5.2 The Segmented Curve View
5.2.1 Segmentation and Binning
Os conceitos de comunidade de autores contemporâneos estão baseados nos conceitos propostos pelos clássicos, ou seja, o que temos produzido até então é resultado de pesquisa feita nas obras de autores como os citados anteriormente.
Utilizou-se como foi mencionado na apresentação deste trabalho, alguns trechos do artigo produzido pela professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo. O artigo é intitulado Comunidades em tempos de redes e foi escrito por Cicília Maria K. Peruzzo, em 2002.
Neste artigo a professora Peruzzo faz uma análise objetivando entender o que caracteriza uma comunidade atualmente e para isso ela busca base teórica nas contribuições de autores clássicos da Sociologia como Florestan Fernandes, Ferdinand Tönnies e Max Weber, os quais deram contribuições importantes para se entender o que é uma comunidade.
O trabalho de Peruzzo (2002) é de grande importância para chegarmos ao entendimento de como o conceito de comunidade veio mudando de acordo com as transformações na sociedade. A autora chama a atenção para o fato de que para algumas pessoas o conceito de comunidade era coisa do passado, no entanto eles são recriados, ressurgem transformados com os avanços tecnológicos. Transformados e não desconsiderados ou apagados, pois segundo a autora as comunidades são criadas e recriadas constantemente e com isso seu conceito também se recria.
Para Peruzzo (2002, p. 2)
O termo comunidade passa a ser utilizado, nos anos recentes, em várias perspectivas e sem rigor conceitual. Tem servido para referenciar qualquer tipo de agregação social, por vezes, servindo mais como termo ou expressão decorativa visando chamar a atenção ou passar um “ar” de atualidade. Tem sido usado na tentativa de explicar fenômenos os mais diversos. Por vezes é empregado como sinônimo de sociedade, organização social, grupos sociais ou sistema social. É também utilizado para designar segmentos sociais como, por exemplo, comunidade universitária, comunidade negra, comunidade religiosa, comunidade de informação, comunidade científica, comunidades dos artistas etc. Usa-se o termo comunidade, ainda, para caracterizar agrupamentos sociais situados em espaços geográficos de proporções limitadas (bairro, vila, lugarejo) e para designar grupos de interesse afins, interconectados na rede mundial de computadores, chamados de “comunidades virtuais”, entre outros. Grifos da autora
Peruzzo (2002) chama a atenção para os diversos usos dados ao termo comunidade pelas pessoas, ou instituições que não utilizam rigor científico para tal, visto que o termo é demasiadamente utilizado e é por isso que se chega à conclusão de que hoje em dia este conceito se expandiu.
Essa realidade se deu devido às mudanças vividas na sociedade, as quais estão contribuindo para constituir novas formas de organização social e de sociabilidade e que apontam para a necessidade de se repensar os conceitos de comunidade.
A noção de territorialidade enquanto uma das principais características para se definir uma comunidade, hoje não é suficiente, visto que os padrões homogêneos e globalizantes estão
imprimindo aos lugares novos conteúdos e formas e com isso exigindo novos parâmetros de análise sobre as comunidades.
Dentre as mais variadas definições existentes de comunidade a autora usa uma que entende a comunidade como um grupo de pessoas funcionalmente relacionadas que vivem em uma determinada área geográfica, em determinada época, partilham de uma cultura comum, estão inseridas em uma estrutura social e revelam uma consciência de sua singularidade e identidade distinta como grupo.
Baseada na análise dos clássicos a autora entende que algumas condições básicas devem ser consideradas para que realmente haja uma comunidade de fato:
a) um processo de vida em comum através de relacionamentos e interação intensos entre os seus membros;
b) auto-suficiência (as relações sociais podem ser satisfeitas dentro da comunidade); c) cultura comum;
d) objetivos comuns;
e) identidade natural e espontânea entre os interesses de seus membros; f) consciência de suas singularidades identificativas;
g) sentimento de pertencimento;
h) participação ativa de seus membros na vida da comunidade; i) lócus territorial específico;
j) linguagem comum.
