1. Innledning
1.3 Hva er en selfie?
1.3.6 Selfiens opprinnelse og utvikling
O movimento de pessoas, em torno da vivência da religiosidade nos Sertões, não se dava e não se dá apenas por parte dos clérigos itinerantes, os missionários. Outro aspecto que se destaque nesta experiência religiosa, que, como demonstramos acima, era vivida em parte em movimento, através da ação dos missionários, é o do deslocamento dos fiéis, indo ao encontro dos locais reconhecidamente santificados pelos mesmos. Idas e vindas constituem um movimento de pessoas, o qual, que em determinados casos e momentos, pode ser bastante intenso. Pessoas que, em alguns casos, se fixam nesses locais santificados e passam a constituir aí uma população permanente.
Quanto a esta santificação, ela pode ser oficialmente reconhecida, ou não, mas para a população o que importa mesmo é que os fiéis, os devotos, vejam-na como legítima.
... Esses santuários sertanejos atravessam o interior, desde São Francisco das Chagas do Canindé, zona fronteiriça do regime litorâneo para o regime do sertão no norte do Ceará99, passando pelo Juazeiro do Pe. Cícero e chegando ao Bom Jesus
da Lapa no rio São Francisco, ao Sul da Bahia (BEOZZO, 1983, p. 112).
O início da migração de fiéis para locais que passam a ser considerados santificados, milagrosos, não é um acontecimento de fácil datação, localizado em um momento histórico
99 O autor, ao realizar esta classificação de zona geográfica, não informa qual a tipologia que está sendo
usada, apenas apresenta a definição transcrita. Dessa forma, ela pode estar em discordância com outras mais usuais. Do ponto de vista da pesquisa aqui realizada, a tipologia empregada não compromete a funcionalidade da afirmativa, que foi resgatada com a intenção de demonstrar a amplitude espacial através da qual a experiência dos fiéis católicos de santificar locais de culto deu-se e dá-se.
exato. É na verdade uma experiência que vai sendo construída, ao longo dos anos, e diversos fatores que podem ser aleatórios ou não, que vão se apresentando, a partir do princípio da devoção e vão alicerçando e consolidado. Vejamos, como exemplo inicial, a interessante história que se dá na origem da devoção ao Bom Jesus da Lapa, localizada próximo ao Rio São Francisco, no Sul da Bahia100.
A gruta, onde está localizado o Santuário de Bom Jesus da Lapa, foi descoberta, por acaso, por Francisco de Mendonça Mar. Este era português, filho de ourives, nascido no ano 1657 e chegado a Salvador, Bahia, no ano 1679. Havia ele se estabelecido com uma pequena oficina, que já contava com alguns serventes, seus escravos. No ano 1688, Francisco vai ser contratado pelo Governador Geral da Bahia e, após realizar o trabalho, é vítima da truculência. É preso com dois de seus escravos e submetido à tortura. Tradição antiga esta de usar a violência física contra os presos, não só escravos, quanto também trabalhador.
Nesse caso, o exercício da profissão de ourives foi possível, já que o sistema de aprendizagem é aquele que se dá na prática, na oficina do próprio pai. Quanto à escolarização de Francisco, esta não é citada no texto, mas se pode deduzir também que a tenha em um nível rudimentar, ou básico, já que, quando convidado posteriormente pelo Arcebispo da Bahia, para se ordenar padre, o faz em menos de três anos. E por mais que o processo de ordenação seja simplificado, para que o processo se dê de forma mais tranquila, pressupõe algum nível de escolaridade anterior.
Muito provavelmente Francisco resolveu migrar para o Brasil, por esperar um melhor mercado para os seus serviços. Apesar de que a fonte consultada não forneça indicadores sobre a vida profissional, além destas aqui apresentadas, podemos deduzir que ele migrou de posse de algum capital, já que, no momento do evento da prisão arbitrária, de que foi vítima, possuía escravos, que poderiam ter sido trazidos por ele de Portugal, mas provavelmente os teria adquirido, já na Bahia, em Salvador, o que vai indicar, de forma mais ampla, a utilização de cativos como mão-de-obra urbana, no artesanato.
