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Diante das considerações a respeito dos antecedentes da clínica psicológica na abordagem fenomenológico-existencial, mais especificamente da ACP, faz-se necessário situar como compreendemos o cenário do saber-fazer clínico hoje no campo da oncologia pediátrica. Para tanto, consideramos importante expor como percebemos o psicólogo em meio ao mundo pós-moderno.

O contexto contemporâneo presente nas artes, ciências, literatura, economia, religiosidade, enfim, nas manifestações humanas de um modo geral pode ser compreendido como uma transição da modernidade para a pós-modernidade, tendo em vista a globalização, o avanço tecnológico, a comunicação à distância, os desenvolvimentos da engenharia genética, a virtualização das relações, a destruição crescente do ecossistema, dentre outros processos de mudanças, cuja velocidade é acelerada (Sundfeld, 2000).

No que tange esta transição da modernidade para a pós-modernidade, percebemos não haver consenso entre os autores quanto ao significado dos termos. Neste cenário, a autora supracitada nos lembra que as constantes novidades e mudanças acabam exigindo uma rápida assimilação dos sujeitos, que por sua vez, se encontram imersos em experiências e sensações que parecem ser naturalmente transitórias e fugazes, onde não há espaço para a apropriação e

significação do vivido. Neste sentido, parece que as demandas do mundo passam a ser simplesmente acolhidas, sem espaço para reflexão e produção de sentido.

Assistimos, assim, a uma fragmentação e virtualização das experiências enquanto aspectos de um mundo em que a dimensão espaço-tempo é relativa e mutável. Neste mundo provisório, parece haver pouco espaço para a continência e elaboração das experiências. As relações são afetadas tanto no domínio eu-outro quanto na dimensão do corpo. A intolerância acaba sendo uma marca acentuada nas relações contemporâneas, o que revela uma certa indisposição para a convivência com a diferença. Esta “rejeição” ao diferente parece reforçar atitudes preconceituosas e individualistas. A preocupação começa a centrar-se, portanto, numa busca incessante pela perfeição. Um exemplo disso é o crescente número de cirurgias plásticas a fim de exibir um corpo perfeito como sinônimo de felicidade e de aceitação. A meta de corresponder ao modelo idealizado acaba por transformar-se numa fonte de stress e depressão, ocultando, sobretudo, uma recusa de si mesmo, da condição humana de imperfeição, impermanência e finitude (Sundfeld, 2000).

As configurações do mundo atual implicam a produção de novas e diversas formas de ser-agir, no qual a subjetividade deixa de ser compreendida apenas como as particularidades do sujeito, tecidas em sua relação com o mundo; passando a estar permeada pelo contexto bio- sócio-político-econômico-cultural-tecnológico; ou seja, como um fluxo de contínuo devir.

Segundo Rolnik (1992) a subjetividade já não pode mais ser compreendida com base apenas na imagem do sujeito moderno enquanto portador de uma essência naturalmente estática. Em tempos atuais, a subjetividade encontra-se imersa em um fluxo contínuo de interações, que por sua vez, envolve relações paradoxais e complexas, discutidos sob diferentes enfoques. Se entendermos a expressão da subjetividade apenas através de um raciocínio linear e causal, podemos correr o risco de produzir sínteses reducionistas, ao invés de produzir o enriquecimento teórico e o permanente diálogo. (Sundfeld, 2000).

Hoje, a vida humana carece, fundamentalmente, de espaços propiciadores para a elaboração de experiências vivenciadas no cotidiano. Parece faltar tempo para as relações com o outro, e ainda, para a apropriação e expressão da própria singularidade face à cultura de massa cada vez mais próxima da tendência capitalista e consumista.

Este percurso do homem contemporâneo, denominado por Critelli (1998) de

desenraizamento da existência, remete-nos a uma profunda crise do modo como este vem existindo e

simbolizando suas experiências; crise esta, marcada, principalmente, pela fluidez e/ou ausência de sentidos. Talvez um dos efeitos desse processo seja a solidão e a depressão vivenciada por muitos como o grande “mal do século”. Estamos cada vez mais ocupados e menos zelosos por nós mesmos. Cuidar de si e entrar em contato com as próprias experiências deixou de ser uma atividade cotidiana, e passou a ser privilégio de poucos, dada as condições de vida contemporânea.

