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3. GENERAL DISCUSSION

A rítmica tradicional do frevo se desenvolveu, entre outros fatores, através da aceleração do ritmo da marcha. A FIG. 35 apresenta a maneira como a seção percussiva

básica do frevo (formada por pandeiro, caixa e surdo) é frequentemente grafada na partitura, com destaque para a frenética levada de caixa, responsável por fornecer a acentuação característica do ritmo.

Fig. 35. Seção percussiva tradicional do frevo (BENCK FILHO 2008, p. 52)

Uma importante fonte de pesquisa sobre o riquíssimo universo musical do frevo, tão particular ao estado de Pernambuco e em especial à cidade de Recife, pode ser encontrada em Frevo, Capoeira e Passo de Waldemar de Oliveira (1971). Nele, podemos encontrar informações detalhadas sobre a morfologia e as modalidades do frevo como: a origem do frevo e do seu nome de batismo; as associações profissionais que lhe deram origem como a troça e o bloco; a estrutura dos clubes-de-rua; as fontes do frevo como a modinha, o “dobrado”, o “maxixe”, a polca; o confronto com a marchinha carioca; compositores pioneiros e inovadores do frevo; diferenciação entre frevos cantados, frevo-canção, frevo de bloco, frevo-de-rua; a evolução do frevo-de-rua; origens do ‘passo’ e do ‘galope’ na capoeira; histórico da capoeira no Recife, capoeiristas famosos e golpes da capoeira; os passos típicos do ‘passo’ pernambucano e sobre a estilização e o declínio do ‘passo’.

Nas diversas modalidades do frevo, a prática de performance da caixa (instrumento presente tanto nos blocos-de-rua como na bateria) apresenta inúmeras variações. Nesta seção são apresentadas algumas variações, sobretudo a partir de diferentes manulações do rulo, tradicionalmente feito no segundo tempo do segundo compasso. É interessante notar que tanto os exemplos advindos de revisão bibliográfica como os exemplos registrados em entrevistas nos forneceram uma forma pessoal e diferenciada na execução desse rulo.

Adelson Silva e Augusto Silva, ambos bateristas e percussionistas da Spok Frevo Orquestra, apresentam formas pessoais na execução do rulo, através de uma figura rítmica de sextina, com manulações que alternam entre o “toque simples” e o “toque duplo”. A figura rítmica da sextina se contrasta às quatro semicolcheias ruladas (como muitos

percussionistas têm por prática fazer). A execução desses dois bateristas impressiona pelo uso dos rulos, percorrendo ampla gama de densidades possíveis. O uso das diferentes densidades do rulo (simples, duplo e múltiplo) são amplamente usadas por eles como recurso musical.

A contribuição de Adelson Silva39 à execução do rulo na caixa do frevo pode ser encontrada no material extra incluído no DVD da Spok Frevo Orquestra, intitulado Passo de Anjo - Ao Vivo. Nesse material, em vídeo, Adelson demonstra a manulação do rulo de sextina que desenvolveu para sua levada pessoal de caixa (FIG. 36).

Fig. 36. Manulação do rulo de sextina na levada pessoal de Adelson Silva

Em entrevista conduzida em Olinda (PE) no Carnaval de 2011, Augusto Silva afirma sua admiração por seu companheiro de Spok Frevo Adelson, considerando-o sua ‘escola’ de execução de caixa e bateria. Além disso afirma que seus ‘rudimentos’ são na verdade padrões rítmicos e levadas provenientes do frevo, do maracatu rural (ou maracatu- de-orquestra40) e do cavalo marinho, destacando a dificuldade de execução dessas linguagens. Augusto também demonstra sua levada pessoal de caixa, com destaque para a manulação diferente no rulo de sextina no segundo tempo do segundo compasso (FIG. 37).

Fig. 37. Manulação do rulo de sextina na levada pessoal de Augusto Silva

39 “No Recife deu início a carreira profissional de baterista. Tocou com o maestro José Menezes no festival de

carnaval em 1972 e se destacou como o único baterista que tocava com partitura. […] A carreira com José Menezes levou Adelson à se destacar na gravação de frevos. Durante esses anos, fez inúmeras participações e gravações do ritmo pernambucano. “Até hoje eu participei de 90% da gravação dos frevos em Pernambuco, a maioria dos CDs eu gravei”. Com a fama e o talento de uma baterista mestre em tocar frevo, foi convidado para gravar o primeiro CD da Spok Frevo. O convite do saxofonista Spok se estendeu para a participação na banda e a permanência de Adelson como o baterista oficial. “Foi através dali que conheci o mundo, o Recife me abriu as portas”, falou. Por diversas vezes visitou a Europa, Ásia e América do Norte. Com a Spok Frevo, gravou DVDs e ganhou o prêmio TIM de banda revelação. Hoje, além da Spok Frevo, ele toca na banda Pinga Fogo, é o maestro da Banda XV de Novembro em Gravatá e regente da Banda do Sítio Limeira onde ensina música aos filhos dos agricultores da região.”. ALVES, [on-line].

40 “Um instrumento de relevo nos toques do Maracatu-de-orquestra é o tarol, concorrendo para variar

Em andamentos mais lentos Augusto utiliza o “toque duplo” para floreio das notas não acentuadas em sua levada pessoal, resultando em efeito semelhante à execução característica na vertente rudimentar de execução (FIG. 38).

Fig. 38. Levada de Augusto para andamentos lentos, utilizando o “toque duplo”

A notação da levada de frevo do baterista Marcio Bahia41, escrita pelo mesmo, apresenta interessante detalhe a respeito dos níveis de acentos. A notação usando apenas dois níveis de dinâmica é a mais comum para representar a levada do frevo. Bahia apresenta uma versão resumida de sua levada, onde destaca alguns ‘apoios’ (quarta semicolcheia do primeiro e segundo tempos do segundo compasso) a serem internalizados, antes da execução da levada completa (FIG. 39). Esses ‘apoios’ são realizadas em uma dinâmica intermediária: entre as notas não acentuadas e as acentuadas.

Fig. 39. Levada de frevo de Marcio Bahia: versão resumida a acentos e apoios

Após a internalização desses apoios, um possível estudo consiste em adicionar as semicolcheias restantes, realizando assim uma levada com três níveis de dinâmica (FIG. 40), para, finalmente, realizar a levada completa sugerida por Bahia (FIG. 41) que apresenta rulo de curta duração.

Fig. 40. Versão resumida adicionada de semicolcheias restantes

Fig. 41. Caixa de frevo por Marcio Bahia: levada completa

Similaridades são constatadas entre os apoios sugeridos por Marcio em sua levada e os presentes na levada de frevo de Gilberto Biano, na música “As espadas”, da Banda de

Pífanos de Caruaru (FIG. 42). Essa levada apresenta característica típica da execução do rulo por Biano (rulo realizado em todas, ou quase todas, notas da levada) e por caixistas de bandas de pífanos, em geral. A levada da música “Dobradinho” (FIG. 43) ilustra bem essa concepção.

Fig. 42. Levada da música “As espadas”, por Gilberto Biano, Banda de Pífanos de Caruaru (PEDRASSE 2002, p. 238)

Fig. 43. Levada da música “Dobradinho”, por Gilberto Biano, Banda de Pífanos de Caruaru (PEDRASSE 2002, p. 249)