5.3 Botilbud for barn med funksjonsnedsettelser
5.3.2 Barn med utagerende adferd
ainda a escola da Capella de São José, em Alvinópolis, que foi transferida para a Fábrica de Tecidos do Rio do Peixe, em 1898.
Os relatórios encaminhados à Secretaria do Interior pelos inspetores escolares nos permitem conhecer um pouco sobre o que ocorria além da fachada das escolas primárias que estavam a cargo dos proprietários das fábricas de tecidos mineiras. A inspeção a essas escolas poderia ser justificada pela necessidade de se constatar o cumprimento da obrigatoriedade escolar por parte dos proprietários.
O termo de visita às escolas da Fábrica do Cedro, elaborado pelo inspetor Albino José Alves Filho, em 1900, é um dos poucos documentos localizados no Arquivo e que nos colocaram diante da materialização dessas escolas. Funcionavam nessa fábrica duas
escolas. A escola diurna, regida pela professora normalista D. Maria Emília Martins Pereira, tinha 26 alunos matriculados e funcionava em casa particular, nas seguintes condições:
a sala da escola é sem forro, térrea, com muito pouco espaço e sem luz e ar necessários. A mobília consta de três bancos e uma mesa. A escrituração é feita apenas no livro de ponto diário. [...] Não existem livros didáticos. A escola não é dividida em classes, sendo adotado o método individual. Não existem utensis. Os alunos mais adiantados têm noções de gramatica portuguesa, aritmética e leitura. O programa de ensino não é cumprido nesta escola (ALVES FILHO, 1900)
A escola noturna, regida pelo Dr. Francisco Clorival Gentil Horta, foi assim descrita pelo inspetor:
a sala e mobília são muito ruins. Não existem utensis, exceto uma grande palmatória que vi dependurada na parede. Tem dez alunos matriculados. Não há livros de escrituração. O professor rege a escola há dez meses e, pelo que pude observar, é incompetentíssimo. Por ocasião de minha visita, encontrei oito alunos presentes. Os mais adiantados apenas lêem e escrevem. (Ibidem, 1900)
Por mais que as condições descritas pudessem parecer ruins, o inspetor não parecia impressionado, chegando mesmo a fazer a seguinte observação, ao final do seu relatório:
Visitei e inspecionei grande número de escolas particulares existentes nas diversas comarcas, tendo, sobre cada uma delas apresentado o respectivo relatório. Verifiquei em todas elas os mesmos inconvenientes observados nas do Estado – falta de prédios, de material escolar, completa ausência de métodos de ensino, etc. (Ibidem, 1900).
Em outra visita, o inspetor Albino Alves Filho fiscalizou as duas escolas particulares mantidas pela Companhia de Tecidos Cachoeira, no distrito de Ipiranga, encontrando a seguinte situação:
A escola noturna, mantida pela Companhia, é regida pelo professor Avelino César. Funciona em uma casa que oferece condições de higiene. Mobília: consta de bancos e mesas. Utensis: não existem Escrituração: não existe. É de 45 o número de alunos matriculados, segundo informou o professor. A freqüência é de 20 alunos, mais ou menos. Livros didáticos adotados: os de Abílio. O ordenado do professor é de 1 $ 000 por noite de aula. Informou-me o diretor da Companhia, que esta despende anualmente com a manutenção da escola, de 1:000 $ a 1:200$ (ALVES FILHO, 1901)
Na década seguinte, em 1913, a escola noturna mista da Fábrica do Cedro ainda continuava a funcionar. De acordo com o boletim mensal, elaborado pela professora, Bernardina Alves de Assis, as visitas de inspeção não estavam acontecendo de forma
regular naquela escola e, dando ciência da situação, destacou que havia 115 alunos matriculados, dos quais 46 eram do sexo masculino e 69 do sexo feminino. Quanto à freqüência, era a de 40 e 58, respectivamente (ASSIS, 1914).
A visita do inspetor regional Arthur Queiroga à mesma escola noturna, no ano de 1917, nos permite constatar que ela não era freqüentada somente por crianças, como se pode depreender de suas palavras:
(...) Continua a funcionar na fábrica a escola noturna para operários, regida pela professora D. Bernadina Alves de Assis. Tem esta aula 61 alunos matriculados, estando presentes 55, divididos em classes correspondentes mais ou menos aos dois anos do programa oficial.
Há progresso lento em tal escola, não podendo ser por menos, visto a sua natureza, tratando-se de alunos duros pela passagem da idade escolar e cansados pelo serviço mecânico durante o dia.
Certo é que a professora algo faz, prestando o alto serviço de integrar ao alfabetismo seres já perdidos para ela, mediante a gratificação de 60 mil réis (QUEIROGA, 1917)
Numa situação bastante diferente, em visita à escola rural da cidade de Diamantina, no mesmo ano, o inspetor Juscelino da Fonseca Ribeiro, ao notar a freqüência irregular dos alunos, sugeriu ao Secretário do Interior, a conversão daquela escola em noturna, de forma a atender melhor ao ensino das crianças operárias: “fiscalizei a cadeira rural, mista. [...] Seria de grande conveniência para o ensino a conversão desta escola em noturna, afim de poderem aproveitá-la muitos meninos e meninas pobres que, durante o dia, trabalham na fábrica de tecidos”. (RIBEIRO, 1917).
