2. Tidligere forskning på området
2.2 Forskning på global kommunikasjon
Ao recompor as práticas dos devotos, não se pode deixar de perceber que estes seguem seus líderes que, por diversos fatores, escolhem reconhecer como tais. Nesta pesquisa, um se destacou em diversos momentos, o Padre Cícero. Outros podem ser referidos, porém para se entender a dinâmica que se deu, dos finais do século XIX ao início do século XX, entre os líderes religiosos, seus seguidores, e outros setores da sociedade.
Para aprofundar melhor o entendimento do papel social e político que puderam desempenhar alguns beatos, pode-se ver, apesar de não ser um evento localizado na Região do Cariri, o que aconteceu com Antônio Conselheiro, cearense de Quixeramobim, eternizado
na obra de Euclides da Cunha, “Os Sertões”129. Segundo Moniz (1988), uma das questões principais, ao se tratar de Antônio Conselheiro e do movimento social de Canudos, é o problema da crítica das fontes, já que a maioria traz em si mistificações e falsificações, o que se poderia dizer também em relação ao fenômeno de Juazeiro, do Contestado, do Caldeirão.
Em seu trabalho, Moniz declara ter a intenção de construir um retrato que considera mais aproximado e menos preconceituoso de Antônio Vicente Mendes Maciel que, segundo nos informa, teria nascido no ano 1828, em Quixeramobim, CE. Este era intelectualmente capaz e formado, sendo “... um conhecedor dos evangelhos, dos doutores da Igreja, dos clássicos gregos e latinos, da Utopia de Tomás More, que foi, decerto, a base ideológica da comunidade igualitária de Canudos” (MONIZ, 1988, p. 17).
Do ponto de vista da formação escolar de Antônio Conselheiro, pelos dados apresentados, esta seguiu o modelo adotado para muitos outros meninos de sua geração. Após aprender a ler e escrever com um dos amigos do pai, ingressa “... na escola de Antônio Ferreira Nobre, famoso educador da região, onde iria aprender aritmética, geografia, francês e latim, pertencendo ao grupo dos alunos mais sagazes e mais estudiosos...” (MONIZ, 1988, p. 20). O pai de Conselheiro era um pequeno comerciante que morreu em 1855, deixando o filho como responsável por três irmãs solteiras. E este passou a ser o cabeça da família, e, só depois de casar as irmãs, é que vai se casar.
Coincidentemente, este evento da vida de Antônio Conselheiro é semelhante aos acontecidos nas vidas de Ibiapina e do jovem Cícero, enquanto este era estudante em Cajazeiras, Paraíba. Eles também perdem o pai; o primeiro, em decorrência da participação na Confederação do Equador, após o qual é fuzilado; e o segundo, por ter o seu pai vindo a
129 A obra “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, foi publicada, pela primeira vez, no ano 1902. A
produção dela foi possível, pois o seu autor acompanhou, enquanto jornalista, a serviço do Jornal O Estado de São Paulo, a última expedição punitiva para a destruição do Arraial de Canudos. No período de novembro de 1896 a outubro de 1897, dá-se o processo de destruição da localidade no interior do Bahia, às margens do Vaza- barris. É uma das obras mais discutidas no Brasil até hoje, fonte de inúmeros trabalhos, nas diversas áreas do conhecimento das Humanidades. Segundo REZENDE (2001), uma das percepções importantes de Euclides da Cunha era que, ao destruir Canudos, o “país agia como um mercenário a serviço de um projeto de civilização que não era seu...” (CUNHA apud Rezende, 2001, p. 203). Em DELLA CAVA (1985), temos o seguinte comentário sobre a obra de Euclides da Cunha: “No seu renomado livro Os Sertões, o surgimento de um movimento religioso popular em Canudos foi tido como sintomático do conflito inerente entre, de um lado, a cultura moderna e sofisticada dos centros urbanos do litoral e, de outro, a cultura arcaica e atrasada do interior rural abandonado. A visão dualista da sociedade brasileira ainda hoje persiste amplamente. A atual monografia, entretanto, sugere que tal visão tem sido muito exagerada. Não resta dúvida de que, em Juazeiro mesmo até o fim do século XIX, a sociedade sertaneja estava integrada, em muitos níveis importantes, em uma única ordem social de âmbito nacional. O caso de Juazeiro revela ainda, que o conflito entre um movimento sertanejo e a civilização refinada das cidades se estendeu, conforme está implícito em Euclides da Cunha, não devido a incapacidade e a resistência do primeiro em aceitar as conquistas materiais e outras obtidas pelo litoral, mas sim precisamente, porque o sertão procurava tirar uma fatia maior daquelas vantagens.” (DELLA CAVA, 1985, p. 21).