Após deixar a prisão, e em função provavelmente de alguma reflexão feita, durante a sua estada na cadeia, desfaz-se de seus bens e adota a vida de peregrino. Caminha pelos sertões da Bahia, fazendo-se acompanhar de uma imagem do Bom Jesus crucificado. Após meses de caminhada, assim reza a tradição, teria avistado um morro e resolvido subir nele, e lá no alto deste encontra uma gruta, onde decide instalar a imagem que trazia consigo.
100 Este exemplo, apesar de aparentemente distante espacial e geograficamente do Cariri Cearense que
estudamos, foi resgatado por comprovar a ideia de que a santificação de locais e o surgimento de devoções é um processo que envolve fatores intencionais e não intencionais, muitas vezes, difíceis de datar. As informações apresentadas foram, por outro lado, obtidas no site http://bomjesusdalapa.org.br/ , com acesso no dia 10.08.2008.
Assim inicia-se a devoção ao Bom Jesus da Lapa. Ao Bom Jesus, já que esta era a imagem conduzida por Francisco, e da Lapa, em alusão à gruta descoberta por ele, onde foi instalado o santuário. Às margens do Rio São Francisco, começa a sua vida de eremita, venerando o Bom Jesus e louvando a sua mãe, a Virgem da Soledade. Era o ano 1691, por isso se considera que a devoção ao Bom Jesus da Lapa já tem mais de 300 anos.
Aos poucos, Francisco vai passar a trabalhar em favor dos pobres e necessitados, encontrados na Região, ou que chegam a esta, atraídos por notícias divulgadas por viajantes, já que esta localidade vai se tornando ponto de passagem entre Salvador e as Minas Gerais. Dá assistência não só a doentes quanto a inválidos. Aos doentes, quando curados por causa de seu amparo, mostrava a imagem do Bom Jesus e atribuía a esta aquela cura alcançada. Diversas categorias de pessoas que começaram a fazer pouso na região, no seu caminho para Minas, passam também a rezar ao Bom Jesus, agradecendo ou pedindo graças.
Ao mesmo tempo, e com a circulação das notícias sobre o “monge” e a Lapa, onde estavam a imagem do Bom Jesus e a de Nossa Senhora da Soledade, toma conhecimento também deste anacoreta101 o Arcebispo Dom Sebastião Monteiro de Vide, na cidade de Salvador. Este sistema de informação, apesar de não sistemático, era capaz tanto de levar notícia, no sentido litoral/sertão, quanto também no sentido sertão/litoral. Pode se dar este fluxo de informação, apenas através de relatos orais, feitos por pessoas que vivem, ou trabalham em movimento, ou de escritos enviados, através de viajantes, já que não existe um serviço postal estruturado.
Entre estes viajantes, alguns padres inclusive que faziam parte desse fluxo de viajantes, quando passavam pelo santuário, rezavam missa nele, contribuindo assim ainda mais para a legitimação do local, como ponto de devoção. Dom Sebastião, tomando conhecimento destes fatos, envia um Visitador Geral ao encontro de Francisco, com uma clara intenção de controlar a devoção, observar as práticas desenvolvidas, ou até mesmo reprimi-las se fosse o caso. O visitador, impressionado com o “monge” leigo e suas atividades, deu boas informações ao Arcebispo. O “monge” é convocado a Salvador e, após uma pequena preparação, é ordenado Padre. Era o ano 1706.
Como a gruta já havia sido reconhecida pelo Visitador como Capela, ao ser ordenado padre, Francisco da Soledade torna-se capelão dela. As romarias vão se intensificando aos poucos, e as maiores vão ficar sendo as dos dias 06 de agosto e 15 de setembro. É quase certo que o Padre Francisco tenha morrido na Lapa, depois do ano 1722, com
101 Segundo o Dicionário Aurélio, Século XXI, temos os seguintes significados para este termo: religioso
ou penitente que vive na solidão, em vida contemplativa: & pessoa que vive afastada do convívio social; monge.
aproximadamente 65 anos de idade, e aí mesmo tendo sido sepultado. Atualmente, a responsabilidade da administração da devoção ao Bom Jesus da Lapa está nas mãos dos missionários redentoristas poloneses, que se encontram aí, desde o ano 1972.
