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5. Marc empíric

5.4. Proposta de sessions

5.4.2. Segona sessió

Embora mais numerosos que os proprietários das quintas, os agricultores patrões eram bem menos que os trabalhadores agrícolas, tendo em conta o recenseamento à população agrícola já mencionado. Proprietários de várias parcelas agrossilvícolas, nuns casos extensas, noutros repartidas e até dispersas, administravam diretamente as explorações agroflorestais através do cultivo e venda dos produtos e de terrenos, tornando-se conhecidos como negociantes. Participavam ativamente nos trabalhos agrícolas, o que refletia a conexão entre a terra e o poder económico, mas também entre a casa e a terra. Asseguravam as tarefas agropecuárias ao longo do ano com contratos permanentes ou duradouros que celebravam com assalariados agrícolas e reforçavam a mão-de-obra com contratos temporários à tarefa, que podiam durar dias ou semanas, nos períodos de cultivo ou de colheita91.

Estes indivíduos ocupavam uma posição social intermédia entre os proprietários das quintas e os trabalhadores agrícolas. Muitos descendiam eles mesmos de trabalhadores agrícolas, tendo aumentado o seu poder económico paulatinamente pelo trabalho e sucesso na produção agropecuária. O desejo de projeção social, expresso na posse de terra, na dimensão da habitação e nas estruturas

de apoio, motivava o trabalho intenso e a rentabilização dos recursos disponíveis. Tais atitudes mostram que ainda não se tinham desligado dos ritmos e dos padrões dos trabalhadores agrícolas dos quais descendiam mas, ao mesmo tempo, perseguiam objetivos de ascensão económica e social com similitudes com os que – mais tarde – caracterizariam os emigrantes para França.

Alcançavam o poder económico na aldeia mas dificilmente usufruíam de uma afirmação social equivalente à dos proprietários das quintas. Mantinham, ainda assim, uma relação social local e regional bem estabelecida, com domínio dos circuitos comerciais e contacto fácil com parceiros e concorrentes. Alimentavam a proximidade com os trabalhadores assalariados, consentindo a entrada destes nos espaços domésticos e a participação nas refeições de família (tal como aos assalariados permanentes). Era comum estas famílias acolherem crianças órfãs, os “enjeitados”. Atribuíam-lhes trabalho agrícola, sem remuneração e, ao mesmo tempo, integravam-nas no agregado familiar, sem que houvesse uma demarcação social rígida, o que é demonstrativo da sua ascendência familiar, mas também da dependência do grupo social hierarquicamente inferior para prosseguirem a conquista da ascensão social. A celebração de casamentos assentava tendencialmente na endogamia social, promovida pelos pais, que negociavam as alianças dos herdeiros com pares de situação económica idêntica para expandirem o património fundiário da família. Ocorriam uniões entre parentes abastados (evitando a fragmentação das propriedades) ou entre filhos de agricultores de outras localidades.

Implantada no seio da povoação, à beira da via pública, a casa rural compreendia edifícios de apoio92 que se estendiam a tardoz e lateralmente, acompanhando um pátio murado a delimitar o espaço privado. Diferentemente das quintas, na maioria dos casos, os terrenos agrícolas não comunicavam com a casa, porque não resultavam de herança em que casa e terreno permaneciam indivisíveis na família, mas da compra à medida da ascensão económica. Os volumes da habitação eram menores e mais simples que os das quintas e não existiam tantos edifícios de apoio, casa de serviçais ou capela. Tipologicamente, estas casas apresentavam aspetos comuns com as casas da vila ao nível da volumetria e configuração, embora fossem menos ornamentadas.

Eram edifícios de dois pisos, planta retangular longitudinal e cobertura de duas águas, por vezes emoldurada por cornija, seguida de frisos com remates cerâmicos nas extremidades. Os alçados eram caiados de branco e ocasionalmente de ocre, azul ou almagra. No rés-do-chão do alçado principal existia uma portada de madeira e janelas laterais. Geralmente, do lado direito arrancava uma escadaria de pedra que subia ao primeiro piso e era rematada por um balcão alpendrado de acesso à sala no interior. Este piso podia integrar uma ou duas portas de sacada com gradeamento de ferro trabalhado e uma sucessão de janelas retangulares. Na envolvente da habitação, existia um terreiro onde não havia uma separação clara entre o jardim ornamental, a horta e o pomar93.

A orgânica funcional mais comum era a que a seguir descrevo. A partir do exterior, acedia-se ao interior do piso térreo pela portada de madeira que dava para a adega e os arrumos94. Por vezes, numa das alas era instalada a cozinha. O piso superior era alcançado por uma escada interior, a partir do piso térreo ou por uma escada exterior de acesso à sala ou à cozinha, quando instalada no piso superior. Quando a casa era erguida num terreno com desnível, no lado oposto à via pública, a cota da rua era alinhada com o rés-do-chão, evitando o acesso ao piso superior pelas escadas. A cozinha e as divisões de apoio estavam instaladas numa extremidade, sucedendo-lhe a sala e os quartos, dispostos ao longo de um corredor. O recheio era composto por mobiliário resistente, pouco ornamentado, com alguns elementos decorativos e fotografias de família dispostos na sala, sobre xotes95 e no louceiro.

A fusão do jardim com a horta, a opção por habitações amplas, mas com formas simples e com recheio pouco valioso, o investimento financeiro numa sala espaçosa em contraponto com o investimento emocional e funcional na cozinha ou a relação simultaneamente profissional e pessoal com os assalariados agrícolas, combinavam expressões identitárias aparentemente contraditórias. Sublinham o posicionamento destes patrões agrícolas entre os trabalhadores agrícolas, aos quais permaneciam ligados laboral e emocionalmente, mas também evidenciam o desejo de proximidade aos senhores das quintas, com os quais se queriam identificar económica e socialmente.

93 As roseiras, o brinco princês, os jarros e os espargos coabitavam com a nespereira, o limoeiro, a

laranjeira e outras árvores de fruto.

94 Tonéis para o vinho, arcas com cereais, talhas com azeite, estrados com batatas. 95 Arcas de madeira.

2.4. Trabalhadores agrícolas e casas rurais