falecer, durante uma epidemia de cólera-morbo, que atingiu a Região do Cariri130. Assim, todos ascendem à posição de chefes de família em função do falecimento dos seus pais. É indiscutível, o papel social que passava a exercer o filho mais velho, ou o filho único, quando da morte inesperada do pai. Coincidências à parte, esses eventos indicam principalmente que as mulheres, mãe e irmãs, pela concepção da época, não deveriam assumir a responsabilidade pelos negócios da família, se existisse a figura de um homem capaz de fazê- lo.
Existe mais de uma versão para esse período de vida de Antônio Conselheiro, quando casado. Em uma delas, casa-se com uma prima. Indisposto com a sogra, liquida os negócios em Quixeramobim, no ano 1859 e muda-se para Sobral, onde se emprega em uma casa comercial. Posteriormente, muda-se para Campo Grande e torna-se escrivão de Juiz de Paz. Passa para Ipu e, sob a proteção de seu compadre, advogado Luiz de Miranda, torna-se requerente do Fórum. Na cidade de Ipu, é abandonado por sua mulher, que foge com um furriel da Força Pública (MONIZ, 1988, p. 23-24).
Na segunda, teria casado com Brasilina Laurentina de Lima, em 1º de janeiro de 1857, na matriz de Quixeramobim. Teria ainda, neste ano, vendido a casa onde residia, na cidade, e se estabelecido na Fazenda do Tigre, como professor, lecionando português, aritmética e geografia. Aí teria nascido o seu primeiro filho. Deixando a Fazenda, dirigiu-se para Tamboril e posteriormente para Campo Grande, onde se empregou numa casa comercial. Aí terminou desempregado, pois o patrão fechou a casa comercial, exatamente quando nasceu seu segundo filho. Tornou-se solicitador, ou seja, advogado provisionado para ganhar a vida. Mudou-se em 1861, para Ipu, e, quando traído pela esposa, foi viver na Fazenda Santo Amaro, em Tamboril onde volta a lecionar.
Esta reconstituição do percurso pessoal e profissional de Antônio Mendes Maciel é feita por Moniz (1988), com a intenção de rebater afirmativa encontrada em Euclides da Cunha (1902), a partir do que ele chamou de uma constante mudança de profissões e residências, como já sendo um sinal já evidente de “... contínuo despear-se da disciplina primitiva e tendência acentuada para atividade menos inquieta e mais estéril, o descambar para a vadiagem mais franca.” (CUNHA apud Moniz, 1988, p. 25).
130 O cólera visitou o Cariri, no princípio de 1862. O terror despertado foi tamanho que os
pernambucanos de Exu estabeleceram cordões sanitários, que eram respeitados com armas. Em 1864, houve um outro surto, pelo qual foram acometidas 1456 pessoas em Crato, e morreram entre estas 204. Ver: PINHEIRO, 1950, p. 128-134. Em 17 de junho de 1862, foi fundado em Crato, na estrada entre a sede da comarca e a povoação de Juazeiro, por ordem de Dom Luís Antônio dos Santos, o Cemitério dos Coléricos. Foi benta, na frente, uma cruz de madeira pelo Padre João Marrocos Teles, que veio a falecer da referida doença, no mesmo surto que também levou a vida do pai do Padre Cícero, Joaquim Romão Batista. Ver: PINHEIRO, Irineu. Efemérides do Cariri, Fortaleza: Imprensa Universitária, 1963, p. 148.
Esta assertiva de Euclides da Cunha demonstra que ele corrobora com as tendências intelectuais, que tratam os líderes carismáticos populares como representantes de duas tendências: a primeira é a da falta de civilidade dessas populações sertanejas, e a segunda é a da identificação desta com uma boa dose de insanidade mental. Não esquecer que Euclides da Cunha foi testemunha da destruição de Canudos e que ali chegou como correspondente de guerra do então já destacado jornal o Estado de São Paulo. A diferença de Euclides da Cunha de outros, segundo Rezende (2001), é que esle via um antagonismo de fato entre o Sertão (Canudos) e o litoral (República/nação), “... o que não queria dizer, argumentava ele, qualquer superioridade em termos sociais, culturais e políticos dos últimos sobre os primeiros” (REZENDE, 2001, p. 224).
