Cedo na manhã do dia 29 de novembro, a Comissão desloca-se à Quinta de Aldão, nas imediações da cidade. A quinta é propriedade da família Martins de Aldão, a qual, por desejo de contribuir para a causa nicolina e dar continuidade a uma longa tradição familiar, oferece desde há muitos anos um grande pinheiro à Comissão. Após o abate, o tronco, ornamentado com o seu penacho terminal e dois grandes ramos verdes de azinheira, é levado para o Cano, perto do Castelo, onde fica à espera de ser decorado pela Comissão. A força da atração que a árvore abatida exerce sobre a população vimaranense é por de mais patente: perante a sua presença imponente, inúmeros carros abrandam ou param; grupos de estudantes aproveitam um intervalo das aulas para uma olhada rápida; muitos curiosos deslocam-se de propósito do centro da cidade para avaliarem a sua altura e tirar fotografias e selfies que enviam de imediato para amigos e familiares e para as redes sociais, em particular para quem não poderá participar nos festejos noturnos. «Claro que vim de propósito! Venho todos os anos tirar uma fotografia para enviar aos amigos!», diz um condutor de telemóvel em punho. Abundam as comparações com a árvore do ano anterior e comentários apreciativos: «É grande o gajo, caralho!», «Desta vez não é torto!»
Após o abate matinal do pinheiro, os membros da Comissão participam no Cortejo do Retábulo de São Nicolau, uma criação recente cujo nome oficial é mais conhecido como «Pinheirinho». Acompanhados por autoridades municipais, por representantes das instituições nicolinas e sobretudo por centenas de alunos dos infantários da cidade, muitos deles em traje de trabalho ou pelo menos de gorro nicolino posto e equipados com caixas adequadas ao seu tamanho, os membros da Comissão levam um pequeno retábulo da Capela de São Nicolau até à Torre dos Almadas, onde a peça permanecerá por toda a duração das Festas. O retábulo, também conhecido como «a casinha de São Nicolau», foi doado pelo Velho Nicolino Ferraz de Moura e está decorado com representações em estilo naïf do Pinheiro e das Maçãzinhas da autoria de outro Velho Nicolino, Fernando Capela Miguel, sendo a imagem do santo padroeiro oferecida por outro antigo Nicolino, José Maria Magalhães. Esta nova tradição originou-se a partir de uma iniciativa discreta de educadoras do Lar de Santa Estefânia no início deste novo século. Segundo conta João Neves:
a educadora contactou-me porque sabia que era nicolino e pediu-me para irmos lá fazer uma festinha com os meninos. Eu falei com o Xico e fomos lá os dois, e aquilo foi a semente. No primeiro ano, foi a turma do meu filho
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e mais uma ou outra ao lado; no ano seguinte, foi o infantário todo, e a partir daí foi com os infantários todos que souberam e que mandaram cartas, algumas até a protestar e tal […] Eu ia com o bombo, o Xico mandava umas bocas, dizia umas coisas, estava lá o meu sobrinho, a mulher do Xico, por aí fora... e lá fizemos uma demonstração. No segundo ano, já foi no ginásio, com aquilo cheio e os meninos todos arranjadinhos. […] Nos anos seguintes, pegaram na Comissão e distribuíram os membros, vinham para aqui para a Oliveira e tal... e foi então que o Capela inventou a história de ir à capelinha, com o retábulo […] Para a comissão, deve parecer que já tem não sei quantos anos e que isto já se faz há muito tempo, porque, como eles vão entrando todos os anos, fazem os que lá estavam antes faziam e pensam assim, já nem sabem quando começou e pensam que já vem de há muito.
O Pinheirinho tem ganho uma popularidade notável e agrupa atualmente uma multidão de pequenos alunos que, por esta ocasião, recebem a sua primeira preleção nicolina. As opiniões são unânimes ao considerarem que se trata de uma iniciativa «bonita», sem dúvida sobretudo por causa da participação infantil, mesmo se algumas vozes receiam que esta atividade, que nem sequer é um número oficial das festividades, possa contribuir para adensar ainda mais o protagonismo impressionante que o número festivo do Pinheiro tem adquirido em tempos recentes. Visivelmente felicíssimos com a possibilidade de participar, um grupo de jovens da CERCIGUI, Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados do Concelho de Guimarães, toca na praça da Oliveira quando a multidão se dispersa e a confusão se torna menor, sob a orientação do nicolino José Maia, sempre atento às preocupações sociais apregoadas pelo espírito nicolino. Embora ainda não faça parte do programa oficial, esta atividade é um exemplo claro da capacidade de inovação das Festas e uma ilustração do interesse que suscitam na generalidade da população da cidade.