Diante disso questionamos: como anda a saúde do profissional psicólogo no mundo contemporâneo? Como o profissional da escuta e do cuidado para com o Ser se sente diante deste contexto? Como isso afeta seu trabalho? Certamente não teríamos respostas suficientes para tal pergunta, pois ao nosso ver, tal cenário traz à tona inúmeros desafios para o psicólogo, inclusive para aquele da OP, uma vez que sua própria subjetividade parece atravessar transições, podendo ser entendida como um movimento processual em contínuo devir.

Este contexto parece suscitar questionamentos e confrontar o psicólogo diante de seu saber- fazer clínico, uma vez que o mesmo encontra-se imerso num mundo de constantes transformações. Daí ser necessário ir além da dimensão intrapsíquica de seus clientes, a fim de buscar responder às demandas da contemporaneidade.

Ao exercermos a psicologia, seja em que área for, não podemos perder de vista que estamos trabalhando com processos de subjetivação. Neste sentido, recordamos o que Lévy (2001) nos fala a

respeito de nossa práxis. O autor assinala que devemos recusar ser um senhor de sentido que dite sua lei, e permitir a abertura para que novos significados/sentidos emerjam na relação entre teoria e prática. Isto nos remete a uma clínica constituída, fundamentalmente, como um espaço de criação e re-invenção, como é o caso da oncologia pediátrica. Para trabalhar com crianças gravemente doentes é necessário, antes de tudo, abertura e envolvimento existencial, a fim de que o cuidado para com o ser se dê de forma efetiva e autêntica.

Convém destacar que estamos cientes de que este tipo de discussão nos conduz, inevitavelmente, à esfera da saúde pública em nosso país e por conseguinte, a uma série de questões afins, as quais, além de não constituírem o nosso objetivo, não seria possível de responder nessa pesquisa. Portanto, trata-se apenas de um questionamento introdutório que não poderia deixar de ser mencionado, até porque o movimento de transição das subjetividades, tanto do psicólogo como de sua clientela, constituiu um dado importante no quesito de compreensão e atendimento das demandas. Sendo assim, a tarefa de produzir a diferença na assistência à criança com câncer deve ser preparada com instrumentos teórico-práticos capazes de enfrentar as dificuldades específicas deste campo.

Neste sentido, torna-se necessário pensar em uma proposta de atenção que se traduza, principalmente, pelo gosto do novo, pela convocação do criar e pelo ter que se deslocar dos fazeres já conhecidos. Quem sabe assim, a atenção psicológica deixa de ser vista como algo meramente elitizado e supérfluo, passando a incluir novas possibilidades de vir-a-ser. Mas para que isso ocorra, torna-se imprescindível que o psicólogo conheça e se aproprie das raízes de seu conhecimento, do modo como este vem sendo construído, e ainda, de suas ressonâncias com determinadas visões de homem e de mundo.

Recorremos a Japiassu (1983) para refletir melhor sobre essa questão. Ele nos aponta um instigante questionamento: como saberemos para onde irmos se não nos apropriamos ainda de quem somos, do que fazemos? É somente quando temos a noção clara de quem somos e do que queremos fazer que as coisas passam a fluir de modo mais espontâneo. Portanto, não basta configurar determinado modelo pré-estabelecido à ação clínica em OP, seja ele qual for, pois assim, estaríamos simplesmente aplicando uma técnica. Ao nosso ver, a atenção psicológica a criança com câncer não se reduz à aplicação ou ao domínio de técnicas. Vai muito além disso, pois envolve o encontro com a alteridade e com a estranheza que emergem na relação com o outro, dentre outras coisas.