O que diferenciaria Francisco, antes de se ordenar, de um beato? No site organizado pelos redentoristas, ele é tratado como “monge”, entre aspas. As aspas muito provavelmente destacam a especificidade de um monge leigo, já que este não pertencia a uma ordem monástica. A própria inserção de Francisco nos quadros da Igreja mostra uma determinada relação entre a hierarquia e os leigos que, após provarem na prática as suas qualidades morais, podem ser incluídos nos quadros da Igreja Católica, que ainda não colocava em prática, pelo menos na colônia brasileira, todas as exigências de formação para a inserção nos quadros da Igreja Católica, estipuladas pelos dogmas tridentinos. Nesse tempo, também, ainda não tinha se iniciado o processo de romanização no Brasil, que só é da segunda metade do século dezenove e, portanto, a relação entre as diversas formas de se viver o catolicismo na colônia portuguesa, era bastante diferenciada. Estes, o catolicismo oficial e o popular, ainda se faziam parceiros, na maior parte do tempo. O próprio Padre Mestre Ibiapina102, já na segunda metade do século XIX, apesar de ter curso de nível superior, conseguiu se ordenar padre sem ter cursado uma formação em seminário; a sua formação de nível superior era na área do Direito.
Muito menos inusitado, porém, foi o início da devoção a São Francisco das Chagas de Canindé – Ceará. Esteve esta mais ligada, no início, a uma iniciativa dos próprios habitantes de Canindé que, no ano 1796, tinham conseguido terminar a construção do Santuário de São Francisco, em seus traços gerais. Estes, alegando a descontinuidade da assistência que recebiam dos missionários franciscanos de Recife, pediram a construção de um convento de franciscanos, na própria cidade103. Nesse momento, esta reivindicação não
foi atendida.
Diante das dificuldades que iam se antepondo à consecução de seus objetivos, no início do século XIX, os moradores (fazendeiros e principais) encaminharam uma súplica,
102 Vale aqui lembrar que existe a suposição de que o Padre Ibiapina foi o incentivador da criação do
grupo de penitentes de Barbalha. Também encontramos, ao longo da pesquisa, a participação de pessoas de outros grupos sociais, que não os trabalhadores rurais, durante o século XIX, o que demonstra que estas práticas, as quais foram preservadas por um grupo de trabalhadores agrícolas, já fizeram parte das práticas de ascetismo adotadas por membros de outras camadas.
103
As informações abaixo apresentadas foram pesquisadas em
http://www.paroquiadecaninde.com.br/,pesquisa realizada em 10.08.2008, às 15:35. O site apresenta como fontes para as suas informações os seguintes trabalhos: WILLEKE, Frei Venâncio, OFM. São Francisco das Chagas de Canindé, Salvador-BA: Mensageiro da Fé, 1962. NEMBRO, Frei Metódio, OFMCap.. Frei João Pedro – Missionário Capuchinho Superior e Fundador, Tradução de Antônio Angonese – Petrópolis: Editora Vozes, s.d.
em que lamentavam a pouca assistência religiosa recebida e reiteraram o pedido de uma melhor assistência e da criação da Paróquia de São Francisco. O Padre Francisco de Paula Barros contou com o apoio dos moradores e até do governo do Ceará, para conseguir a criação da paróquia independente de Canindé. O Padre Paula Barros partiu para Olinda e posteriormente para o Rio de Janeiro, onde encaminhou processo de fundação da Freguesia de São Francisco e, ao mesmo tempo, prestou concurso para sua colação como Vigário.
Em 30 de outubro de 1817, foi confirmado por Dom João VI o desmembramento da Matriz de São Francisco das Chagas da Freguesia de São José do Ribamar, à qual até então estava ligado o Santuário. O Padre Francisco de Paula Barros tornou-se o primeiro pároco da nova Paroquia. Este ficou à frente dela até o ano 1834, quando foi eleito Deputado Geral. Entre a sua saída e o ano 1898, a Paróquia ficou sob a supervisão de sucessivos padres diocesanos que também eram encarregados da Inspetoria do Ensino Primário, um exemplo possível de sobreposição de funções , a partir de uma formação escolar, vivenciada pelos padres, em seminários.
