5. Marc empíric
5.4. Proposta de sessions
5.4.1. Primera sessió
Com as quintas entramos no campo das arquiteturas domésticas em espaço rural Quintas e solares têm sido objeto de ensaios literários e de estudos de investigação sob a égide da sua monumentalidade e representatividade para a história local81. Recentemente, João Vieira Caldas (1999: 24) investigou em detalhe estes edifícios na periferia de Lisboa. Consciente do estatuto híbrido das quintas, situadas entre a arquitetura popular e a arquitetura erudita, o autor preferiu realçar a relação formal destas obras com o poder económico do proprietário, ao invés de as categorizar em função do capital cultural do seu construtor. Por sua vez, José Manuel Sobral (1999a; 1999b), a propósito das construções locais de identidade, sublinhou a dimensão material das quintas como cenário de memória e de poder dos “grandes proprietários agrícolas” (1999a: 75). Também Fernando Matos Rodrigues (2011: 25), num estudo sobre casas de proprietários na vila de Arouca que entrelaça os temas do parentesco, memória e representação social, tratou estes complexos edificados como expressões de grandeza, poder, longevidade, honorabilidade, linhagem, memória e identidade. Quanto a estudos sobre as quintas de Ourém, estão disponíveis em monografias locais (Eliseu e Flores 1994 [1868]; Rodrigues 2007a, 2007b) que relatam a história genealógica das famílias fundadoras (distinções honoríficas, cargos públicos e capital económico), deixando implícita a dimensão de poder destes indivíduos, que em meados do século XX estavam distribuídos por cerca de 30 quintas82.
Estas herdades fundiárias concentravam-se nas freguesias mais antigas e com terrenos férteis e os seus proprietários eram caracterizados pela importância da família e respetivos capitais simbólicos e materiais a partir das redes e compromissos
80 O açougue, a costureira, o alfaiate, a mercearia, a loja dos panos, a oficina mecânica, a taverna, o
barbeiro, o sapateiro ou o funileiro.
81 Consultar Anexo III. Casas rurais 1900 – 1960,4. Quintas rurais. 82 Na sua maioria remontavam aos séculos XVII e XVIII.
sociais estabelecidos. Em 1868, numa monografia de Ourém, eram elencadas várias quintas rurais de famílias com posição influente no concelho e na região, algumas detentoras de títulos nobiliárquicos (Eliseu e Flores 1994 [1868]: 258). O funcionamento da quinta assentava na coabitação de dois agregados familiares: a família proprietária, que vivia no edifício principal, e os caseiros ou capatazes. Estes habitavam com a família num edifício discreto, garantiam o cuidado da casa (roupas, refeições e manutenção) e coordenavam a gestão agropecuária. Muitos proprietários desempenhavam cargos políticos e profissões de relevo (medicina e direito), delegando a gestão agrícola em administradores ou capatazes e mantendo uma relação indireta com a terra e com as dinâmicas do quotidiano agrícola. Outros administravam as quintas pessoalmente. Ambos os casos foram antes identificados por José Manuel Sobral, para a Beira Interior:
As famílias locais de grandes proprietários não constituem um meio homogéneo, contando para a sua diferenciação interna elementos inerentes à sua história e à sua maior ou menor antiguidade nesta posição. Há aristocratas e não aristocratas no seu seio e esta qualidade, bem como a sua maior ou menor antiguidade na ocupação de um lugar cimeiro são factores importantes de diferenciação social. Porém, o uso de elementos definidores de uma posição social, como os que indicámos, encontra-se em todas elas (Sobral 1999b: 75).
Max Weber relacionou a estratificação dos grupos com o monopólio de bens ou oportunidades materiais e ideais, atribuindo à propriedade um papel influente, na medida em que condicionava o relacionamento social com restrições passíveis de limitar os casamentos a garantias de prestígio, provocando um fechamento endogâmico (Weber 1982 [1946]: 220). Na mesma linha, em Ourém, a celebração de casamentos entre pares era uma estratégia comum para garantir a conservação e a reprodução do nome familiar desejado e a transmissão de propriedade e do prestígio da família. Mais uma vez, encontro semelhanças com a situação descrita por José Manuel Sobral (1999a: 278). Ao nível da descendência, tal como este antropólogo identificou no seu estudo (1999a: 240), os filhos rapazes eram encaminhados para a universidade para virem a ocupar cargos de topo na gestão política, como juristas ou mesmo para gerirem competentemente o património fundiário. Estas famílias construíam uma identidade em torno da casa e do grupo doméstico, através da qual valorizavam uma memória familiar, necessária para recriar o passado, para atuar sobre o presente e para se projetarem no futuro (Rodrigues 2011: 23). Como tal, o nome da casa e da família funcionava como um elemento da identidade e da
memória familiar que não podia ser alienado e a sua importância era reforçada pelo brasão com as armas da família fundadora83, enquanto signo social da linhagem que pertencia à casa.
