2. Theoretical framework
2.8 Holt's four metaphors for consuming
2.7.1 Consuming as Experience
Para fortalecer o ideal de unidade nacional no discurso que assumia, Arinos faz uma defesa da Pátria e do patriotismo como fundamentais para essa formação. Seu conceito de Pátria está atrelado à noção de território e sociabilidade. De acordo com ele,
[...] a idéia de pátria não representa menos a terra querida onde se encerram os restos dos nossos maiores, onde as tradições e os costumes são aqueles nos quais fomos criados, onde a língua é aquela em que balbuciamos as primeiras palavras, onde, no dizer do poeta, uma ilusão geme em cada canto e chora em cada canto uma saudade. Essa idéia, com a série de sentimentos dela decorrentes, constitui realmente um dos princípios diretores da civilização moderna.100
E a Pátria brasileira não seria aquela idealizada pelos primeiros colonizadores portugueses, a terra das belezas tropicais, a terra quase encantada da carta de Pero Vaz de Caminha, onde se plantando tudo dá. A Pátria que Arinos identifica é mais real, mais problemática, e nem por isso menos encantadora ou inferior às demais. Até pelo contexto de secas vivido pelo Brasil na época, seria complicado sustentar uma visão paradisíaca do país: “A nossa pátria não é essa terra opima da Promissão, onde os ares por toda parte são deleitosos, e por toda a parte pinguem as colheitas. Temos vastas regiões sáfaras e climas hostis [...]”.101 Rompendo a visão de terra prometida, o autor acredita que aspectos do desenvolvimento industrial podem auxiliar os indivíduos a viverem nessas regiões, onde a condição de vida é mais extremada.
Embora valorize a terra e o seu cultivo, dá destaque também para os aspectos da industrialização que acredita trazerem benefícios para o país. Essa visão fica mais
100
FRANCO, 1969, p. 893, nota 78. 101
clara num artigo intitulado Terra Roxa, escrito em julho de 1905 para O Jornal do
Comércio e publicado posteriormente em Histórias e Paisagens. Esse artigo retrata a
região paulista, que se tornou grande centro da produção de café e ficou conhecida como terra roxa, traz uma valorização do cultivo da terra e dos benefícios oriundos dela. Contudo, traz duas indicações importantes para compreendermos a questão da industrialização no pensamento de Arinos. A primeira seria a necessidade de buscarmos a industrialização sem abandonar o cultivo da terra: “É certo que estamos muito longe de chegar ao desenvolvimento industrial a que atingiu a França e muito
podemos e necessitamos fazer esse caminho”102, afirma o autor. A segunda posição é
a valorização das estradas de ferro e os benefícios trazidos: “Que singular e estranha impressão a de um trem atravessando a mataria! Parecem duas coisas que se excluem e se contradizem [...]”103, afirma Arinos.
Essa posição de Arinos sobre a industrialização é permeada de ambigüidades. Nos livros e artigos do autor, não há um trabalho aprofundado sobre essa questão, para relacionarmos com maior precisão. Ao mesmo tempo em que se mostra favorável ao progresso, teme a desnaturalização do interior, tido como a verdadeira nação. Nessa questão, Arinos caminha mais para um defensor de certo “melhoramento” da vida do interior, sem perder suas principais características e, principalmente, sem abandonar a vocação nacional para a agricultura, tão bem simbolizada pela terra roxa.
Sendo a pátria brasileira uma terra de contrastes, com regiões desfavoráveis ao florescimento da vida humana, o autor valoriza o povo brasileiro ao afirmar que exatamente pelo fato de a natureza tropical não se deixar dominar senão pelo
102
FRANCO, 1969, p. 861, nota 50. 103
constante esforço e inteligência que o Brasil será um país cada vez mais belo, pois é cada vez mais obra de seu povo. Retorna a visão positiva do país e do brasileiro. E, nesse caso específico do contexto da conferência que pronunciava, defende e valoriza o homem do sertão, o sertanejo, o nordestino. É o indivíduo capaz de “domar” a natureza e conviver num espaço hostil.
Buscando defender a necessidade da ajuda aos flagelados pela seca e de uma união nacional pela consolidação da nação brasileira, Arinos pontua a importância do sacrifício individual em prol dos interessas da pátria: “Não é patriota quem não esteja sinceramente disposto a dedicar à pátria ao menos um pouco de seu bem estar, da sua própria família, do seu egoísmo [...]”.104
Caminhando novamente para o fortalecimento dos aspectos culturais na formação da unidade nacional, Arinos afirma que apenas a pátria material, o território, não seria suficiente para a nação. Junto dessa pátria tangível, teríamos a sua alma, seu espírito vivificante, sua moral que seria “[...] formada da história, da religião, da língua, das tradições, dos usos e costumes comuns. É essa pátria moral que nos faz compreender e amar a pátria material [...]”.105 Por isso, a importância do povo brasileiro em contato, das relações que daí surgem e dos costumes e tradições que vão se unificando. Sem esses aspectos culturais que ligam os indivíduos a determinados lugares, não seria possível associar a terra com a pátria.
Identificando aspectos tradicionais da sociedade brasileira no interior, ao afirmar que “[...] a casa brasileira conserva o seu tipo tradicional na roça [...]”,106 Arinos fortalece a idéia de uma identidade nacional baseada no sertanejo. A terra pátria
104 FRANCO, 1969, p. 893, nota 78. 105 Ibid., p. 894. 106 Ibid., p. 894.
associa-se “[...] as nossas cantigas, os nossos instrumentos rústicos, as histórias que nos embalaram os berços, a crença a cuja luz desabrochou o nosso curioso e inquieto espírito juvenil [...]”.107 Todos aspectos facilmente identificados na vida e na cultura do sertanejo do interior do Brasil.
Ao buscar aspectos culturais comuns e encontrar um processo de descentralização cultural e regional, Arinos identifica uma nação a construir, que precisa avançar no sentido da união de seus aspectos culturais e na manutenção da sua união territorial. A pátria moral seria, pois, esclarecedora:
É ela que nos diz: eu tenho literatos e não tenho literatura; eu tenho professores e não tenho ensino; eu tenho juízes e não tenho justiça; eu tenho soldados e marinheiros e não tenho exército nem marinha; eu tenho homens de Estado e preciso de governo; eu tenho um grande território e não sou ainda uma nação [...]. 108