Qualificando o seu argumento, destacou a boa vontade e o interesse do diretor da Fábrica em contribuir para a melhoria da escola:
Entendi-me com o diretor do estabelecimento fabril, sr. Coronel Theophilo Marques Ferreira, e este, pai de família que é, amante da instrução, tanto assim que, ao meu pedido, há tempos formulado, mandou envidraçar o prédio escolar, achou a idéia muito boa, dizendo-me fazer-lhe pena o número de pessoas analfabetas, que tem empregadas. (RIBEIRO, 1917)
O analfabetismo das crianças era objeto da comiseração do coronel que, “amante da instrução”, ao que tudo indica, não se descurava das orientações que lhe eram dadas pelo inspetor.
Os termos de visitas relativos às escolas noturnas da Fábrica de Cachoeira dos Macacos, em Sete Lagoas, reforçam a suposição da necessidade de fundação de escolas para o atendimento às crianças em idade escolar, como se pode perceber nas palavras do
inspetor Arthur Queiroga: “sede de próspera fábrica de tecidos, e onde existe forte população escolar. As escolas continuam no mesmo edifício próprio, com salões cômodos e agora bem iluminados” (QUEIROGA, 1917). Da avaliação e sugestões que o inspetor encaminhou ao Secretário do Interior, Dr. Américo F. Lopes, podem ser extraídos alguns recortes daquela realidade para a compreensão de uma série de questões ligadas às condições sociais e de trabalho dos operários, à questão do abandono escolar, assim como à relação entre os proprietários das fábricas e o Estado. As visitas foram assim narradas pelo inspetor:
Visitei primeiro a escola do sexo masculino, de que é professora a interina Marcionilia Vidal Leite Ribeiro. A matrícula é de 40 alunos, estando presentes 19, de 1º e de 2º ano. Disse-me a professora que os alunos aprovados no 3º ano retiraram-se da escola. Notei pouco progresso na aula. [...] a quinta parte, mais ou menos, dos meninos matriculados pertence ao número dos noturnos trabalhadores da fábrica e raramente aparecem à escola, preferindo ganhar mais alguns vinténs a se instruir com assentimento reprovável dos gerentes de serviço (QUEIROGA, 1917).
Nessa visita, chama a atenção pelo menos duas situações: a retirada dos alunos após o segundo ano, e o fato de os mesmos trabalharem durante a noite na fábrica e faltar às aulas para fazer outros serviços durante o dia. São duas situações que nos levam a indagar sobre o que os operários buscariam na escola; talvez, um pouco de conhecimento de leitura, que fosse suficiente para a sua participação no mundo do trabalho, não interessando todo o conjunto de matérias do programa de ensino. A segunda, nos leva a pensar no quanto o trabalho teria mais premência na vida dos operários e o tempo da escola poderia se configurar mais como uma imposição do que como um desejo. Entram em cena os conflitos entre os tempos da escola e o do trabalho, evidenciando que para os trabalhadores a garantia da sobrevivência estaria no mundo do trabalho e não na escola, que se configura novamente como uma imposição.
Procurando, então, reverter essa situação, o inspetor fez a seguinte sugestão: “apenas 1/5 das crianças matriculadas nas duas aulas pertencem à fábrica, pelo que julgo de alta conveniência converter-se o serviço em diurno, o que dará em resultado melhor trabalho por parte das professoras e resultados mais seguros, por parte dos alunos” (QUEIROGA, 1917). Para solucionar os problemas enfrentados pelos trabalhadores da fábrica, a sugestão foi a de que os proprietários arcassem com a criação de um curso noturno, considerando os lucros que jornada extensa lhe proporcionava: “a fábrica, essa deve, ao que me consta 600:000$ de dividendos e está bem nas condições de criar um curso
noturno para os pequenos operários, que lhe estão dando de trabalho 15 horas!”
Na visita à escola feminina, também observou-se a ausência de alunas no 3º ano do curso, tal como na anterior, e mais:
Visitei logo após a escola de sexo feminino, de curso noturno desdobrado sob direção da professora normalista D. Alice de Carvalho Pereira. A aula feminina é mais animada, encontrando-se matriculadas 64 alunas, pertencentes aos 4 anos do curso. Não achei presentes alunas do 3º ano. Argüi a alunas dos diversos anos, achando tal e qual adiantamento. A disciplina é boa. Com esta aula dá-se o fato de algumas meninas virem da fábrica, fazerem uma lição e voltarem ao trabalho, irregularidade que ordenei à professora não tolerar (QUEIROGA, 1917).
Novamente conflitam os tempos do trabalho e escolar, mas, na intercalação entre tempos e identidades - de operárias e de alunas - as alunas encontravam uma forma de conciliá-los lançando mão da estratégia possível, tendo em vista a proximidade do local de trabalho e de estudo. Contudo, o que não parecia inconveniente para a professora, mas, sim uma grande sensibilidade, era considerado uma irregularidade, uma transgressão ao regulamento, conforme observação feita pelo inspetor.
Pode-se entender que a preocupação com a instrução primária dos operários fabris, desde o final do século XIX, encontrava-se estritamente ligada a pelo menos duas outras situações inter-relacionadas, além daquelas apontadas por Giroletti (1987) e citadas anteriormente. Uma delas seria a grande quantidade de crianças empregadas nas fábricas de tecidos e, em decorrência, teríamos a outra situação, que seria a questão da obrigatoriedade escolar. Nesse sentido, pode-se entender a escolarização dos operários fabris, principalmente, dos “menores operários”, que se realizava por meio da escola noturna ou diurna, como uma imposição de natureza jurídico-normativa e, numa perspectiva de “natureza ideológica”, como observou Giroletti (1987, 1988), como um meio de se concretizar um processo de formação de um código de condutas específico e de construção de valores indispensáveis ao trabalho industrial moderno.