2. Theoretical framework
2.7 Self
A busca pela unidade nacional capaz de formar um Brasil nação passa por dois elementos fundamentais para o autor: o povo e a classe intelectual. A concepção de povo de Arinos leva a uma interpretação desse povo como massa de indivíduos comuns, trabalhadores, com pouca formação educacional e política, distinguindo-se dos intelectuais e diferenciando-se da definição de povo como um conjunto de pessoas que compõem um país.
Na seqüência, o autor valoriza esse povo, que para ele seria o responsável por manter a união brasileira, através do grande número de trabalhadores sertanejos que deixam seus estados para trabalharem em outras regiões, criando uma teia intercalada de relações de trabalho que é importante para a unidade nacional: “E toda essa gente, que traça, lida e sofre, vai tecendo a rede de solidariedade da população brasileira, sem rivalidades de nascimento, nem de língua, nem de religião”.90
88 FRANCO, 1969, p. 889, nota 78. 89 Ibid., p. 889. 90 Ibid., p. 889.
Arinos valoriza esse povo trabalhador ao fazer um contraponto com os indivíduos das cidades litorâneas, carregadas de aspectos estrangeiros. Dizia ele:
Da casa de um amigo, a Praia do Flamengo, onde me hospedara, despertou- me pela madrugada o canhoneio. E a mortandade e destruição que se lhe seguiram, de brasileiros contra brasileiros, sem causa conhecida, tendo a aparência, não de uma reivindicação de direitos conculcados [sic], mas de uma explosão bárbara de indisciplina, faziam temer pelo futuro do povo, em cujo seio tais fatos podiam produzir-se. Mas, quando, menos de dois meses depois, atravessava a vasta região florestal, que medeia entre Bauru e a margem do Paraná [...] e via o trabalho brasileiro arrancar ao domínio das feras e do gentio bravio uma enorme região indicada ainda a pouco nas cartas geográficas como sertão desconhecido [...] eu compreendia que um povo que assim peleja e assim pena tem e terá o seu lugar entre os dominadores da superfície da terra.91
Exatamente nesses trabalhadores do sertão, no sertanejo, que estaria o cerne de nossa nacionalidade e o elo da união nacional. Do contato de indivíduos de regiões distintas inicia-se um processo de formação de um aspecto cultural único, capaz de congregar o povo brasileiro para o Brasil nação. Segundo Arinos: “Nesse grande esforço anônimo e por assim dizer subterrâneo, tal o dos lençóis d’água na formação dos ribeiros, forma-se a trama popular da nossa nacionalidade, com suas lendas e tradições comuns, voando de Sul a Norte e de Norte a Sul nas asas irisadas da canção popular”.92 Essa construção reforça a idéia de uma nação cultural, onde os valores em construção seriam utilizados para sustentar a unidade nacional.
Embora tendo um papel importante na formação da nação e sendo representado como elemento identificador dela, o povo sertanejo “[...] faz o que pode e dele não se
91
Ibid., p. 890. 92
deve esperar mais [...]”.93 O dever de buscar a construção da nação e evitar a fragmentação do Brasil não compete ao povo e sim aos intelectuais.
Para Arinos “[...] como corpo político o povo brasileiro não existe. Ele é governado por um grupo diminutíssimo, por uma reduzida e pouco brilhante aristocracia, que não tem como a chilena a sua base na propriedade da terra cultivável, mas na burocracia militar e civil”.94 Seguindo essa linha de análise e pensando o ideário de nação defendido pelo autor, não poderíamos pensar uma nação brasileira aos moldes da nação francesa, instaurada através da Constituição, onde conscientemente os indivíduos escolheriam se queriam ou não fazer parte da França. Para termos um Brasil nação, era preciso uma intervenção extra, que caberia às classes intelectuais.
Essa perspectiva assumida por Arinos o aproxima das idéias defendidas por Renan, haja vista que apresenta uma nação como potência, como capacidade, mas que precisa ser revelada e direcionada por elites intelectuais nacionalistas. A cultura e o povo sertanejo seriam os elementos que garantiriam essa potencialidade do Brasil nação, mas precisaria de uma ação direcionada e intencional. O império teria iniciado esse processo, mas teve seu percurso interrompido pelo advento da República. Não visualizando esse potencial no povo e nem nas classes governantes, com o domínio da República que ele criticava, tal tarefa caberia aos intelectuais. Assim, independente das questões culturais e tradicionais impostas pelo sertão, à nação seria um projeto pensado e direcionada, uma opção, o que nos leva a aproximá-lo de Renan.
