também por algumas jovens. Agora são frequentes semelhantes tentativas de reencantamento de práticas tradicionais, de introdução de significados considerados mais ricos ou mais evocativos. Estes são em geral apresentados como ancestrais e imemoriais, apesar da ausência de qualquer documentação comprovativa, e almejam um ilusório regresso à «autenticidade». Neste respeito, o sangue nicolino corresponde a um padrão que se tem tornado comum na vida contemporânea das festas e outras tradições populares na Europa, cujos promotores gostam de poder pensar e afirmar que as suas origens são conhecidas e a sua simbologia atual diretamente derivada do que era há séculos.
Constantemente interrompido pela multidão que ocupa as ruas, o cortejo demora várias horas a atravessar a cidade. Sem querer desvalorizar o papel dos jovens, tem de se dizer que os Velhos ajudam muito, pelo respeito que ainda inspiram, a estabilizar os acontecimentos e acalmar os ânimos na proximidade dos carros. No final do percurso, no largo de São Gualter, uma escavadora já preparou um buraco, perto do Monumento Nicolino. Auxiliados pela máquina, que segura e iça a árvore, e por alguns Velhos, os rapazes da Comissão usam pás para enterrar a base do tronco e sustentá-lo na posição erguida. No momento em que a grua o solta, a emoção e a exaltação coletivas chegam ao rubro: palmas, exclamações, assobios. Para os membros da Comissão, a considerável tensão acumulada durante a preparação do número e durante o policiamento do cortejo solta-se finalmente: abraçam o pinheiro, abraçam colegas, amigos e familiares. Não faltam lágrimas nos olhos de estudantes e de Velhos.
Com o pinheiro erguido, as Festas Nicolinas ficam oficialmente abertas. Quando encerrarem, a árvore será muito prosaicamente cortada em lenha destinada à Casa dos Pobres. Vários grupos aproveitarão o resto da noite para continuarem a tocar e a festejar, seja perto do Liceu, na praça da Oliveira ou no Toural. Durante toda a noite do Pinheiro, os serviços de proteção civil estão mobilizados para fazerem frente a todas as possíveis situações, as urgências hospitalares recebem muitas pessoas alcoolizadas ― ao ponto de haver na região jornalistas cuja principal razão de escrever sobre as Festas parece ser a contagem dos comas etílicos. De facto, circulam continuamente garrafas de mão em mão durante o desfile, após uma ceia já de si bem regada. O folclore nicolino, expresso nos textos dos programas das Festas, nos pregões, nas Posses, mas também nos relatos das Festas e em comentários nas redes sociais, é muito rico em alusões ao «culto de Baco» e em evocações da necessidade de «lutar contra o frio da noite». Não é de estranhar que a noite do Pinheiro, com a sua força de manifestação coletiva, forneça o palco ideal para manifestações de transgressão comuns em festividades populares. A este respeito, novos e Velhos Nicolinos recusam ser responsabilizados por atos individuais que não podem controlar. Para eles, e muito em particular para a Comissão, o que conta é fazer a demonstração de que mais um grupo de jovens soube organizar e controlar um cortejo imponente e gigantesco.
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