No caso aqui em questão, o destaque dado quer demonstrar que a história de vida de Conselheiro, no tempo em que era criança, jovem e no início de sua vida adulta, segue a de muitos outros contemporâneos. Fica órfão de mãe, aos seis anos de idade, isto é, bastante comum a morte das mulheres, antes da dos homens, por motivos de saúde, já que, naquela época, elas contavam apenas com outras mulheres, as parteiras, para dar assistência aos seus sucessivos partos. Depois, órfão de pai, apesar de ainda viva a madrasta, é socialmente conduzido ao posto de chefe da família, por ser o único filho homem.
No caso da sua escolarização, esta se deu primeiramente por um professor particular, amigo do pai, pagando ou não; isto era comum naqueles tempos, quando inexistiam praticamente as escolas de primeiras letras. Depois, passou a estudar na Escola do Professor Antônio Ferreira Nobre, a qual frequentou também João Brígido dos Santos131, futuro jornalista e militante na política cearense, responsável pelo registro de várias informações sobre o Conselheiro, escritor do livro “Ceará, homens e fatos”. Nesta obra, também estão registradas as disputas entre as famílias Araújo e Maciel.
Entre as atividades desempenhadas por Antônio Mendes Maciel, está a de ensino. Professor leigo, como eram quase todos os professores do Nordeste e do interior do País, até bem recentemente. Não apenas o ofício de professor admitia a não-qualificação específica, como pudemos ver, também a função de advogado provisionado, que exerceu semelhantemente a Martins Filho, igualmente citado neste trabalho. O advogado Martins Filho, ainda na década vinte do século vinte, quando ainda era jovem e morador da cidade de Crato.
Ou seja, a partir destas informações, pode-se depreender o nível de conhecimento dele. Não era “ignorante”, nem sem educação letrada. Tinha uma formação compatível com
a de uma elite intelectual do interior do Ceará. Em meados do século XIX, a formação hegemônica da elite intelectual era ainda a que se dava nos Seminários. As primeiras faculdades, tanto de direito quanto as de outras áreas, eram recentes, ou ainda estavam para ser criadas. Os Seminários, por sua vez, estavam principalmente localizados nas capitais, ou em outras regiões do País, o que dificultava em muito a formação neles, por parte de pessoas não pertencentes a uma elite econômica. Portanto, uma educação escolar, mesmo que em nível não muito avançado, poderia abrir a porta para o exercício de diversas funções, tanto econômicas quanto intelectuais.
Em relação à formação erudita e religiosa de Conselheiro, Antônio Mendes Maciel, pode-se depreender de um texto de sua autoria, publicado apenas no ano 1974, Prédicas, escritas para os moradores de Canudos. Entre outras coisas, este conhecia o Antigo e o Novo Testamento e citava os versículos, em latim. Conhecia também os doutores da Igreja, como “... São Jerônimo, São Basílio (que negava a legitimidade da riqueza), São Crisóstomo (defensor ardente da volta ao comunismo primitivo da igreja), Santo Agostinho, São Boa Ventura, Santo Tomás de Aquino, Santo Inácio de Loiola...” (MONIZ, 1988, p. 50).
Em seu texto, segundo Moniz (1988), revela conhecer a literatura profana, já que entre outros “... cita o ‘valoroso Enéias’ que, no incêndio de Tróia, ‘salvou nos ombros o seu pai... tendo a seus pés o inimigo’...” (MONIZ, 1988, pp. 50). Demonstra conhecer Homero, Virgílio, Eurípides, Quintiliano. Parte porém, importante da sua obra, já que pode esclarecer uma influência teórica igualitária ao movimento que comanda, é a da vida e obra de Tomás More.
É muito útil – dizia Antônio Conselheiro – considerar-se a eternidade, e esta consideração foi a que fez a muitos varões sábios e prudentes encher as religiões, povoar os desertos, deixar as riquezas e desprezar o mundo. Assim sucedeu a Tomás More, chanceler-mor da Inglaterra, reinando Henrique VIII. Foi esse ministro condenado à morte por não querer seguir a heresia... (MONIZ, 1988, p. 50-51).
