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A palavra Fenomenologia deriva-se do grego phainómenon, que significa aquilo que vem à

luz e de logia, que quer dizer estudo. Portanto, a Fenomenologia designa o estudo ou a ciência do

método de pensamento criado pelo filósofo Edmund Husserl (1859-1938) a partir dos posicionamentos de Franz Brentano que ganhou contornos da Filosofia e exerceu influência no processo de formação do pensamento existencial.

Enquanto corrente filosófica, a Fenomenologia nos remete a um método possível de conhecimento que surgiu no final do século XIX a partir das idéias de Husserl. Abbagnano (2003, p.437) define a fenomenologia como a “descrição daquilo que aparece ou ciência que tem como objetivo ou projeto essa descrição.”

Husserl preocupou-se em fazer uma Fenomenologia pura/transcendental, ou seja, uma ciência de essências e não de dados de fato. Isso foi possibilitado pela redução eidética, que consiste em transformar os fenômenos em essências, ou seja, excluindo os fenômenos psicológicos de suas características reais ou empíricas. (Abbagnano, 2003).

A proposta de Husserl era discutir a prática das Ciências Humanas e fundar seu sentido através do retorno às coisas mesmas e à realidade como ela é. Ou seja, é um retorno à realidade como ela se apresenta para cada sujeito num determinado tempo e lugar. O primordial de suas idéias reside nos conceitos de intencionalidade da consciência e de redução fenomenológica. Haveria uma intencionalidade da consciência em relação ao mundo, ou seja, a consciência não é apenas uma parte do ser, mas o princípio pelo qual todo Ser pode receber seu sentido e seu valor.

A redução fenomenológica corresponde à abstenção de juízos pré-concebidos e de idéias prévias, a fim de permitir a emergência do fenômeno em sua facticidade. Realizar uma redução fenomenológica significa pôr os “a prioris” entre parênteses, em favor da realidade fenomenal. A redução fenomenológica implica a busca do sentido inerente ao fenômeno.

Nessa compreensão, a Fenomenologia diz respeito a um método de conhecimento que objetiva compreender, e não explicar o homem no mundo, a realidade vivida e a experiência. Implica numa compreensão do mundo tal como aparece para cada ser humano. Além disso, representa um marco na história da Filosofia, que atravessa o campo da Psicologia em diversos âmbitos e

modalidades de ação, como por exemplo, o campo da abordagem clínica. O mais importante nesta perspectiva é a abertura ao fenômeno, pois é nessa relação que se dá a apreensão de sentidos, terreno propício para a ação clínica.

Uma das contribuições do método fenomenológico para a psicologia é a forma de pesquisar os fenômenos relacionados ao psiquismo humano, que possibilita estudar as vivências do sujeito através da busca pela compreensão de suas experiências vividas. Para a fenomenologia, a metodologia é na verdade um caminho que se faz fazendo, ou seja, é uma pergunta em andamento, em aberto. (Critelli,1996).

Gobbi (1998) comenta que a obra de Hursserl forneceu subsídios que acabaram influenciando diversos pensadores como Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Merleau-Ponty, Martin Buber, dentre outros. Além disso, a fenomenologia se torna fundamento de quase todas as correntes humanistas da Psicologia, em especial da Abordagem Centrada na Pessoa, gestalt- terapia e logoterapia.

Já o pensamento existencial ou existencialismo, por sua vez, corresponde a uma corrente filosófica com apogeu na Europa depois da primeira guerra mundial. Caracteriza-se pela preocupação com a existência concreta do homem no mundo. Considera como questões fundamentais: a liberdade, a responsabilidade e a angústia. Dentre os principais filósofos existencialistas, destacam-se: Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Martin Buber, Maurice Merleau-Ponty. No entanto, a gênese do pensamento existencialista emerge basicamente das filosofias de Soren Kierkegaard e Friedrich Nietszche.

O existencialismo, enquanto compreensão de homem, considera a finitude como viabilizadora das possibilidades do vir-a-ser do sujeito-no-mundo (Heidegger, 1995). O Dasein é visto como pura abertura. O homem é tido constitutivamente como projeto, diferenciando-se da compreensão de sujeito positivista moderno. O mundo não é realidade a contemplar, ele se apresenta como contexto existencial do Dasein.