Segundo Peruzzo (2002), comunidade não pode ser simplesmente tomada como qualquer coisa, um bairro, um aglomerado, um segmento social. Tem-se que encontrar nestas unidades pelo menos algumas das condições acima relacionadas para que haja a comunidade de fato, do contrário não se terá uma comunidade de acordo com as análises dos estudiosos dos grupos comunitários. Não se deve desprezar a contribuição dos autores clássicos no que tange ao conceito de comunidade, pois os mesmos preservam grande validade nos dias atuais.
Analisando as comunidades de hoje, a autora chega à conclusão que características determinantes do passado como a territorialidade geográfica, sentimento de pertencimento, auto- suficiência comunitária, objetivos comuns e outros foram alterados pelos avanços dos meios de comunicação.
A base territorial é relativa no mundo globalizado e o indivíduo pode se sentir pertencente a um lugar mesmo estando longe dele fisicamente, porém conectado pelas redes de comunicação.
Peruzzo (2002) conclui sua contribuição afirmando que na atualidade uma série de características pode identificar as comunidades, porém nem todas essas características podem ser encontradas em toda e qualquer comunidade, visto que as transformações técnicas imprimem mudanças nos conteúdos territoriais e consequentemente no modo de vida dos indivíduos que formam uma comunidade.
As características mais importantes identificadas por Peruzzo (2002, p. 11) são:
a) Participação: a pessoa participa direta e ativamente da vida da comunidade. É sujeito. Em alguns casos a participação chega a ser exercitada na partilha do poder de decisão;
b) Sentimento de pertença. É sentir-me membro, parte importante do processo e como tal contribuir para a coesão interna;
c) Caráter cooperativo e de compromisso;
d) Confiança, aceitação de princípios e regras comuns e senso de responsabilidade pelo conjunto;
e) Identidades: não apenas no sentido de “natural e espontaneamente” como está em Tönnies, mas que podem advir de um universo simbólico e/ou ideológico comum ou das condições de existência em comum;
f) Reconhecer-se como comunidade;
g) Alguns objetivos e interesses comuns. Na sociedade contemporânea não se identifica uma comunidade em que todos os objetivos de seus membros sejam em comum a todos. Mas, alguns objetivos em comum são passíveis de existir, principalmente aqueles que constituem a razão de ser da comunidade;
h) Alguns tipos de comunidades são voltados para o bem-estar social e ampliação da cidadania. São portadores de algo em comum: igualdade e justiça social. Há, neste sentido, movimentos em torno da construção de um projeto novo de sociedade; i) Interação: através de sistema intenso de comunicação e de troca entre os membros; j) Com ou sem lócus territorial específico. Ao mesmo tempo em que existem as
comunidades virtuais, persistem aquelas de base territorial. k) Possui uma linguagem comum.
Estas características, além de definirem de forma abrangente as comunidades contemporâneas, são condições para que os indivíduos dos grupos comunitários possam se construir como sujeitos que interagem cotidianamente por meio de suas experiências vividas no lugar, essas experiências por sua vez são condição sine qua non para o viver em comunidade.
“O viver em comunidade é algo que perpassa a história da humanidade” (PERUZZO, 2002, p. 12).
Com o debate feito até aqui sobre o conceito de lugar em Geografia e o conceito de comunidade em Sociologia, entende-se que já se reuniu elementos para dar início a análise da construção do lugar pela comunidade na ilha de Cotijuba, ou seja, material teórico para ser fundido com a realidade socioespacial local e assim entender como o espaço da ilha foi e está sendo construído pelos indivíduos que pertencem à comunidade e pelos visitantes e trabalhadores que a ela chegam diariamente.
CAPÍTULO 2: BELÉM E SUAS ILHAS: OCUPAÇÃO HISTÓRICA E PRODUÇÃO DO