Por outro lado, a vida pessoal de Antônio Mendes Maciel foi aparentemente tumultuada. Já casado e com filhos, foi traído e abandonado pela esposa. Sofreu assim uma desilusão amorosa, que pode ter sido o início de uma viagem não só pelo interior do Nordeste, mas de seu próprio interior, no sentido de adotar um modo de vida comum, nos sertões de então, o do beato, que tinha como um dos traços de distinção a abstenção sexual, ou seja, o voto de castidade.
O voto de castidade era um dos preceitos que deviam ser seguidos também pelos membros do clero. Mas, neste trabalho, já tratamos da dificuldade de respeito ao celibato por
estes, o que gerou um movimento, a partir da hierarquia, de que os recalcitrantes fossem enquadrados em diversos dispositivos disciplinares. Já no caso dos beatos, que deveriam ser enquadrados no que representavam, enquanto tinham liberdade de ação, em relação à castidade, estes a tinham como uma prática de vida não imposta por um corpo de preceitos dogmáticos, mas uma escolha que fazia parte de seu modo ascético de viver.
Como se pode ver, a história de vida de Antônio Conselheiro apresenta semelhanças com outras personagens de nossa história, Ibiapina e Padre Cícero. Estes pontos de contato são percebidos, no momento em que se analisam suas práticas, ou quando se resgata a experiência de vida de cada um, o que aponta para a possibilidade da construção de uma biografia coletiva. Já a possibilidade de construção deste modelo não foi definida a priori, mas foi uma possibilidade que percebemos, durante o desenvolvimento da pesquisa, apesar de que outros autores já tenham apontado neste sentido.
Como já citado anteriormente, não como beato, mas como padre que se relacionou com a população, a partir de uma liderança baseada não apenas na autoridade emanada da função institucional, mas também pelo carisma, tem-se José Antônio Pereira Ibiapina. Este foi juiz de direito, em Quixeramobim, na época em que Antônio Mendes Maciel aí vivia com seu pai. Formado em Direito em Pernambuco, inclusive na primeira turma da Faculdade de Olinda, tinha sido nomeado pelo presidente do Estado do Ceará para esse cargo. Viu-se assim envolvido, como representante da lei, nas tramas das disputas locais e entre estas as das famílias Araújo e Maciel. Supõe-se inclusive que, por constatar a falta de efetividade da lei e do poder público, nestes casos, foi que o então Juiz Ibiapina desistiu do exercício desta função.
Retornando ainda às interseções destas vidas, agora no caso de Antônio Mendes Maciel e Padre Cícero Romão Batista, pudemos estabelecer ainda outros pontos de contato de suas histórias de vida. Quando Antônio Conselheiro se instalou às margens do Vaza Barris, na Bahia, com seus primeiros seguidores, após percorrer, por vários anos, o território dos sertões, já era o ano 1893. A perseguição contra ele, e seu grupo de devotos tinha se dado anteriormente, mas, a partir da fixação destes e dos rumores em torno do que acontecia no povoado, e ainda mais dos protestos dos proprietários rurais circunvizinhos, a perseguição se tornou cada vez mais acirrada.
Quando, em 1894, nos últimos dias de julho, o veredicto da Inquisição Romana sobre a questão de Juazeiro foi tornado público, soube-se da condenação, como “... prodígios vãos e supersticiosos, e implicam gravíssima e detestável irreverência e ímpio abuso à Santíssima Eucaristia; por isso o juízo Apostólico o reprova e todos devem reprová-los, e como
reprovados e condenados cumprem serem havidos...” (Veredicto da Sagrada Inquisição Romana Universal, In: DELLA CAVA, 1976, p. 87).
Em um apêndice do Decreto de Roma, o bispo Dom Joaquim ordenou que cessassem todas as peregrinações para Juazeiro; que todos os votos e promessas feitas eram declarados nulos e supersticiosos; que todos os documentos produzidos em defesa do caso, as medalhas e fotografias deveriam ser recolhidos e queimados; e que padres e leigos que falassem em defesa dos supostos milagres teriam: os primeiros – a pena de suspensão de ordens. e os segundos – a privação dos sacramentos; que a urna contendo as toalhas ensanguentadas, aqual se encontrava desaparecida, fosse entregue à autoridade eclesiástica local e queimada.