Neste sentido, a Abordagem Fenomenológico-existencial pode ser considerada como um estudo dos fenômenos conscientes que se fundamentam em razão da própria experiência do homem enquanto ser-no-mundo. É na e pela existência que podemos apreender e conhecer o mundo, inclusive construir ciência.

Inseridos nesta perspectiva, conduzimos nossa pesquisa tendo em vista sua pertinência para o fenômeno investigado. É importante destacar que utilizamos a Fenomenologia enquanto método de trabalho que subsidia nossa compreensão clínica, e não como filosofia propriamente dita. Neste sentido, torna-se um instrumento importante para que possamos compreender e intervir no âmbito da pesquisa e da atenção psicológica.

Vale ressaltar também que para compreender esta perspectiva teórico-metodológica aplicada à Psicologia é preciso entrar no mundo do outro. Ouvir o que ele tem a dizer sobre suas experiências a fim de compreendê-las e favorecer o agenciamento de sentidos. É preciso estar atento ao fenômeno, que constantemente vela-se e desvela-se num movimento simultâneo de ocultamento e revelação (Critelli, op.cit).

A abordagem fenomenológica enquanto método de trabalho e de compreensão clínica aborda o fenômeno por meio de uma percepção que deixa de ser aquela objetiva, meramente cognitiva ou despersonalizada. Passa, pois, a ser vista como busca de sentidos para as experiências em suas mais diversas manifestações (linguagem, ações, dentre outras).

Isto nos faz pensar nas palavras de Critelli (1996) ao afirmar que a fenomenologia é um método que nos remete ao como de uma investigação, que põe em andamento perguntas e reflexões a partir do que é vivido e que propõe caminhos para se chegar à compreensão; sendo fundamentada, sobretudo, pelo modo com que experienciamos e entramos em contato com o mundo. Neste sentido, a apreensão dos fenômenos parece, portanto, norteada por um desvelamento numa dada situação, tempo e espaço.

Portanto, há de se considerar que o método fenomenológico concebe o conhecimento de modo dinâmico. Trata-se de uma perspectiva epistemológica que não visa estabelecer hipóteses a priori, nem identificar relações de causa-efeito, muito menos propor generalizações. Ao contrário, a postura do pesquisador nessa abordagem é de abertura para as possibilidades, tendo em vista que seu alvo de estudo não é tido como objeto, mas sim como manifestação dos entes; ou seja, como fenômeno que não pode ser totalmente contemplado pela razão humana, dados suas limitações inerentes. Sendo assim, o conhecimento é algo que se constrói na relação homem e mundo em constante movimento de devir. Daí o conhecimento ser visto em forma de perspectiva (velamento e desvelamento) e não como verdade única ou absoluta.

Cabe realizar aqui uma breve distinção entre vivência e experiência. Na visão de Schmidt (1990), vivência se refere ao acontecimento em si e experiência corresponde à vivência refletida e significada por cada sujeito. A autora faz essa distinção a partir de relações entre memória, tradição e pertença ao coletivo. No entanto, Rogers (1974) considera vivência e experiência como sinônimos.

Abbagnano (2003, p.1006) define vivência como a experiência viva ou vivida, designando toda atitude ou expressão da consciência. Destaca ainda que Husserl considerou a vivência como conteúdo do cogito, tendo em vista que ela é sempre consciente de si mesma. E quanto ao termo experiência, recorremos a Japiassú & Marcondes (1996, p.96), que chamam de experiência,todo o conhecimento espontâneo ou vivido, adquirido pelo sujeito ao longo dos anos.

Diante disto, convém destacar brevemente os autores e perspectivas que fundamentam nossa escolha metodológica e de procedimentos para coleta de dados, dentre eles, a narrativa segundo Walter Benjamin e a técnica de literalização proposta por Schmidt (1990) enquanto formas de se fazer pesquisa fenomenológica.