A quinta valorizava a aldeia onde estava implantada, retirando-a do anonimato pela singularidade e imponência arquitetónicas da habitação e pelas dinâmicas económicas e sociais que polarizava através do trabalho assalariado. Nos períodos de maior atividade agrícola eram contratados jornaleiros locais, gerando uma relação baseada na interdependência entre patrão e trabalhador agrícola. Esta prática promovia a fixação de casas de trabalhadores rurais na envolvente, sendo por isso frequente a expansão da aldeia a partir dessas unidades de produção. Além de controlarem o trabalho remunerado local, os proprietários das quintas usavam a riqueza para afirmarem o seu poder social e político, participando na organização e gestão das instituições locais sociais e de natureza religiosa (cf. Sobral 1999b: 74). Quando a comunidade construía uma capela, estes senhores faziam donativos que lhes garantiam um lugar privilegiado na assembleia, durante as homilias.
Há um século atrás, Rocha Peixoto (1990: 160-161) destacava algumas características arquitetónicas e funcionais das quintas, influenciadas por estilos e tendências supralocais, relativas por exemplo à adoção de amplas escadarias ou de capelas. Com base em observação durante o trabalho de campo, nas quintas rurais em Ourém, são inteligíveis alguns aspetos similares84. Instaladas em contextos rurais, com extensas propriedades aráveis próximas de linhas de água (para regadio e unidades de moagem), os espaços associados a estas unidades de lavoura destacavam- -se pelos volumes amplos, pelos ornatos, pelo jardim – marca social distintiva – e por um conjunto de estruturas agropecuárias85 que garantiam autonomia económica a estes complexos rurais. Era ainda comum a capela (ornamentada com paramentaria e esculturas de arte sacra), que era erguida perto da habitação, ajudando a fechar o pátio que delimitava a área privada86, à qual se acedia por um grande portão. A avaliar
83 São os casos das quintas da Alcaidaria-Mor, Caneiro, Mossomodia, Mota, Seiça e S. Gens.
84 Pude confirmar nos inventários realizados pelo Município de Ourém em 2011 (no âmbito da revisão
em curso do Plano Diretor Municipal), no inventário do património cultural imóvel (empreendido pela extinta Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais) e em alguns estudos realizados por estudantes universitários com ligações ao concelho.
85 Tais como: celeiro, palheiro, cortes e cavalariça, abrigos para viaturas, moinho de cereal, lagar de
azeite, lagar de vinho e adega, oficina, eira, lavadouro, pombal e fonte de abastecimento de água. Algumas fontes apresentam esmero ornamental, como a fonte da Quinta da Casa Velha, com bica esculpida com figura antropomórfica, envolvida com motivos vegetalistas e uma vieira.
pelos pormenores arquitetónicos da habitação, especialmente das quintas brasonadas, a componente estética revelava expressões de erudição (cf. Caldas 1999). As variações de estilo e tendências derivavam da fusão entre gostos pessoais, o cunho académico e influências cosmopolitas dos projetistas e, por fim, o engenho criativo dos empreiteiros.
Em termos formais, os edifícios de habitação tinham, na sua generalidade, um corpo de dois pisos de planta retangular longitudinal ou vários volumes, nalguns casos com torre87. O exterior era caiado de branco e mais raramente de ocre88 ou almagra89. A cobertura (com duas, três ou quatro águas) tinha beirais elaborados e a cornija dava a volta ao edifício, tendo abaixo um friso em alto-relevo. O piso térreo destacava a portada sobre a qual podia estar a pedra de armas da família e o piso superior era corrido por uma sucessão de janelas e portas de sacada com ferro forjado. As caixilharias das janelas (algumas em guilhotina) eram de madeira emoldurada por cantaria de pedra esculpida. Na guarnição dos vãos, em poiais interiores, bancos, cunhais e em amplas escadarias centrais com varanda e balaustrada ou em varanda alpendrada, era utilizado calcário branco ou outra pedra com bons acabamentos, remetendo para influências eruditas como marca social distintiva (Caldas 1999: 72, 152). Embora fossem mais amplas e ornamentadas que as casas com dois pisos na vila, apresentavam algumas semelhanças, nomeadamente aos níveis das caixilharias e guarnições dos vãos. No exterior da habitação era comum o pátio ajardinado e murado com buchos, revelador da dimensão ornamental destes complexos fundiários, o qual comunicava frequentemente com um pomar em cordão verde, alinhado com a habitação e com os edifícios de apoio. Seguia-se-lhe um extenso terreno de amanho com vinhedo, olival ou cerealíferas, por vezes, intercetado pela via pública90.
