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No final de 2003, prestei a seleção para o curso de Mestrado no Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, na cidade de Campo Grande. Fui aprovado para ingresso em 2004. E, como nada foi muito fácil na minha vida, a Bolsa de Mestrado não foi concedida no início do curso. Precisei trabalhar e estudar, viajando 800 km toda semana. Trabalhava nas segundas e terças, viajava na terça-feira à noite para assistir aulas nas quartas e quintas-feiras o dia todo. Retornava na quinta à noite para ministrar aulas na sexta-feira no curso de Pedagogia da Faculdade de Ilha Solteira. Mas, “quem espera sempre alcança”, já diz o ditado popular, e em maio de 2005, a bolsa7 foi concedida e me dediquei então, exclusivamente, ao Mestrado.

Nessa experiência, defrontei-me com a primeira encruzilhada acadêmica. Ao cursar as disciplinas, fui seduzido pelas leituras de Michel Foucault e suas teses sobre a sociedade disciplinadora e as relações de poder. Por outro lado, me via, cada vez mais, mergulhado na “filosofia metafórica” da perspectiva interdisciplinar que me acompanha até os dias de hoje, o que me possibilita deixar a escrita acadêmica mais humana e sutil.

Nesse processo, chocaram-se as vivências humanas na penitenciária, nas realizações comunitárias, nas leituras das obras freirianas e suas pedagogias (oprimido, esperança, indignação, autonomia), que nos leva a ter esperança no homem e na educação como partes de um processo inacabado e que nos seduz com a possibilidade de transformação, mudança e movimento. Como Freire dizia, buscava “uma pedagogia fundada na ética, no respeito à dignidade e à própria autonomia do educando” (FREIRE, 1996, p.10). Na busca de uma “ética universal do ser humano”, depositava, na prática docente, a esperança na edificação de uma sociedade melhor. Outro aspecto importante absorvido pela teoria freiriana foi a crítica da malvadeza neoliberal em relação às “injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo” e “ao cinismo de sua ideologia fatalista e a recusa inflexível ao sonho e à utopia” (FREIRE, 1996, p.14).

7 Bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, fomento que me possibilitou o término do Mestrado em 24 meses.

Durante o percurso desse aprendizado, fiz minha escolha pelo sonho, pela utopia, pela esperança, pelo ser humano e pela educação libertadora que deposita na prática educativa compromissada e ética que acredita que “formar é muito mais do que puramente treinar o educando no desempenho de destrezas, [...]” (1996, p.14). Assim, faço minhas as palavras de Freire, ao dizer que a nossa presença no mundo “significa reconhecer que somos seres

condicionados, mas não determinados. Reconhecer que a História é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita- me reiterar, é problemático e não inexorável (1996, p.19)”.

Com tudo isso, fui me tornando um cidadão, cada vez mais consciente e emancipado (cf. Freire) na minha vida e na profissão. Em 12 de maio de 2006, o momento mais almejado aconteceu: minha defesa pública da Dissertação de Mestrado, intitulada “Pedagogia de Projetos: reflexos de uma ação de formação”, o que me proporcionou uma imensa satisfação ao constatar a superação e obstáculos que a vida tinha me colocado. Com a presença dos amigos, familiares e companheiros de Mestrado, fiz minha defesa/apresentação do trabalho que teve como objetivo depreender, analisar e interpretar as representações dos professores sobre a “Pedagogia de Projetos”, tendo como base os Parâmetros Curriculares Nacionais. A partir das representações foi possível analisar os conflitos, os avanços ocasionados nas práticas pedagógicas e no fazer docente no que se refere à “pedagogia de projetos e a interdisciplinaridade”.

