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Selvrealiseringens negative sider

5. Selvrealisering og autentisitet

5.2 Selvrealiseringens negative sider

“Reparo” é um termo genérico que engloba vários fenómenos, desde a resolução de problemas na organização do sistema de alternância de vez, tais como os que podem estar implícitos na ocorrência de sobreposições, até às formas do que designamos comummente por correcção, utilizadas para colmatar erros relativamente ao conteúdo de enunciados (Hutchby & Wooffitt, 2003: 57). O tipo de reparos a seguir descritos abrange os mecanismos utilizados para resolver problemas relacionados com os aspectos sequenciais de uma interacção conversacional, sendo por isso designados por reparos conversacionais. Sacks, Schegloff e Jefferson (1974: 220) incluem neste tipo de reparos, por exemplo, o repetir ou parafrasear partes de uma sequência de fala que tenha sido sobreposta por outra, o parar de falar antes de terminar uma sequência quando há ocorrência de sobreposições ou o utilizar determinadas expressões para interromper, entre outros.

Segundo os autores, alguns destes mecanismos são intrínsecos ao próprio sistema de alternância de vez, cujos problemas reparam. Por exemplo, geralmente as ocorrências de sobreposição de sequências de fala implicam uma violação do princípio “deve falar apenas um participante de cada vez” na interacção conversacional. Todavia, este problema é reparado através da aplicação daquilo que é em si mesmo uma transformação de uma característica central do sistema de alternância de vez, nomeadamente o facto de um falante tender a parar de falar antes de completar a construção de uma primeira unidade de fala. Sacks et al. destacam ainda o facto de, na gestão destes problemas, os participantes evidenciarem a sua orientação contínua para o cumprimento das regras do sistema de alternância de vez (1974: 220-21).

Hutchby e Wooffitt (2003: 61) identificam quatro tipos de reparos

conversacionais:11

I – ANÁLISE CONVERSACIONAL

1) “Auto-reparo iniciado pelo próprio” (Self-initiated self-repair) – o reparo é iniciado e efectuado pelo falante em função que originou o problema;

2) “Auto-reparo iniciado pelo outro” (Other-initiated self-repair) – o reparo é efectuado pelo falante em função que originou o problema, mas iniciado pelo outro falante, isto é, o falante seguinte;

3) “Reparo iniciado pelo próprio, mas efectuado pelo outro” (Self-initiated other

repair) – o falante em função que originou o problema pode tentar ou conseguir que o

outro falante efectue o reparo;

4) “Reparo iniciado e efectuado pelo outro” (Other-initiated other-repair) – o falante seguinte inicia e repara o problema do falante em função. Este tipo de reparo conversacional é o mais semelhante ao que é convencionalmente designado por “correcção”.

Quanto à localização dos reparos numa sequência de fala, Hutchby e Wooffitt (2003: 64-65) identificam três posições em que estes podem ocorrer. Um reparo pode acontecer dentro da unidade de fala que contém a origem do problema, sendo assim designado por reparo de primeira posição. A segunda posição na qual o reparo pode ocorrer é no ponto relevante de transição seguinte da sequência de fala, depois da origem do problema, sendo assim efectuado pelo falante em função. Outra alternativa é o reparo ser efectuado na sequência de fala do falante seguinte. Um reparo pode também ocorrer

1) A: er heathrow or gatwi:[ck

→ C: [oh sorry er: from gat(t) – er heathrow

Este exemplo de um auto-reparo iniciado pelo próprio está relacionado com a selecção incorrecta de uma palavra. 2) Ken: Is Al here today?

Dan: Yeah. (2.0)

→ Roger: he is? hh eh heh Dan: Well he was

O reparo iniciado por Roger é um exemplo do que os autores designam por next-turn repair initiator (NTRI), que incluem expressões como “O quê?”, “huh?”. Este tipo de mecanismo de reparo abrange as repetições parciais de uma sequência de fala precedente, tal como o excerto seguinte exemplifica:

A: Hey (.) the first ti:me they stopped me from selling cigarettes was this morning. (1.0)

→ B: From selling cigarettes? A: Or buying cigarettes.