Contudo, essas classes superiores encontravam-se dispersas pelo território brasileiro, sem contato, sem um direcionamento. Por isso, o autor defende a
93
Ibid., p. 891. 94
necessidade de unir as classes cultas: “É preciso que esses elementos dispersos se ponham em contato diário, congregando-se e organizando-se para a ação. E esta ação deve ser uma verdadeira campanha cívica para reerguimento do Brasil [...]”.95
Ao povo já estava facultado o sacrifício do trabalho árduo, não cabendo a eles dessa maneira a tarefa de consolidar a nação. Essa obra parte de cima para baixo, como o autor afirma: “[...] a obra de que falamos está fora e acima dos governos, porque é uma obra de regeneração social e política, devendo ser iniciada convictamente e propulsada do alto, dos homens cultos, da mocidade desinteressada e generosa, para a unidade nacional ou a formação da consciência brasileira”.96
A referencia à aristocracia chilena é um ponto importante dessa passagem. Arinos retoma essa valorização do Chile num artigo para o jornal O Comércio de São
Paulo intitulado Ao Chile de 20 de Maio de 1897, publicado posteriormente em Notas do Dia. Nesse artigo, escrito por ocasião da visita dos oficiais da esquadra chilena a São
Paulo, Arinos retoma a valorização da aristocracia do país e sua formação política. Elogiava a constituição política do Chile, dando destaque para o poder de interferência no governo do país dos governos municipais (cabildos), afirmando que assim o Chile estaria preparado para o regime parlamentar por possuir uma poderosa aristocracia territorial. Essa exaltação dos governos municipais e seu poder de decisão dariam visibilidade à aristocracia do país, num contraponto com a aristocracia e o governo republicano brasileiro da época, marcado pelo centralismo e por uma elite ainda marcada pelo militarismo. Assim, afirma o autor:
95
Ibid., p. 891. 96
Este [regime parlamentar], mais tarde, desenvolvido e fortificado pela independência, deu ao Chile essa fisionomia única na América do Sul – alguma coisa da Inglaterra, alguma coisa da Roma antiga, com seus grandes lances dramáticos, seus grandes dias de borrasca, de que, entanto, o caráter nacional emerge com o cunho de sobriedade, de decisão e energia, que tem sua personificação na figura austera do fundador da pátria, Don Bernardo O’Higgins, ou no perfil épico de Don José Manoel Balmaceda.97
A valorização do modelo chileno de governo também aparece em outro importante monarquista, Joaquim Nabuco. No livro Balmaceda, Nabuco apresenta também uma valorização da aristocracia chilena:
Socialmente, a “oligarquia”, que não é mantida artificialmente por privilégios e leis de exceção, mas que resulta da formação histórica do país e conserva a sua influência sob um código liberal, e era virtude dos costumes e da forma da propriedade, não é uma usurpação. Politicamente, o que se chama a “oligarquia” chilena, é apenas a tradição de governo transmitida de uma a outra geração pelos processos e com as cautelas que constituem a educação dos homens de estado, em outras palavras, não é se não o controle indispensável à porta de cada instituição para que não entre indistintamente toda a gente.98
O que a República no Brasil fez, segundo Nabuco, foi exatamente abrir as portas para todos, descaracterizando as instituições e desqualificando o governo. E reforça a crítica à República afirmando que “[...] destruir um governo que tem dado os mais admiráveis resultados para pôr em lugar dele uma mera teoria, é ausência de senso prático. Os chilenos não fariam facilmente o que nós fizemos [...]”.99
Sob a ótica política, valorizar o modelo chileno para os monarquistas era buscar uma alternativa não-monárquica para o federalismo que se instaurou com a República. Para isso, o modelo parlamentar chileno se apresentava cabível de se contrapor ao caso brasileiro, por isso bastante valorizado pelos intelectuais monárquicos.
97
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Notas do dia. In:____________. Obra Completa. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969, p. 631.
98
NABUCO, Joaquim. Balmaceda. Brasília: Senado Federal, 2003, p. 154. Disponível em: < http://www2.senado.gov.br/bdsf/bitstream/id/1076/4/662433.pdf>. Acessado em: 12 de agosto de 2009. 99