Quanto à orgânica funcional da habitação, o acesso ao interior no rés-do-chão podia ser feito pela porta lateral para a cozinha ou pela porta principal, que dava para um hall a partir do qual era feita a distribuição para a cozinha e a despensa/arrumos, de um lado, e para a sala de jantar, a biblioteca (quando havia) e por vezes um quarto, no lado oposto. O acesso ao piso superior podia ser feito pela escada que partia do
87 Exemplo patente na Quinta do Fárrio, freguesia de Ribeira do Fárrio.
88 São os casos da quinta do Caneiro (freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias), da quinta da
Granja e da quinta dos Passos (ambas na freguesia de Olival).
89 Pintura natural com argila vermelha, contendo óxido de ferro.
90 Verifica-se, por exemplo, nas quintas do Caneiro, do Poço Soudo, do Montalto, dos Castelinos, da
hall ou por uma escadaria exterior que desembocava numa sala. Os quartos e as divisões destinadas à higiene individual estavam concentrados numa das alas ou repartidos por ambas, sendo o trânsito entre elas assegurado por um corredor.
O recheio era composto por mobiliário produzido com materiais nobres e duradouros que permanecia a uso ao longo da história da quinta. A importância do capital material e simbólico das quintas era expressa nos objetos (peças de arte, decoração e fotografias), que acumulavam uma memória construída longamente pelas gerações que se sucediam na ocupação das mesmas. Ali permaneciam como se fizessem parte da componente imóvel do edifício. Perante a consciência do presente fundada em perceções e atitudes do passado (Lowenthal 1998: 64), estes objetos representam, ao mesmo tempo, o presente e o passado, na medida em que os proprietários lhes davam significados que os transportavam para o passado prestigioso dos seus antepassados, servindo-se também deles para projetarem o seu próprio futuro.
São, portanto, fragmentos de um passado transformados em relíquias, marcas, resíduos e património da família, que lhes atribui valor simbólico-narrativo como objetos mnemónicos que evocam uma história à qual é dado grande valor. Associam- -se a uma memória flexível, que articula o individual com o coletivo e apoiam-se em referenciais coletivos que são apropriados individualmente e seletivamente repostos (Lowenthal 1998: 207). Mais uma vez, encontro afinidades entre a forma como estes objetos são apropriados e o papel das fotografias nas casas estudadas por José Manuel Sobral, enquanto memórias situacionais de episódios que ajudam a contar a história familiar, a perpetuar a memória individual, familiar e social (Sobral 1999b: 75).
Na segunda metade do século XX, o arranque da mecanização potenciou o aumento da produtividade agrícola no país. Ao mesmo tempo, diminuía a mão-de- -obra assalariada, que era cada vez mais absorvida pelas indústrias e pela (e)migração para os subúrbios de Paris, mas também para a periferia de Lisboa, o que provocou o aumento da remuneração dos trabalhadores agrícolas disponíveis. A formação académica dos descendentes das quintas e o desejo de construírem uma carreira de sucesso fixava-os em cidades cosmopolitas, como Lisboa, desvinculando-os profissionalmente da área de influência da quinta e do exercício do poder político e económico no concelho ou na região (Rodrigues 2011: 66). A influência local destes senhores da terra enfraquecia e, com o fim do Estado Novo e a instalação do regime
democrático, os critérios da origem, do sangue e do parentesco alargado perdiam relevância em detrimento de critérios como a qualificação profissional e o capital relacional, “com destaque para a posição nas redes de interação, em função de um percurso ‘desejado’ que define aspirações e projetos de mobilidade social e económica” (Rodrigues 2011: 65, apoiado em Bourdieu 2007 [1979]; Giddens 1987; Goody 1994; Goffman 1974).
Em anos mais recentes, essas características “tradicionais” viriam a ser revalorizadas, numa associação aos processos de emblematização de quintas em espaço pós-rural. Nuns casos, os complexos fundiários continuaram a pertencer à família como residência de férias e fins de semana. Noutros, foram vendidos a indivíduos financeiramente bem-sucedidos, mas a identidade da casa permaneceu associada à família fundadora, numa espécie de empréstimo do prestígio aos novos proprietários, com capital financeiro, mas sem prestígio social. Retomarei mais tarde este tema para o tratar com maior detalhe.