3.1. Undersøkelsesstrategi og -metoder
3.4.3. Sekundærbearbeida artefakter
Com esse conceito Bourdieu procura explicar como o homem se torna um ser social. A socialização se dá pela formação do habitus, um sistema de disposições duradouras adquiridas pelo indivíduo ao longo de um processo no qual as relações sociais são apreendidas, isto é, as normas, valores e crenças de uma determinada coletividade ou classe são assimiladas. Através da família (socialização primária) e da educação escolar (socialização secundária), esquemas de percepção e ação são aprendidos numa perspectiva da classe social à qual o indivíduo pertence. Ele adquire uma disposição para reproduzir espontaneamente, por seus pensamentos, palavras e ações, as relações sociais estabelecidas por ocasião da aprendizagem.
É nesse sentido que o habitus é considerado um mecanismo de interiorização da exterioridade, no qual sujeitos situados em condições sociais diferentes vão adquirir disposições diferentes. Inscrito no sujeito, o habitus primário passa a condicionar as experiências subseqüentes, ou seja, a aquisição de novas disposições pelo indivíduo (habitus secundário).
Embora crie disposições fortes e duradouras, essa estrutura interna não é inteiramente fixa, pois está sempre se reestruturando, como resultado que é da experiência passada em confronto com o presente. Assim, as práticas e representações individuais não são nem totalmente determinadas, pois os agentes fazem escolhas, nem totalmente livres, pois as escolhas são orientadas pelo habitus.
Essa reestruturação, entretanto, de acordo com Bourdieu (1991) não deve ser entendida como um processo incessante que se dá facilmente e ao sabor das circunstâncias vividas. Na verdade, o habitus apresenta uma forte inércia, e cada indivíduo é apenas uma variante do habitus de sua classe social. A questão deve ser entendida como uma homologia, ou seja, como uma “diversidade na homogeneidade” (p.104). Pode-se falar, de maneira simplificada, que as diferentes personalidades individuais são, na realidade, variantes de uma personalidade social. Numa analogia estatística, pode-se falar na existência de um habitus modal, mais freqüente, ligado a determinada classe social, em torno do qual se dá uma dispersão correspondente às individualidades, à história individual.
Com esse conceito Bourdieu (1991) pretendeu superar uma oposição, que considera artificial, presente nas teorias sobre a socialização, entre objetivismo e subjetivismo. No primeiro caso, considera-se que a sociedade exerce uma forte coerção sobre o
comportamento individual, impondo-lhe suas normas e valores. No segundo caso, as normas e valores são apenas possibilidades oferecidas ao indivíduo que, possuidor de uma boa margem de liberdade, pode escolher seus papéis sociais com autonomia. Nesse caso, a ação individual é explicada em termos de estratégias racionais, isto é, o indivíduo faz escolhas para maximizar resultados. No caso anterior, em vez de escolhas racionais, fala-se em ações condicionadas pela cultura, determinadas por lógicas sociais que superam o indivíduo.
Entre essas duas perspectivas, a idéia de habitus surge como um elemento de mediação, e as práticas dos sujeitos sociais não são consideradas como meras execuções de regras ditadas pela cultura, mas como expressão de um sentido adquirido, isto é, de um senso prático: o habitus ou uma aptidão para agir e orientar-se de acordo com as situações nas quais se está implicado e com a posição ocupada no campo social. Graças a uma série de disposições adquiridas (ou ao habitus), não e necessário ficar recorrendo constantemente à reflexão consciente, pois há mecanismos que funcionam automaticamente (Bourdieu, 1991).
O habitus é como uma grade de leitura pela qual a realidade é julgada e percebida e,
simultaneamente, é o produtor das práticas individuais, estando na base daquilo que, no sentido corrente, define a personalidade de um indivíduo. Trata-se, portanto, do conceito que permite a articulação, por um processo de mediação, do individual e do coletivo.
Um outro ponto para o qual se deve chamar a atenção consiste na definição do indivíduo nesse caso, muito mais um agente do que um ator social, no sentido de que o determinante da ação não se restringe apenas à busca do interesse econômico. O agente social é “agido” (do interior) tanto quanto age (para o exterior). Assim, quando Bourdieu fala numa economia de práticas, o termo deve ser entendido num sentido amplo, ou em suas próprias palavras: “há uma razão imanente às práticas, que não tem a sua origem num cálculo explícito nem em determinações exteriores aos agentes, mas no habitus destes” (BOURDIEU citado por BONNEWITZ, 2003, p.82).
Como resultado de uma filiação social, o habitus também se estrutura em relação a um campo. De uma maneira geral, o campo exerce sobre seus agentes uma ação pedagógica que tem o efeito da aquisição dos saberes necessários a uma correta inserção naquele espaço de relações sociais.
A relação entre o habitus e o campo é, antes de tudo, uma relação de condicionamento: o campo estrutura o habitus (...). Mas é também uma
relação de conhecimento ou de construção cognitiva: o habitus contribui para construir o campo como mundo significante, dotado de sentido e de valor, no qual vale a pena investir energia (...). A realidade social existe, por assim dizer, duas vezes, nas coisas e nos cérebros, nos campos e nos habitus, no exterior e no interior dos agentes (BOURDIEU; WACQUANT, 1992).
Além disso, a partir dessa relação do habitus com o campo, pode-se elucidar por que, quase sempre, as coisas afiguram-se para os indivíduos como absolutamente coerentes, harmoniosas ou naturais:
quando o habitus entra em relação com o mundo social do qual ele é o produto, sente-se como um peixe dentro d’água e o mundo lhe parece natural (...); é porque ele produziu as categorias que eu lhe aplico, que ele me parece natural, evidentemente (BOURDIEU; WACQUANT, 1992).
Assim, os indivíduos apenas mobilizam o habitus que os modelou, o que lhes dá a sensação de escolha nas práticas e representações, pois opera-se uma combinação ou ajuste entre chances objetivas e motivações subjetivas. Fala-se, então, numa relação dialética que é operada pelo habitus e está sempre em funcionamento no mundo social, entre as esperanças subjetivas e as chances objetivas. Dá-se uma exteriorização da interiorização.
Deve-se dizer que o habitus é sensível à mudança social tanto quando há um descompasso ou um desajuste entre as condições sociais objetivas de sua formação e outras condições produzidas pela mudança social e, nesse caso, sua própria inércia o impede de se modificar em face das novas condições vigentes, quanto em função da trajetória social percorrida pelo agente. O habitus, segundo Bourdieu e Wacquant (1992), “como produto da história, é um sistema de disposição aberto, que está incessantemente diante de experiências novas e, logo, incessantemente afetado por elas. É duradouro, mas não imutável” (p.108-109).
4.5 Combinando as contribuições para estudar as práticas informacionais sobre