Este decreto expedido em Roma, porém, não foi suficiente para acabar com o movimento em torno do Padre Cícero e dos milagres então condenados. Considerando que tinham sido prejudicadas em seus interesses, pessoas eminentes de Juazeiro, juntamente com o Padre Cícero, resolveram apelar a Roma, enviando novos documentos, na esperança de que o caso fosse revisto. Mas, seguindo o desenrolar dos eventos apresentados, conforme o trabalho de Ralph Della Cava (1976), temos que:
... em junho de 1897, chegou de Roma a resposta tão longamente aguardada. Para surpresa e mágoa dos habitantes da aldeia e dos peregrinos, o Santo Ofício não apenas rejeitou a apelação de José Lobo como, também ameaçou Padre Cícero de excomunhão, caso não se retirasse de Joaseiro para sempre, num prazo de 10 dias! Se o padre tivesse algo mais a acrescentar que fosse, pessoalmente, a Roma. A reação de Padre Cícero foi imediata e prevista; partiu para Salgueiro, cidade do interior pernambucano, a 30 léguas de Joaseiro. Aí viveu durante vários meses, o seu ‘exílio’ imposto por Roma, a cuja autoridade em sua mente jamais desobedecera... Foi durante o exílio, entretanto que a ameaça de excomunhão passou para um segundo plano, em virtude da surpreendente acusação de estar o clérigo conspirando contra o Estado. (DELLA CAVA, 1976, p. 111-112).
É exatamente em relação a esta suposta conspiração que a história de vida do Padre Cícero é colocada em contato com o desenrolar dos acontecimentos, no povoado dirigido por Antônio Conselheiro. Uma das principais razões, para que a opção de Padre Cícero fosse a cidade de Salgueiro, era, entre outras coisas, porque nesta cidade ele contava com o apoio, do padre João Carlos Augusto, seu amigo. Esta escolha deve ter sido feita, ainda, pela proximidade da cidade de Salgueiro do Cariri, e muito provavelmente, por ser Pernambuco outra jurisdição eclesiástica, o que, na análise do Padre e das pessoas mais próximas a ele, poderia parecer estrategicamente favorável ao que então definiam como a causa de Juazeiro.
Esta mudança do Padre, em função do cumprimento de uma ordem emanada da própria hierarquia católica romana, foi vista por alguns políticos e membros da hierarquia eclesiástica pernambucana como temerosa. O Padre foi acusado, já em Pernambuco, através
de jornais, pelo Bispo de Olinda e pelo próprio Governador de estar arregimentando seguidores para o Beato Antônio Conselheiro, naquela época em conflito direto com forças do governo. Estas acusações foram contestadas pelo pároco de Salgueiro e, aparentemente, o caso, esclarecido.
Acompanhando a análise de Ralph Della Cava, temos que, mesmo que Padre Cícero tenha ido para Pernambuco, o Bispo do Ceará não considerou resolvida a questão de Juazeiro e, no final de 1897, lançou a terceira Carta Pastoral, relembrando a ameaça de excomunhão ao Padre Cícero feita pela Sé Romana.
Nesta última condenação, o bispo como não poderia deixar de ser, aludiu à semelhança entre o fanatismo de Canudos e do Joazeiro. Referiu-se de modo especial, à inclinação das massas ignorantes a aceitarem, cegamente ‘qualquer novidade com aparência maravilhosa’ e advertiu Padre Cícero para que não tomasse Antônio Conselheiro como exemplo. (DELLA CAVA, 1976, p. 112).
Seguindo a sua linha de defesa do Padre Cícero, no Congresso Nacional, Floro Bartolomeu da Costa (1923) tenta demonstrar, através de provas recolhidas por si mesmo, que as acusações contra o Padre Cícero são injustas. Neste sentido, transcreve vários telegramas que foram enviados para as autoridades política e eclesiástica, na capital pernambucana, por pessoas de destaque do interior pernambucano, no sentido de demonstrar que as notícias que circulam sobre a articulação do Padre Cícero com o movimento de Canudos são infundadas.
Abaixo, um dos telegramas transcritos por Floro:
Salgueiro, 14 de agosto 1897 – Exmo. Governador – Recife.
Affirmo ser absolutamente falsa noticia padre Cícero deixar Joazeiro Crato, procurando Canudos para prestar auxílio Antonio Conselheiro. Em obidiencia ordem bispo ausentar-se, em dez dias, quarenta léguas daquella localidade, retirou- se para esta Villa, não tendo passado Água Branca, noventa léguas Joazeiro. Daqui telegraphou Papa communicando residencia provisória, e aguarda ordem.
Posso garantir ser elle virtuoso sacedorte, completamente hostil movimento