Em 23 de setembro de 1898, Dom Joaquim José Vieira, segundo bispo do Ceará, entregou a paróquia aos Frades Missionários Capuchinhos da Província Lombarda de Milão/Itália. Estes permaneceram aí até 1923. Por convite de Dom Manoel da Silva Gomes, terceiro Bispo do Ceará, a Paróquia de Canindé foi entregue aos Frades Menores Franciscanos da Província de Santo Antônio do Brasil, que aí permanecem até os dias de hoje. Observar que, nesse momento, pela separação da Igreja Católica do Estado, depois do advento da República, as decisões são tomadas pela hierarquia eclesiástica. Não existe mais a participação institucional do chefe do Estado, o que se dava sobre o regime do padroado, vigente no período colonial e imperial.
Analisando as duas devoções acima citadas, podemos ver várias questões interessantes. A primeira é uma disseminação do catolicismo entre a população, tanto a migrante portuguesa quanto a que já surge dentro da Colônia ou do Império. Tanto membros das classes mais altas quanto dos trabalhadores mais humildes aparentemente congregam na mesma devoção. Isto não é novidade. Outra questão é a diferença no processo que se dá entre as legalizações da devoção ao Bom Jesus da Lapa e a São Francisco de Canindé.
Talvez o primeiro fator desta diferenciação possa se dar por uma questão temporal, uma devoção sendo representativa de um período entre o final do século XVII e início do século XVIII, e a outra do final do século XVIII e início do XIX. Ou seja, um século separa a organização do início das duas devoções. Só que não é apenas uma questão de cronologia,
mas de mudanças em vários níveis, mas principalmente entre as relações do Estado e da Igreja, e dos dois com a população.
Parece mais fácil, no caso de Francisco este se tornar padre e conseguir uma institucionalização, talvez do ponto de vista de controle da devoção, até mais vantajosa para o próprio Arcebispado da Bahia, do que para o ex-monge leigo. No segundo caso, a população de Canindé é que parte na liderança do empreendimento. Este se dá em um período, quando a relação entre a Igreja e o Estado português já se torna mais complexa, primeiramente com restrições à expansão de Ordens dentro da Colônia, e posteriormente do controle mais direto da instituição eclesiástica pelo poder temporal do Estado. Estas mudanças criam dificuldade para a transformação do Santuário de São Francisco em Paróquia independente, apesar de que este empreendimento seja apoiado pelos “maiorais” de Canindé.
Mais interessante ainda é que, apesar das diferenças na gestação das duas devoções, ao longo dos séculos, elas vão sendo incorporadas ao imaginário católico da devoção popular. Este, que é capaz de uma grande abrangência, incorpora devoções a santos e a locais santificados, os mais variados possíveis. Por outro lado, com a República, no final do século XIX, e a separação do poder do Estado da Igreja, as devoções passam, em alguns casos, ao controle de ordens eclesiasticamente reconhecidas.
Em relação à definição dos locais santificados, e para os quais se fazem as romarias, não podemos entender este processo como isento de conflitos. Caso paradigmático deste aspecto da questão pode ser visto em relação a Juazeiro do Norte, Ceará. Dentro de uma série de ordens emitidas por Dom Joaquim José Vieira, no início das romarias e da devoção a Nossa Senhora das Dores, a Padre Cícero e a supostos milagres, estão algumas que visam a impedir o desenvolvimento devocional. Determinações no sentido de que o Padre Cícero saia do povoado de Juazeiro, que não receba visitas, que não receba esmolas são algumas delas. Mas, como deixa registrado Floro Bartolomeu da Costa, em sua defesa no Congresso Nacional, no ano 1923, Padre Cícero e o movimento resistem.
O Padre Cícero, por sua vez, certo de lhe não caber nenhuma responsabilidade pelas mesmas romarias e saber, como sacerdote catholico illustrado, que a ninguém assiste o direito de impedir que os fiéis cumpram os seus votos nos pontos por elles escolhidos, os obrigando a cumpril-os em pontos diferentes, recusou-se a attender a ordem. (COSTA, 1923, p. 53)
Nesta colocação de Floro (1923), transparece um dos aspectos do conflito que se dá no Ceará entre a hierarquia católica e o movimento sócio-religioso de Juazeiro104. A quem
cabe o direito de determinar o local santificado, à hierarquia ou aos devotos? Do ponto de vista do Direito Canônico, à própria Igreja Católica é que cabe este direito, e esta cria toda uma série de instituições e dispositivos para reconhecer e controlar as devoções. Por outro lado, do ponto de vista da parte dos fiéis católicos, as devoções emanam da expressão espontânea de sua fé e podem ser legítimas, mesmo que não reconhecidas pela hierarquia e suas instâncias oficiais, apesar de que algumas, que assim são no começo apenas legitimadas pela população, depois venham a ser institucionalmente reconhecidas.
