As entrevistas foram realizadas fora do local de trabalho dos sujeitos, uma vez que nestes, correríamos o risco de interrupções em função do próprio trabalho, além de tratar-se de um espaço que, provavelmente, induziria os entrevistados a apresentarem um discurso aceito na empresa. Procuramos agendá- las em horários não conflitantes com o do trabalho para que os entrevistados pudessem disponibilizar, de seu tempo livre, o que lhe fosse mais conveniente.
Contudo, uma das entrevistas aconteceu às dezenove horas por opção do próprio trainee, mas este ainda se encontrava em horário de trabalho e retornou à empresa para finalizar o trabalho que tinha neste dia.
Com cada sujeito que se dispôs a participar da pesquisa realizamos uma entrevista. Por conta da dificuldade de agendamento com os trainees, procuramos realizar o encontro com estes em cafés shoppings que fossem de fácil acesso. Apenas um trainee foi entrevistado na USP, a pedido dele por causa de sua facilidade de acesso à universidade.
Todas as entrevistas foram gravadas por meio de um gravador digital, bem como de um rapport, no qual era feito um esclarecimento ao entrevistado acerca do objetivo da pesquisa, após o qual era solicitado ao entrevistado o preenchimento do “Termo de consentimento livre e esclarecido” (veja Apêndice 01).
Além da gravação, utilizamos como forma de registro de dados um diário de campo, no qual foram relatadas tanto as expressões não verbais do entrevistado, como também nossos sentimentos em relação a ele durante e após a entrevista.
Com a forma de diálogos, as entrevistas adquiriram características próprias da relação estabelecida com cada sujeito. Entretanto, apesar de sua forma e da liberdade do entrevistador para apresentar as questões ou até mesmo omiti-las na medida em que compreendesse que determinado tema já havia sido abordado, houve um minucioso planejamento daquilo que deveria ser investigado.
Para tanto, partimos da discussão anterior acerca do conceito de atitude e propusemos três temas, que consideramos pilares sobre os quais se erigem as atitudes dos sujeitos. Estes três grandes temas visavam garantir nosso foco durante a entrevista. Ao propormos cada um deles, procuramos especificar quais eram os elementos ou questões conceituais que lhes davam sustentação, como se estas fossem um alicerce para tais pilares. Segue-se o modo com o fizemos:
1. Constituição da atitude
1.1. Como o objeto é caracterizado?
1.1.1. Como se dá a caracterização do objeto pelo sujeito? 1.1.2. Como o sujeito categoriza o objeto?
1.1.3. O que do objeto é destacado como figura pelo sujeito para fazer a categorização?
1.1.4. O que mais o sujeito generaliza a partir da mesma categoria? 1.2. O que levou o sujeito a formar esta atitude para com o objeto, quais
interesses estão em jogo?
1.3. Acessibilidade da atitude: Em que medida é consciente para o sujeito sua atitude com relação ao objeto?
2. Estrutura da atitude
2.1. Qual é a estrutura cognitiva da atitude?
2.1.1. Crenças dos sujeitos acerca da adequação a padrões externos 2.1.2. Crenças dos sujeitos acerca das conseqüências de sua
adequação aos padrões determinados pelas empresas
2.1.3. Crenças dos sujeitos acerca dos executivos das multinacionais 2.2. Qual é a estrutura emocional da atitude?
2.2.1. Que emoções constituem determinada atitude, para além do julgamento favorável ou desfavorável para com o objeto em questão?
3. Atitude e Comportamento
3.1. Como a atitude se articula com os comportamentos dos sujeitos? 3.1.1. De que maneira as atitudes dos sujeitos se articulam com seus
comportamentos para com o objeto em questão?
Feito isso, propusemos perguntas que poderiam ser feitas na entrevista e que tinham por finalidade levar o sujeito a orientar o foco de seu depoimento sobre aquilo que temos por objeto de pesquisa. Tais perguntas procuraram dar conta, de maneira abrangente, das questões acima detalhadas e, por isso mesmo, não se referem imediatamente a nenhuma delas. Organizadas segundo os temas elas seriam:
1. Constituição da atitude
a) Como foi a sua opção por tornar-se trainee? Por quais motivos a empresa X?
b) O que a empresa espera de você? c) O que ela “promete” a você?
2. Estrutura da atitude
a) Como é, na sua percepção, a vida dos executivos das empresas multinacionais (diretores e presidentes)?
3. Atitude e Comportamento
a) Quais as exigências feitas pela empresa são mais fortes para você? b) Como você tem reagido a elas?
Além dessas, formulamos também três perguntas projetivas, as quais tinham por objetivo levar os sujeitos a desprenderem-se de respostas pautadas apenas em sua experiência cotidiana e possibilitar um acesso a conteúdos imaginativos e, até mesmo, fantasias. Tais questões se referem apenas ao primeiro e ao segundo tema, uma vez que o terceiro, por sua natureza – trata diretamente da experiência cotidiana do sujeito – não possibilita divagações sobre o futuro. As perguntas projetivas são as seguintes:
1. Constituição da atitude
a) Para atingir meus objetivos eu deveria ser... 2. Estrutura da atitude
a) Vejo as seguintes vantagens em tornar-me executivo: b) Vejo os seguintes problemas tornando-me executivo:
Se a entrevista seguisse um roteiro, ele seria exatamente o seguinte:
1. Como foi a sua opção por tornar-se trainee? Por quais motivos a empresa X?
2. O que a empresa espera de você? 3. O que ela “promete” a você?
4. Para atingir meus objetivos eu deveria ser...
5. Como é, na sua percepção, a vida dos executivos das empresas multinacionais (diretores e presidentes)?
6. Vejo as seguintes vantagens em tornar-me executivo: 7. Vejo os seguintes problemas tornando-me executivo:
8. Quais as exigências feitas pela empresa são mais fortes para você? 9. Como você tem reagido a elas?
Contudo, como dissemos anteriormente, a entrevista se configurou como um diálogo. O planejamento anterior do instrumento serviu, durante a entrevista, como suporte para a manutenção do foco sobre os objetivos da pesquisa. Apenas as perguntas projetivas foram feitas rigorosamente em todas as entrevistas, mas em momentos distintos, segundo o tema que estava sendo tratado. Essa postura nos proporcionou um melhor acolhimento daquilo que o sujeito tem a dizer sobre sua experiência e, consequentemente, da maneira como a tem elaborado.