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Sensitivity analysis of the Standard and RNG model

4.4 Simulating in ANSYS

4.4.2 Sensitivity analysis of the Standard and RNG model

Os temas do diagnóstico de deficiência intelectual e da experiência de escolarização surgiram fomentados pelas perguntas contidas nos roteiros de entrevista das duas etapas (Apêndices J e K). Apesar de terem objetivos distintos, ambas as etapas da pesquisa buscaram compreender, em sentido amplo, o desenvolvimento de pessoas com diagnóstico de deficiência intelectual e as relações mútuas entre este diagnóstico e o avanço na escolarização. Percebemos que esses temas se tocaram em todos os encontros

com Álvaro. De forma mais específica, emergiram questões relacionadas aos impedimentos e às possibilidades e potencialidades que desafiam o diagnóstico. Percebemos, desde a primeira etapa um movimento ativo de Álvaro para ressignificar o diagnóstico, buscando distanciar-se do estigma de deficiência intelectual. Ele se esquivava de significar as dificuldades nos processos de aprendizagem escolar como a existência de empecilhos incontornáveis. Em especial, ao tratar do atendimento educacional especializado, é possível notar que ele reconhece o papel dos recursos disponibilizados pela escola na promoção de possibilidades efetivas de aprendizagem, consonantes com o paradigma do apoio, como apregoado pela AAIDD (2011). Ao mesmo tempo, situações significadas por Álvaro como constrangedoras e indutoras de preconceito também foram narradas.

Nesse sentido, suas narrativas colocavam em xeque a deficiência intelectual a ele imputada pelo diagnóstico e pelas práticas de discriminação e preconceito. Em muitos momentos sublinhou a própria capacidade e seus méritos acadêmicos que, muitas vezes ultrapassavam o que era alcançado pelos colegas de turma. São exemplos de vitórias conquistadas a própria conclusão do Ensino Médio e o resultado positivo obtido quando prestou o vestibular. Em diferentes momentos se pode notar a emergência de um pensamento crítico e de um vívido senso de si que lhe permite reconhecer as próprias dificuldades acadêmicas, ao mesmo tempo em que destaca suas capacidades e conquistas.

Um dos temas em que a tensão entre capacidade e dificuldade se manifesta é o que se refere à obtenção do diploma de ensino superior: o receio em relação à continuidade da sua trajetória acadêmica não parece afetar sua firme disposição em continuar a progredir. Tal disposição está pautada em uma avaliação coerente da realidade, que o faz enxergar inclusive a barreira representada por suas condições opressivas de trabalho quanto ao alcance de suas metas. Tendo sido aprovado para ingresso em um curso superior, ele não teve plenas condições financeiras para realizá-lo, na ocasião. No momento da pesquisa, já com uma condição financeira mais propícia, a dificuldade maior passou a ser a jornada intensa de trabalho. Note-se que tais obstáculos referem-se às condições socioambientais, e não a sua condição de desenvolvimento e aprendizagem.

Desse modo, deve-se destacar que sua trajetória de desenvolvimento apresenta indicadores de processos que se contrapõem a algumas definições oficiais de deficiência intelectual. De acordo com a AAIDD (2011), esse tipo de deficiência é caracterizada por “limitações significativas, tanto no funcionamento intelectual como no comportamento adaptativo, está expressa nas habilidades adaptativas conceituais, sociais e práticas” (p.

33). Funcionamento adaptativo diz respeito aos modos como a pessoa conduz efetivamente aspectos de seu cotidiano, enfrenta as exigências comuns da vida diária, com adequação e autonomia em distintas situações, considerando-se ferramentas culturais disponíveis, grupo etário e contextos nos quais participa.

Da mesma forma, as narrativas de Álvaro expressam indicadores que permitem compreender o conjunto de posições que constituem sua configuração dinâmica de self. A nosso ver, tal configuração não se confunde com a de uma pessoa com deficiência intelectual, ao mesmo tempo que seu funcionamento adaptativo assemelha-se ao de um adulto médio entre os que têm sua faixa etária, e vivem em semelhantes condições socioeconômicas e de escolarização.

Os apoios educacionais, especialmente, o Atendimento Educacional Especializado, garantidos em todo o seu percurso na escola inclusiva, parecem ter possibilitado o acesso a outras formas de aprendizagens e expressão de saberes. Esse serviço constitui-se em importante mediador semiótico que impulsiona Álvaro a trajetórias alternativas ao que poderia ser uma história de vida marcada pelo estigma da deficiência intelectual. Da mesma forma, o atendimento parece ter propiciado ferramentas simbólicas que permitiram que ele se percebesse como sujeito de aprendizagens e conquistas.

Em uma perspectiva dialógica, a escola é compreendida como espaço institucional, ideologicamente marcado e permeado por múltiplas vozes (Bakhtin, 1929/2009). No caso, as escolas inclusivas mesclam diferentes posições ideológicas, as quais se inter- relacionam e refletem-se na dinâmica de self de Álvaro. Ele demonstrou ter conseguido transitar entre os diversos significados que caracterizam o espaço educacional. O processo de escolarização bem sucedido lhe deu condições de perceber as próprias dificuldades de modo diverso da interpretação dada pelo diagnóstico precoce, ou seja, como deficiência. Ele as converteu em condição inerente às vivências humanas.

Álvaro evidencia um senso de si com destacada agencialidade, que tende a potencializar os próprios progressos, minimizando possíveis dificuldades. Ele percebe-se como alguém em situação vantajosa em relação aos colegas, que sequer conseguem trabalhar e ainda vivem na dependência dos pais. Álvaro vive de modo autônomo em relação à família e, em vez de depender dela, são os pais e irmã que contam com seu auxílio para as atividades cotidianas e para a geração de renda familiar.

A trajetória de desenvolvimento de Álvaro nos suscita uma importante questão, ou seja, há realmente uma situação de deficiência intelectual? Ele pode ter passado por momentos de dificuldades em seu processo de escolarização que levaram àquele diagnóstico. No entanto, o que observamos em sua trajetória permite considerar que ele pode ter vivido uma situação transitória de dificuldades escolares.

Acreditamos que alguns acontecimentos ocorridos na trajetória de Álvaro – o encontro com professores comprometidos, o exemplo positivo da trajetória acadêmica da irmã, o incentivo dos pais, entre outros - tenham funcionado como pontos de bifurcação que possibilitaram vivências comumente encontradas também entre jovens adultos sem o diagnóstico de deficiência. A relação entre esses aspectos contribuiu para que Álvaro trilhasse caminhos diferenciados aos que tendem a ser culturalmente construídos para aqueles com o diagnóstico de deficiência intelectual. Os significados atribuídos ao trabalho; à independência financeira; à carteira de habilitação; à paternidade; aos apoios recebidos e dados à família; à conclusão do Ensino Médio e à aprovação no vestibular podem ser destacados entre os que funcionaram como mediadores dos processos de desenvolvimento adulto, segundo trajetórias em que a deficiência intelectual não figurou como centro.