Floro Bartolomeu (1923), diferentemente do que é divulgado, por outras pessoas, justifica o movimento de romarias como uma devoção a Nossa Senhora das Dores, e não ao Padre Cícero. Este também é o discurso emitido pelo próprio Padre Cícero. São promessas feitas a Nossa Senhora das Dores que levam as pessoas a se dirigirem à Cidade de Juazeiro. O prestígio do Padre Cícero “... não tinha como causa as referidas manifestações miraculosas...” (COSTA, 1923, p. 53). Durante o seu discurso no Congresso Nacional, Floro tentou demonstrar o seu ponto de vista, em relação à origem do prestígio do Padre Cícero. E o fato de o Padre Cícero permanecer em Juazeiro não era fator para o fanatismo da população; este sim teria se expressado, se o Padre tivesse seguido as determinações hierárquicas e daí tivesse se retirado, já que a população não consentiria na sua saída, haveria de rebelar-se “... e então, viria a alegação: ‘É o banditismo!’. Iriam as forças e acabava-se com a população. Sabemos o que foi Canudos, o que foi Contestado, tudo isso...” (COSTA, 1923, p. 54).
Também em Lourenço Filho (1926), encontramos uma referência a estas migrações devocionais,105 especificamente no caso a de São Francisco das Chagas de Canindé. A partir
da descrição feita pelo Frei Pedro Sinzig O.F.M. 106, em um artigo publicado no jornal O Nordeste (Fortaleza/1923), este tenta demonstrar que o santo cearense é São Francisco de Canindé. Lourenço Filho usa como estratégia textual reproduzir partes deste artigo, em que encontramos descrição dos sacrifícios feitos pelos fiéis, para pagarem suas promessas em agradecimento por graças alcançadas.
104 Ver nota 52.
105 Todas as citações abaixo encontradas da obra em questão foram retiradas de um trecho do texto que se
encontra em: LOURENÇO FILHO, Manoel Bergstrom. Joaseiro do Padre Cícero: scenas e quadros do fanatismo no Nordeste, São Paulo: Edições Melhoramentos, 1926, p. 28-29. Para não tornar repetitiva a referência, como intercalamos partes da citação com comentários, deixamos claro, desde já, o recurso empregado.
Muitas passagens são interessantes, mas gostaríamos de destacar algumas que fornecem indicadores, tanto da diversidade das práticas de devoção quanto da estratificação social entre os fiéis. A introdução da referência a esta devoção no texto é feita por Lourenço Filho (1926), pois legitimando São Francisco de Canindé, como o santo cearense, desqualifica, no seu ponto de vista, o movimento sócio-religioso em torno do Padre Cícero, propósito principal da sua obra.
Primeiro, ele reproduz o caminho e as dificuldades para realizar o percurso: “Quem, da capital, Fortaleza, pelo caminho mais commodo, quer visitar Canindé, hoje poderá seguir em automóvel, ou segue a estrada de ferro até Itaúna (6hs de trem), donde poderá viajar, em automóvel (3 ½ horas) até Canindé” (LOURENÇO FILHO, 1926, p. 28). Entre as diversas dificuldades que o crente, em sua peregrinação, tem que enfrentar está o acesso à “água corrente, de riacho ou poço, não encontrará nem em Fortaleza nem na viagem. Tem que se contentar com água de cisternas (cacimbas)” (LOURENÇO FILHO, 1926, p. 28). Em relação ao abastecimento de água em geral, é citada ainda a não-perenidade dos rios, característica hidrográfica da região. “Terá que atravessar rios secos, isto é leitos de rios que cheios de pesadas massas de areia não contém mais uma só gota que seja enchendo-se tão somente no inverno...” (LOURENÇO FILHO, 1926, p. 28). A natureza é inóspita e, de acordo com concepção da época, da relação determinista entre o meio e o homem, deve ser descrita para que se entenda a própria experiência social e cultural que advém da adversidade