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5.1 Botilbud for eldre

5.1.1 Personer med demens

A ênfase de uma formação voltada exclusivamente para a agricultura encontrava justificativa no fato de que para incrementar e fomentar as atividades de diversificação da lavoura seria preciso “substituir a luta direta do homem, pelo machado, pela foice, pela enxada, corpo a corpo com a terra, pelo trabalho da máquina e do animal que conduz e move a máquina” (SILVA, 1906, p. 250).

Nessa direção, ao apostar num projeto articulado aos interesses do Estado, João Pinheiro colocou a educação, particularmente o ensino técnico como elemento crucial para o seu desenvolvimento. Essa opção, na opinião de Dulci (1999, p. 50) representaria “certo pressuposto iluminista, de superar o atraso pelo saber”, por meio de uma política de adestramento da força de trabalho que concentraria os principais esforços no ensino elementar. Ao privilegiar a formação elementar essa política estaria ratificando o pensamento já bastante difundido na sociedade mineira de que era muito mais oportuno e produtivo instruir e educar as crianças no e para o trabalho, desde cedo, como meio de

Pinheiro para a formação do trabalhador cidadão, destacando a intenção dessa política de formação do cidadão útil à sociedade.

fazer “delas homens honestos”, como dito anteriormente. Esse pensamento provavelmente decorreria da crença, amplamente difundida pelas teorias educacionais iluministas e pelas políticas de escolarização em massa, da importância e potencial da educação e da socialização da criança como forma de se alcançar a civilização e o progresso social.

As palavras seguintes, constantes do discurso de João Pinheiro, expressam bem esse pensamento: “o menino da roça, ao mesmo tempo que aprende a ler, a escrever e a contar, aprende praticamente todas as coisas que se fazem mister para que ele seja amanhã um inteligente operário rural” (SILVA, 1906, p. 208). Reafirmada em vários momentos, como no Congresso de Municipalidades, em 1907, ao falar do modelo proposto: “primeiro, ensinar os meninos; segundo, reorganizar o trabalho, cuja falha faz a miséria da era presente” (SILVA, 1907, p. 249).

A preocupação com a educação profissional do adulto trabalhador não contou com o mesmo prestígio no projeto e, posteriormente, na política educacional de João Pinheiro, provavelmente, por não considerá-los riscos para a ordem social. O tipo de educação que lhe era proposto não exigiria alfabetizá-lo, e ainda que fosse também considerada “como necessidade também urgente”; deveria ser ampliado “após a do ensino das crianças”, a do ensino primário da agricultura aos adultos, habituando-os ao manejo simples das aperfeiçoadas máquinas agrícolas. Nesse caso, o adulto mineiro compartilharia dos atributos essenciais da tão oportuna mineiridade, resgatada como discurso ideológico pela elite como forma de subordinar os demais setores: “a índole pacífica, o respeito natural e tradicional do mineiro, à ordem e às autoridades constituídas, são os principais elementos desse bem-estar de que se goza no Estado” (SILVA, 1907, p. 385).

Ao se pronunciar no Congresso das Municipalidades do Sul, explicou aos presentes que o trabalho agrícola primário “poderia ser ensinado aos próprios trabalhadores atuais, mesmo analfabetos”. Provavelmente indagado pelos fazendeiros, argumentou, com base no trabalhado dos imigrantes que, como se sabe, eram considerados os melhores civilizadores estrangeiros:

o homem, hoje, para produzir no trabalho agrícola primário, não precisa nem de livros, nem de altas doutrinas; os imigrantes que fazem a fortuna dos EUA e da Argentina são, na sua maioria, dos mesmos que vêm para o Brasil, e

entre eles também vem analfabetos. [...] Qualquer trabalhador comum, dos atuais, é capaz de fazer o trabalho mecânico com máquinas aperfeiçoadas. Não se entenda, porém, que se quer suprimir o livro e a alta indagação científica; isto se enquadra ao ensino secundário e superior agrícola (SILVA, 1907, p. 259).

Em linhas gerais, a política de formação profissional elaborada a partir do Congresso de 1903, coadunou-se com a prioridade de se investir na principal fonte de receita do Estado, isto é a agricultura. Esse seria o consenso construído por João Pinheiro a partir da conciliação dos interesses das elites mineiras, resumido nas seguintes palavras: “pela perfeita conciliação da “Ordem e Progresso”. Abrir escolas que iluminem a inteligência das crianças; ensinar o trabalho aos adultos... tornar a paz garantida” (SILVA, 1907, p. 259).

Embora Minas Gerais se caracterizasse como um Estado constituído pelas mais variadas formas de diversidade, quando o assunto era a educação do trabalhador, nos anos iniciais do regime republicano, havia um consenso quanto ao tipo de educação e à maneira como essa deveria ser desenvolvida: por meio do ensino profissional agrícola. Consenso que também se produziu em torno do sujeito que deveria receber essa educação: a criança, o operário de amanhã. Se essa era a opção do Poder Público, alicerçada num projeto construído a partir da conciliação de interesses, ela poderia ser considerada hegemônica? Se o sujeito privilegiado nessa política era o trabalhador rural, que sequer precisava ser alfabetizado para ser educado nas lidas do campo, como ficaria a situação dos demais trabalhadores mineiros? Aqueles que viviam nas áreas urbanas ou aqueles que trabalhavam no comércio, fazendo pequenos serviços, nas indústrias, inclusive as têxteis? Quem se preocupava e como se organizava a instrução primária dos operários preteridos pelo projeto de regeneração da economia mineira, logo no início da República? Como o ensino primário noturno, criado desde os anos finais do Império para acolher aos adultos teria se incorporado ao projeto do governo republicano mineiro?

Essas são algumas das questões que também orientam o estudo da política para a educação do trabalhador mineiro, especificamente, a instrução primária ministrada nas escolas noturnas. Como se pode ver, para o desenvolvimento da política educacional, o Estado Mineiro contou com a participação de diferentes atores sociais, dentre os quais, os empresários do setor têxtil e, como veremos ao longo deste trabalho, as municipalidades, os professores particulares, e também os próprios operários,

organizados em associações e ligas operárias, formando uma grande rede de instituições articuladas em prol do atendimento educacional aos trabalhadores mineiros.

Feitas essas considerações buscaremos conhecer de que forma as elites políticas e intelectuais mineiras pensaram e configuraram a política educacional de instrução primária destinada aos trabalhadores nas três primeiras décadas da República, tomando com uma das principais referências os debates promovidos e realizados no âmbito do legislativo e do executivo mineiros.

CAPÍTULO II

AS REFORMAS DO ENSINO PÚBLICO