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São expostas, nesta seção, algumas “respostas musicais” de Nazário quando questionado sobre o processo criativo na elaboração da bateria de “Frevo”, suíte composta por três partes: “Frevo”, “Esquenta Muié (Banda de Pífanos)” e “Frevo Rasgado”. A suíte, de Egberto Gismonti, lançada em 1978 no disco Nó Caipira, é considerada pelo baterista um trabalho significativo em sua carreira. Além de Nazário, participaram da gravação o próprio Gismonti (piano), Mauro Senise (sopros) e Zeca Assumpção (contrabaixo).

As três peças constituem um excelente panorama demonstrativo de diferentes características da concepção baterística de Nazário. A bateria dessas faixas, por exemplo, baseia-se em variações sobre ritmos brasileiros de frevo e de bandas de pífano e impressiona pela complexidade e caráter virtuosístico.

Além de alta velocidade e precisão de execução, Nazário possui avançado grau de independência entre mãos e pés, grande controle de dinâmica, também independente, e interação constante com os outros instrumentos do grupo. Como exposto adiante, o uso dos rudimentos de caixa Single Stroke Roll (toque simples) e Double Stroke Roll (toque duplo) é distribuído de diversas formas na bateria, além de serem usados como fragmentos, tornando-se parte essencial da linguagem baterística de Nazário.

É interessante notar que Nazário usa uma concepção rítmica para a suíte como um todo, com ideias que transitam entre as três faixas, construídas a partir de vários recursos do baterista, como, por exemplo, o uso de rudimentos de caixa, a aplicação de ideias provenientes de ritmos tradicionais brasileiros, neste caso, o frevo e levadas de bandas de pífanos. Destacam-se, também, entre os recursos, a sobreposição de linhas independentes -

a qual explicita a característica fusão de estilos do baterista - e o uso de processos de deslocamento, adensamento e fragmentação, tanto para criação e desenvolvimento de levadas, quanto para a interpretação de longos trechos musicais.

A análise que será apresentada se baseia em trechos escolhidos da transcrição da performance da suíte “Frevo”, gravada em Nó Caipira (a transcrição completa da bateria das três peças da suíte consta no final do capítulo como referência) e, também, em transcrições de trechos significativos das entrevistas realizadas com Nazário. Sobre o virtuosismo, por causa da “limpeza” - clara articulação e separação das vozes presentes nos vários instrumentos da bateria - e da incrível velocidade de execução da bateria nessas faixas, o músico lembra que na época da gravação do disco possuía muita técnica, uma vez que estudava o dia inteiro.

Na entrevista, Nazário demonstra e explora a concepção das ideias contidas nas três faixas por um longo improviso de aproximadamente dez minutos de duração. Os próximos parágrafos trazem uma descrição desse improviso através de transcrições de partes dele e de uma reflexão sobre como o baterista cria e desenvolve suas levadas.

O momento inicial, repleto de explorações e explosões rítmicas, com espaços e silêncio entre elas, lembra as seções rítmicas livres, introdutórias da faixa “Esquenta Muié”. Nazário conta que parte de sua rotina de estudo consistia na prática ou “brincadeira” de distribuir livremente pela bateria diversos rudimentos, usando e abusando de dinâmicas, silêncios e liberdades com os andamentos.

Após esse início, Nazário apresenta no prato de condução uma levada contendo a frase típica do pandeiro no ritmo tradicional do frevo (FIG. 55).

Fig. 55. Levada típica do pandeiro no ritmo tradicional do frevo, feita no prato de condução

A levada de caixa completa os espaços de forma a preencher todas as semicolcheias, o que demonstra adensamento típico das levadas de caixa no ritmo tradicional do frevo (FIG. 56). Por outro lado, o bumbo apresenta uma figura rítmica no segundo e quarto tempos (semínimas), que pode ser comparada a uma das típicas do ritmo baião (mas deslocada, nesse caso, por um tempo), ou mesmo à figura rítmica executada pelo surdo de corte, no samba. Tais aspectos demonstram a fusão de estilos característica dessas faixas e da concepção própria de Nazário.

Fig. 56. Primeira levada na bateria

Após manter a levada por um tempo e desenvolvê-la com pequenas variações, Nazário expressa ideia de caixa contínua, adensando um pouco mais as notas tocadas no bumbo. Nesse caso, percebe-se nitidamente uma levada de caixa originária das bandas de pífano (FIG. 57).

Fig. 57. Levada de transição

Em momento anterior da entrevista, o baterista afirma seu interesse por essas levadas: “Eu ouvia muitas coisas do folclore e tinha ideias a partir delas”, daí entra numa exploração de caixa e bateria, a qual revela as ideias principais para as faixas “Frevo” e “Frevo Rasgado”. Ao mudar de uma levada para outra com total espontaneidade e leveza (FIG. 58 e 59), demonstra a relação de sutis acentos na sua levada “clássica” com a pessoal de caixa (FIG. 60).

Fig. 58. Levada “clássica”, bastante usada por Zé Eduardo Nazário

Fig. 59. Segue após a levada anterior, uma levada com inconfundível inspiração nas levadas tradicionais das bandas de pífano

Fig. 60. Relação de acentos das duas levadas anteriores, uma das variações exploradas por Nazário

Além dessas características delimitadas, a presença forte das colcheias - constantes nos pratos de choque ou em uma “condução” com eles, feito difícil de controlar em velocidades tão elevadas - são marcas inconfundíveis do músico.

Ao mesmo tempo que quando você marca, você faz ele bem consistente (imita o som seco e definido dos pratos de choque fechando: ts’ ts’ ts’), na hora que você está conduzindo [...] eu sinto isso, e escuto bastante coisa de jazz assim, seu chimbal não pode ser fraquinho. Se você deixar muito solto, muito leve, não cria aquela atmosfera. É como se você tivesse tocando um ganzá ou um caxixi, que tem aquela pegada (Ibidem).

Nazário cita um fato curioso a respeito de equipamento para obter bastante agilidade e velocidade com os pés: o uso de ferragens (no caso pedal de bumbo e máquina de pratos de choque) mais leves. As ferragens usadas por ele na época da gravação, diferentes das feitas atualmente, “eram mais fracas, mas você conseguia mais velocidade, agilidade, e tocava as coisas mais rápido”.