Nos anos de 2006, 2007 e 2008, dediquei-me à escola pública e ao ensino fundamental. Trabalhei dois anos como alfabetizador, contratado na Prefeitura Municipal de Itapura. No ano 2008, prestei concurso público para professor de ensino fundamental na cidade de Aparecida do Oeste-SP. Permaneci, por um ano, na Escola Estadual Dirce Reis, ministrando aula em uma sala de 4º ano. Era, enfim, meu espaço minha sala, meus alunos, minhas escolhas, meus confrontos, ou seja, espaço de troca entre alunos, professores, diretor, coordenador e pais. Nessa experiência, pude descobrir que a escola pode e deve ser um ambiente de prazer, segurança e, acima de tudo, de ensino e aprendizagem, local onde deve existir respeito pelos funcionários, professores, alunos e família.

No ano 2009, fui convidado para assumir a Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer do município de Itapura. Aceitei o convite, o que me causou a perda do cargo e da minha sala de aula, pois o concurso era por 40 horas semanais e ainda estava no período de estágio probatório. Mas, nunca tive medo dos desafios que a vida me impôs, continuei atuando na

Faculdade de Ilha Solteira8, local que me proporcionou a aquisição de conhecimentos e vários saberes na minha formação como professor universitário. Local, onde a ética e moral sempre estivera presente. Naquele período, também assumi a coordenação de um curso de Pedagogia, outro espaço de aprendizagem nas dimensões da docência, coordenação e administração, nos momentos de autorização, reconhecimento e recredenciamento e supervisão de curso.

Ao olhar para o passado na busca de respostas para o presente, acredito que tive a oportunidade de viver e estar nesses lugares e “entrelugares” (BHABHA, 2005) que, muitas vezes, me vi entre os excluídos, os marginalizados, os esquecidos, os desprovidos de quase tudo. Para Bhabha a

[...] nossa existência hoje é marcada por uma tenebrosa sensação de sobrevivência, de viver nas fronteiras do “presente” [...] Encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade, passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão. (BHABHA, 2005, p. 19)

Essas vivências me proporcionaram realizações, mas também muitas angústias. Percebi que era hora de voltar aos bancos da universidade. No decorrer do ano, elaborei o projeto de pesquisa e resolvi prestar o processo de seleção na Universidade Federal de Uberlândia – UFU, mais especificamente, no Programa de Doutorado em Educação da Faculdade de Educação, o que resultou na minha aprovação na “Linha Saberes e Práticas Educativas”, sob a orientação da Professora Doutora Selva Guimarães que, até aquele momento, eu não sabia quem era. Mas, como os desafios trazem novas situações, mais uma vez, escolhi recomeçar, deixei emprego, família, amigos e passei a residir em Uberlândia-MG. Como já cantava Ivan Lins e Victor Martins (2005):

Começar de novo e contar comigo Vai valer a pena ter amanhecido Ter me rebelado, ter me debatido Ter me machucado, ter sobrevivido Ter virado a mesa, ter me conhecido Ter virado o barco, ter me socorrido Começar de novo e contar comigo Vai valer a pena ter amanhecido Sem as suas garras sempre tão seguras Sem o teu fantasma, sem tua moldura Sem suas escoras, sem o teu domínio Sem tuas esporas, sem o teu fascínio Começar de novo e contar comigo

Vai valer a pena já ter te esquecido Começar de novo

Nas marcas dessa viagem, na minha trajetória como pessoa e profissional, busquei olhar os momentos que foram forjando a minha identidade profissional. Entendo a identidade como uma construção histórica, cultural e discursiva “uma ‘celebração móvel’ formada e transformada, continuamente, em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2005, p. 13). É uma trajetória construída num diálogo constante com alunos, professores, orientadores, autores, teorias, paradigmas. Nesse processo de criação e recriação científica, viajamos pelas palavras de atores e autores, construtores e reconstrutores, um permanente ir e vir de ideias e reflexões. Andamos por caminhos trilhados e outros desbravados. Dialogamos com atores, como nós, que buscam no ato de educar e pesquisar a própria educação em sua complexidade, expressa em cenas já vistas e outras ainda por vir.