A clínica engendra constantemente uma tensão entre os modelos teóricos e a nossa própria experiência em devir. Morato (1999b) enfatiza que a clínica é antes de tudo, saber originário, sem receitas prévias e que se aprende fazendo. Contudo, isto não implica um mero achismo. A psicologia, enquanto iluminação para a ação clínica remete-nos, fundamentalmente, a um posicionamento ético, apoiando-se, também, numa dada escolha teórica, método de abordagem, e ainda, em reflexões constantes acerca da prática e da teoria.

Cabe-nos, agora, tentar tecer um diálogo entre a dimensão ética e a prática clínica psicológica, a fim de estabelecermos uma interlocução a respeito do que estamos discutindo. A ética pode ser entendida aqui como morada (éthos), sinalizando habitação, abrigo no qual o homem trabalha, descansa, contempla o mundo, constrói-se subjetivamente, através das relações nela estabelecidas (Figueiredo, 1996).

Por essa compreensão, recordamos Schramm (1996), ao assinalar que a vida contemporânea parece marcada por uma crise generalizada do éthos, das relações humanas, do estar junto; fragilizando o enraizamento coletivo/cultural, dificultando a elaboração das vivências e acentuando

um crescente individualismo/isolamento, solidão e desamparo, principalmente na vida cotidiana das grandes metrópoles.

A clínica aparece, então, como tarefa desafiadora. Isto porque pressupõe, primordialmente, uma atitude favorecedora do desvelamento daquilo que não se mostra por si mesmo (Santana, 2001). Ou seja, a clínica vai se desenhando pelo espaço de revelação do outro em sua alteridade. E ainda, pelo oferecimento de um espaço favorável de confiança, onde se possa experimentar, com certa segurança, a revelação da estranheza, do interditado que pede passagem e significação. (Rolnik, 1992).

Ao nosso ver, Santana (0p. Cit, 2001) chama a atenção para a possibilidade do sujeito apropriar-se mais criticamente de sua existência, enquanto sujeito social, a partir da ressignificação do sofrimento experienciado, o que poderá favorecer o resgate ou exercício mais efetivo de sua cidadania. No caso da oncologia pediátrica, esta tarefa parece muito mais notável e enfocada no trabalho com os familiares.

Compreendemos, assim, que a ética perpassa o campo de ação da clínica psicológica como um todo. É a ética que nos confere um dado posicionamento frente ao fenômeno clínico apresentado, possibilitando escuta compreensiva e abertura para o cuidado.

A ação clínica na Abordagem Fenomenológico-Existencial constitui-se como movimento de mutualidade, no qual o cuidado para com o outro se dá através do encontro, do acolhimento e do diálogo em torno das tensões/conflitos expressas pelo sujeito em suas experiências de sofrimento. Ao

estar-junto-com, o psicólogo realiza um movimento onde a distância útil é mantida, resguardando,

para tanto, a especificidade do seu saber-fazer. No entanto, este movimento de aproximação-

O campo da clínica fenomenológica existencial constitui um espaço da relação de atenção e cuidado, envolvendo a adoção de atitudes facilitadoras, dentre outros aspectos. O fazer clínico revela-se como uma alternativa à superação da dicotomia sujeito-objeto e ao mal- estar do homem contemporâneo. Esse mal-estar humano parece se caracterizar, principalmente, pelo individualismo crescente e pela falta de significação de suas experiências.

A clínica desponta, então, como a arte do cuidado. Arte que se insere num espaço diferenciado de diálogo, no qual a própria subjetividade do psicólogo é colocada em função da ressignificação das experiências do sujeito. Com isso, questionamos: o que faz o psicólogo ao

cuidar da subjetividade? Talvez revisar e examinar sua própria vida, personalidade, conflitos e

frustrações. Nisso, recorremos a Morato (1999a) para, mais uma vez, ilustrar que tal arte depende, fundamentalmente, da sensibilidade experienciada no encontro com o outro.

Pensamos ser necessário que haja uma reflexão contínua da prática clínica psicológica e que independente da área e dos referenciais teórico-metodológicos eleitos, o psicólogo seja capaz de assumir um compromisso ético-político com as demandas emergentes, a fim de que seu saber-fazer seja sinônimo de ressignificção e não de engessamento epistemológico ou de especulações empíricas.