3) B: He had dis uh Mistuh W-m whatever k- I can‟t think of his first name, Watts on, the one that wrote [that piece A: [Dan Watts.

O problema do primeiro falante relativo ao facto de não se lembrar de um nome é resolvido pelo segundo falante. 4) Milly: and then they said something about Kruschev has leukemia so I thought oh it‟s all a big put on. → Jean: Breshnev.

Milly: Breshnev has leukemia. So I don‟t know what to think.

I – ANÁLISE CONVERSACIONAL

numa terceira posição, ou seja, numa terceira sequência de fala, depois da sequência que

contém o problema e da sequência de resposta do falante seguinte.12

É de notar que, em todas as posições, o reparo tende a ocorrer próximo da origem do problema, o que está relacionado com a própria organização estrutural do sistema de alternância de vez, pois a ocorrência de mecanismos de reparo, após várias sequências de fala depois da origem do problema, pode originar problemas organizacionais complexos de difícil resolução (idem: 66).

Hutchby e Wooffitt salientam ainda que o sistema de gestão dos mecanismos de

reparo demonstra uma preferência13 pelo auto-reparo em detrimento do reparo efectuado

pelo outro falante e que este facto é evidente em dois aspectos. O primeiro diz respeito às características estruturais do sistema de mecanismos de reparo que favorecem o auto- reparo, ou seja, se se considerar as quatro posições estruturais em que os reparos ocorrem, conclui-se que três dessas posições se localizam nas sequências de fala do falante que origina o problema. O segundo aspecto é que, de acordo com estudos realizados sobre as sequências da interacção em que sucedem os reparos, verifica-se que há diversas formas de produzir sequências de fala que facilitem o auto-reparo ou que mostrem que o auto-reparo é mais apropriado do que o reparo efectuado pelo outro falante (idem: 67). Igualmente, o reparo efectuado pelo outro falante pode ser, por vezes, problemático no que diz respeito à coordenação das relações interpessoais entre os participantes. Se for interpretado como

12 Exemplos de reparos conversacionais (Hutchby & Wooffitt, 2003: 64-65:

1) Reparo de primeira posição:

A: .h >Well< >yu‟ve< actually wro(t)- rung the wrong number

Neste excerto o problema é a utilização de uma palavra incorrecta que é interrompida a meio da sua produção e substituída pela correcta (“wron” por “rung”).

2) Reparos de segunda posição:

E: = Uh::mm (.) in fact he now has his clinic at another address. = Another, another telephone number I‟m sorry:

Neste caso, o problema é a utilização de “another address” que é reparado com a utilização “another telephone number” imediatamente após o ponto relevante de transição seguinte.

S: Mister Samson‟s house [c‟n I help you?]

I: [H e l l o : ] Mister Samson? → S: It‟s not M‟st Samson it‟s his assist‟n can I help you.

Nesta breve interacção ao telefone, o problema é resolvido na sequência de fala do falante seguinte, ou seja, o participante (I) pensa que está a falar com Mister Samson e o participante (S) explica que não é o Mister Samson que está a falar, mas o seu assistente.

3) Reparo de terceira posição:

I: n: No. She wouldn‟go: the fu:ll ti:me with one: puppy would she (1.2)

S: Wh‟tchu me:an by tha:t → I: Well you see she‟s a week earl[y: S: [Oh I see

Neste exemplo, o problema é resolvido apenas na terceira sequência de fala pelo falante que originou o problema na primeira sequência.

13

O conceito de “preferência” não deve ser associado à noção psicológica do mesmo, uma vez que não se refere às preferências pessoais dos participantes na interacção conversacional. Pelo contrário, trata-se de uma noção estrutural que será explicada mais detalhadamente na secção 1.2 5.

I – ANÁLISE CONVERSACIONAL

uma forma de pôr em causa o desempenho linguístico e conversacional do falante que originou o problema, quebrará a harmonia interpessoal entre os participantes, o que terá necessariamente implicações na organização estrutural da interacção conversacional (idem: 68).