Ao longo da tarde, vai sendo preparado aquele que é o evento, atualmente, mais visível das Festas Nicolinas e o único número festivo com alguma projeção mediática fora do concelho, ao ponto de ser referido como representando a totalidade das Festas, o que enfurece sobremaneira os nicolinos. Enquanto alguns grupos ainda percorrem as ruas onde o trânsito foi interrompido para irem ver a árvore que a Comissão já decorou com festões e pequenas lâmpadas, outros, equipados com caixas e bombos que fazem rufar de tempos a tempos, começam a dirigir-se para os restaurantes onde marcaram as suas reservas com semanas ou mesmo meses de antecedência. Todos os estabelecimentos estão completamente lotados, inclusive nos arredores da cidade: nesta noite de Ceias Nicolinas, um forasteiro desprevenido não teria qualquer hipótese de encontrar onde jantar em Guimarães e partilhar a refeição tradicional com os habitantes e os seus amigos. Por vezes descrita como devendo simplesmente ser composta por papas de sarrabulho e rojões, fazendo objeto de debates entre puristas quanto ao que deve ser a sua composição «tradicional», a ementa oferta pelos restaurantes apresenta hoje algumas variações, elaboradas a partir de clássicos da gastronomia regional: caldo verde, papas de sarrabulho, rojões de porco, batatas, tripas com grelos e castanhas assadas, arroz de pica-no-chão, leite-creme, arroz-doce, tudo regado com abundante vinho verde.
Centenas de grupos juntam-se nos diversos restaurantes, casas de pasto, tascas e tasquinhas, reunindo amigos que poderão ter vindo de muito longe e que todos os anos fazem questão de partilhar, com outros
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Velhos Nicolinos da mesma geração, uma noite de evocação de tempos passados e desfilarem juntos pelas ruas da cidade onde estudaram.
As Ceias
António Amaro das Neves
Apesar de encontrarmos, no passado, exemplos esparsos de velhos estudantes que se reúnem à mesa para conviverem, evocando tempos passados nos bancos da escola e nos festejos a São Nicolau, a tradição das Ceias Nicolinas na noite da entrada do Pinheiro, 29 de novembro, é muito recente, se tivermos em conta a antiguidade das Festas.
Temos de recuar até início do século XX para vermos os Velhos a festejarem, pela primeira vez, com
uma esplêndida ceia. Foi na noite das Posses do ano de 1902. Segundo o relato do jornal Independente, no
final da ceia, os convivas dirigiram-se à casa de Álvaro Costa Guimarães, que lhes ofereceu um «delicado copo… de vinhos de primeiríssima ordem que os velhotes do diabo saborearam até perto das 3 e meia horas da madrugada.»
O beberete oferecido por Álvaro Costa remete para posses particulares que aconteciam nos primeiros anos do século XX, em que um grupo de velhos estudantes se reunia, depois do jantar, na casa de um deles, revivendo os seus antigos tempos de estudantes, enquanto aguardavam que os académicos no ativo lá fossem reclamar a posse que lhes estava destinada.
Foi com uma ceia que encerrou o programa com que os Velhos assinalaram as bodas de prata do ressurgimento das Festas Nicolinas. O repasto, descrito como uma modesta ceia, foi presidido por Jerónimo Sampaio e servido no Hotel do Toural na noite de 8 de dezembro de 1920. Segundo o relato do jornal Gil Vicente, a ceia «correu animadíssima, no meio da alegria mais franca, da jovialidade mais ingénua, em que todos tagarelavam como crianças, recordando peripécias de rapaz a que agora se acha um gosto especial em repetir e ouvir.»
A primeira grande ceia de confraternização nicolina na noite do cortejo do Pinheiro aconteceu no cinquentenário do ressurgimento de 1895. Foi marcada para as 21 horas do dia 29 de novembro de 1945. As inscrições foram abertas, com antecedência, em vários estabelecimentos comerciais da cidade. Na sua edição do dia 25, o Notícias de Guimarães anunciava:
«Para a Ceia de Confraternização Nicolina, a realizar na quinta-feira próxima, dia 29, encontram-se inscritos muitos estudantes velhos — muitas dezenas deles — desta cidade e redondezas e de fora. Todos esses velhos, com indumentária própria, se incorporarão no “Pinheiro”, apresentando um carro alegórico sugestivo.»
85 Segundo o mesmo jornal, a confraternização de 1945 contou com a participação de cerca de «duzentos velhos de várias gerações, pertencentes às mais diversas categorias sociais e vindos, muitos deles, de longas paragens.» A refeição foi servida pela Pensão Império, no amplo refeitório do Internato Municipal, e fixou a ementa, substancial e abundante, das ceias nicolinas: papas de sarrabulho, rojões e bucho de porco com grelos e, à sobremesa, aletria e figos. Foi presidida por José Luís de Pina, que tinha a seu lado Jerónimo Sampaio. Prolongou-se por cerca de três horas e contou com uma convidada surpresa, a Senhora Aninhas. No final dos discursos e da leitura de mensagens de velhos estudantes que não puderam estar presentes, cantou-se o Hino Escolástico. Em seguida, os convivas integraram-se no cortejo do Pinheiro. Desse ano de 1945 também temos notícia da ceia dos novos, servida na Pensão Modelar, no dia 4 de dezembro, depois do Magusto e antes de os estudantes prosseguirem com a recolha das últimas Posses e as «demais proezas nicolinas», isto é, as Roubalheiras.
Em 1947, por altura das Festas Gualterianas, abriu portas o Restaurante Jordão, que ficaria ligado às Ceias Nicolinas até ao seu encerramento, na última década do século XX. Pertencia à Empresa do Teatro Jordão, que entregou a sua gerência a Paulino Ferreira Leite. Foi lá que se realizou a Ceia Dançante que substituiu as Danças de São Nicolau, encerrando as Festas Nicolinas daquele ano.
A confraternização anual dos Velhos Nicolinos começou a alinhavar-se a partir de 1950, ainda sem o formato nem a constância que lhe dariam o reconhecimento como tradição. Nos anos de 1950 e 1951, aconteceu no dia 1 de dezembro, com um almoço no Restaurante Jordão. Em 1953, os Velhos Nicolinos apropriaram-se dos principais números das Festas, que então davam mostras de declínio, e, aproveitando a circunstância de o dia calhar a um domingo, reuniram-se para jantar na noite de 29 de novembro, antecedendo a entrada do Pinheiro, em que iriam tomar parte.
No dia 11 de novembro de 1956, o Notícias de Guimarães publicou uma carta de um Velho Nicolino que sugeria que, naquele ano, se organizasse um programa de festas próprio para os antigos estudantes, que incluísse um jantar de confraternização. Porém, seria necessário chegar ao ano de 1958 para se fixar o início da tradição de solenizar a noite do Pinheiro com um jantar de Velhos Nicolinos.
No ano seguinte, o último em que o Liceu de Guimarães ainda funcionou no antigo Convento de Santa Clara, um grupo de antigos alunos organizou uma confraternização, marcada para o dia 29 de novembro, em que se prestaria «homenagem a todos quantos passaram pelos bancos do velho Liceu», alunos e professores, e que incluiria um jantar no Restaurante Jordão. Segundo os jornais, ao jantar de 1959 compareceram «para cima de 300 antigos alunos do Liceu, homens de todas as idades e de todas as posições, das mais modestas às mais elevadas, assim como algumas dezenas de senhoras, também antigas alunas, diversos mestres, alguns deles já aposentados.» Durante a refeição, foram distribuídas pelos participantes colheres de pau e exemplares de uma brochura alusiva ao evento, com poesias de Delfim de Guimarães, de A. Garibáldi e de Júlio Soares Leite, além da ementa do repasto. Foi durante este
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jantar que se leu uma carta de António Faria Martins, ausente por motivo de doença, em que sugeria a criação de uma associação dos antigos alunos do Liceu de Guimarães.
Em 1960, a reunião dos estudantes aposentados na noite do Pinheiro já é apresentada como a Ceia Anual de Confraternização dos Velhos Nicolinos. Naquele ano, durante o repasto, tratou-se de assuntos relacionados com a Associação dos Antigos Estudantes do Liceu de Guimarães (AAELG), então em organização, que já contava com algumas centenas de inscritos. Daí para a frente, a Ceia dos Velhos passaria a ser antecedida por uma reunião da assembleia geral da AAELG.
Por aquela altura, já a Ceia dos Velhos era uma tradição consolidada no quadro das Festas Nicolinas. O nicolino João Mota Prego classificou-a como uma espécie de Páscoa, que anunciava a ressurreição da mocidade de velhos estudantes de diferentes gerações. Aconteceu, ano após ano, no Restaurante Jordão, que se vestia a preceito para acolher aquela romagem de saudade e cumprir o programa, tal como consta no convite para a edição de 1969:
«Comer e beber bem; evocação nicolina; Pregão dos “Velhos”; imposição do barrete nicolino; ensaio geral de caixas e bombos e avanço, na direção do Cano, em conjunto e ribombando.»
Com o andar dos tempos e com a massificação do ensino, a multiplicação de tertúlias nicolinas, umas mais formais do que outras, também se multiplicaram as ceias nicolinas, umas de Velhos, outras de novos, fazendo do jantar de 29 de novembro de cada ano aquele em que os restaurantes e as tascas de Guimarães têm a sua agenda mais preenchida.